O Judeu
Capítulo XI · Não bastava Sara e a filha a…
Não bastava Sara e a filha a divertirem o pensamento de Jorge, torvamente fixo e concentrado no suplício afrontoso do seu irmão. Pode ser que este sucesso o abalasse pouco, se a doença, ulcerando-lhe, digamos assim, o órgão da sensibilidade, o não predispusesse a ver na desgraça do seus irmãos e da sua mãe uma fatal estrela que sinistramente o perseguia a ele e perseguiria sua mulher e filha.
Esta pertinaz apreensão, debalde combatida com razões e carícias, desfechou em monomania que ameaçava completo desconcerto de juízo. Jorge, abraçado a Leonor, falava-lhe do funesto destino que ela havia de cumprir; e, se a mãe, lavada em lágrimas, o contradizia, apelando dos prognósticos dele para a bondade de Deus, Jorge, num tom de declamação trágica e suspeita de insânia, exclamava:
— E tu, Sara, se melhor morte não te colher cedo, morrerás como tua mãe e como teu pai! Morrerás na fogueira!... e a nossa filha morrerá como tu e como eles!...
Os dias passavam todos assim escuros. Não volveu um só de esperanças. A enfermidade acelerava-se tanto ao seu fatal remate, que já não havia na ciência nem na piedade respiradouro aos apertados corações das duas famílias que, em volta do enfermo, pareciam indistintas pela paixão das lágrimas. Jorge de Barros dizia a Simão de Sã que a Providência trouxe-ora da Covilhã para receber uma viúva e uma órfã, no desamparo de marido e pai. Explicava-lhe o estado dos seus minguadíssimos haveres, deplorando a quase pobreza em que deixava sua família. Lembrava-lhe expedientes quase impraticáveis para desenterrar o tesouro da Bemposta; e pedia-lhe que por conta das futuras riquezas da sua mulher, ou filha, adiantasse Simão de Sã o empréstimo necessário para a subsistência de ambas.
Com estas melancólicas disposições, e outras mais dolorosas práticas com a sua mulher, passaram os últimos dez dias de Jorge de Barros; até que a morte, tão esperada e todavia de surpresa para todos, lhe desatou a alma dos vínculos do corpo cortado de dores acerbas. A religião de Jorge resplandeceu nas últimas horas, senão de modo que todos creiam que aquela alma se juntou a Deus, pelo menos não há cabal argumento que nos induza tristemente a pensar que se perdeu. Jorge expirou sem o cerimonial católico, é isso verdade; mas também não aceitou o cerimonial judaico. Quando ele viu o rabino com dez testemunhas em volta do seu leito, acenou que se retirassem, e disse:
— A testemunha da minha consciência é Deus. O Senhor de bondade e de misericórdia me julgará sem ouvir o depoimento das testemunhas da minha confissão (*)
[(*) Quando um hebreu entra em trabalhos de agonia, acercam-se-lhe do leito um rabino e dez testemunhas, que lhe ouvem a confissão dos pecados, feita alfabeticamente. Cada letra simboliza um pecado dos mais comuns; porém, se o moribundo tem espírito e boa inteligência para se exprimir sem os símbolos, confessa-se à maneira dos cristãos. O enfermo pede a Deus que lhe dê saúde, ou se amerceie da sua alma; e principalmente lhe pede que contrapese nas culpas as dores do trespasse como expiação. Os amigos do agonizante juntam-se na sinagoga a orar por ele, com um nome diverso do que ele tinha, a fim de mostrarem que é já outro homem pelo arrependimento. Os que permanecem na câmara águardam o instante da morte, e alguns beijam a face do defunto, costume antiquíssimo, como de Filon se infere, quando lastima que jacob não pudesse dar o derradeiro beijo no seu filho, inesperadamente morto. Esta usança, significativa de supremo adeus às almas queridas, passou aos pagãos, se havemos de chamar usança a um acto em que é tudo a ternura, a paixão e a dilacerante saudade.]
Leonor foi anjo da esperança, como ajoelhada à beira da sepultura do pai, pedindo a sua mãe que por amor dela se não lançasse à mesma sepultura. Sete anos tinha então Leonor, encantadora criança a quem os pressagiadores vaticinavam desventuras, tirando os seus horóscopos de um ar triste e pensador com que a menina punha os olhos naquele céu triste como ela, e por largo espaço se detinha no seu enlevo, julgando que via o pai, ou Deus sabe se estas visões as permite Deus aos seus anjos deste mundo. Sara pôde, pois, levantar-se da sua prostração, aquecer o rosto quase frio de morte nos lábios da filha, e enxugar as lágrimas para poder ver o escabroso caminho por onde havia de atravessar guiando a sua orfãzinha pobre.
Os poucos teres, administrados por Simão de Sã, pareciam dar lucros bastantes para alimentação de Sara e Leonor, ou, mais exatamente, fingia o hebreu da Covilhã que a herança de Sara era mais valiosa do que pensava Jorge.
O comércio de Simão prosperara em Amesterdão mais desassombradamente que em Portugal. Isto lhe compensou a perda dos bens de raiz na pátria, logo confiscados pelo Santo Ofício, visto que a fuga do proprietário indiciava exuberantemente o judaísmo de Simão e dos seus parentes, também espoliados.
Leonor ia crescendo em graças de corpo e espírito. Sara obedecia à vontade do marido que, nas suas viagens e trato com sociedades diversíssimas da portuguesa, criara desejos e invejas de ver sua filha instruída varonilmente como tantas damas que se lhe depararam no estrangeiro, especialmente em Itália, nas famílias israelitas. Em Amesterdão abundavam matronas ilustradas, feitas na convivência da judia portuguesa Isabel Correia. Com estas estudava Leonor as prendas literárias, sem descurar das outras.
Decorreram cinco anos. A correspondência de Lourença Coutinho, com mais ou menos resguardo da espionagem da Inquisição, nunca descontinuou. Lourença, como mulher que muito padecera e pagara tributo grande de lágrimas à saudade de Jorge, seu livrador, inventava ditames consoladores para despenar o coração de Sara. O plano de casar o seu António com Leonor não sofrera a menor quebra. Queria ela que o consórcio se realizasse logo que o filho concluísse a formatura em Coimbra; mas este desejo era embaraçado pelo medo do perigo que Sara poderia ainda correr em Portugal.
Sara, rogada pela sua amiga, mandou-lhe o retrato de Leonor, o qual foi dado ao académico António José, nas férias do seu último ano de estudos.
António José da Silva, que assim se assinava o canonista, respondeu ao mimo com arrebatada e amorosa poesia, da qual sua mãe fez presente a Leonor, A menina respondeu com ingénua doçura aos versos em breves linhas de prosa, nem entusiastas nem esperançadas. Quase que a isso a compelira suavemente a mãe, referindo-lhe então o pacto jubiloso que ela com a mãe de António tinham feito, seis anos depois de ter nascido a prometida esposa. Leonor, com um sorriso de precoce gravidade, achava graça à brincadeira de duas mães felizes.
No fim do ano de 1726, recebeu Sara a notícia de ter morrido D. Francisca Pereira Teles, em casa dos primos Barros, depois de sete anos de rematada demência, com acessos de fúria aterradora. Constava, no dizer de Lourença Coutinho, que fora exemplar em horror a morte dela, porque a Providência justiceira lhe dera luz de razão nas suas últimas vinte e quatro horas para que ela visse a vida que deixava, e os méritos que levava à presença do juiz Supremo. E assim, acontecera o sair-lhe à porta da eternidade o ancião Luís Pereira, o pai, amaldiçoando-a; o marido tombado à sepultura por desgostos afrontosos que lhe ela dera; os filhos perdidos pela perdição moral da sua mãe, que lhes empeçonhara os instintos com a licenciosa vida que lhes favoneara. E, como então lhe dissessem que o seu filho Jorge tinha já morrido desde muito em Holanda, D. Francisca revelara um prazer feroz na certeza de que ele, como judeu que se fizera, estava no inferno irremediavelmente. Este hediondo espetáculo de uma agonia em arrancos, interpolados de esgares de júbilo, não havia quadro de horrores desta vida com que compará-lo! As piedosas exclamações dos frades não puderam com ela nada. As vinte e quatro horas lúcidas não lhas dera Deus para o arrependimento, se não para que ela entrasse noutro mundo com a memória do que tinha sido neste. Eram estas e outras as reflexões que o advogado João Mendes fazia a sua mulher, e ela comunicava à sua amiga.
No tocante aos haveres de D. Francisca Pereira Teles, a opinião de João Mendes da Silva era que Leonor, filha de Jorge, pouquíssimo ou nada poderia cobrar. O vínculo muito deteriorado, por morte de Garcia de Moura, passara ao primogénito da mulher, com quem não fazia vida. O segundo marido de D. Francisca senhoreara-se do restante da casa, sobrecarregando-a de ónus e dívidas, reais e fictícias, das quais era já coisa quase impraticável desembaraçar o património de Jorge de Barros. Por este lado, Sara não tinha que esperar de Portugal. Porém, dizia Lourença: “Ainda te fica o tesouro da Bemposta, porque eu não ouvi dizer nem levemente que alguém o descobrisse. No palácio residem os infantes Dom Francisco e Dom António, irmãos de Dom João V; e, como meu marido conhece o capelão-mor, algumas vezes lhe tem falado no tesouro, para o sondar, e o capelão diz que o tal tesouro era a guarda avançada da maluquice de Dona Francisca. Este capelão tem um filho que é almoxarife da Bemposta, e acredita que o tesouro existe, porque ouviu contar a história do anel. Andou ele algum tempo atrás do meu marido, querendo saber em que parte do mundo estavam os herdeiros de Jorge de Barros para se entender com eles a respeito do tal anel; mas meu marido, cautelosamente, lhe mentiu, dizendo que nunca ouvira falar em tal coisa; para que não fosse o homem revolver a quinta, e por arte do diabo encontrar o tesouro.
Olha que eu tenho esperanças de ainda te ver a ti possuidora das riquezas do teu marido, minha Sara. Mais tarde ou mais cedo, vens para Portugal. Isto depende de espreitar o ânimo da Inquisição. Meu marido volta que ainda é cedo; mas a minha saudade faz-me persuadir que o meu velho é muito timorato. Eu penso que podias estar em Lisboa com outro nome, enquanto esta sanha dos algozes não abranda. Dos teus inimigos já não vive nenhum. Não sei quem te iria acusar agora!
Mais receio me faz o meu António com as suas imprudências lá por Coimbra, segundo alguns estudantes hebreus me avisam. Vive muito ligado, quando está em Lisboa, com aquele Francisco Xavier, filho da minha amiga Isabel de quem já muitas vezes te falei. Este Francisco não é judeu nem cristão: diz ele que é filósofo, e não se esconde para cortar nos frades e na Inquisição. Quem viu-o tão devoto e crendeiro há oito anos! Acho que o respeitam por causa do conde de Tarouca, com quem ele está sempre; mas temo que o meu filho seja o responsável pelos delírio dele.
O Antoninho queixa-se da frieza da sua futura noiva, dizendo que a atmosfera da Holanda lhe nevou no coração. Quando ele cá veio a férias de Páscoa, eu, para ouvi-lo, disse-lhe que desconfiava da nenhuma inclinação da nossa Leonor para o matrimónio, à vista da glacial tibieza das suas cartas. O rapaz, ouvindo isto, deu dois passeios na sala, e recitou uma décima, que me fez rir, e aqui ta mando para que também te rias. Vê tu que graça tem o diacho do poeta:
Toda a mulher que não for
Inclinada ao matrimónio,
Há de levá-la o Demónio,
Se não a levar amor:
Trate logo de depor
O seu tirano desdenhar;
Porém, se não abrandar
O seu vigor, deve escolher
Ou casar por não morrer,
Ou morrer por não casar.(*)
[(*) Esta décima está numa das óperas de António José da Silva.] Não te persuadas tu, Sara, que o meu António tem génio folgazão. Não fazes ideia das tristíssimas horas que o afastam da convivência da família! Fecha-se no seu quarto, encosta a face às mãos, e fica-se num torpor de que só eu consigo acordá-lo com muitas carícias. já uma vez me disse que tinha pressentimento de grandes infortúnios. de outra vez, pediu licença ao pai para sair de Portugal, embora tivesse de granjear a sua subsistência no estrangeiro exercitando algum baixo ofício. Mas (coisa singular!) tudo que escreve é alegre! Diz ele que nas horas de maior tristeza tira da imaginação as cenas mais engraçadas das comédias que tem já tecidas para lá para o futuro as aperfeiçoar.
O pai grita-lhe que estude Direito Canónico, e ele o que faz é ler e reler um grosso livro que ele chama o seu Plauto, e outro chamado Gil Vicente.
Que impertinências as minhas quando te falo neste meu filho tão querido! Desculpa os excessos do meu coração, Sara, porque és mãe. Pede comigo a Deus que os presságios dele se não realizem; e a tua inocente filha que peça também, porque o céu não pode ser surdo às orações da nossa linda Leonor. “
CAPÍTULO XII
Sara tinha vivas saudades de Lisboa, como se alguma hora de felicidade lhe tivesse reverdecido uma palmeira no deserto da sua árida juventude. ódio devera ela sentir à terra em que pai e mãe lhe queimaram as labaredas, ainda acesas para os seus desventurados irmãos. Simão de Sã não entendia as saudades de Sara; combatia-lhas para despersuadi-a de voltar a Portugal, enquanto o rodar do tempo não esmagasse os sanguinários fanáticos, recrudescidos num reinado em que os errados pressagiadores tinham previsto o melhoramento dos hebreus, inferindo a conjetura do alívio que eles experimentavam em todos os estados, tirante Espanha.
Sara parecia condescender; não cessava, porém, de recomendar a Lourença Coutinho que averiguasse o ânimo do Santo Ofício, e a chamasse logo que o pudesse fazer com segurança.
O doutor João Mendes da Silva, fiado no parecer do familiar do Santo Oficio Diogo de Barros e do contador-mor José de Oliveira e Sousa, disse a sua mulher que podia afoitamente chamar Sara, não para a companhia deles, mas para a dos Barros, que, sem embargo de ela pertencer à comunhão judaica, a recebiam como viúva de Jorge de Barros.
Simão de Sã, postas as coisas neste pé de segurança, não impugnou a saída de Sara, senão com as suas lágrimas e as da família que se tinha afeito a julgar que as duas senhoras eram suas e para todo o sempre. Fraca oposição era a das lágrimas ao fulgor atrativo daquela funesta estrela que o moribundo Jorge de Barros vira iluminando o destino dos seus!
Recebeu Sara a herança muito aumentada do seu marido, e saiu de Amesterdão entregue à família do cônsul espanhol na Haia, que retirava para Espanha, em embarcação que se dirigia a Sevilha. Simão de Sã, temeroso da Inquisição de Sevilha, a primeira na Península, o manancial de fogo que derivara por sobre o território das Espanhas, e cortara os mares até às índias, agourou mal da passagem de Sara por sobre aquele chão maldito ensopado de sangue de hebreus; não obstante, a viúva deu nenhum peso aos agouros de Simão, tendo como impossível o estorvar-lhe o passo o Santo Ofício numa terra em que ela não era conhecida, indo para além do mais em companhia de uma família cristã e muito considerada em Espanha.
O rosto do hebreu ressumbrava o desgosto profundo da quase ingratidão de Sara, que, por amor de Lourença Coutinho, podia separar-se sem lágrimas das pessoas que a tinham salvado nos dias da perseguição. Ao mesmo tempo, os olhos de Leonor afogavam-se em choros, protestando contra o procedimento inexplicável da sua mãe, que trocava uma existência segura e pacífica pelos sobressaltos de Portugal, donde cada hora estavam fugindo os hebreus com os seus haveres, a muito custo subtraídos à vigilância da Inquisição.
— Torna para nós, se a tua mãe se perder, e a ti te deixarem, minha filha — disse Simão em segredo a Leonor. — Volta para a família em cujo seio nasceste, menina. As minhas filhas acalentaram-te nos teus primeiros sonos. O teu berço foi o delas. Ama e obedece a tua mãe; mas, se ela te faltar, volta para nós.
Sara olhava com supersticioso medo para as lágrimas de Leonor, quando, no mar alto, a menina voltava o rosto amargurado para os nevoeiros em que lhe ficava Holanda e nós querida da sua infância. Falava-lhe a mãe do céu, das árvores, dos laranjais, do sol, das estrelas de Portugal. Leonor, numa dessas descrições das delícias da sua Lisboa, por amor do sol, das estrelas, dos laranjais, atalhou-a, dizendo:
— E as fogueiras, mãe?!
— Que horrível pergunta, minha filha!... Pelo amor de Deus, não me fales nisso!... Pois não viste a carta de Lourença?!
— Vi... e também, viu-a o senhor Simão — respondeu Leonor. — E a mãe bem sabe com que terror ele nos viu partir...
— Era a amizade que nos tinha, menina...
— Pois sim... mas... melhor fora... Sara precisava de que alguém lhe desse alento para não se deixar vencer do medo da filha. A coragem, com que se despedira, ia-lhe minguando. Já o arrependimento começava a dar-lhe tratos. A si mesma se perguntava ela, com feminil versatilidade, como pudera sacrificar a paz e tal qual satisfação que tinha em Holanda, a um pueril prazer de voltar à terra onde apenas tinha uma amiga, pela qual deixava tantas e tão provadas em grandes aflições!
E Leonor continuava a chorar silenciosa. A família espanhola julgava mais de si que das tristezas de Sara e da filha. Bem que tolerantes, a esposa e mais damas do cônsul castelhano olhavam de soslaio para as judias, cuja companhia tinham aceitado, porque o cônsul era muito obrigado a Simão de Sã e outros hebreus portugueses que, ao invés do seu costume, lhe tinham emprestado dinheiro sem onzena. Cá, porém, no mar alto, os cuidados das damas enjoadas, com as israelitas portuguesas, podiam sem injúria igualar-se a uma completa indiferença, como se receassem saltar do mesmo bote, no cais de Sevilha, acamaradadas com gente de tal raça.
A bordo do navio, viajava um mercador de Valhadolide, homem de meia-idade, que desde o embarque fitou Leonor com olhos requebrados, e não perdia azo de lhe dizer finezas. De Valhadolide era também a família do cônsul.
Sara, bem que notasse o desgosto com que a sua filha escutava forçada as galanices algum tanto serôdias do espanhol, conversava com ele por ser o único passageiro que de melhor sombra se esmerava em obsequiá-la, com os olhos sempre envesgados à sombria e formosa menina. O espanhol, que os seus patrícios consideravam muito, ofereceu a Sara o seu valimento, em país onde realmente lhe era necessário, visto que ela era cristã-nova, segundo ouvira dizer a um familiar do cônsul. Aqui viu a hebreia quão mal recomendada fora a uma gente que a denunciava e punha em risco de ser presa em Espanha. Aos sustos de Sara acudiu o mercador com a promessa da sua eficaz proteção.
A viúva, convencida da insinuante bondade dos quarenta ou mais anos do seu companheiro de viagem, relatou o essencial da sua vida, com indiscreta lhaneza. Péssima qualidade têm as boas almas: é serem comunicativas, abertas, dadas com infantil expansão. O espanhol ouviu com interesse a história de cuja revelação Sara se arrependeu, logo que a filha lhe disse:
— Deus queira que a mãe se não arrependa de falar tão sinceramente com uma pessoa desconhecida!... Não sei que mal o coração me diz deste homem!...
— Isso é injustiça, filha!... — atalhou Sara. — Pois nós há de desconfiar de quem nos trata com tanta cortesia, e nos oferece os seus serviços em terra estranha...
— Toda a terra é estranha para nós, minha mãe... em toda a parte nos cercam inimigos, desde que saímos do amparo do senhor Simão.
— És visionária, Leonor! Fazes-me medo!... já estou arrependida...
Entretanto, o negociante de Valhadolide não cessava de galantear Leonor que, temendo o despeito do pertinaz requestador, lhe recebia menos severamente as graças e delicadezas enfadonhas.
Aportaram a Sevilha. Daqui, tencionava Sara, dirigida por pessoa a quem Simão de Sá a recomendara, seguir por terra para Portugal. O mercador, a quem o tempo ia escasseando segundo o intento não desonesto do seu afeto a Leonor, declarou-se, pedindo à mãe a mão da filha. Sara respondeu que o marido dela lhe fora destinado já antes de ter nascido.
O espanhol contraditou esta fútil objeção inventariando as suas riquezas e poderio, não sem deixar transparecer o despeito em que o desprezo de tal oferecimento poderia deixá-lo. Leonor instava com a sua mãe a pronta saída de Sevilha, principalmente depois que os cristãos-novos a quem vieram recomendadas lhes incutiram receios de alguma vilania vingativa de tal homem.
Já aterrada e desnorteada, Sara não sabia que fazer. Faleceu-lhe o ânimo ainda antes de se avistar com a sombra da Inquisição. Os hebreus em cuja casa elas se hospedaram, assustados do risco em que tais hóspedes poderiam pôr o seu sossego, estavam em ânsias de os despedirem. Sara foi ter com a família do cônsul, pedindo-lhe auxílio. A família condoída ofereceu-lhes levá-las consigo para Valhadolide, e de lá enviarem-nas cautelosamente para Portugal. É de supor que o mercador opulento chamasse ao seu partido a família do cônsul; porque muito espantadas as senhoras censuravam Leonor por não aceitar tão rico marido, que o mais auspicioso dos acasos lhe deparava.
Nesta desordem de coisas, e aflitivas vacilações de Sara, dizia Leonor:
— Veja, minha mãe, a paz que deixamos, e a inquietação que nos atormenta!
Sara, como se visse desamparada de melhor conselho, abraçou a cavilosa proteção das damas espanholas, e seguiu com elas para Valhadolide.