O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 3 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 2

 

 

Acordei com as mãos amarradas atrás das costas, deitado na parte de trás de uma carroça. Minha cabeça latejava de dor, e os solavancos não ajudavam em nada. O mínimo que Conner poderia ter feito era me dar um lugar macio para deitar.

Resisti à tentação de abrir os olhos até que minha situação ficou mais

clara. Meus punhos estavam amarrados atrás das costas com uma corda áspera, que poderia ser usada para conduzir um cavalo. Se realmente era, talvez tivesse sido uma ideia de última hora. Talvez Conner não houvesse imaginado que teria de me levar à força.

Ele deveria ter vindo mais bem preparado. A corda áspera trabalhava a

meu favor. Era mais fácil afrouxar os nós.

Alguém tossiu perto de mim. Não parecia Conner. Talvez fosse um de

seus capangas bandidos.

Abri um olho lentamente. O dia frio de primavera estava um pouco

nublado, mas ainda não ameaçava chover. Uma pena. Um banho não seria uma má ideia.

Um dos capangas de Conner estava no outro extremo da carroça,

olhando para a paisagem atrás de nós. Aquilo provavelmente era sinal de que Conner e o outro sujeito estavam sentados na frente.

Outra tosse, à minha esquerda. Deixei a cabeça balançar com a próxima

sacudidela da carroça para ver de onde ela viera.

Dois garotos estavam sentados ali. O mais baixo, que estava mais perto

de mim, parecia ser quem estava tossindo. Ambos tinham aproximadamente a minha idade. O garoto que tossia era doentio e pálido, enquanto o outro era maior e bronzeado. Ambos tinham o cabelo castanho-claro, embora o do garoto que tossia fosse mais puxado para o louro. Ele também tinha as feições mais arredondadas. Suspeitei de que, de onde quer que viesse, passara mais tempo adoentado na cama do que trabalhando. Exatamente o oposto do outro garoto.

Eu me considerava uma mistura dos dois. Nada a meu respeito era memorável. Tinha estatura mediana, uma das várias formas pelas quais decepcionei meu pai, que achara que isso prejudicaria meu sucesso (eu discordava – pessoas altas não cabem em qualquer esconderijo). Meu cabelo estava precisando seriamente de um corte, embaraçado e louro-escuro, mas ficando mais e mais claro a cada mês. E eu tinha um rosto esquecível, o que, mais uma vez, trabalhava a meu favor.

O garoto tossiu de novo. Abri ambos os olhos para averiguar se estava doente ou se tinha algo a dizer e estava limpando a garganta para chamar nossa atenção.

Só que ele me pegou olhando para ele. Nossos olhos focaram-se tão solidamente uns nos outros que era inútil fingir que eu ainda dormia, pelo menos para ele. Ele me denunciaria? Eu esperava que não. Precisava de tempo para pensar e para que alguns machucados em lugares desagradáveis se curassem.

O tempo não conspirava a meu favor.

– Ele está acordado! – disse o garoto maior, que chamou a atenção do capanga de Conner sentado no banco de trás.

O homem rastejou até o outro lado da carroça para dar um tapa no meu rosto, o que não era necessário porque meus olhos estavam quase inteiramente abertos. Xinguei-o e fiz uma careta enquanto ele me colocava sentado.

– Não pegue pesado demais – advertiu Conner de seu lugar. – Ele é nosso convidado, Cregan.

O capanga, agora conhecido como Cregan, olhou para mim. Eu não disse mais nada, pensando que a frase que acabara de usar para xingá-lo havia explicado bem meus desejos relativos à causa de sua morte.

– Você já conheceu Cregan – disse Conner, e acrescentou: – E Mott é nosso condutor.

Mott devolveu o olhar para me dar um olá. Ele e Cregan não poderiam ser mais diferentes um do outro. Mott era alto, de pele escura e quase careca. O pouco de cabelo que tinha era negro e raspado quase rente ao couro cabeludo. Foi ele quem me fizera tropeçar em frente à taverna enquanto eu tentava escapar do açougueiro. Cregan, ao contrário, era baixo – não muito mais alto que eu, e mais baixo que o garoto bronzeado ao meu lado. Era surpreendentemente pálido para um homem que provavelmente passava boa parte do dia ao ar livre, e mantinha uma massa de cabelo louro e espesso amarrada na nuca. Mott era esguio e musculoso, ao passo que Cregan parecia mais fraco do que aparentava e do que eu já comprovara que ele era, a julgar pelo modo como me golpeara no orfanato.

Como era estranho que pudesse haver duas pessoas tão diferentes uma

da outra e, ao mesmo tempo, que minha aversão a elas fosse igualmente grande.

Conner apontou para os garotos na carroça comigo. – Esses são Latamer e Roden.

Latamer era o garoto que tossia. E Roden, o que dedurara que eu

estava acordado. Eles acenaram para mim, e Latamer deu de ombros, como se quisesse dizer que, assim como eu, não fazia ideia do motivo de estarmos ali.

– Estou com fome – eu disse. – Tinha planos de comer carne assada no

jantar, então é bom que o senhor me sirva alguma coisa boa.

Conner riu e jogou uma deliciosa maçã no meu colo, que ficou ali

porque minhas mãos ainda estavam amarradas atrás das costas.

Roden aproximou-se, pegou a fruta e deu uma grande mordida. – Uma das recompensas por não ter relutado em vir. Não estou

amarrado como um prisioneiro.

– A maçã era minha – eu disse.

– A maçã era para quem estivesse disposto a pegá-la – Conner retrucou. Mais um momento de silêncio, exceto pelo som de Roden comendo.

Fitei-o de cara feia, embora soubesse que não adiantaria nada. Se ele tivesse vindo de um orfanato como eu, conhecia as regras de sobrevivência. A regra número um dizia para pegar comida sempre que estivesse disponível, tanto quanto fosse possível.

– Nenhum de vocês lutou com Conner? – perguntei a Latamer e a Roden.

Latamer balançou a cabeça e tossiu. Provavelmente não tinha forças para lutar.

Roden inclinou-se para a frente e abraçou as próprias pernas.

– Vi o orfanato de onde você veio. Era dez vezes maior que o lugar onde eu morava. Então vem o Conner e diz que, se eu cooperar, posso ganhar uma grande recompensa. Então, não, não lutei.

– Você poderia ter feito esse discurso bonito para mim em vez de mandar bater na minha cabeça – eu disse a Conner. – Qual é a recompensa?

Ele não se virou para responder.

– Primeiro coopere, depois falaremos sobre recompensa.

Roden jogou metade da maçã para fora da carroça. Não teve nem a decência de comê-la inteira.

– Pode me desamarrar agora – eu disse. Provavelmente não seria tão fácil, mas não faria mal pedir.

Conner respondeu:

– A sra. Turbeldy me alertou sobre seu histórico de fuga. Para onde você vai?

– Para a igreja, é claro. Confessar meus pecados.

Roden soltou uma risada, mas Conner não parecia ter achado a mesma graça.

– Posso deixá-lo em jejum até você expiar essa blasfêmia, garoto.

Reclinei a cabeça e fechei os olhos, querendo pôr fim a qualquer conversa que me dissesse respeito. De modo geral, funcionou. Roden disse algo sobre sua devoção à igreja, mas deixei passar. Nada daquilo importava. Eu não planejava ficar ali por muito mais tempo.

Cerca de uma hora depois, a carroça parou em uma cidadezinha onde eu já estivera uma vez. Chamava-se Gelvins, se bem que, pequena como era, não sei se merecia um nome. Gelvins era mais um entreposto que uma cidade, com apenas algumas lojas na rua e uma dúzia de tentativas malsucedidas de casas. As casas em Carthya normalmente eram benfeitas e fortes, mas Gelvins era pobre, e suas fazendas, pouco produtivas. Uma casa forte era um luxo com o qual poucos aqui podiam sonhar, muito menos comprar. A maior parte daquelas frágeis estruturas de madeira parecia que desabaria com um vendaval mais forte. Nossa carroça havia parado em frente a um casebre com uma pequena placa sobre a porta que o identificava como o Orfanato de Caridade de Gelvins. Eu conhecia aquele lugar. Ficara ali muitos meses atrás, depois de ter sido temporariamente expulso pela sra. Turbeldy.

Conner levou Mott consigo e deixou Cregan para nos vigiar. Assim que

Conner partiu, Cregan pulou da carroça e disse que tomaria um trago rápido na taverna e mataria qualquer garoto que tentasse escapar.

– Outro órfão? – perguntou Roden. – Conner provavelmente já foi a

todos os orfanatos do país. O que ele poderia querer de nós?

– Vocês não sabem? – perguntei.

Latamer deu de ombros, mas Roden disse:

– Ele está procurando um garoto específico, mas não sei por quê. – Ele não vai me querer – a voz de Latamer era tão baixa que o

resfolegar dos cavalos quase a abafava. – Estou doente.

– Talvez queira – eu disse. – Não sabemos exatamente o que ele

procura.

– Meu plano é ser o que ele quiser – disse Roden. – Não vou voltar para

nenhum orfanato, e não tenho futuro nas ruas.

– Quem é Bevin Conner? – perguntei. – Algum de vocês sabe alguma

coisa sobre ele?

– Ouvi-o falando com mestre Grippings, o administrador do orfanato

onde Roden e eu morávamos – murmurou Latamer. – Ele disse que era amigo da corte do rei.

– O rei Eckbert? – balancei a cabeça. – Então Conner está mentindo.

Todo mundo sabe que o rei não tem amigos.

Latamer deu de ombros.

– Amigo ou inimigo, ele convenceu mestre Grippings de que estava lá a

serviço do rei.

– Mas o que isso tem a ver com a gente? – perguntei. – Um punhado de

garotos órfãos?

– Ele só quer um garoto, apenas um – relembrou Roden. – Todos os

outros serão expulsos se forem inúteis para Conner. Foi o que ele disse ao mestre Grippings.

– Deixe-me facilitar as coisas para você – eu disse a Roden. – Desamarre minhas mãos e vou embora. Serei um garoto a menos para competir com você.

– Não farei uma coisa dessas – ele respondeu. – Você acha que quero ser punido pela sua fuga?

– Tudo bem. Mas os nós estão apertados demais. Você poderia ao menos afrouxá-los?

Roden balançou a cabeça.

– Se estão apertados, é porque você irritou os capangas de Conner, e provavelmente fez por merecê-los.

– Conner não iria querer que ele se machucasse – continuou Latamer, esgueirando-se até mim e dizendo: – Vire-se de costas.

– Não consigo me virar com os braços nas costas. Venha você aqui atrás.

Latamer passou um braço atrás das minhas costas, e então eu o peguei e o torci. Roden ajoelhou-se de um pulo, aturdido, mas com a outra mão passei o laço que fiz com a corda no pescoço de Latamer e puxei-o para que ficasse bem apertado. Roden congelou, esperando para ver o que eu faria em seguida.

Tirar a corda dos punhos fora uma tarefa fácil. Fazer um laço com ela foi um pouco mais complicado, apesar de que agora não era o momento de admirar meu belo trabalho. Roden não parecia impressionado com minha amarração de nós atrás das costas. Claramente, ele nunca tentara algo parecido antes, do contrário teria se impressionado. Ou talvez simplesmente não quisesse que eu estrangulasse Latamer bem na sua frente.

– Não se aproxime nem mais um centímetro – alertei Roden. – Senão o jogo para fora da carroça e você poderá descrever o som do pescoço dele se quebrando para Conner.

– Por favor, não faça isso – suspirou Latamer.

Roden sentou-se de novo.

– Não me importo se você matá-lo e não me importo se fugir. Vá embora se quiser, e reze para que os capangas de Conner não o encontrem.

Levantei-me, pedi desculpas a Latamer por tê-lo ameaçado de morte e fiz uma reverência cerimonial para Roden. A reverência pode ter sido um erro. Quando eu estava me endireitando, Cregan bateu em minhas costas com o cabo da espada. Caí para a frente, sem ar nos pulmões.

– Sabe o que aconteceria comigo se eu o deixasse fugir, garoto? –

rosnou Cregan.

Eu sabia e não me opunha inteiramente àquilo. – Você disse que mataria qualquer um que tentasse fugir – relembrou-o

Roden.

– E é o que vou fazer – disse Cregan, mostrando os dentes quando me

virei para olhá-lo. Ele havia trocado a espada por uma faca, e pulou para dentro da carroça em dois passos. Rolei para o outro lado para tentar fugir, mas ele agarrou minha camisa, empurrou-me novamente para baixo e encostou a faca na minha garganta.

– Mestre Conner não precisa de todos vocês. E acho que você é o menos

importante para ele.

Subitamente, eu tinha uma motivação para ser necessário para mestre

Conner.

– Tudo bem, tudo bem – resmunguei. – Você venceu. Vou cooperar. – Você está mentindo – disse Cregan.

– Minto bastante. Mas não sobre isso. Vou cooperar. Cregan sorriu, satisfeito por ter me humilhado. Recolocou a faca na

bainha, presa à cintura, ergueu-me violentamente pelo colarinho e me jogou no canto da carroça.

– Vamos ver.

Um minuto depois, Conner voltou para a carroça acompanhado por

Mott e por um garoto que andava ao seu lado. Estreitei os olhos, certo de reconhecê-lo. Era alto e excepcionalmente magro. Seu cabelo era mais escuro que o meu e o de Roden, mas era sujo e liso e precisava de um corte até mais que o meu, se é que isso era possível.

O garoto subiu obedientemente na parte de trás da carroça. Conner

olhou de relance para minhas mãos desamarradas e para o fino veio de sangue que escorria de meu pescoço. Olhou para Cregan.

– Algum problema?

– Nenhum, senhor – respondeu Cregan. – Acho que Sage vai cooperar

mais daqui para a frente.

Conner sorriu, como se aquilo fosse tudo o que precisasse saber a respeito.

– Alegra-me saber disso. Garotos, este é Tobias. Ele está se unindo a nós em nossa empreitada.

– Que empreitada? – perguntei.

Conner balançou a cabeça.

– Paciência, Sage. A paciência é a marca de um soberano.

E essa foi a primeira pista sobre o motivo pelo qual Conner nos pegara.

Estávamos todos correndo um perigo terrível.