O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 1 de 46

Páginas do PDF

O Judeu

Parte Primeira

CAPÍTULO I

 

Há um fenómeno moral, muitas vezes repetido, e todavia inexplicável: é a esquivança desamorosa de mãe a um filho excluído da ternura com que estremece os outros, filhos todos do mesmo abençoado amor e do mesmo pai que ela, em todo o tempo, amara com igual veemência. Tristíssima verdade, exemplificada como o principal dos absurdos e lamentáveis enigmas da condição humana! Mistério é este vedado às dilucidações filosóficas; e, portanto, mais defeso ainda às superficiais averiguações de um romancista, que, muito pela rama apenas e imperfeitamente, pode desenhar o exterior dos factos, abstendo-se de esmerilhar causas incógnitas ao comum dos homens.

Exemplo desta aberração — se devemos chamar aberrações às deformidades morais que não dependem da vontade humana — era uma nobilíssima fidalga, que, em 1699, residia no seu palácio da Rua Larga da Bemposta, em Lisboa.

Chamava-se esta dama D. Francisca Pereira Teles, e era esposa de Plácido de Castanheda de Moura, contador-mor dos contos do reino, e filha do octogenário Luís Pereira de Barros, comendador de S. João do Pinheiro, morgado da Bemposta, chamado também o contador-mor, por haver exercitado aquele importante cargo, que renunciara no seu genro.

Teria quarenta e dois anos, D. Francisca. Era mãe de três galhardos rapazes. O primeiro, chamado Garcia, amava ela em extremo; o segundo, que era Jorge, desestimava com entranhado desafeto; o terceiro, chamado Filipe, não se estremava do amor ao primeiro.

Que havia de estranho e desamável em Jorge para exceção assim odiosa? Qualidades justamente dignas de sentimento inverso. Na infância distinguira-se dos irmãos pela quietação e meiguice. Na juventude avantajava-se-lhes em aplicação e engenho na cultura do espírito, já mancebo, se não era isento de culpas, seus irmãos excediam-no em crimes.

Porque não amava, pois, D. Francisca, de preferência, o filho Jorge, se os outros, sobre serem ineptos, lhe estavam dando grandíssimos desgostos em cada dia?

E mais triste coisa ainda: o pai compartia da indiferença, senão desafeto, da mulher àquele filho! Às estouvices de Jorge aplicava a severa correção do vício; à libertinagem de Garcia e Filipe chamava “verduras da juventude”.

Jorge, porém, tinha um amigo na família, amigo que a Providência lhe dera no seu avô Luís Pereira de Barros, pai da sua mãe. Afeiçoara-se o velho à mansidão do neto infantil; vira-o crescer nos seus braços com branduras ameigadoras, como se a criança previsse o futuro desamor dos pais, e estivesse de contínuo a granjear a amizade do avô. Aumentava a ternura do velho à medida que o desprezo da mãe recrudescia.

O menino, refugindo aos maus tratos dos pais, acolhia-se aos joelhos do ancião, que, trémulo de cólera, se erguia a exprobrar as ruins entranhas da filha. Isto, em vez de melhorar a posição de Jorge, agravava o quase ódio de D. Francisca, porque saíam logo a conjurar contra o jovem a emulação de Garcia e Filipe, emulação fundada num tesouro, que o seu avô tinha escondido em lugar ignorado, tesouro de que, diziam eles, Jorge esperava ser herdeiro.

A existência de um cofre recheado de moedas de ouro antigas e pedras de alto valor, trazidas das índias e Brasil por pais e avós do contador-mor, não era imaginária, nem fabulada pelo velho, em razão de se lhe irem as faculdades morais desfalcando e deperecendo.

Passara assim o caso:

 

Luís Pereira de Barros, contador-mor dos contos do reino, assistiu com outros fidalgos do paço ao jantar de Afonso VI, no dia 23 de Novembro de 1667. Concluído o jantar, el-rei retirou-se à sua câmara, e Luís Pereira ao seu quarto.

Ao fim da tarde, entraram no paço violentamente João da Silva, tenente-general, e o marquês de Marialva, à frente de alguns oficiais. Foram em direitura aos aposentos do rei, cujas portas fecharam por fora com chaves que levavam.

Espertou o contador-mor ao insólito ruído que ia no paço, e correu aos quartos do rei. Um capitão de cavalos meteu-lhe uma espada à cara, e disse-lhe: “Recue, senão espeta-se!“

Estacou Luís Pereira, e ouviu o bradar do rei, que batia à porta do vestíbulo com a coronha de um bacamarte carregado com vinte e quatro balas. O criado leal do monarca atraiçoado e preso era tão afeto a Afonso VI, quanto valoroso. Quis remeter contra o vestíbulo, foi ferido na face, e ali expediria a alma, se o marquês de Marialva lhe não acudisse, exclamando:

— Primo Luís, não vertas o teu sangue inutilmente! Afonso está preso para nunca mais ser livre. Se te faz engulho a honra do país, vai-te embora, antes que o povo amotinado te leve no esquife ou nas alabardas.

De feito, Afonso VI começara naquele momento a sua agonia de dezasseis anos por trevas de cárceres.

Luís Pereira de Barros saiu do paço escoltado por alguns oficiais enviados pelo Marialva, e entrou nas suas casas da Bemposta, no intento de sair do reino.

A tormenta do povo começava a rugir não longe da Bemposta. O contador-mor temeu-se de ser atacado, roubado e morto na sua casa. Abriu os seus contadores, e lançou num cofre as riquezas mais graúdas. Desceu às lojas do palácio, e escondeu-se no desvão de uma velha cavalariça, sobraçando o cofre, e a filha, que teria então treze anos. A onda popular esbravejou à porta do palácio; mas um brado sobrelevou à grita, clamando que os amigos do infante deram escolta protetora ao contador-mor.

Desandou a mole da plebe contra as casas de Henrique Henriques de Miranda, privado do rei preso; e Luís Pereira, assim que o rumor cessou, por noite alta, saiu da escuridade das lojas, e passou algumas horas velando o repouso da filha, que já não tinha mãe.

Ao romper da manhã, acompanhado de um escudeiro muito seu privado, desceu ao jardim com o cofre, e tomou por senda arborizada até sumir-se no mais afogado de um bosque, onde, no centro de um tanque seco, estava uma tosca estátua de Neptuno. Arreou-a do soco onde assentava, e destapou um quadrado de pedra, em forma de caixa, onde, noutro tempo, a água represava para dali repuxar à boca da estátua. Depôs nesta caixa o cofre precioso, ajustou sobre ela a base da estátua, cobriu as junturas com terra tirada à mão de um lameiro húmido, cobriu esta camada com outra de terra seca, e retirou-se pela vereda mais furtiva.

Ao entardecer deste dia, despediu alguns servos, e com a filha e poucos criados passou ao Alentejo, e jornadeou toda a noite. Ao abrir da manhã, chegou a uma das suas quintas, e tratou em fechar a ferida da face.

Aqui se deteve quatro anos, sem curar de saber se os cargos e regalias lhe tinham sido tirados pelo infante, governador do reino; até que, um dia, o marquês de Marialva lhe mandou perguntar se vinha exercer as funções de contador-mor, no qual encargo fora provisoriamente nomeada pessoa que não convinha ao serviço, nem, convindo, seria efetiva nele, enquanto o primo Luís Pereira de Barros não se exonerasse.

Era tempo de casar Francisca. Plácido de Castanheda de Moura, alcaide-mor de Basto, comendador de S. Salvador de Sarrazes e S. Paio de Oliveira de Frades, a tinha pedido. O contador cedeu-lhe a filha, e o cargo, mediante o consenso do infante. Voltou a família para Lisboa, e para o palácio da Bemposta; mas o tesouro não foi exumado do seu esconderijo, nem Luís Pereira declarou à filha ou genro onde ele estava.

— Não tendes precisão do dinheiro nem das pedras, que lá estão — dizia ele. — de um momento para outro, espero rebeliões e tumultos, porque o pobre Afonso sexto tem amigos, e a Divina Providência não pode ver impassivelmente a perversidade com que lhe roubaram o trono, a mulher e a liberdade. Quando romperem os tumultos, romperão as joldas de salteadores, e então nos será preciso esconder o precioso. Deixá-lo estar, que o não roem as toupeiras. Quando eu vir o céu sereno, e a paz consolidada, então irei buscá-lo. E, se eu morrer de repente, já sabeis que trago neste dedo um anel, em cujo interior do aro encontrareis decifrado o enigma, sem recorrerdes ao livrinho de São Cipriano, nem às revelações das mouras encantadas ou desencantadas nos orvalhos de São João.

A cobiça de D. Francisca e do marido, e os ardentes desejos de Garcia e Filipe, grandes dissipadores, respeitavam o segredo do ancião, e não ousavam esquadrinhar nos pardieiros e subterrâneos da parte velha do palácio a lura do cobiçado tesouro.

Eis a razão dos ciúmes da mãe e irmãos, quando viam Jorge mais querido do avô, e mais recolhido com ele em secretas conversas.

Desde certo tempo, Luís Pereira, como desconfiando talvez que os perdulários sobrinhos se atrevessem, estando ele adormecido, a tirar-lhe o anel do dedo, quis, sem motivar o acto, que Jorge dormisse no quarto dele. Esta inovação mais assanhou a mãe; todavia, o prudente marido observou-lhe que se houvesse de modo que não azedasse a ira do pai, sob pena e risco de alguma hora o velho dar o segredo, o cofre e rica independência a Jorge.

Ansiosamente espiava D. Francisca modos de contraminar o afeto do velho.

Deparou-se-lhe um, que a Providência dos inocentes lhe inutilizou.