O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 9 de 46

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O Judeu

Capítulo X · Ao terceiro dia de sepultado Luís de…

 

Ao terceiro dia de sepultado Luís de Barros, continuaram as escavações e desmoronamentos nas lojas, tulhas e adegas da Bemposta. Os baixos daquele palácio eram já ruínas de casa incendiada. Os pátios foram deslajeados; as avenidas do jardim descalçadas; as paredes dos aposentos do finado ancião esgaravatadas e descaliçadas em todos os pontos suspeitos. Plácido de Castanheda benzia-se clandestinamente, e dizia entre si:

— Qualquer hora os tetos abatem sobre nós! Ficamos sem casa e sem tesouro!

D. Francisca Pereira ordenou que, durante a noite, se espiassem as entradas do palácio, temerosa de que o filho Jorge entrasse a desenterrar o cofre. Teve manhas de fazer vir à sua presença o velho escudeiro do seu pai, e prometeu-lhe a doação dumas casas em Lisboa, se ele desse algum indício do local em que o pai enterrara o dinheiro.

— Nunca mo disse, senhora — respondeu António Soliz.

— Nem tu desconfiaste? — volveu ela.

— Nem quis desconfiar, senhora. Foi coisa em que nunca pensei.

— Quando meu pai deu a Jorge o anel, estavas presente?

— Não, senhora.

— E a ti não te deixou nada?

— Deixou de mais para viver sossegado o restante da minha vida; mas se o que ele me deixou fizer falta a Vossa Senhoria, aqui o virei trazer, e irei servir, que ainda posso comigo.

— Quem te fala nisso, António!... acudiu ela. — O que eu queria era fazer-te rico, meu velho amigo, quanto mais tirar-te o que tens!... Queres tu ser rico?

— De que me servia a mim ser rico, senhora? Com pouco se vive e com muito se morre.

— Se fosses rico, podias fazer bem aos teus parentes.

— Não os tenho, ou não os conheço, bem sabe Vossa Senhoria os meus princípios; quando a fidalga era menina, fartas vezes lhe contei o funesto fim do meu pai, e a morte despedaçadora da minha mãe.

— Bem sei; mas... olha que sempre é bom ser rico... E em pouco estava teres tu do pé para a mão uma das minhas melhores casas na Rua das Esteiras, e a melhor horta de Campolide.

António desconfiou de uma proposta aviltante. Fez-se cor de cal, formalizou-se, levantou a cabeça, e disse:

— Eu não sei que vossa Senhoria quer dizer-me. Veja lá, senhora, que fala com o António Soliz que a fidalga conhece há mais de quarenta anos! Olhe que eu tenho a minha honra de pobre, senhora Dona Francisca, e deve conhecer-me...

— Conheço... — atalhou a fidalga abespinhada — , conheço-te como criado do meu pai.

— Tive esse honroso emprego: Deus mo tirou.

— Está bom... Podes sair... Queira Deus que o anel te não saia caro a ti...

— Eu não fujo, minha senhora — volveu serenamente Soliz — , às ordens de vossa Senhoria estou aqui, e onde a fidalga souber que eu esteja.

— Vai-te! Estou farta de palavreado! — terminou a iracunda senhora.

António dobrou o corpo a meio na mais reverente cortesia, e saiu.

Jorge ouviu a narração que o escudeiro fazia do sucedido, Ambos, de pronto, adivinharam que o intento de D. Francisca devia ser propor ao escudeiro o furto do anel, ou a delação das letras gravadas no arco.

O parecer de Diogo, conformado com a vontade do defunto, era que Jorge de Barros saísse de Lisboa para além-mar, ou ficasse em terra afastada da capital até se ocasionar melhor monção de assenhorear-se do pomo da discórdia, que era o tesouro, aquela boceta de peçonha, já envenenadora de algumas vidas.

Jorge aceitou o alvitre que era propriamente o seu. Impulsava-o para a província da Beira o coração. As angústias da saudade do avô eram-lhe ainda afiadas pelo medo da prisão de Sara. Quinze dias eram já volvidos, desde que ele recebera a última carta da sua amiga, por intermédio da aia da duquesa. António foi ao palácio do Cadaval, falou com o duque, e soube que Simão de Sã, para iludir os espiões do Santo Ofício, aconselhara a sua hóspede a não corresponder-se temporariamente com alguém. O duque fez saber ao neto de Luís de Barros que as recomendações do tribunal tinham afrouxado, depois que ele esclareceu o inquisidor-geral sobre a índole vingativa e injusta da perseguidora; sem embargo das tréguas, era, todavia, necessário — recomendava o duque — desconfiar sempre da crise sazonática do sanguinário leão de S. Domingos.

A 10 de Janeiro de 1700, Jorge de Barros e o seu escudeiro António Soliz saíram de Lisboa, caminho da cidade da Guarda, com valiosas cartas para o bispo e primeiros fidalgos daquela cidade. Ao primeiro encontro com os nobres, que aporfiavam em hospedá-lo, Jorge benquistou-se na estima de todos, e criou à volta de si afeições sinceras, que o indemnizavam da ingratidão e malquerença dos seus, sem contudo lhe mitigarem a saudade do avô.

Simão de Sã, consciente do puro afeto de Jorge à filha dos hebreus queimados, avisou a sua hóspede da morte de Luís de Barros, e da chegada do neto à Guarda. Permitiu-lhe que escrevesse uma carta de pêsames, e ele mesmo foi o portador a Jorge — No meado de Fevereiro, depois de se trocarem algumas cartas os dois amigos de infância, Jorge saiu da Guarda, e foi hospedar-se em casa do abastado israelita da Covilhã.

Alvoreceu uma estação de felicidade serena para Jorge de Barros. Era a primeira. A família do hebreu eram meninas e jovens de muita polícia, virtudes e saber. Simão de Sã passava por fiel observante dos preceitos do cristianismo; e os seus filhos apenas nascidos, tinham sido lustrados na pia batismal. Com a condição de ser tão hipócrita como os perseguidores dos judeus, Simão gozava créditos de cristão-velho, sossego e ordem no seu comércio. Algumas ameaças de inquietação costumava ele remi-las a dinheiro de contado sobre o telónio em que os ultrajadores de Cristo negociavam a paz dos hebreus poderosos.

O viver íntimo desta família judaica era patriarcal. Jorge estranhou a reciprocidade de amor dos irmãos, a ternura de Rebeca pelos seus filhos, o respeito dos filhos, a devoção com que eles amavam os pais.

Sara estava mais formosa do que tinha sido. Aquele ambiente de paz coava-lhe ar de saúde aos pulmões e luz de dignidade ao espírito. A tristeza do coração magoava-a sem aspereza, porque lhe sorriam esperanças, e a promessa de Jorge era tão sagrada para ela como para Simão de Sã os seiscentos e três preceitos da lei explicados por Abraão de Ferrara, médico português e o seu ascendente.

Narrava Jorge com suave mágoa os seus desgostos a Sara, desde que ela saíra do Convento da Madre de Deus. Ela escutava-o com o ar melancólico de Rute, e um lançar de olhos respeitoso, como se naquele mancebo, tão fidalgo, tão senhor e rei da sua alma, ela visse o Booz das santas escrituras. Amavam-se assim a reverem-se espelhados nos olhos um do outro, e com referência ao futuro de ambos nem palavra aventuravam.

Soube Jorge que a afilhada do seu avô se voltara de coração e consciência às práticas da religião judaica, e as usava secretamente para não causar desagradável estranheza ao seu amigo. Observou ele, no primeiro mês de hospedagem em casa de Simão de Sã, desde quinze de Fevereiro a quinze de Março, se praticaram quatro festividades e quatro solenes jejuns.

Perguntou ele a Sara: — Que festividades foram estas?... Não me respondes, minha amiga?! Tão sagrado é o mistério que até de mim o escondes!

— Não... eu digo-lhe, se quer, senhor Jorge... Este é o nosso mês de Adar, que começou em meado de Fevereiro dos galileus. No oitavo dia celebramos com o jejum a morte de Moisés. No dia nono, jejuamos porque é o aniversário da divisão das escolas de Shammai e de Hillel. No décimo terceiro dia, é o grande jejum de Ester; e no décimo quarto a grande festa Purim, ou do resgate do povo. Agora segue o mês do Nisa. Amanhã jejuamos em sentimento da morte de Nadal e Abin, filhos de Aarão. No décimo quarto é a festa da Páscoa. No quinto, dezasseis e vinte e um, havemos de jejuar por causa do primeiro, segundo e sétimo dia dos ázimos; e no vigésimo sexto comemora-se a morte de Josué, filho de Nun. Se quer — disse Sara — ensino-lhe todo o nosso calendário.

— Não — disse Jorge — , o que eu muito desejava era ler os vossos livros. O senhor Simão consentirá que eu os veja? Parece-me que já lobriguei num quarto que nunca mais vi, nem sei onde é, uma grande livraria.

Sorriu-se Sara, e disse:

— Esse quarto que viu, pode o senhor Jorge procurá-lo na casa toda que o não encontra, salvo se o senhor Simão lhe disser que comprima um botão de bronze do tamanho do seu anel. Mas, se quer, eu farei que lhe abram a porta.

— Desejo muito, porém, não vá ser isso inquietação ao nosso velho...

Neste mesmo dia, Simão de Sã conduziu Jorge de Barros à sua livraria. Como reposteiro à porta da biblioteca, via-se um painel, que figurava o Sermão da Montanha, quadro fraudulento com que o hebreu edificava os hóspedes cristãos. O quadro enrolou-se, quando o dedo de Simão carregou na cabeça dourada do prego em que o painel impendia. Descobriu-se um espaço de parede coberta de arrás como o restante da saleta. O hebreu acurvou-se: carregou noutra mola, que fez subir enrolada uma espécie de cortina.

— Aqui tem os meus livros, senhor Jorge. Muitos não lerá, que são hebraicos; mas deles há muitos em latim, castelhano e português. Aqui tem O Livro da Fé Demonstrada pela Razão, de Scem Tou de Leão. Aqui tem O Livro dos justos, de Samuel Chasid, impresso em mil quinhentos e oitenta e um. Este é o Pão das Lágrimas, de Samuel Ozeda de Saphet. Aqui tem o Talmude compendiado por Salomão Luria, e a Lâmpada de Ouro, do mesmo escritor. Aqui tem a justiça dos Séculos e mais dezasseis volumes do judeu português Isaac Abravanel, descendente de David, nascido em Lisboa em mil quatrocentos e trinta e sete, e falecido em Veneza por mil quinhentos e oito, quando ali fora conciliar os portugueses com os venezianos. Aqui está o Facho do Preceito e mais seis volumes do israelita português Joseph Ben Don. David Ben Don Joseph Abem Jachiia, falecido na Itália em mil quinhentos e quarenta e nove. Estoutro é o “O Livro da Luz”, do hebreu português Jos Ciiahu. Agora lhe ofereço um livro do meu ascendente Abraão de Ferrara que exercitou a medicina em Lisboa. Lindíssimo é essoutro livro de Abraão Sabua, também português: chama-se o Ramilhete de Mirra. Aqui está o celebrado comentário sobre o Pentateuco, do médico do Porto, chamado Menachem Porto, pai do grande cabalístico Abraão Ben Sechiel Cohert Porto, cujas Aldeias de Jair lhe ofereço, como leitura encantadora. Finalmente, senhor Jorge de Barros, aí estão mil volumes de escritores judaicos.

Começou Jorge a sua leitura pelo Pão das Lágrimas. Sara e Judite, filha de Simão, sentaram-se uma de cada lado da cadeira do jovem, e ouviam-no. Era um quadro mimoso para pintura!