O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 41 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 40

 

Roden abriu a boca para falar, mas Conner o silenciou e se aproximou de mim, sem tirar os olhos da moeda em minha mão.

– Onde você aprendeu a fazer isso?

Dei de ombros.

– Qualquer batedor de carteira sabe fazer isso. E, para demonstrar, coloquei a moeda no bolso do casaco de Conner.

Com o polegar e o indicador, fisguei a moeda de volta, rolando-a pelas articulações dos dedos até a palma da mão.

– É um bom modo de roubar uma moeda, porque você pode surrupiá-

la sem precisar fechar o punho.

Conner se virou para Roden.

– Você consegue fazer isso?

Roden sacudiu a cabeça. Tobias fez o mesmo, antes que lhe

perguntassem.

– Percebi que você faz isso com a mão esquerda – disse Conner. – Assim

como prefere usar o garfo ou escrever cartas. Consegue fazer o mesmo com a direita?

Apanhei a moeda com a mão direita e demonstrei o truque com igual

agilidade.

– E consegue escrever e comer com a mão direita também? – Quando eu era pequeno, meu pai insistiu que eu aprendesse a usar a

mão direita para tudo. Ele não queria que eu parecesse diferente dos outros. Eu estava sem prática, mas me lembrei do antigo hábito depois que vim para cá.

Conner se dirigiu ao escritório.

– Sage, quero falar com você em particular.

Era uma ordem, não um pedido. Então o segui até o escritório, e ele fechou a porta atrás de nós.

– Você não precisa mentir pelo resto da vida – ele disse, com um desespero nos olhos que eu nunca havia visto antes. – Há outro modo.

– O quê?

– Reclame o trono agora, como príncipe Jaron. Seja o príncipe por um ano ou dois, ou por um tempo considerável. E então renuncie em favor de quem você quiser. Pode ir embora, voltar a ter uma vida normal, ainda que seja uma vida de riqueza e luxo.

– O que o senhor está me pedindo?

Eu sabia, mas queria ouvi-lo dizer.

– Seja o príncipe, Sage. Estou convencido, agora, de que só você pode sê-lo.

– E quanto a Roden?

– O príncipe Jaron era conhecido por sua habilidade em rolar uma moeda sobre as articulações dos dedos. Enquanto eu elaborava esse plano em minha cabeça, tentava prever tudo o que os regentes perguntariam, antes de rejeitá-lo ou aceitá-lo. Levei em consideração características da personalidade do príncipe, principalmente as que ele teria mantido ao crescer. Jaron foi treinado durante toda a infância na tradição real, e o meu escolhido teria de demonstrar algo desse treinamento também. Mas, até ver você no salão, eu havia me esquecido de que esse truque com a moeda era um hábito ocasional de Jaron, algo que poucos são capazes de fazer como ele. Mais cedo ou mais tarde, os regentes iriam esperar ver o príncipe fazer isso.

Eu me sentei em uma das cadeiras e cruzei as pernas.

– Roden pode aprender a fazer isso.

– Não a tempo, e não tão bem. Ficaria óbvio que ele acabara de aprender o truque. Sage, você deve ser o príncipe.

Não respondi imediatamente, em parte porque sabia quão desesperado Conner estava para ouvir minha resposta. Finalmente, olhei para ele.

– Não.

Conner explodiu.

– O quê? Isso tudo foi um jogo para você? Um teste para ver se podia

chegar até aqui e depois me rejeitar?

– Não, senhor. Mas ontem à noite, enquanto estávamos nas passagens

secretas, estive pensando. Os homens de Veldergrath teriam me matado se tivessem me encontrado, certo? Alguém matou o rei, a rainha e o príncipe Darius. E eles vão me matar também, mais cedo ou mais tarde. Não quero poder ou riqueza, Conner. Quero continuar vivo.

– Veldergrath não ousará feri-lo, depois que você estiver sentado no

trono. Se o alto camareiro, lorde Kerwyn, aceitá-lo como o príncipe Jaron, Veldergrath também o fará. E, quanto à família real, você não precisa se preocupar com o mesmo destino.

– Por que não?

– Eles foram assassinados por razões políticas. Se você usar uma política

diferente, não haverá motivo para que queiram sua morte.

Estreitei os olhos.

– Como sabe disso? O senhor sabe quem os matou? – Isso é uma acusação? – berrou ele, e então abaixou a voz, lutando

para manter o equilíbrio. – Não importa quem os matou. Eu sei quem eram os inimigos deles, e eles não representam ameaça para você. Posso garantir sua segurança no trono, Sage. E garanto a sua morte aqui, se você recusar.

– Você não vai me matar – afirmei. – Sou a única esperança para o seu

plano dar certo. Não vamos fingir o contrário.

Conner se sentou na outra cadeira, de frente para a escrivaninha, e seus

olhos imploravam para que eu aceitasse sua oferta.

– Sage, nenhum mal vai lhe acontecer naquele trono, e você pode reinar

pelo tempo que quiser.

– E então posso abdicar do trono em seu favor. O rosto de Conner ficou vermelho, e ele se levantou, berrando de

novo.

– Entregue o trono a quem você quiser, desde que seja alguém em

quem confie. Não sou o vilão dessa história, não importa quantas vezes você tenha tentado me fazer parecer assim!

– O senhor é um herói, então?

– Sou apenas um homem tentando fazer o que acho que é melhor para o meu país. Se cometi erros no caminho, eu os cometi por causa do desejo de fazer a coisa certa.

– Tenho algumas exigências – completei.

– Você é impossível – disse Conner. – Esperou por este momento desde que nos conhecemos, não é? Para me forçar a uma situação em que devo ceder a seus caprichos ou ver tudo pelo que trabalhei todos esses anos ser desperdiçado.

– Tobias e Roden devem nos acompanhar ao castelo.

– Por quê?

– Prometi a eles que, se você me escolhesse, não deixaria que os matasse. E esse é o único modo de eu poder cumprir minha promessa.

– Essa é uma ideia tola. Eles são uma ameaça para você agora.

– Se você tivesse partido com Roden, Tobias e eu estaríamos mortos, certo?

Conner abanou a mão.

– É verdade, e não vou me desculpar. Os dois garotos que não foram escolhidos sabem de tudo. Eles podem usar isso para chantageá-lo, ameaçá-lo e intimidá-lo pelo resto da vida. Informação é uma coisa perigosa, quando está nas mãos erradas, Sage. E, neste momento, eles são sua maior ameaça.

– Mas sou eu que vou decidir como lidar com essa ameaça. E tem mais. Imogen também irá para Drylliad.

– Garoto tolo! Será que devo lembrá-lo sobre a princesa prometida, Amarinda? Imogen não tem um futuro ligado ao seu.

– Depois que eu assumir a identidade do príncipe, vou pagar a dívida dela com você e libertá-la. Ou todos eles vão conosco ao castelo, ou eu não irei.

Conner praguejou, agarrou uma pequena estátua de mármore na escrivaninha e a atirou em mim. Ela resvalou no meu ombro, acertou a parede do escritório e rachou o revestimento de madeira. Provavelmente ele tivera a intenção de errar, mas talvez não.

– Você ainda não é o rei! – rosnou. – Eu os levarei conosco, só para colocar essa sua cabeça teimosa dentro daquela carruagem. Mas, até você ser coroado, eu sou o mestre e, se vir necessidade de me livrar deles, eu o farei.

– Parece justo – respondi, e um sorriso malicioso tomou conta do meu

rosto. – Então, você vai se curvar diante de mim agora, ou esperar até chegarmos a Drylliad?

Conner passou direto por mim e foi para o corredor, berrando ordens

para que uma carruagem para sete passageiros fosse preparada. Cregan seria o nosso cocheiro.

– Saúdem Sua Majestade, a desgraça da minha vida – disse Conner a

Roden e a Tobias, enquanto subia as escadas. – Não temo mais os demônios, porque tenho o pior deles aqui, dentro da minha própria casa!