O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 19 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 18

 

Depois de sermos dispensados do escritório de Conner, Mott voltou conosco para o pátio a fim de continuar nossa aula de esgrima. Estávamos tensos, e o desejo de retaliação e acusações silenciosas pairavam no ar em volta de Roden, Tobias e mim.

Mott fez com que nos alternássemos em pares para treinar golpes e defesas de duelo, enquanto ensinava contragolpes a um terceiro. A durabilidade das espadas de madeira que Mott nos dera foi severamente testada enquanto tentávamos atingir uns aos outros de todas as formas. Quando não atingíamos a espada de nosso oponente, as vítimas eram braços, pernas e costas.

Roden não teve a menor complacência comigo e estava sendo brutal contra Tobias. Eu até que fui bem contra Tobias, mas Mott declarou estar desapontado com meu desempenho contra Roden.

– Isso aqui é mais do que aprender a simplesmente manejar a espada, rapazes – disse Mott. – Vocês devem aprender a esgrimir como o príncipe Jaron fazia. Ele desafiou um rei para um duelo quando tinha 10 anos. O que isso diz a vocês sobre a atitude dele em batalha?

– Que ele era estúpido – respondi sem refletir. – Se essa história é verdadeira, ele perdeu o duelo.

– Bem, a história mostra a coragem dele – disse Roden, sempre ansioso para agradar. – E como era bem treinado. Certamente esperava vencer.

Dei uma risada alta.

– Bem, se ele realmente esperava vencer, adicione arrogância à sua lista de defeitos. É uma pena que o príncipe no qual estamos tentando nos transformar não seja seu irmão mais velho, Damon...

– Darius – corrigiu Tobias.

– Que seja. Parece que ele tinha um caráter digno de imitação. Diferente

de Jaron.

Mott parou perto de mim.

– Acho interessante que diga isso, Sage, considerando que você tem

vários traços de caráter em comum com Jaron.

Fiquei em silêncio por um momento enquanto era tomado por

sentimentos que não entendia. O que exatamente eu estava sentindo? Vergonha por saber que Mott tinha razão? Eu era tão imprudente quanto Jaron parecia ter sido? Ou era algo me dizendo para não brigar pela coroa? Talvez, por não terem as mesmas falhas de caráter de Jaron, Roden ou Tobias seriam reis melhores.

Mott parecia esperar que eu dissesse algo, então, sem saber se eu estava

certo ou não, dei de ombros e disse:

– Jaron era uma criança quando desafiou aquele rei para um duelo.

Talvez tenha aprendido a lição e fizesse escolhas mais sábias hoje.

Ele franziu a testa.

– Nunca encarei o desafio de Jaron como um sinal de fraqueza.

Lamento que pense assim. Agora, vamos continuar.

Mott colocou Roden e eu como par para outra rodada enquanto

trabalhava com Tobias. Eu me defendi razoavelmente, até Roden me encurralar. Abaixei a espada para dar o duelo como encerrado, mas Roden aproveitou a oportunidade para me bater direto no peito.

Eu me curvei, larguei a espada e avancei sobre ele. Um soco bem dado

lhe ensinaria uma lição muito necessária sobre coleguismo nos esportes. Mott me tirou de cima dele e gritou:

– Que péssimo desempenho, Roden! Isto é um treino, não uma luta de

vida ou morte! Você deveria ter parado quando Sage abaixou a espada.

– Desculpe-me – murmurou Roden. – Eu não quis fazer isso. Eu... eu

estava envolvido na luta e com muita energia.

Mott virou-se para mim.

– E, Sage...

– Não vou me desculpar – eu disse, cruzando os braços. Ele ponderou por um momento, depois disse: – Está certo. Eu também não me desculparia. Deem-se as mãos, meninos, e vamos dar a aula de hoje por encerrada.

Roden me ofereceu a mão e eu relutantemente aceitei. Depois, com um simples aperto de mãos, esquecemos nossa raiva mútua. Enquanto ele guardava as espadas, eu observava como Mott corria os dedos pelo espaço vazio onde a imitação da espada de Jaron estivera. Ele claramente amava aquela espada. Eu não podia entender o motivo.

Roden caminhou ao meu lado na volta para Farthenwood.

– Espero que não guarde ressentimento sobre o modo como nossa luta terminou, Sage.

– Tente uma coisa dessas comigo de novo e eu mato você, Roden – falei.

Ele deu um sorriso hesitante, sem saber se eu falava sério ou não. Eu também não sabia.

– Se você roubou a espada, pode me dizer, não vou contar para ninguém – disse ele.

Não era um mau jeito de mudar de assunto, então respondi:

– Está certo, nosso segredo estará a salvo entre mim, você e, é claro, o mestre Conner – eu disse com um olhar irônico.

– Não é uma acusação, Sage – disse Roden, baixando a voz. – De qualquer forma, acho mais provável que Tobias a tenha roubado.

– Por que acha isso?

Ele balançou a cabeça.

– Você não sabe? Você parece entender tudo antes de nós.

Eu não fazia a menor ideia do que ele estava falando e lhe disse isso.

– Você sabe como ele é ruim com a espada. Eu, obviamente, sou o melhor nessa parte. Quanto a você, não é ótimo, mas é melhor do que ele.

Sorri.

– Se isso fosse verdade, eu não teria tantos hematomas.

Roden continuou:

– Tobias precisa da espada para ajudá-lo a se parecer mais com o príncipe.

– Ele iria parecer um tolo usando uma espada que não sabe manusear bem. Não entendi por que você pensa isso, Roden.

– Bem, espero ser o escolhido de Conner – disse Roden –, mas, se ele não me escolher, espero que escolha você, e não Tobias. Pelo bem de Carthya, não o quero como príncipe, estando Conner no comando ou não. Se você e eu nos unirmos, podemos impedir que ele venha a ser rei.

– E o que vai acontecer depois, quando sobrarmos nós dois? Você

também vai tentar me prejudicar?

Roden olhou para baixo na trilha.

– Talvez. Sei que você também poderia me prejudicar. – Como chegamos a isso? – perguntei, cheio de temor de que não

houvesse resposta. – Não importa o que façamos, os demônios nos têm.

Roden deu um tapinha no meu ombro e disse em tom jocoso: – Os demônios o têm faz tempo, Sage.

Tobias estava alguma distância à nossa frente nesse ponto. Ele se virou e

chamou:

– Apressem-se, vocês dois! Não vou me atrasar para o jantar por causa

da preguiça de vocês!

O jantar com Conner foi desconfortável, para dizer o mínimo. Tobias e

Roden sentaram-se cada um de um lado dele. Como sinal de seu descontentamento comigo, eu estava na terceira posição, mais afastado.

Peguei meus pratos e os arrumei novamente na ponta da mesa, para

que pudesse olhar diretamente para Conner.

– Por que você fez isso? – ele perguntou.

– Porque não podíamos ver um ao outro no lugar onde eu estava

sentado – respondi. – Assim faz mais sentido.

– Talvez eu não queira vê-lo, Sage – disse Conner. – Se isso fosse verdade, você teria dito a Mott para que eu ficasse no

quarto.

– De todo modo, isso que você fez foi muito grosseiro. – Seria a forma de um príncipe agir – argumentei. – Um príncipe nunca

deixaria que alguém determinasse onde ele deve se sentar.

Depois de uma breve hesitação, Conner sorriu e ergueu a taça para um

brinde.

– De fato.

Ele aproveitou várias oportunidades durante o jantar para apontar as

gafes que eu cometia contra as regras de etiqueta. Tobias e Roden não cometiam os mesmos erros que eu, o que significava que eles haviam aprendido aquelas coisas na noite anterior, enquanto eu estava caído no chão à margem do rio. Eu disse a ele que cometeria menos erros se não fosse obrigado a usar a mão direita para tudo. Ele disse que seria pouco provável que, de repente, o príncipe se tornasse canhoto, e que, portanto, deveria ser eu a mudar. Corrigi meus erros da melhor forma que pude, e Conner mudou de assunto.

Apesar da minha opinião de que aquele era um tema entediante, mais apropriado para as aulas do professor Graves do que para uma conversa ao jantar, Conner nos falou longamente sobre os costumes da vida no castelo e a rotina diária de um rei.

– Se ele é o rei, por que está preso a uma rotina? – perguntei. – Por que não pode simplesmente informar aos seus súditos que vai fazer o que quiser e eles que esperem?

– Bem, é claro que o rei poderia fazer isso – disse Conner. – Mas sua primeira responsabilidade é para com o seu país, não para consigo. Ele é um chefe, um tomador de decisões, um líder. Não uma criança mimada escolhendo brinquedos.

– Mas, se um de nós tomar o trono, a maior parte das questões de governo ficaria a seu encargo, não é?

Conner balançou a cabeça.

– Estarei lá para ajudá-lo a desempenhar seu papel. Serei um conselheiro, um guia. Mas um de vocês será o rei.

Ele se calou quando Imogen e duas outras serviçais trouxeram o prato seguinte de nossa refeição. Ela serviu Roden, não a mim, e não olhou para nenhum de nós.

Quando se virou, tive um vislumbre de um hematoma escuro no lado esquerdo de seu rosto. Ela estava usando o cabelo para escondê-lo, mas, quando se curvou, o hematoma ficou evidente.

– Como você se machucou? – perguntei-lhe. Ela olhou para mim, mas rapidamente baixou os olhos, então me virei para Conner. – Como ela conseguiu esse hematoma?

Ele fez um gesto vago.

– Ela costuma ser descuidada. Acredito que tenha batido em um armário ou na parede, não é, Imogen?

Ela olhou de Conner para mim, então olhou de volta para ele e

assentiu. Ninguém naquela sala poderia não ter notado o medo em seus olhos.

– Alguém fez isso a ela – afirmei.

– Tolice – disse Conner. – Imogen, se alguém a machucou, você me diria,

não é? – ele riu da própria piada.

Obviamente, Imogen não poderia ter lhe contado. Acho que, mesmo se

ela pudesse, ainda assim não teria ousado.

– Temos negócios a discutir – disse Conner a todos os servos na sala. –

Retirem-se.

Quando os servos saíram, Conner disse:

– Você parece bem interessado na vida daquela garota, Sage. – Alguém a machucou. Nós dois sabemos que não foi um acidente. – Ela é uma serva, e está abaixo de sua posição. Vamos deixar que os

serviçais resolvam seus problemas entre si.

– Vamos deixar que os serviçais que provavelmente a machucaram

resolvam, o senhor quer dizer.

Conner fez pouco da minha observação, com uma promessa vazia de

que cuidaria da questão, e continuou:

– Esqueça a serva e lembre-se do motivo pelo qual está aqui. Você sabia

que o príncipe estava noivo, prometido em casamento?

Isso capturou a atenção de Roden.

– Já? De quem?

– Com quem, Roden. A prometida do príncipe é Amarinda do Bultain e

foi escolhida quando nasceu para desposar o príncipe Darius. Ela é sobrinha do rei de Bymar, e uma aliança entre a casa de Eckbert e a dela é necessária para a paz continuar a reinar em Carthya. O noivado foi ideia do rei Eckbert. Sua esposa, a rainha Erin, era de uma cidade fronteiriça ao sul de Carthya, desconhecida em qualquer círculo social da classe mais elevada. Era esperado que ele escolhesse entre as filhas da nobreza, por isso houve muita discussão quando se casou. Mesmo hoje, pouco se sabe sobre a vida da rainha antes do casamento. Mesmo sendo um fraco defensor das fronteiras, ele sempre defendeu bravamente sua esposa.

– Por que isso foi necessário? – perguntou Tobias. – Quem ela era antes? Algum tipo de criminosa?

– Morda a língua! – ordenou Conner. – Ela é a sua rainha, Tobias, e uma mulher respeitável, sempre. A única coisa é que Eckbert quis evitar um dissabor semelhante a seu filho. Agora que Darius está morto, o noivado passará para o príncipe Jaron, se ele for encontrado. Se você tomar a coroa, terá Amarinda como sua esposa um dia.

– Mas, se ela estava noiva de Darius... – começou Roden.

– Ela estava noiva do trono, não do príncipe. Amarinda vai se casar com o homem que for rei.

– Casar? – Tobias riu alto, seguido por Roden e por mim.

– Não até que você tenha idade, é claro – disse Conner. – Mas, quando chegar a hora, ela será sua.

– Como ela é? – perguntei. Conner levantou uma sobrancelha, e eu completei: – A mim, parece que uma garota que tem casamento garantido poderia não precisar cuidar de si tanto quanto uma que precise atrair um homem.

– Você deverá ver por si mesmo – disse Conner. – Eu a convidei para jantar neste fim de semana.

– Mas, se ela nos vir... – disse Tobias.

– Vocês três estarão disfarçados entre os servos. Ela é uma princesa prometida e dificilmente olhará para algum de vocês. Contudo, quero que a vejam, para aprenderem sobre suas maneiras e seu estilo. Isso os ajudará depois de tomarem o trono.

– Então, como ela é? – perguntou Roden.

– Quero que julguem por si mesmos. Mas suspeito que vão gostar dela. E que isso tornará a competição muito mais interessante.

Roden e Tobias animaram-se com a perspectiva de vê-la, mas eu apenas desmoronei na cadeira. Conner tinha envolvido outra vítima em seu jogo hediondo, e a princesa jamais saberia.