O Falso Príncipe
Capítulo 41
Já que agora a comitiva de Conner para a capital passara de apenas ele, Mott e Roden para um grupo de sete, fomos informados de que haveria algum atraso antes de podermos partir. Tobias parecia satisfeito e aliviado, mas a expressão de Roden era quase assassina quando ele se afastou. Eu não tinha certeza de aonde ele estava indo, mas sabia que estaria de volta quando chegasse a hora de partir. Ele não se arriscaria a ser deixado para trás.
Depois de trocar de roupa e vestir o traje de montaria no andar de cima, eu disse a Mott que queria cavalgar.
– Esta pode ser minha última chance de ficar sozinho, talvez pelo resto da vida – expliquei. – Deixe-me ter algum tempo a sós com meus pensamentos.
Ele fez um gesto de cabeça, concedendo-me permissão.
– Tenha cuidado. Você é o grande prêmio de Conner agora.
– Eu nunca tenho cuidado – respondi, sorrindo. Mott não sorriu de volta.
Atravessei a cozinha antes de chegar à porta dos fundos de Farthenwood, que dava para o estábulo, e mal havia cruzado a soleira quando alguém me deu um soco no braço. Não foi um soco forte, comparado à maioria dos golpes que eu já levara, mas foi furioso.
Imogen estava parada do lado de fora da porta. Ela provavelmente me vira em trajes de montaria e viera esperar por mim.
– Por que você fez isso? – perguntei, esfregando o braço.
Ela olhou em volta para se certificar de que estávamos sozinhos e então sibilou:
– Como você ousa, Sage? Como se atreve a interferir na minha vida?
Verdadeiramente confuso, eu a agarrei pelo cotovelo e a levei para
longe dali, ao lado de uma cerca alta, onde não seríamos facilmente vistos.
– Do que você está falando? – perguntei. – O que foi que eu fiz? – Você é o príncipe agora?
– É o que parece.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, embora estivesse claramente se
esforçando para não chorar.
– E vai me levar para Drylliad?
– Posso tirar você daqui, para longe de quem a trata tão mal. – E depois, Sage? O que vai acontecer comigo? Dei de ombros, incapaz de entender por que ela estava tão zangada. – Você será livre. Depois que eu for reconhecido como príncipe, terei
acesso ao tesouro. Pagarei a dívida de sua mãe com Conner, e você estará livre.
Ela sacudiu a cabeça firmemente.
– Não quero sua caridade. Não de um órfão, e certamente não de um
príncipe.
– Não é caridade. Você é minha amiga, quero ajudá-la. Se era possível, aquilo a deixou ainda mais zangada. – Você acha que isso me ajuda? Eu tinha um lugar aqui, Sage. Eu
compreendia a minha vida.
– Você não tem vida aqui. Eu a estou devolvendo a você. – Não, não está. Eu sei o que está acontecendo. Cruzei os braços e a encarei.
– O que é, então?
– Você está com medo de ir para Drylliad, não está? Claro que estava, mas aquilo não explicava a raiva dela. – E se estiver? – respondi. – Você não entende o que... – Eu entendo perfeitamente. Você jogou o joguinho de Conner e
ganhou, mas, agora que a decisão foi tomada, está com medo de que ninguém acredite nas mentiras. Você quer ajuda para convencer a corte. Você acha que, levando-me para Drylliad, vou me sentir obrigada a mentir por você.
Fortes emoções me dominaram. Não era exatamente raiva, embora parecesse assim quando falei.
– Você acha que meu plano é esse, que eu a usaria desse jeito? Eu não imaginava que eu fosse uma pessoa tão horrível.
O rosto dela suavizou-se um pouco.
– Você não é uma pessoa horrível, Sage. Mas veja no que Conner o está transformando. Você não vê? Eu o vi mudar de garoto órfão, que poderia ter sido meu amigo, para o príncipe de Conner, que nunca será nada mais do que seu servo por encomenda.
– Eu não sou servo de ninguém.
– É, sim – ela sacudiu a cabeça tristemente. – Você cedeu a ele. Você deixou Conner vencer. Não pensei que fosse fazer isso.
– Imogen, há muito mais coisas acontecendo do que você pode imaginar.
– E alguma coisa pode ser mais importante do que a sua liberdade?
Depois de uma breve hesitação, ela completou:
– Estou decepcionada com você. Preferia que tivesse fugido. Seria melhor do que isso.
– Fugido? – Então, realmente irritado, comecei a me afastar, mas voltei para junto dela. – Quer dizer que você mandaria Tobias para a morte, faria de Roden um príncipe-marionete e se condenaria a uma vida inteira aqui? Conner a sufocou por tanto tempo que você se esqueceu de como é respirar livremente.
– E você cedeu sua vida ao controle dele, para sempre. Você nunca mais vai respirar livremente.
Comecei a responder, a dizer o que fosse necessário para fazê-la compreender. Mas, no final, hesitei por tempo demais e só consegui sugerir que ela fosse arrumar as coisas dela antes que Conner decidisse partir.
Ela sacudiu a cabeça e correu de volta para a casa. Por mais que eu quisesse ir atrás dela, meus instintos me disseram que aquilo só pioraria a situação. Ela podia acreditar no que quisesse a meu respeito, mas ainda iria comigo a Drylliad.
Havia alguns cavalariços cuidando dos cavalos quando cheguei ao estábulo, alguns minutos depois. Não havia sinal de Cregan, que provavelmente estava se preparando para a viagem. Quanto mais tempo eu o evitasse, melhor. Ele queria que Roden fosse o escolhido. Ficaria furioso comigo por vencer seu favorito no último instante.
Escolhi um cavalo quarto de milha chamado Poco para montar. O
cavalariço parecia relutante em me entregar o animal sem uma ordem direta de Conner, e comecei a preparar a sela eu mesmo. Finalmente, ele disse que o faria, antes que eu arruinasse as roupas e nós dois estivéssemos encrencados.
Cavalgar com Poco pelos campos abertos foi algo refrescante. Eu
conseguira passar alguns momentos sozinho durante as últimas duas semanas, mas não houvera liberdade. Poco era um cavalo excelente, instintivamente obediente e ansioso para ser testado. Não demorou muito para Farthenwood desaparecer atrás de um morro coberto de florestas, e o silêncio só foi interrompido pelo correr gentil das águas de um rio próximo e por alguns passarinhos que cantavam. Uma leve brisa agitava as folhas das árvores que pairavam sobre a minha cabeça. Ergui o rosto para o céu e deixei que o vento e o sol me acariciassem a pele. Aquilo sim era liberdade.
Toda a liberdade que eu teria, talvez pelo resto da vida. Se Imogen
estivera certa sobre algo de que me acusara, era sobre aquilo.
Desmontei Poco e caminhei com ele até a beira do rio. Eu não estava
muito longe do lugar onde Windstorm me deixara vários dias atrás, e a lembrança levou um sorriso ao meu rosto. Desejei ter um amigo ou um pai a quem eu pudesse contar aquela história e fazer rir. Comigo ou de mim, não importava. Havia várias pedrinhas na margem do rio. Apanhei algumas e atirei uma delas na água, observando-a quicar uma vez ou duas antes de desaparecer. Guardei uma comigo.
Não foi uma grande surpresa para mim quando, alguns minutos
depois, ouvi outro cavalo relinchando perto dali. Mott viera atrás de mim, sem dúvida. Eu o vira me observando a distância, quando eu estava no estábulo. E, quando eu alcançara o topo do morro a leste, Mott estava no estábulo. Esperar todo aquele tempo antes de finalmente se aproximar de mim devia ter sido uma tortura para ele.
– Se importa com um pouco de companhia? – ele perguntou. – Sim.
Apesar de minha resposta, ele desmontou e se aproximou. Ficamos lado a lado por um longo tempo, observando o rio.
Finalmente, ele me perguntou:
– Você sabia que ele o escolheria por causa daquele truque que você faz com a moeda?
– Não acho que alguém possa prever o que Conner vai fazer. É isso que o torna tão perigoso.
– Mas você deve ter imaginado, ou teria fugido esta manhã. Usando as passagens, teria sido muito fácil fugir.
– Veja só o que aconteceu com Latamer quando ele tentou fugir.
Aquilo provocou um silêncio desconfortável. Por fim, Mott disse:
– Conner quer que você saiba que estamos prontos para partir. Errol está esperando para ajudá-lo a trocar de roupa.
– Espero que os trajes de viagem sejam mais confortáveis – resmunguei. – Acho que, quando eu for rei, minha primeira ordem será deixar que todos usem as roupas que quiserem.
Mott deu risada.
– Dicas de moda. Que grande começo para um reinado.
Depois de uma pausa, completou:
– Que tipo de rei você vai ser, Sage? Tirano e cruel, como Veldergrath seria? Ou complacente e indiferente, como o seu pai?
Eu me virei para ele.
– Como Eckbert, você quer dizer?
– É claro. – Tossindo, continuou: – Acostume-se com isso. Se você é Jaron, então Eckbert é o seu pai.
Deixei aquilo passar.
– Se eu sou o príncipe, então você me deve lealdade maior do que a Conner, certo?
– Sim.
– Então me diga. Conner matou a minha família?
– Não posso responder isso, Sage.
– Não pode ou não quer?
– Você ainda não foi declarado príncipe.
Estendi os braços para Mott.
– Quem você vê agora, Sage ou Jaron?
Ele me observou por um longo tempo antes de responder. – A pergunta mais importante deve ser quem você vê. – Não sei. Não é fácil ser um tipo de pessoa depois de ter se esforçado
tanto para ser bem diferente.
A resposta de Mott veio tão rápido que me perguntei se ele estaria
esperando aquela oportunidade.
– Então me diga, Sage, que pessoa você se esforçou tanto para ser? O
órfão ou o príncipe?
Ele voltou para seu cavalo e apanhou um pacote na sela,
desembrulhando-o enquanto caminhava até mim. Em seguida, colocou a imitação da espada do príncipe Jaron em minhas mãos. Meu polegar acariciou os rubis que enfeitavam o cabo.
– Está pensando em quanto você conseguiria por ela no mercado? –
perguntou Mott.
– Não – respondi, estendendo a espada para ele. – Não estou
entendendo.
– Pensei que iria querê-la. Você a roubou antes, não foi? – ele
perguntou, mas não esperou a resposta. Ambos sabíamos a verdade. – O que significa que deve ter controlado aquela égua brava que Cregan lhe deu bem o suficiente para entrar e sair da arena de esgrima sem ser visto.
– Eu não diria que a controlei – admiti com um sorriso. – Eu estava tão
exausto no final que ela realmente me jogou dentro do rio.
Mott sorriu e deu um tapinha na espada.
– Imaginei que você a quisesse de volta agora, antes de partirmos para
Drylliad.
– Você a está dando para mim? Ela é minha agora? Mott assentiu. Sem pensar duas vezes, eu a atirei no ponto mais
profundo do rio.
Mott deu um passo à frente, como se quisesse recuperá-la, e então se
virou para mim.
– Por que você fez isso?
Virei a cabeça para olhar para ele.
– O príncipe de Carthya nunca usaria uma cópia barata de uma espada.
Aquela espada seria um insulto para ele.
– Foi por isso que você a roubou? – Ele não esperou pela resposta, o que foi bom, porque eu não poderia admitir aquilo em voz alta. – Ela o teria ajudado a parecer mais autêntico.
– Você realmente acha que eu precisaria daquilo, Mott, para me ajudar?
Ele assentiu muito lentamente. Não em resposta à minha pergunta, mas como se por fim compreendesse algo.
– Não, o senhor não precisará daquela espada, Alteza.
– Então você acha que eu posso convencê-los de que sou o príncipe?
Depois de respirar fundo, Mott se ajoelhou e abaixou a cabeça.
– O que eu acho, e perdoe-me por não ter visto isso antes, é que eu nunca estive diante de Sage, o órfão. Eu me ajoelho diante do príncipe de Carthya. O senhor é o príncipe Jaron.