O Falso Príncipe
Capítulo 10
Um longo silêncio seguiu-se ao anúncio de Conner. Aquilo era pior do que as minhas mais desanimadoras suspeitas do motivo pelo qual ele teria nos levado até lá, e eu estava completamente sem ação. Na melhor das hipóteses, o plano era uma loucura, e, na pior, uma traição, não importava quanto nosso anfitrião se esforçasse em negar. Nenhuma pessoa em sã consciência poderia esperar transformar um órfão em um príncipe em duas semanas. E tal pessoa teria que ser ainda mais louca para pensar que esse órfão poderia convencer uma corte inteira de que ele era o príncipe há muito perdido.
Tobias manifestou as mesmas preocupações, mas foi ignorado por
Conner, que perguntou:
– Você sempre pensa pequeno, garoto?
Tobias engoliu em seco.
– Não, senhor.
– Você acha que meu plano é ambicioso demais? – Eu só... – Tobias encontrou coragem. – Parece que o que o senhor
quer é impossível.
– Nada é impossível. Não elaborei esse plano de forma leviana, sem
antes pensar muito. Mas, para ser bem-sucedido, devo contar com um garoto que acredite que meu esquema é possível.
– Eu acredito – disse Roden.
Ri com escárnio, e Conner se virou para mim. – Você não acredita que é possível?
– Só porque é possível, não significa que seja aconselhável. Com as sobrancelhas arqueadas, Conner continuou: – E você afirma ter um conselho melhor para dar?
– Eu não afirmo ter nada, senhor.
– É um bom ponto de partida. Agora, Tobias, fique de pé.
Tobias se levantou, nervoso como se estivessem a ponto de lhe fazer a pergunta mais importante do mundo e ele não tivesse a resposta. Mas, afinal, Conner planejava um monólogo, não uma conversa, e disse:
– Você tem o cabelo da cor certa. O rosto é um pouco mais fino do que eu teria esperado do príncipe, mas a semelhança é significativa. Sua altura é aceitável, e seu corpo é esbelto, como o da rainha. Agrada-me que tenha alguma instrução, mas você não pensa tão rápido como eu gostaria. Se alguém lhe perguntasse alguma coisa para a qual não soubesse a resposta, temo que hesitaria e estragaria o plano.
Tobias reagiu à avaliação de Conner como se tivesse levado um soco. Eu não conseguia entender por que aquilo o perturbara tanto. Tobias não tinha qualquer controle sobre as coisas mencionadas por Conner. E não era como se Conner fosse encontrar alguém que ele considerasse um candidato perfeito.
Depois, Conner ordenou a Roden que ficasse de pé.
– Você tem menos semelhanças com o príncipe quando visto pela última vez, mas forte semelhança com a família da rainha, então podemos convencer as pessoas de sua identidade. Sua ambição e determinação são admiráveis, apesar de sua autoconfiança falhar quando necessário. Você não tem nenhum tipo de instrução, o que também pode ser um grande problema. No entanto, é fisicamente forte, o que lhe trará vantagens com o manejo da espada e com a prática da equitação.
Conner disse a ele que podia se sentar, mas Roden permaneceu de pé e afirmou:
– Senhor, agora que sei o que procura, posso me transformar nesse príncipe.
– Sente-se – repetiu Conner, sem se impressionar com os protestos de Roden. Então acenou para mim com a cabeça, e eu fiquei de pé. – A cor do seu cabelo é totalmente diferente, mas podemos mudá-la com os corantes certos. Você mostra preferência pela mão esquerda, quando absolutamente deveria ser a direita. Nem é tão alto ou forte quanto seria de esperar do filho do rei Eckbert. Você aparenta ser o mais jovem dos três, apesar de que qualquer um de vocês terá de mentir sobre a idade exata. É capaz de aprender como falar com outro sotaque?
– O senhor está perguntando se eu consigo aprender o sotaque de
Carthya em duas semanas?
– Você não pode reclamar o trono de Carthya se fala como um maldito
aveniano.
– Não faz diferença – respondi –, não quero o trono. Escolha Roden ou
Tobias, e vou embora para onde o senhor nunca mais me veja de novo.
O rosto de Conner se contorceu de raiva.
– Você acha que eu ligo para o que você quer? Você está aqui porque,
apesar de umas poucas diferenças físicas, tem traços da personalidade que se poderiam esperar do príncipe Jaron. Se pudermos extirpar de você seus maus modos e essa sua natureza desafiadora, creio que poderia convencer os nobres de que você é ele.
– Se o senhor extirpar isso, não vai sobrar nada de mim – afirmei. – Se
tirasse isso de mim, o senhor me acharia tão tedioso quanto Tobias ou tão previsível quanto Roden. Por que não aproveita as semelhanças físicas deles com o príncipe e lhes dá uma personalidade?
Era uma pergunta retórica. Eu não acreditava de verdade que algum dos
dois pudesse cultivar uma personalidade.
– O príncipe Jaron era um lutador – disse Conner. – Você não tem feito
nada além de lutar desde que nos conhecemos.
– E, se o senhor tentar me usar para essa fraude, continuarei lutando –
prossegui. – O senhor não quer um príncipe, quer um fantoche. Por que esse plano foi elaborado em segredo? Talvez o senhor não tenha muita chance de se sentar no trono, mas planeja reinar atrás das cortinas. Coloque Roden no trono. Ele vai permitir alegremente que o senhor mova os braços dele e dite as palavras que ele deve dizer. Mas eu não!
– Abaixe o tom de voz, rapaz – disse Conner. – Não tenho intenção de
reinar. É claro que, ao fim de duas semanas, nenhum de vocês saberá o suficiente sobre como governar para tentar fazê-lo sozinho. Estarei lá para guiá-los como um conselheiro, para protegê-los e para guardar nosso segredo. Quando um de vocês estiver pronto para governar sozinho, serei seu servo em qualquer cargo que escolher para mim. – Conner me estendeu a mão. – Estou me oferecendo para fazer de você o sol de Carthya, mais brilhante que a lua e as estrelas juntas. E você tomará o trono, sabendo que tirou seu país da beira do abismo da guerra. Como pode recusar essa oportunidade, Sage?
– Carthya não é meu país – afirmei, caminhando até a porta para sair. – E, francamente, espero que Avenia acabe com ele.