O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 35 de 55

Páginas do PDF

O Falso Príncipe

Capítulo 34

 

A noite passou sem incidentes. Se Tobias e Roden perceberam que eu saíra durante a noite, nenhum dos dois comentou nada pela manhã. Depois do café, Mott entrou no quarto e disse que Conner tinha novos planos para nós naquele dia.

Ele trazia alguma coisa nos braços, que desembrulhou e colocou em um

cavalete à nossa frente. Era uma pintura, um retrato de um garoto de pé ao lado de uma cerca alta em um jardim, na primavera. Ele tinha cabelos castanho-claros, com algumas mechas mais escuras, um sorriso malicioso e uma ponta de encrenca nos olhos, de um verde brilhante. Nenhum de nós tinha aquela inocência, aquela ingenuidade.

– Esse é Jaron? – perguntou Roden.

– O último retrato que conhecemos dele – respondeu Mott. – Foi

pintado há mais de cinco anos, quando o príncipe tinha 9.

Eu não conseguia parar de olhar para o retrato, comparando-me com

cada detalhe da pintura. Roden e Tobias o examinavam cuidadosamente e sem dúvida faziam a mesma coisa. Cada um de nós tinha características parecidas com as do príncipe, mas Roden grunhiu, irritado.

– Sage se parece mais com ele do que Tobias e eu. Conner me fez

acreditar exatamente no contrário.

– Você vê a semelhança? – Mott me perguntou. Dei de ombros.

– O meu rosto é mais comprido, e meus cabelos são de outra cor. Se

alguém me comparar com essa pintura, os regentes não vão acreditar que eu sou o príncipe.

Aquilo provocou reclamações ainda mais veementes de Roden, bem

como algumas objeções de Tobias; nenhum de nós se parecia o bastante com a pintura para ser convincente.

Mott nos mandou ficar quietos e continuou:

– O plano de Conner para vocês, esta manhã, é passar por todas as transformações necessárias para se parecerem com o príncipe. Seus cabelos serão cortados como os dele. Sage, temos uma tintura que pode funcionar para você. Vamos tomar as medidas dos três e preparar roupas para aquele que Conner escolher. Quando um de vocês for escolhido, amanhã de manhã, vai se parecer exatamente com o príncipe.

Enquanto Roden e Tobias cortavam os cabelos, Errol me levou para o lado de fora para tingir os meus.

– Vai ficar óbvio que eu usei tintura – observei. – E quando os meus cabelos começarem a crescer de novo, na cor natural?

– Mestre Conner acha que você pode usar cada vez menos tintura – disse Errol. – Daqui a um ano, vai parecer que a cor dos seus cabelos mudou naturalmente.

– Ele pensa em tudo – retruquei, sem admiração.

Eu não tinha um espelho para ver como estava quando a tintura foi retirada mais tarde, mas Errol sorriu quando olhou para mim e pareceu satisfeito.

– É impressionante como uma coisa tão simples fez a sua aparência ficar tão parecida com a do príncipe. Tenho certeza de que Conner vai escolher você. A maioria dos servos acredita nisso.

O que teria sido reconfortante, se não tivéssemos visto Conner em seu escritório com Roden, enquanto voltávamos. Roden estava ajoelhado na frente de Conner, que estava sentado à sua mesa. Os cabelos do garoto haviam sido penteados como os de Jaron, e ele estava muito bonito. Se houvesse qualquer diferença entre a aparência dele e a do príncipe, ela poderia ser facilmente explicada como a mudança natural de um rosto ao longo do tempo.

– Estou extremamente impressionado – Conner lhe dizia. – Você me surpreendeu, Roden, estou satisfeito. Tobias, qualquer semelhança entre você e o príncipe desapareceu. Não considere muito boas suas chances de ser escolhido amanhã.

– Não, senhor – disse Tobias. Eu não o havia visto na sala. Ele devia estar fora do nosso campo de visão.

– Ah, Sage – disse Conner, percebendo nossa presença à porta. – Parece

que, mais uma vez, você está atrás dos outros. Eu ainda acho que estou olhando para um órfão, com os cabelos da mesma cor dos do príncipe.

– Eu sou o seu príncipe – afirmei a Conner e saí andando. Errol me alcançou e sussurrou:

– Talvez eu tenha errado ao dizer que Conner o escolheria. O senhor

pode ter chegado tarde demais.

Com os cabelos cortados e penteados, uma hora depois, soltei uma

exclamação de surpresa quando Errol me entregou um espelho. Os olhos arregalados dele demonstravam sua admiração.

– A semelhança é tão grande que você quase poderia ser irmão gêmeo

de Jaron – disse ele.

Eu não conseguia parar de me olhar no espelho. Aquele era mesmo eu?

Tinha me acostumado a esconder os olhos debaixo do cabelo e a me sentir sujo e maltrapilho. Teria Conner imaginado que aquilo seria possível, quando me trouxera para cá? Teria ele me visto atrás daquelas roupas velhas e daquela sujeira?

– Leve-me até Conner – pedi.

– O senhor está andando de forma diferente – observou Errol, ao me

seguir pelo corredor momentos depois. – O senhor realmente mudou.

– Vamos torcer para Conner achar o mesmo. A porta do escritório, que normalmente ficava aberta, agora estava

fechada.

– Acho que devíamos voltar – disse Errol.

Revirei os olhos e bati na porta.

– Entre – respondeu Conner.

Abri a porta. Mott estava sentado na cadeira à frente de Conner, mas se

virou para ver quem havia chegado. Ele se levantou quando entrei, assim como Conner.

Conner não disse nada durante vários segundos. Seus olhos me

examinaram da cabeça aos pés, e seu queixo caiu.

– Não pode ser – disse ele. – Isso é muito mais do que eu esperava. – Eu lhe disse que ele poderia ser irmão gêmeo do príncipe – comentou Errol.

Os olhos de Conner faiscaram para Errol.

– Saia.

O servo assentiu e desapareceu. Ele cometera um erro, ao reconhecer abertamente que sabia sobre o plano. Não importava que Conner tivesse lhe contado.

– Ajoelhe-se, por favor – ordenou Conner. – Quero examiná-lo melhor.

– Aproxime-se quanto quiser – respondi. – Examine-me de pé.

– Você não vai se ajoelhar?

– Um príncipe se ajoelharia?

Conner ergueu a voz.

– Você não é um príncipe até que eu decida.

– Não preciso que o senhor decida. Neste momento, eu sou o príncipe de Carthya – e me virei para sair da sala, mas Cregan entrou correndo pela porta.

– Mestre Conner – disse ele, sem fôlego –, o senhor estava certo. Veldergrath está vindo.

– A que distância você o viu?

– A vários quilômetros, e não estava sozinho. Ele tem um exército inteiro acompanhando-o.

– Soldados?

– Não estão de farda, mas estão armados.

Conner assentiu. Eu quase podia ver os planos se formando em sua mente, como nuvens de tempestade que se aproximam.

– Ele quer nos intimidar, mas não vem para lutar. Então, devemos recebê-lo com a maior hospitalidade. Diga ao pessoal da cozinha para preparar uma refeição a ele e à sua comitiva. E lembre a eles de não mencionarem nada sobre meus planos, a não ser que queiram ser enforcados por traição – e então se virou para Mott. – Ache os meninos. Esconda-os em minhas passagens secretas.

– Eu as conheço, senhor – falei. – Posso levar os outros para lá.

Conner pareceu surpreso apenas por um momento, e então assentiu e disse:

– Sage, você deve encontrar Roden e Tobias. Escondam-se na mais profunda das passagens da fortaleza. Não preciso lhe dizer o que acontecerá se forem descobertos. Mott, vá até o quarto deles. Destrua qualquer vestígio da presença dos garotos aqui.

Comecei a andar, mas Conner me impediu. – Espere!

Ele abriu a gaveta de baixo da escrivaninha e retirou de lá uma pequena

caixa trancada, decorada com esmeraldas.

– Leve isso com você. Não a abra, e não a deixe cair nas mãos de

Veldergrath.

Cregan, Mott e eu corremos em direções opostas. Na biblioteca,

encontrei Tobias e Roden, que se levantaram quando entrei.

– Você está tão... diferente – disse Tobias. – Admito que não conseguia

ver sua semelhança com o príncipe, mas agora...

– Veldergrath está vindo – eu disse. – Vocês devem vir comigo

imediatamente.

– Por que a pressa? – perguntou Tobias, deixando o livro de lado. –

Conner pode declarar você ou Roden príncipe e resolver tudo hoje.

Enquanto eles me seguiam pelas escadas, respondi: – Veldergrath é a última pessoa neste reino que quer ver o príncipe

Jaron voltar. Se ele nos encontrar, estaremos todos mortos.