O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 37 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 36

 

 

Os homens de Veldergrath decidiram começar pelos calabouços e prosseguir dali para cima. Então, fomos diretamente para o último andar, mantendo-nos o mais longe possível deles.

– Essa é uma péssima ideia – sussurrou Tobias enquanto andávamos. –

Se eles entrarem nas passagens, estaremos encurralados.

– Então iremos para o telhado e fugiremos de lá – observei. Os olhos de Roden se arregalaram, mas ele assentiu e concordou. Tobias

pareceu ainda mais ansioso.

– Do telhado? E despencar para a morte?

– Já estive lá – respondi. – Não vamos cair.

– Então, vamos agora – murmurou Roden. – Há uma grande chance de sermos vistos, se ele mandou homens para

vasculhar os jardins ou vigiar as portas. Veldergrath não é tolo, e devemos imaginar que ele tenha feito exatamente isso. Ir para o telhado é a nossa última opção.

Alcançamos o último andar usando uma passagem que nos levou para

perto do quarto da ama de leite. Eu me perguntei se alguma criança que vivera ali usara as passagens para pregar peças nos servos. Era o que eu teria feito.

Temporariamente a salvo dos homens de Veldergrath, Roden apontou

para a caixa com esmeraldas em minhas mãos.

– É essa a caixa da qual Veldergrath estava falando? – Provavelmente.

– O que há dentro dela?

– Está trancada.

– Você não parece curioso – comentou Tobias.

– Eu teria que quebrar a caixa para abri-la, e não vou fazer isso. O que quer que esteja aqui dentro, saberemos muito em breve.

Houve um momento de silêncio, então Roden perguntou:

– Sage, você sabia que se parecia tanto com o príncipe?

– Eu sempre achei que me parecia mais comigo mesmo do que com qualquer outra pessoa – sorri e dei de ombros. – Tenho cicatrizes demais para um príncipe. Muitos calos, muitos machucados. Um rosto parecido pode não ser o suficiente. Além disso, o que vimos era apenas uma pintura, a interpretação de um artista da aparência de Jaron. Algum de vocês já viu a família real pessoalmente?

Nenhum deles tinha visto. Roden observou, coberto de razão, que a realeza raramente visitava orfanatos ou convidava órfãos pobres para jantares oficiais.

– O rei passou por Carchar há cerca de um ano – eu disse. – Eu fui para a rua, para vê-lo. Ele olhou diretamente para mim enquanto passava, posso jurar. Todos deviam lhe fazer uma mesura, mas eu não fiz.

– Por que não? – perguntou Tobias. – Sinceramente, Sage, você não tem respeito?

– Um aveniano se curvar diante de um rei cartiano? Não seria uma desonra para o rei de Avenia?

O grunhido de Tobias foi abafado por Roden, que perguntou:

– Então, o que aconteceu?

– Um soldado me deu uma paulada nas panturrilhas. Aquilo me fez cair de joelhos, e não tive pressa de me levantar de novo. Por um momento, pensei que o rei Eckbert iria parar a procissão inteira, mas ele não o fez. Só sacudiu a cabeça e seguiu em frente.

Roden riu baixinho.

– É incrível como você viveu tanto. Se Conner não o escolher, será apenas porque você é irresponsável demais para confiar, se subir ao trono.

– Não posso negar isso. O problema é que as pessoas, na vida real, nem sempre são como parecem nas pinturas. Minha semelhança com um retrato feito há cinco anos não importa. Enfrentar os regentes é que vai ser o verdadeiro teste.

Ao ouvirmos passos nas escadas perto de nós, paramos de falar imediatamente.

– Quantos são? – cochichou Tobias.

Sacudi a cabeça. Talvez quatro ou cinco, mas era impossível dizer com

certeza. Ouvimos vários outros homens no andar de baixo.

Eles se espalharam, cada um dando prosseguimento à busca em uma

área diferente do último andar. Um dos servos de Conner estava com eles, para abrir qualquer porta ou armário trancado.

– Há muitos armários por aqui – disse um dos homens. – O que significa que há muitos esconderijos – disse outro. – Verifique

cada baú, e olhe embaixo de todas as camas.

– Ele não esconderia um príncipe em um quarto empoeirado como este. – Vamos procurar em todos os quartos – ordenou o primeiro homem. Fiquei um pouco mais animado. Não houve menção de passagens

secretas, o que teria acontecido se eles tivessem descoberto alguma entrada lá embaixo. Não parecia que eles sequer suspeitassem de que havia passagens na casa.

De repente, Tobias agarrou o meu braço, se aproximou de mim e

sussurrou:

– Eu escondi alguns papéis no nosso quarto. Se eles os encontrarem,

saberão que estamos aqui.

Ergui as mãos, num gesto para lhe perguntar onde os papéis estavam. Ele se aproximou de novo.

– Fiz um pequeno buraco em um dos lados do colchão. Se eles o

balançarem, as penas vão cair e eles verão o buraco.

Ele se afastou com uma expressão arrependida no rosto, mas só

consegui sacudir a cabeça. A julgar pelo cuidado da busca naquele andar, a possibilidade de eles encontrarem aqueles papéis era grande.

Fiz um gesto para que os dois ficassem onde estavam. Meus pés eram

silenciosos o bastante para que eu pudesse atravessar a passagem sem ser notado. Os de Tobias e Roden talvez não fossem.

Esgueirei-me pelas escadarias estreitas da passagem. Um dos degraus

estava solto, e temi que a tábua de madeira rangesse quando eu tirasse o pé dela, como já acontecera. Houve realmente alguns pequenos ruídos, mas eu me movia tão devagar que eles não pareceram chamar a atenção de ninguém.

A imitação da espada do príncipe Jaron estava escondida sob a tábua. Eu esperava não ter de usá-la, mas não sairia sem uma arma. Com a espada na mão, abri uma fresta da porta que dava para o nosso quarto. Alguns homens ainda permaneciam naquele andar, mas pareciam estar mais próximos do quarto de Conner. Eu não achei que eles já tivessem vasculhado aquela área.

Nosso quarto fora totalmente limpo, e não havia qualquer vestígio de nossa presença ali. Agora, ele se parecia com um quarto de hóspedes pouco usado. Os armários estavam vazios, nossos livros haviam desaparecido, e as camas estavam alinhadas em uma fila de três, junto à parede.

A cama de Tobias era a que estava mais longe do meu esconderijo.

Engatinhei pelo chão, o que não era muito apropriado para um cavalheiro ou o que quer que Conner pretendesse que eu fosse, mas era um gesto muito familiar dos meus tempos de órfão. Uma vez, durante uma conversa com a sra. Turbeldy, eu me comparei a uma lagarta, que conseguia ir aonde quisesse sem ser notada. Ela me comparou a uma barata, que corria livre no escuro e se escondia sob a luz. Ela quis me ofender, mas achei que era uma comparação justa, e até mesmo um elogio, levando em conta como é difícil capturar uma barata.

Continuei engatinhando e me enfiei embaixo da minha cama e depois da de Roden. Finalmente alcancei a de Tobias, a última da fila. Eu estava prestes a esticar o braço para verificar o colchão quando congelei. O som de passos ecoava pelas escadas.

– Vamos vasculhar este andar agora – disse o homem no comando.

– Julston! Precisamos de seus homens aqui imediatamente – alguém gritou do corredor, perto do quarto de Conner. – Há muita mobília pesada aqui.

– Então, ficamos com a dor nas costas e ele fica com a glória pelo que encontrarmos – reclamou alguém do lado de fora do quarto. Mas eles obedeceram mesmo assim.

Eu só tinha alguns minutos. Foi bem fácil encontrar o buraco no colchão de Tobias. Ele fizera um corte inteligente, que ficaria sempre coberto, e de onde as penas não cairiam a não ser que o colchão fosse virado. Os papéis estavam dobrados, bem no fundo. Eu os enfiei no bolso e engatinhei de volta para a porta. Estava prestes a voltar em segurança para as passagens quando uma voz disse:

– Alguém ouviu isso? Parecem passos dentro das paredes. Revirei os olhos. Teria sido um descuido de Tobias ou de Roden que

nos denunciaria?

Pareceu que o homem começou a chamar o nome de alguém, mas deu

um grito de dor em seguida. Eu me encostei à parede, e, um segundo depois, Imogen correu para dentro do quarto, procurando um lugar para se esconder. Havia um atiçador de fogo em suas mãos. Ela devia ter golpeado o homem com ele.

Meu coração disparou. Imogen conseguira distrair a atenção dele sobre

a existência das passagens, mas pagaria muito caro por ter nos salvado.