O Falso Príncipe
Capítulo 39
– Quando eu for coroado rei, vou pedir a Conner para não matar vocês – disse Roden naquela noite, quando estávamos deitados. – Talvez eu consiga convencê-lo a mandá-los para outro país, se vocês prometerem não voltar.
– Quando você conseguir falar com ele, Cregan já terá obedecido às
ordens de Conner – disse Tobias. – Ele será rápido comigo, mas e quanto a Sage?
Ele definitivamente não seria rápido comigo. Cregan tinha deixado isso
bem claro.
Levantei-me da cama e abri a porta secreta. – Aonde você vai? – perguntou Roden.
– Se vai fugir, deixe-me ir junto – disse Tobias. – Eu não vou fugir, e não é da sua conta aonde eu vou – retruquei,
irritado. – O que eu não posso é ficar aqui parado, enquanto vocês conversam sobre a nossa morte.
Roden ainda estava acordado quando voltei. Estava sentado na cama,
olhando para frente, sem ver muita coisa.
– Por que você não fugiu? – ele perguntou, com um tom de voz
monocórdico e apático. – Você teve oportunidade.
Tirei as botas e sentei-me na cama. Encontrei uma moeda no bolso e a
rolei nos dedos.
– Você acha que Conner vai mandar matar Tobias e a mim pela manhã? Roden respondeu suavemente:
– Não é nada pessoal, Sage, mas decidi não pedir a ele para salvar vocês
dois.
Não era uma grande surpresa, mas ainda assim perguntei por quê.
Finalmente, ele olhou para mim. Linhas profundas marcavam-lhe a testa.
– Você já sabe a resposta. Você e Tobias são ameaças para mim agora. Só há um modo de garantir que vocês nunca voltem para me denunciar.
– Mas também somos sua única proteção contra Conner.
Roden passou os dedos nos cabelos, afastando-os do rosto, e encostou-se à parede.
– Vou ter que lidar com isso mais cedo ou mais tarde, mas, até lá, preciso fazer o que é melhor para mim e para Carthya. Espero que me perdoem.
Atirei a moeda sobre ele antes de me deitar na cama.
– Aí está a sua dádiva de perdão, Roden. Ofereça-a aos deuses, ou aos demônios, ou a Conner, qualquer que seja o altar que você adore. Mas não peça perdão a mim.
Errol e os outros dois servos nos acordaram pouco antes do amanhecer. Quando nos entreolhamos, era visível que nenhum de nós havia dormido bem, mas as bolsas sob os olhos de Roden eram tão escuras que me perguntei se ele havia conseguido cochilar.
O banho de Roden merecera atenção especial, assim como suas roupas naquela manhã; foram necessários três servos para ajudá-lo. Tobias e eu fomos deixados em paz depois que Errol se afastou rapidamente de Roden para examinar minhas costas.
– Daqui a um ou dois dias, você vai poder tirar essas bandagens – disse ele.
– Estarei tão saudável quanto qualquer outro morto – respondi baixinho.
Errol franziu a testa e baixou os olhos. Obviamente, ele não achava que a minha morte certa era algo engraçado.
Quando ficamos prontos, ele afirmou que minha aparência era tão semelhante à do príncipe Jaron quanto no dia anterior, mas disse em voz alta a Roden que ele também tinha muitas características que lembravam o príncipe.
Olhando para Roden, torci para que ele não planejasse comer muito.
Ele não parecia em condições de suportar o estômago cheio.
Mott veio buscá-lo para o café da manhã.
– Vocês compreendem que o mestre pode querer ter uma conversa em
particular com o príncipe – disse ele a Tobias e a mim. – O café de vocês será servido aqui. Depois virei buscá-los, para se despedirem.
– Estamos cansados de comer aqui – reclamei, mas Mott apenas franziu
o rosto para mim e levou Roden para fora do quarto.
Quando a porta se fechou, Tobias foi até a janela. – Você pode nos tirar daqui, não pode? Está na hora de fugirmos. – Fugirmos para onde? – perguntei. – Para onde você iria? – Você poderia nos levar de volta a Avenia. Nós poderíamos nos
esconder lá.
Pelo canto do olho, vi a moeda que eu atirara em Roden na noite
anterior. Ele a deixara no chão, ao lado da cama. Ainda ontem, ele não teria sido tão displicente, deixando para trás algo valioso, mas era o príncipe de Conner agora. Dinheiro era a última de suas preocupações.
Apanhei a moeda, rolando-a pelos dedos, e guardei-a no bolso. Tobias
havia voltado para a cama, derrotado. Eu me sentei ao lado dele e disse:
– Nós não vamos fugir, e isso ainda não acabou. Quando eu disse que
não deixaria Conner matar você, estava falando sério.
Tobias deu um sorriso fraco.
– Obrigado, Sage, mas, a essa altura, você deveria estar preocupado em
salvar sua própria vida.
O café chegou logo em seguida. Eu estava faminto, como sempre, mas
Tobias mal deu uma garfada. Mott voltou para nos buscar antes de eu conseguir terminar a parte dele.
– O que vai acontecer com Sage e comigo agora? – perguntou Tobias. – O mestre ainda não deu as ordens – disse Mott. – Talvez não a você – eu disse. – Onde está Cregan? O rosto de Mott ficou sombrio.
– Por que você não disse a Conner que mentiria por ele, Sage? Ele estava
bem ali, dizendo que faria de você o príncipe. Tudo o que você precisava fazer era dizer que mentiria.
Cerrei os dentes, mas não disse nada. Mesmo que eu estivesse inclinado a me explicar, o que não estava, não tinha uma resposta para lhe dar.
Finalmente, Mott fez um gesto para nos levantarmos.
– Agora é tarde demais para voltar atrás. Venham comigo, para se despedirem do príncipe e do mestre.
Nós o seguimos até o salão. Roden parecia pálido e aterrorizado. Eu me encostei à parede, retirei a moeda do bolso e comecei a rolá-la pela mão. Era um hábito nervoso. Admito que eu estava um pouco.
Tobias tentou uma tática diferente. Ele caiu de joelhos diante de Conner, implorando misericórdia.
– Por favor, não mande nos matar – disse ele. – Por favor, senhor. Dê sua palavra de que vamos sair daqui em segurança.
– Você pede pela palavra de um mentiroso? – perguntei. – Você se sentiria melhor se Conner nos prometesse que não vai nos matar?
Tobias se encolheu ainda mais, mas Conner olhou para mim, paralisado.
– Que truque é esse que você está fazendo? – perguntou.
Eu rolava a moeda pelas articulações dos dedos tão automaticamente que nem precisava prestar atenção.
– Senhor?
Conner levou a mão à boca.
– Como posso ter sido tão tolo? Os demônios devem estar rindo, porque eu quase arruinei tudo!