O Falso Príncipe
Capítulo 29
Tobias estava dormindo em sua cama quando acordei; ele certamente encontrara o caminho de volta para o quarto durante a noite. A ideia de que eu continuara a dormir enquanto ele andava livremente pelo quarto me deixava com uma sensação desconfortável. Normalmente, eu tinha o sono leve, e não gostava nada de imaginar o que ele poderia se sentir tentado a fazer comigo enquanto eu dormia.
Roden já estava acordado, e ainda trabalhava no livro que apanhara na
mesa de Tobias na noite anterior.
– Posso entender muitas dessas palavras – disse ele. – Você devia ter
prestado mais atenção ao professor Graves. Acho que ele poderia tê-lo ajudado.
– Não consigo fingir estar interessado em alguém tão chato –
resmunguei.
Roden revirou os olhos e se voltou para o livro, enquanto eu me
levantava da cama e começava a me vestir. Eu sabia que aquilo irritaria Errol, mas ultimamente aquele fato era mais uma motivação do que um impedimento para mim.
– A sua camisa está toda manchada de sangue! – disse Roden. – Você percebeu, foi?
Ele fechou o livro e se aproximou.
– Parece que ela foi cortada, também. O que aconteceu? – Eu preciso de bandagens?
– Como é que eu vou saber? Vou chamar Errol. Arranquei a camisa e atirei-a na lareira, que ainda tinha algumas cinzas
ardendo. O álcool que Imogen havia usado nas minhas costas ainda estava no canto do quarto, e usei um pouco dele para reacender o fogo.
– Por que você fez isso? – perguntou Roden.
Ele fez barulho suficiente para Errol e para os outros dois serviçais acharem que já era hora de entrar no quarto. Eu nunca tinha certeza da hora em que eles chegavam todas as manhãs, mas sempre entravam quando nos ouviam conversando.
– Eu o ajudo a terminar de se vestir, senhor.
Errol disse aquelas palavras como se já estivesse cansado de repeti-las. Ele sabia que eu não queria a ajuda dele, e aquilo era especialmente verdadeiro naquele momento.
Virei-me de costas para a parede.
– Vou me vestir sozinho. Quero privacidade.
Tobias abriu os olhos.
– Vocês podem falar mais baixo? Estou com uma dor de cabeça terrível!
– As costas de Sage estão sangrando de novo – disse Roden para Errol.
Os olhos de todos se voltaram para mim. Errol se colocou entre mim e a parede. Uma exclamação de surpresa lhe escapou dos lábios, e então ele disse:
– É um ferimento novo. De onde veio?
Dei de ombros, ainda sem ter uma explicação para dar. O que quer que eu dissesse seria mentira. Embora a verdade fosse arruinar as últimas esperanças de Tobias de se tornar príncipe, ela também não me favorecia.
Errol desistiu de pedir detalhes e disse:
– O corte não é muito profundo, mas precisamos cuidar disso.
– Dê-me algumas bandagens e eu mesmo cuido – retruquei.
Ele sacudiu a cabeça e saiu do quarto. Era bom que as duas semanas estivessem quase no fim. Eu duvidava que ele pudesse me tolerar por muito mais tempo.
– Eu já estou vestido – disse Roden, lançando um olhar carrancudo para seu servo, que tentava abotoar sua camisa. – Saia!
– Você também está dispensado – disse Tobias ao seu, um novato que me evitava sempre que podia. – Precisamos conversar em particular. Feche a porta quando sair.
Logo que ficamos sozinhos, Roden atravessou o quarto, agarrou Tobias pelos ombros e o empurrou com força contra a parede.
– Você fez isso com ele? E pretendia vir atrás de mim depois? – Veja se eu tenho uma faca, se você acha que fui eu – declarou Tobias,
olhando de esguelha para mim. – Não tenho nada que pudesse causar um ferimento como esse, tenho, Sage?
– Você está com medo do que Roden fosse encontrar, se procurasse? –
perguntei.
Tobias ergueu as mãos, e Roden puxou os cobertores dele e verificou
seu travesseiro. Então, levantou o colchão e soltou uma exclamação abafada.
O rosto de Tobias ficou branco quando Roden tirou de debaixo do
colchão a faca que ele usara contra mim na noite anterior. O sangue seco ainda manchava a lâmina. Eu me certificara disso.
– Como isso foi parar aí? – sussurrou Tobias. Seus olhos se estreitaram,
ao se fixarem nos meus. – Ah, mas é claro. Bem, Sage tem uma faca também.
– Você acha mesmo? – perguntei. – Tenho certeza de que o pessoal da
cozinha vai dar por falta de apenas uma faca.
E deixei que Roden vasculhasse todas as minhas coisas. Não havia
nenhuma faca por lá, e o rosto de Tobias ficou ainda mais pálido.
– Tenho que contar a Conner – disse Roden. – Isso já foi longe demais,
Tobias.
– Por favor, não diga nada – implorou Tobias. – Conner acha que eu
tenho um plano para me livrar dele. Se ele pensar que tentei fazer alguma coisa contra Sage, vai querer a minha cabeça.
– Conner devia castigá-lo – eu disse. – Ser escolhido como príncipe é a
última das suas preocupações agora.
Os olhos de Tobias se encheram de lágrimas. – Ajude-me, então.
– Você quase me matou ontem à noite. Acha mesmo que eu deveria me
importar com você agora?
– Por favor. Faço qualquer coisa.
– Você está me pedindo para mentir por você? Então seria eu quem
estaria encrencado. Por que eu faria isso?
A voz dele subiu de tom.
– Por favor, Sage. Faço o que você quiser. Ajude-me, e vou lutar por você.
Ele parecia aterrorizado, provavelmente como eu parecera quando Conner dissera a Mott para me levar para o calabouço. Tobias havia caído direitinho em minhas mãos, mas eu sentia pena dele, mesmo assim.
– Está bem, vou ajudá-lo, mas isso terá um preço. Está na hora de mostrar que você fracassou. Você vai ser menos inteligente, menos impressionante e certamente menos parecido com um príncipe de agora em diante.
– O que você me disse a noite passada é verdade? – perguntou Tobias. – Ele sabe mesmo a respeito das anotações?
Eu assenti e vi quando os olhos dele se encheram de lágrimas.
– Então ele vai me matar de qualquer jeito.
– E se eu lhe prometer que não? – declarei. – Afaste-se, e eu prometo que nada vai lhe acontecer. Nem que seja preciso que eu morra para salvá-lo.
Agora, não apenas Tobias estava fora da competição, mas alguém em Farthenwood me devia a vida.
Errol voltou para o nosso quarto, acompanhado de Imogen e Mott. Por sorte, ninguém prestou atenção em Roden, que escondeu rapidamente a faca de Tobias sob o colchão.
Mott atravessou o enorme quarto em menos de meia dúzia de passos. Ele me fez virar de costas para examinar o ferimento e praguejou em voz alta.
– O mestre precisa saber disso. Diga-me como aconteceu ou o levarei até ele para ser interrogado. Daí você sabe como tudo vai acabar.
Olhei para Tobias, que assentiu, concordando com os meus termos.
– É embaraçoso – eu disse. – Tentei escapar pela janela ontem à noite. Fiquei preso na esquadria e machuquei as costas.
– O ferimento em suas costas não é um simples arranhão, Sage. Você se cortou.
– A janela tem uma beirada afiada – insisti. – Tenho sorte de não ter me machucado mais. Mas a culpa é toda minha, porque eu jamais devia ter tentado fugir. – Para adicionar um toque a mais, dei de ombros inocentemente e completei: – Achei que ninguém fosse notar.
– Como você pôde pensar que não notaríamos um ferimento como
esse? – Mott praguejou por entre os dentes. – É assim que você está tentando obedecer às regras do mestre?
– Tudo o que eu queria era dar uma olhada lá fora – afirmei. – Teria
sido bem difícil ir a algum lugar, daquela altura.
– Seria impossível – disse Mott. – Você poderia ter morrido se tentasse. –
Ele respirou fundo e continuou: – Não direi uma palavra sobre isso ao mestre, mas devo castigá-lo. Só estou hesitando porque sei quanto você deve estar fraco, depois dos últimos dias, mas hoje você vai ficar sem comer.
Comecei a protestar, mas Mott arqueou as sobrancelhas e disse: – Ou devemos deixar que o mestre escolha o seu castigo? – Eu não estava com fome mesmo – concluí.
A princesa Amarinda tinha mandado avisar que ficaria no quarto a
manhã toda. Então, Mott chamou Tobias e Roden para acompanhá-lo no café da manhã com Conner, e mandou Imogen cuidar de meu ferimento. Ela começou imediatamente a trabalhar, lavando o sangue das minhas costas. Sua atitude era distante e profissional, mas o toque de suas mãos, enquanto me limpava, era suave como sempre.
– Ele sabe que você está mentindo – sussurrou ela. – Eu minto tão mal assim?
– Terei de esperar até que você diga a verdade, para poder comparar. Ela fez uma pausa quando gemi de dor, e, ao continuar, pressionou o
pano em minhas costas tão levemente que mal o senti.
– Como isso aconteceu de verdade?
– Uma faca.
– Quem estava com ela?
Hesitei, e ela completou:
– Um dos outros dois garotos, obviamente. Mas não é um ferimento de
perfuração. Esse corte foi feito com a lâmina da faca.
– Você conhece muito sobre ferimentos a faca. – Ouvi o cozinheiro-chefe dizer, esta manhã, que estava faltando uma
faca. Ele as mantém bem afiadas. Foi por isso que você quis amassar o pão, para chegar mais perto da pedra de afiar.
– Na verdade, foi para manter Tobias longe das facas. Ele já tinha roubado uma, e eu não queria que ele conseguisse me prejudicar ainda mais.
Pensei que aquilo me renderia um sorriso ou uma risada, mas ela continuou como se não tivesse me ouvido.
– Vi logo de manhã. A faca que você roubou estava de volta no lugar, e encontrei algumas gotas de sangue no chão.
– Eu pensei que tivesse limpado tudo.
Frustrada, Imogen deu um tapa na minha cama.
– Sage, por favor! Alguém tentou matar você ontem à noite!
– Na verdade, não. Ele só queria que eu pensasse que ele seria capaz disso.
– Por que você tem que fazer esses joguinhos?
– Porque agora só há duas pessoas competindo para se tornar príncipe.
Mesmo sem vê-la, eu sabia que Imogen estava franzindo a testa em sinal de reprovação. Mas ela disse apenas:
– Você sabe o que eu preciso fazer agora. Vai arder.
– Estou me acostumando com... – comecei a dizer, antes de ela pressionar o pano úmido nas minhas costas e me fazer urrar.
Aparentemente, eu esgotara a compaixão dela.
– Talvez você queira Errol de volta – ela disse.
– Talvez eu queira – gemi. – Pelo menos ele não vai me passar sermão o tempo todo.
– Alguém tem que lhe passar um sermão – disse ela. – Se você não é forte o suficiente para aguentar todos esses ferimentos, tem que parar de se machucar! Você nunca vai convencer ninguém de que é um príncipe se continuar assim.
Imogen começou a enrolar uma nova bandagem ao redor do meu corpo, a qual tinha que ser amarrada diagonalmente por sobre o meu ombro e em torno da bandagem antiga. Depois que terminou, percebendo minha mudança de humor, disse, mais suavemente:
– Sinto muito. Não quis dizer aquilo. Você vai conseguir convencê-los.
Continuei a olhar para a parede.
– E se eu não conseguir? E se, depois que Conner me escolher, eles
olharem para mim e virem apenas Sage?
– Seria tão ruim assim, ser apenas quem você é? Dessa vez, eu olhei para ela, sorrindo.
– Você quer dizer, além de ser executado por roubar a coroa? Ela riu.
– Sim, além disso.
Então fiquei sério de novo.
– E quanto a você? Se você estiver na corte quando eu for apresentado,
vai se curvar diante de mim?
Depois de um instante, ela sacudiu a cabeça lentamente. – Espero que Conner escolha você, e acho que, se ele o fizer, você vai ser
capaz de convencê-los. Vai ser um bom rei um dia, mas eu sei demais. E não vou me curvar diante de uma fraude.
Eu me virei enquanto ela deixava o quarto. Infelizmente, eu entendia
muito bem como ela se sentia. Ninguém deveria ter que se curvar diante de um falso príncipe.