O Falso Príncipe
Capítulo 24
Impossível saber que horas eram quando Mott e Cregan voltaram para me buscar. Não parecia que eu tivesse descansado realmente, mas meus braços doíam tanto que eu tinha certeza de ter dormido por algum tempo. A comida que Imogen me dera já deixara de oferecer qualquer conforto havia muito tempo.
Cregan chegou ao calabouço primeiro e veio diretamente para cima de
mim. Com um rosnado, me perguntou:
– Onde está a pedra?
– O ouro – balbuciei.
– Já chega! – Mott puxou o braço estendido de Cregan para baixo. –
Isso é entre o garoto e o mestre. Não tem nada a ver com você.
Cregan agarrou meus cabelos para me forçar a olhar para ele. – Você ainda não é o príncipe, portanto posso dizer isso. Vou fazer
tudo o que estiver em meu poder para garantir que Conner escolha um dos outros dois meninos. Porque, depois que eles forem para o castelo do rei, vou matar você com minhas próprias mãos. E você vai implorar por misericórdia, mas vai entender quão impiedoso posso ser.
– Eu já disse que chega! – repetiu Mott. – Solte-o, Cregan. Eles soltaram as correntes, e eu caí no chão como uma boneca de trapos.
Cregan me chutou de leve, até eu lhe dar a satisfação de um grunhido, e então atirou uma pilha de roupas sobre mim.
– O mestre quer falar com você. Vista-se.
Não me mexi até que Mott finalmente se abaixou e começou a me
vestir. De repente, ele praguejou e disse a Cregan:
– Ele está sangrando, e o sangue encharcou as bandagens. Vá buscar
mais curativos.
– Preciso ir lá em cima buscá-las – disse Cregan. – Não tínhamos muitas aqui.
– Então, vá logo.
O som dos passos de Cregan ecoou pelas escadas. Eu me deitei de bruços no chão imundo, enquanto Mott removia as bandagens silenciosamente. Uma delas havia grudado na minha pele com o sangue e o suor secos. Fiz uma careta de dor, e Mott sussurrou um pedido de desculpas.
Com os olhos cheios de lágrimas, pedi:
– Você precisa me ajudar. Por favor, Mott. Não posso fazer isso.
– Eu trabalho para Conner, não para você. – Depois de um instante, ele deu um suspiro cansado e completou: – Depois de tudo o que você aprontou, o mestre ainda está pensando em escolhê-lo, Sage. Isso diz muita coisa. Já é hora de você parar de pensar em si como órfão e começar a se ver como príncipe.
– Eu sempre serei um órfão, Mott.
E, pela primeira vez, pelo que eu conseguia me lembrar, comecei a chorar. Chorei pela minha família perdida e por cada circunstância em minha vida que me levara até ali. Mott segurou minha testa até que, finalmente, consegui me acalmar.
– Perdoe-me – murmurei.
– Você está faminto e exausto – disse ele. – Perdoe-me por meu trabalho me obrigar a fazer isso com você.
Momentos depois, Cregan voltou e entregou as novas bandagens para Mott. Então se afastou, enquanto Mott cuidadosamente retirava o que restava das velhas.
– Preciso de mais luz – disse ele a Cregan.
Cregan lhe entregou uma vela, que eles aproximaram de mim.
– Isso vai deixar uma cicatriz – disse Mott. – O corte foi mais profundo do que eu imaginava. Mas acho que até agora conseguimos evitar uma infecção.
E derramaram mais líquido sobre o corte. Cravei as unhas no chão, buscando alívio para a dor, mas quase não emiti nenhum som. Não tinha energia para isso.
O ardor passou, e eles me envolveram em novas bandagens. Precisei da
ajuda de Mott e de Cregan para me vestir, e eles me carregaram pelas escadas acima. A luz do começo da manhã era forte demais para os meus olhos, e cambaleei para trás, tentando fugir de todo aquele sol.
– Vá buscar água para ele – disse Mott a alguém ali perto, ainda me
segurando com firmeza.
Trouxeram-me um copo, e Mott o aproximou dos meus lábios. Tomei
uns goles, e então virei a cabeça. A luz não machucava tanto agora. Percebi quanto eu sentira falta dela.
– Não podemos demorar mais – disse Mott. – Vamos levá-lo até Conner.
Os dois me fizeram sentar em uma cadeira na frente da escrivaninha de
Conner. Ele olhou para mim pelo que me pareceu uma eternidade e finalmente disse:
– Você está horrível.
Fiquei calado.
– Mesmo que você não aprenda mais nada durante sua estada aqui,
Sage, talvez aprenda a não me desafiar. Você passou duas noites lá embaixo; percebeu que tanto tempo se passou? Espero que tenha sido o suficiente para refletir e entender que me desobedecer não lhe trará nada além de sofrimento.
Mais uma vez, não respondi. Ocorreu-me que lhe obedecer trazia uma
forma própria de sofrimento, mas eu não diria isso a ele. Além do mais, falar era doloroso.
Conner fez um gesto de cabeça para Mott, que me trouxe uma bandeja
e a colocou na escrivaninha. Ela estava cheia de coisas que reconheci como vindas de vários esconderijos perto da minha cama e em minhas gavetas.
Conner apanhou alguns objetos que eu roubara durante os últimos
dias: uma pequena faca, uma abotoadura de ouro e várias moedas.
– Acho que não há necessidade de fazer perguntas – concluiu. – Você
obviamente conseguiu encontrar tempo, entre seus outros estudos, para roubar a mim e às pessoas desta casa.
Sim, aquilo era óbvio. Fiquei em silêncio.
Então, Conner apanhou alguns papéis.
– Contudo, devo lhe perguntar sobre isto. Você sabe o que há nestes papéis?
– Não sei o que é isso – murmurei.
– São anotações feitas por alguém. Quem quer que as tenha feito, parece ter detalhado alguns planos bem estranhos. Essas anotações podem ser interpretadas como modos de se livrar de mim, se essa pessoa se tornar o rei. Há de tudo, desde algo inofensivo, como me escolher como embaixador em terras estrangeiras, até envenenar o meu vinho. Quem escreveu isso, Sage?
Sacudi a cabeça.
– O seu nome está escrito aí?
– É claro que não. Como eu disse, trata-se apenas da minha interpretação das anotações. Diga-me quem as escreveu, para que eu possa perguntar a respeito.
– Eu queria praticar escrever com a mão direita, e encontrei esses papéis em uma lata, para serem usados na lareira.
– Vou lhe perguntar diretamente: foi você quem escreveu essas anotações?
Comecei a rir, mas me engasguei quando meu flanco começou a latejar de dor.
– Você não pode pensar que eu seja tão tolo.
– Roden também não poderia tê-las escrito – disse Conner. – Deve ter sido Tobias.
– Pergunte a ele, então.
– Acho que não – disse Conner. – Acho que vou deixar Tobias continuar a imaginar que é o favorito para a minha decisão. Se foi ele mesmo quem escreveu estas páginas, quanto mais confiante estiver, mais essa confiança fará com que se exponha. – Conner deu uma risadinha e então completou: – Tenho certeza de que esse segredo está bem guardado entre mim e você. Estou certo?
Ele não esperou por uma resposta, e eu não lhe ofereci nenhuma. Conner se levantou e se aproximou de mim. Ergueu o meu rosto e o virou de um lado para o outro, examinando os cortes e os machucados.
– Parece que você aproveitou sua estada no calabouço. Espero que a
experiência tenha lhe servido de lição. – Ele interpretou a expressão vazia em meu rosto como uma resposta e continuou: – Você é um rapaz difícil, Sage, mas desconfio que isso é resultado de falta de disciplina e supervisão, o que significa que posso treiná-lo. Ouvi dizer que, no calabouço, você disse a Mott que seria o meu príncipe. Isso é verdade?
– Você precisa de mim.
– Por quê?
Levei alguns segundos para reunir forças para responder. – Tobias e Roden não podem convencer os regentes. Eu posso. – Então, você será o príncipe deles – disse Conner. – Mas poderá ser o
meu príncipe?
Lentamente, assenti. Conner sorriu e disse: – Você tem mais uma semana para me provar isso. Durma hoje e
recomece as aulas amanhã. Agora, vá descansar.
Ele nunca mais me perguntou sobre a pedra, mas conseguira o que
realmente queria. Eu havia prometido ser seu príncipe.