O Falso Príncipe
Capítulo 51
Seguindo as recomendações do meu bilhete, Mott, Tobias, Roden e Imogen já estavam esperando nos portões do rio quando chegamos. Conner pareceu surpreso por encontrá-los lá, mas deve ter chegado à explicação sozinho. Ele se virou para Cregan e disse:
– Leve a carruagem de volta para a hospedaria e espere por nós lá. Não quero que ela fique aqui para levantar suspeitas.
– Faça com que Tobias a leve – disse Cregan. – Ele não serve para nada.
– Então ele não serve para conduzir uma carruagem. Vá logo. Temos de nos apressar, senão chegaremos atrasados.
Eu segui na frente pela estrada do rio. Imogen vinha atrás de mim, depois Conner, Tobias, Roden e, por último, Mott. Quase imediatamente, um telhado de pedra e terra se ergueu sobre nós ao entrarmos em um túnel que passava bem debaixo do castelo. Os muros da fortaleza não estavam muito à frente.
Eu havia encontrado essa entrada sozinho, aos 8 anos. Todos os serviçais da cozinha sabiam quanto eu a usava para entrar e sair do castelo, mas gostavam de mim e nunca haviam contado isso a ninguém. Só fui descoberto certo dia, quando caí no rio e voltei ao castelo cheirando a frutas podres e carne estragada.
– Isso aqui tem um cheiro horrível – disse Tobias.
– Ninguém prometeu que seria agradável – gritei para ele.
Conforme ia ficando mais escuro, Imogen caminhava mais perto de mim. Notei que tinha uma das mãos pronta para agarrar meu braço, caso começasse a cair.
Chegamos ao portão, que precisava urgentemente de limpeza. Grande parte de sua superfície estava entupida com enormes pedaços de comida podre e lixo, o que represava a água suja e fazia com que uma lama nojenta se acumulasse no lugar.
– Acho que vou vomitar – disse Conner, cobrindo o nariz com um
lenço. – Que cheiro!
Disfarcei o sorriso, mas admito que gostei do fato de ele estar sofrendo.
Usando o grampo, abri a fechadura em segundos. Era uma fechadura velha, com pinos frouxos. Decidi que, depois de me tornar rei, aumentaria, e muito, a segurança daquela passagem que ligava o castelo ao mundo externo e vice-versa.
Passamos pelo portão, e, depois de mais alguns minutos de caminhada,
informei ao grupo que tínhamos passado sob os muros do castelo. A partir dali, havia alguma luz vinda de lamparinas a óleo distribuídas pelas paredes de forma irregular. Os servos vinham até ali, normalmente com as mãos cheias, e precisavam de um caminho iluminado. Não era uma luz muito intensa, mas estávamos gratos em tê-la mesmo assim.
– Falta muito? – perguntou Conner.
– Não, estamos quase chegando.
Ali, o caminho se alargava, e alguns de nós podíamos caminhar lado a
lado. Conner alcançou a mim e a Imogen; Tobias e Mott vinham logo depois, e Roden seguia por último.
– Ande logo, Roden – advertiu Conner. – Precisamos correr contra o
tempo.
Ele respondeu com um grito de surpresa, e nos viramos para ver o que
estava acontecendo. Cregan o segurava pelo pescoço e apontava uma faca para ele.
– Cregan! – gritou Conner. – O que você está fazendo aqui? Nosso grupo se espalhou em um círculo. Mott levou a mão à espada,
mas não a desembainhou. Ele não o faria a não ser que Conner ordenasse. Além de tudo, Mott havia se machucado duas noites atrás, depois que eu matara o homem de Veldergrath. Ele seria um adversário enfraquecido, se tivesse mesmo que lutar.
– Mudança de planos – disse Cregan, com a boca retorcida em uma
expressão desagradável. – Seu órfão não será rei, no fim das contas.
Dei um passo à frente e acenei para Roden com a cabeça.
– Mas por que ameaçar a pessoa que você mesmo escolheu para ser rei, Cregan?
Ele sorriu maldosamente, então soltou Roden e lhe deu sua espada. Roden nem teve a cortesia de fingir surpresa. Ele sabia o tempo todo que Cregan estava nos seguindo.
– Traidores! – Conner acusou. – Estão traindo o plano, Carthya e a mim. Por quê, Cregan?
– Estou fazendo minha fortuna. Assim que Roden estiver no trono, vai fazer de mim um nobre, e então eu tomarei seu lugar como regente. Não vai demorar para que eu fique com tudo o que é seu.
Conner voltou seu olhar de ódio para Roden.
– Depois de tudo o que fiz por você, é assim que me paga?
– Você teria me deixado morrer em Farthenwood – retrucou Roden, ríspido. – Eu não lhe devo nada.
– Então não me sentirei culpado em ordenar a morte de vocês dois – disse Conner. – Mott, acabe com eles.
Antes que Mott pudesse desembainhar a espada, Cregan avançou com a faca e disse:
– Mott não pode nos matar antes que um de nós dois alcance ou você ou seu rei de mentirinha. Roden é melhor com a espada do que você pode imaginar. Eu mesmo o treinei.
Roden ergueu a cabeça.
– E, durante o breve tempo em que fui seu príncipe, você me disse tudo o que eu precisava saber para convencer os regentes.
– Não tudo – disse Conner. – Você não vai conseguir.
– Vou, sim – disse Roden. – Só Cregan e eu seguiremos adiante. Dê-me a coroa, Sage. Se vocês cooperarem, todos poderão ir embora em paz.
Talvez Roden até acreditasse naquilo, mas eu podia adivinhar pela expressão no rosto de Cregan que ele não tinha planos de deixar nenhum de nós sair vivo dali.
– Senhor? – perguntou Mott. Além de Cregan e Roden, ele era o único que carregava uma arma.
– Eu não sei. – Pela primeira vez na vida, Conner pareceu inseguro. – Eu não esperava...
– Estamos em um impasse – eu disse calmamente. – Talvez você e Roden
consigam pegar um de nós. Mas, mesmo com seu cérebro minúsculo, Cregan, você deve saber que Mott vai pegar um de vocês também. Seja quem for que caia, você ou Roden, nenhum dos dois pode vencer assim.
O rosto de Cregan pareceu desabar. Ele não tinha esperado que nos
dispuséssemos a pagar para ver.
– O mais forte de nós deve ser coroado – continuei. – Todos de acordo? Roden assentiu. Hesitantes, Cregan e Conner acabaram fazendo o
mesmo.
– Então, eu e Roden vamos lutar. O vencedor segue para o castelo. Você
aceita o desafio, Roden?
– Suas costas ainda estão feridas – avisou Mott. – Bem lembrado. Se Roden quiser fazer uma luta justa, então que tal só
eu ficar com a espada? – e sorri, mas ninguém mais viu graça na piada.
Cregan lambeu os lábios, saboreando a ideia de me ver cair. – Nunca seria uma luta justa, garoto. Roden é forte demais. Roden olhou para Cregan e então para mim. – Está certo, o vencedor segue para o trono. Por favor, me dê a coroa,
Sage. Não quero matá-lo.
– Que feliz coincidência. Eu também não quero morrer. Isso o enfureceu.
– Pare de fazer piada com isso, como se eu não fosse uma ameaça! Sou
melhor com a espada do que você imagina. Além do mais, eu já o vi lutar.
Tirei a coroa da cabeça e a entreguei a Mott. – Não deixe que ela se suje. Agora me dê a espada. – Ela é mais pesada do que a do príncipe – disse ele. Eu o olhei nos olhos.
– Mott, a espada – e, com um aceno de cabeça obediente, ele a entregou
a mim.
Roden atacou imediatamente, enquanto eu ainda estava voltado para
Mott. Uma das vantagens de ser um canhoto que havia sido forçado a treinar com a mão direita é que pude bloquear o ataque com a mão esquerda, então girei em sua direção e o ataquei com força do seu lado mais fraco.
Roden cambaleou para trás com uma expressão de surpresa diante de minhas habilidades, mas rapidamente voltou a avançar, brandindo a espada com mais ímpeto em minha direção.
Ele havia melhorado significativamente desde a última vez que havíamos lutado, e, naquela ocasião, havia sido apenas um treino. Agora, seus golpes tinham a intenção de matar, e ele me observava, à espera de que eu cometesse o menor dos erros.
– Você estava fingindo antes – ele disse, contra-atacando depois de minha investida. – Você já treinou para lutar.
– Se você tivesse conhecido meu pai, saberia que fui treinado para aparentar saber lutar. Ele nunca quis que eu tivesse que lutar de verdade.
Roden sorriu e veio em minha direção, mirando baixo.
– Eu ainda sou melhor que você.
– Talvez, mas eu sou mais bonito, você não acha?
A resposta o deixou momentaneamente confuso, e pude girar e chutar a lateral de seu corpo. Ele caiu no chão, mas manteve a espada em riste. Então fui em sua direção com minha lâmina. Tudo o que eu precisava fazer era um movimento rápido e a luta estaria terminada. Mas hesitei. Como eu poderia atacar depois de prometer salvar-lhe a vida se ele não fosse escolhido como príncipe? Será que eu ainda lhe devia isso? Recuei para um terreno mais alto. Aquela luta não terminaria com sua morte.
– Você podia ter me matado ali – disse Roden, saltando sobre os pés e avançando. – Por que não o fez? Ah, já sei! – Ele criou sua própria resposta, sorrindo quando voltamos a lutar. – Eu deveria saber, depois que você apunhalou o homem de Veldergrath. Você não tem estômago para matar. Infelizmente para você, eu tenho.
Então ele elevou a espada acima da cabeça e a baixou com força. O peso de sua lâmina caindo sobre a minha me tirou o equilíbrio, e eu cambaleei ao longo da margem. No espaço limitado que tínhamos entre a parede e a água, Roden continuou me empurrando em direção ao rio. Eu não gostava da ideia de cair na água. Perderia a luta e, provavelmente, a vida. Além disso, acabaria cheirando muito mal.
Nossas lâminas se moviam cada vez mais rápido, mas a autoconfiança de Roden era inabalável. Se Cregan o havia escolhido por sua habilidade natural, tinha escolhido bem. Eu queria que Roden pudesse ficar do meu lado depois disso tudo, porque ele seria um excelente capitão da guarda.
Por fim, minha bota bateu em uma pedra, me desequilibrando, e a
espada de Mott caiu da minha mão. Eu me atirei atrás dela, mas ela escorregou e caiu no rio. Atrás de nós, Cregan riu, pressentindo a vitória. Roden baixou a espada e caminhou até mim, com a lâmina perto da minha garganta. Arqueei as costas e me pus de cócoras, mas a lâmina me seguiu.
– Você oferece clemência? – perguntei.
– Só se você aceitar que eu venci este desafio. Se você concordar que eu
venci e me der a coroa, então você e os outros podem ir em paz. Eis a clemência que ofereço. Eu sou o príncipe Jaron.
– Se você fosse Jaron, jamais cairia num truque tão simples como este –
e joguei a perna para o lado, passando-lhe uma rasteira.
Ele caiu de costas com um grunhido rouco. Agarrei a borda
arredondada da lâmina e a tirei de sua mão. Então me pus de pé e a apontei para sua garganta.
Roden fechou os olhos.
– Foi o que você disse que faria no seu primeiro dia – resmungou. –
Pedir clemência e enganar seu oponente. Eu tinha esquecido.
– Não! – gritou Cregan. – Ele não! – e correu para cima de mim com a
faca estendida. Mott deu um passo, colocou-se entre nós e agarrou a mão dele, torcendo-a atrás das costas. Para voltar a se equilibrar, Cregan agarrou a coroa na outra mão de Mott, que o apunhalou nas costas com a faca. Cregan caiu no rio, levando a coroa com ele. Sangue fluiu pela água enquanto o corpo e a coroa eram levados corrente abaixo.
– Eu me rendo – disse Roden, abaixando a cabeça. – Faça o que deve
fazer.
Coloquei a mão em seu ombro e baixei a espada. – Eu teria trazido você comigo para a corte, Roden. Nós poderíamos ter
sido amigos.
Ele balançou a cabeça.
– Eu não preciso de amigos. Tudo o que eu queria era o trono. Por
favor, me mate logo.
Minhas palavras tinham sido sinceras, e tive dificuldade em soltá-lo.
– Então vá embora. Corra e nunca mais apareça na minha frente.
Roden olhou para mim tentando descobrir se era outro truque. Mas eu movi a cabeça, indicando que ele podia ir, e abaixei a espada. Sem uma palavra, ele se levantou de forma desajeitada e correu para fora do túnel. Seus passos ecoaram até que ele estivesse longe demais para que continuássemos a ouvi-lo.
– A coroa! – disse Conner, chegando perto da água escura.
– Talvez ela seja levada com o corpo de Cregan até o portão – disse Tobias.
– Provavelmente já afundou – retrucou Conner.
– Deixe-me tentar encontrá-la – continuou Tobias, virando-se para mim. – Sage, quando você for rei, deixe-me ser um de seus servos.
– Em vez disso, seja meu amigo – propus-lhe. – Encontre a coroa.
O garoto fez uma reverência e correu de volta rio abaixo.
Sobre nós, ouvimos o dobrar abafado de sinos.
– A reunião começou! – gritou Conner. – Devemos nos apressar. Temos apenas alguns minutos!
Eu comecei a caminhar, mas então parei e caí de joelhos.
– Você está ferido? – gritou Mott, depois chamou Conner. – Espere!
– Eu posso ajudá-lo – disse Imogen, sem se retrair com o choque que Conner e Mott demonstraram ao ouvi-la falar. – Os senhores vão na frente e assegurem-se de que possamos passar pela cozinha. Depois, deem um jeito de atrasar o começo da reunião. Eu posso fazer Sage chegar lá.
A voz tensa de Conner revelava o pânico que ele sentia.
– Sage? O que você está sentindo?
– Apenas cheguem à reunião – e olhei diretamente para Mott. – Vão agora.
Mott assentiu e pegou o braço de Conner.
– Senhor, o príncipe Jaron estará lá. Vamos.
– Chegarei lá a tempo – eu disse a Conner. – Faça com que Mott deixe a cozinha em segurança para nós.
Eles correram na frente, e Imogen se ajoelhou ao meu lado, perguntando:
– Você sabia sobre Roden e Cregan. Como?
– Era a última chance que tinham de fazer de Roden o príncipe. Ela pegou a barra da saia, pretendendo rasgá-la em tiras para fazer um
curativo.
– Onde você está ferido?
– Em lugar nenhum. Está tudo bem, de verdade – declarei, sorrindo e
estendendo os braços para provar. – Eu só precisava de um motivo para me separar de Conner. Você acha que Mott já liberou a passagem pela cozinha, Imogen?
– Não sei. Eu não entendo... Você fingiu estar machucado? – Tenho que ir agora. Não resta muito tempo. Fiquei de pé para ir, mas ela segurou meu braço. – Sua coroa.
– Eu não vou precisar dela.
– Sage...
– Você me promete uma coisa, Imogen?
Ela comprimiu os lábios e então disse:
– O quê?
Aquilo era mais difícil de pedir do que eu havia esperado, mas me forcei
a falar.
– Da próxima vez que nos virmos, as coisas vão ser diferentes. Você vai
tentar me perdoar?
– Perdoá-lo por quê, por se tornar o príncipe? Porque agora eu
entendo seus motivos para fazer isso.
– Não, você não entende. Mas vai entender. Se houver qualquer motivo
para me perdoar, você vai tentar fazê-lo?
Ela assentiu. Havia tanta confiança em seus olhos, tanta inocência. Ela
não sabia com o que havia concordado.
Eu beijei seu rosto e disse:
– Espere aqui até que Tobias volte com a coroa. Com ela, ele poderá
levar vocês dois até a sala do trono. Eu queria poder levar você comigo, mas essa última parte preciso fazer sozinho.
– Vá, então, e que os demônios o deixem passar. Os demônios não seriam problema. Eram os regentes que eu precisava
ter ao meu lado.