O Judeu
Segunda Parte
CAPÍTULO I
Desde 1701, ano em que Jorge de Castanheda de Barros casou, até 1712, resumiremos os factos contingentes à nossa narrativa, poucos e de mediano interesse.
D. Francisca Pereira, sabedora do casamento do filho, saltou enfurecida como se lhe espremessem fel e vinagre na chaga da outra maior punhalada.
— Um filho assassinado, e outro judeu! — exclamava ela. — E eu sem marido, nem parentes que me vinguem!
Estes brados iam espedaçar o marido, que caíra enfermo e aborrecido da vida, assim que reconheceu impossível vingar-se dos Távora, e granjear a benevolência do rei. Excruciavam-no, ainda por cima das suas dores, os despropósitos iracundos da esposa que, a cada hora, lhe chamava homem de lama, e pai sem entranhas nem honra.
Plácido de Castanheda de Moura em meado do ano de 1703 já não vivia. Aquele homem enervado pelo servilismo aos caprichos da mulher, não teve, em fins de vida, vigor de alma com que reagir aos empuxões da adversidade que o atiraram à sepultura. Acabou sem lágrimas de ninguém, a não serem as de Jorge, que recebeu a triste nova em Amesterdão.
D. Francisca ficou bastante rica para não lastimar a perda do rendoso ofício do seu marido. Garcia de Moura Teles, engolfado nas delícias sórdidas de uma vida desbragada, não tinha tempo de carpir a morte do pai, que ele nunca respeitara nem amara.
Recebeu a viúva novas informações da Guarda. Noticiavam — lhe a expatriação de Jorge com a mulher. Com esta notícia, convenceu-se D. Francisca Pereira de que Jorge levara o tesouro da Bemposta, e saíra para o estrangeiro a gozar-se de uma rica independência.
Em 1704, Garcia casou, contra vontade da sua mãe com uma mulher de condição humilde e reputação mareada. Garcia ensenhoreou-se na administração dos vínculos paternos, e separou-se da mãe, injuriando-a. Pouco depois, como o palacete em que ela morava pertencia aos vínculos do pai, obrigou-a judicialmente a despejar. D. Francisca, esmagada, mas ainda vivaz como os fragmentos da serpente, começou a vingar-se dos filhos, desbaratando a sua meação e vínculos, em toda a casta de desperdícios, sem que a idade a embaraçasse de ganhar fama de acabar desonesta como começara sua vida de esposa. Aos cinquenta e dois anos, D. Francisca Pereira passou a segundas núpcias com um sujeito de meia-idade, filho sacrílego do bispo de Leiria, D. Fr. José de Lencastre. Este bispo era irmão do cardeal D. Veríssimo de Lencastre, e o seu sucessor nas honras de inquisidor-geral.
Cristóvão de Lencastre, marido de D. Francisca, mediante o valimento do seu pai, conseguiu o elevar-se a lugares importantes. Presume-se que a viúva de Plácido de Moura encontrou neste segundo o vingador do primeiro marido.
O filho do bispo galaneava em pompa de librés, carroças e arreiamento de cavalos; todavia, ao par com ele ninguém vira a mulher. Diziam que a má filha, má esposa e pior mãe expiava, na soledade da sua câmara, desprezada dos seus próprios criados e escravos.
Entretanto, Jorge de Barros, Sara, e o escudeiro António Soliz gozavam contentamento, sossego e prosperidades em Amesterdão. O velho, mordomo dos cabedais do seu amo, aventurara também os próprios no comércio da navegação, que os judeus portugueses e espanhóis tinham ensinado em grande parte aos holandeses. Abalançaram-se a maiores empresas, todas afortunadas. Jorge, deixando a mercancia à responsabilidade e perspicácia de Soliz, repartia seu tempo entre as alegrias domésticas e a convivência com os hebreus doutos da Península, que tranquilamente escreviam, filosofavam e doutrinavam em Amesterdão. Fez-lhe grande estranheza a distância a que viviam dos outros judeus os israelitas desterrados de Portugal e Espanha. Hebreu português que recebesse como esposa uma judia alemã, era logo expulso da sinagoga, excluído de todos os encargos eclesiásticos e civis, e nem sepultura lhe concediam entre os portugueses.
Indagando a causa desta divergência entre membros de uma mesma nação, perseguidos pelo mesmo ódio, soube Jorge que os hebreus portugueses e espanhóis se tinham em conta de representantes da tribo de Judá, a mais nobre das tribos, enviada à Espanha, no tempo do cativeiro de Babilónia.
Como quer que fosse, os judeus portugueses eram os melhormente conceituados e respeitados em Holanda. No correr de dois séculos da sua residência naquela paragem, apenas se citava raro exemplo de judeu português punido por alguma malfeitoria.
Em Amesterdão frequentava Jorge de Barros as famílias dos Nunes, Ximenes, Teixeiras, Prados, Pereiras, e outras donde, volvidos anos, saíram o barão de Belmonte, ministro de Espanha em Holanda, D. Álvaro Nunes da Costa, ministro de Portugal, Machado, que mereceu a privança de el-rei Guilherme, o barão de Aguilar, tesoureiro da rainha de Hungria, e muitos outros hebreus, donde procedem famílias hoje ilustres em títulos e riqueza.
Sara encontrou parentes na Haia, descendentes dos irmãos do seus bisavós, e destes soube que existiam outros no Rio de Janeiro, apelidados Silvas, um dos quais, João Mendes da Silva, advogava naquela cidade com grandes créditos. Abriram as duas famílias correspondência amiudada. Sara admirava as cartas discretas e instrutivas da sua parenta Lourença Coutinho, mulher do advogado Silva.
As famílias de Silvas e Coutinhos, no meado do século XVI, tinham emigrado para a Holanda; e, no reinado de D. João IV, reavido do novo mundo o território usurpado pelos holandeses, passaram ao Rio de Janeiro, fiados no privilégio de inviolabilidade com que os governos portugueses angariavam população para aquelas colónias americanas.
Lourença Coutinho convidava instantemente Sara a transferir-se ao Brasil; porém, Jorge, contente da mediania do seus recursos, e do trato dos hebreus com quem afetuosamente se dava, desconvencia sua mulher do desejo de passar ao Novo Mundo.
Algumas vezes, a imaginação de Jorge de Barros desferia um voo alto, para longe, e baixava sobre aquele Neptuno da quinta da Bemposta. Lia o catálogo que o avô lhe dera dos valores encerrados no cofre, e, apesar do desprendimento de ambições, inquietavam-no desejos de possuir uma riqueza, que podia ser fortuna para muitos netos de portugueses que pobremente divagavam pela Europa. “Quem sabe”, dizia ele entre si, “em que mãos caiu o tesouro! É impossível que a rainha Dona Catarina conservasse aquele tanque e a estátua grosseira do Neptuno. “A estas incertezas respondeu Simão de Sã com uma carta datada em Janeiro de 1706.
Dizia-lhe que a rainha da Grã-Bretanha morrera de cólica no palácio da Bemposta em 31 de Dezembro do ano findo, e que ele, por estar nessa ocasião em Lisboa, intencionalmente fora ao palácio com o pretexto de assistir aos responsórios cantados na magnificente capela que D. Catarina edificara no palácio. juntava Simão de Sã que, depois do saimento do cadáver para Belém, se ficara conversando com um criado ordinário da defunta acerca das obras que a virtuosa senhora mandara fazer naquele palácio tão pouco tempo gozado. E, como a pergunta viesse a molde, inquiriu ele do atencioso criado, como quem conhecera a quinta em antigos tempos, se um tanque em que havia uma estátua tinha sido reconstruído. O criado respondeu que não, porque a senhora rainha gostava muito de ir sentar-se à beira do tanque por ser sítio de muitas sombras e frescura.
— Mas então — disse Simão de Sã — a estátua, que estava em seco, torna a deitar água pela boca.
— Não, senhor. A sua Majestade, quando o arquiteto das obras quis repuxar a água, disse que não bulisse no que estava, porque era feia coisa a boca do Neptuno a servir de bica; e, além disso, a queda da água no tanque a distraía das suas orações e lhe molestava a cabeça.
Não obstante, Simão de Sã receava que D. Pedro II, herdeiro da irmã, continuasse as obras, e apeasse o Neptuno.
Como quer que fosse, o cofre existia ainda. Jorge de Barros entreviu a possibilidade de havê-lo ainda, e mais facilmente, quando o palácio da Bemposta estivesse desabitado.
No fim do ano de 1706, Jorge de Barros deliberou viajar com a sua mulher, adoentada gravemente pelos ares da Holanda. Aconselharam-lhe regiões quentes, e nomeadamente o Brasil. Foi já saúde para Sara a alegria de ir ver a sua parente Lourença Coutinho, a qual, na última carta, lhe dava a fausta nova de ter salvado a vida ameaçada do seu terceiro filhinho.
António Soliz ficou em Amesterdão, curando do negócio do seu amo.
Em Março de 1707, já Sara e o seu marido estavam hospedados no Rio de Janeiro em casa de João Mendes da Silva, pessoa de teres e consideração, muito lido em leis, aparentando fervor de católico, nas devotas poesias em que exercitava a musa enfastiada dos autos; e em consciência mais filósofo, mais espinosista que judeu. As delícias de Lourença eram os seus três filhos André, Baltasar, e o mais novo dos três, António, que tinha dois anos. Das poesias do marido ria ela como sincera judia que era.
Sara, sedenta da felicidade de mãe, afagava o gracioso Antoninho, confessando o pesar de não ser dela, e a inveja que a sua amiga lhe fazia com três lindos meninos.
— Se eu tivesse uma filha — dizia Sara a sua prima — , desde já nos comprometíamos a fazê-la esposa do teu António.
— Ainda estás muito em tempo de entrar comigo em contrato — dizia Lourença. — Tens vinte e seis anos, Sara. As mulheres querem-se mais novas que os maridos. Se, dentro de dez anos, fores mãe de uma menina, a tua filha será minha, quando tiver quinze anos, e o meu António será teu. Estamos comprometidas por juramento?
— Sim, prima — assentiu alegremente Sara. — Pode ser; não pode, Jorge? — perguntou ela com adorável lhaneza ao marido.
Jorge sorriu-se, e o doutor João Mendes festejou a pergunta com uma boa gargalhada, que tingiu de púrpura o rosto de Sara.