O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 15 de 46

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O Judeu

Capítulo III · — Estou sem esposa! — exclamou João…

 

— Estou sem esposa! — exclamou João Mendes atirando-se aos braços de Jorge, que lhe não podia responder embargado pelos soluços. — Os meus filhos estão sem mãe? — perguntou ainda em aflitivo ansiamento o advogado.

— Não, senhor — respondeu o velho Diogo de Barros. — Há de ter brevemente esposa, e estes meninos sua mãe. Não chorem, filhinhos, que a mãe não corre perigo.

— Não? — clamou João Mendes, querendo ajoelhar aos pés de Diogo de Barros. O velho susteve-o nos braços, e disse-lhe:

— Sossegue: meu sobrinho lhe dirá que Diogo de Barros pode alguma coisa com o inquisidor-geral Nuno da Cunha. Vou sair. Escreva a sua esposa, que as suas cartas hão de ser-lhe entregues, através de todos os embaraços.

Saiu a falar com o inquisidor o digno sobrinho de Luís Pereira de Barros. No entanto, Jorge aquietou o terror do seu amigo e a inquieta consternação dos meninos com as esperanças de que o seu ânimo estava convencido. João Mendes quis escrever a Lourença, mas o que tinha na alma para ela eram lágrimas inexprimíveis, angústias que lhe enturvavam a razão, gritos e não palavras, frenesis que o faziam saltar da cadeira, e correr para os filhos em gemidos e gestos de mortal desesperação. Suplicava-lhe Jorge de mãos postas que fizesse um esforço para enfrear a sua agonia, lembrando-se da coragem com que os seus avós tinham sofrido maiores dores, os tormentos inexprimíveis da separação eterna do seus filhos, o espetáculo da violação das suas mulheres, o desvario horrendo de matarem às próprias mãos as suas criancinhas.

Aplacava-se a intervalos a ansiedade de João Mendes; mas o desesperar-se e carpir-se redobrava nas intermitências, e então era o pedir ele a Deus lhe levasse os filhos para lhe não falecer coragem de matar-se, quando sua mulher fosse condenada à morte.

Jorge, como visse que João Mendes não atinava com escrever duas linhas, escreveu ele a Lourença Coutinho, incutindo-lhe valor para esperar a sua próxima liberdade. Referiu-lhe a situação do marido e dos filhos. Pedia-lhe que chorasse como desafogo, e se lembrasse sempre deles para sentir necessidade de vida e alento.

Ao entardecer, chegou Diogo de Barros com bom rosto. O inquisidor prometera-lhe tirar com a máxima brevidade o depoimento das testemunhas no Brasil; e, se as culpas não fossem mais graves do que a denúncia as fazia, assegurava a Diogo de Barros que no prazo de cinco meses ou menos se faria auto-de-fé, e então Lourença Coutinho sairia livre.

Enquanto a João Mendes da Silva, juntou o inquisidor, podia estar descansado, e tratar da sua vida, que nenhuma carga lhe faziam as denúncias.

— Cinco meses! — exclamou João Mendes. — E há de estar minha infeliz mulher cinco meses encarcerada!... E não hei de vê-la, nem ela há de ver seus filhos!... ó senhor Barros!... Eu morrerei antes de se acabar esse grande prazo de tempo!...

— Morrerá, se for um fraco... — atalhou o velho.

— E ela... — redarguiu o Silva — , ela... quem lhe deu força para viver cinco meses em masmorras?

— Há de dar-lha o Altíssimo, e há de dar-lha seu marido... Qual angústia deveria ser a sua, senhor Silva, se a sua mulher igualasse em posição algumas pessoas que entraram hoje com ela, para saírem no mesmo auto-de-fé condenadas ao fogo!? A senhora Lourença Coutinho, segundo coligi das meias palavras do cardeal-inquisidor, é a única de quem meras suspeitas prometem breve termo de prisão. Até pode acontecer que, antes do prazo dos cinco meses, consigamos libertá-la, ou pelo menos melhorar-lhe o cárcere, transferindo-a para algum recolhimento, como tem acontecido com presas levemente culpadas.

Diogo de Barros, voltando-se para o sobrinho, continuou: — Olha que o inquisidor perguntou-me se tu abjuraras a religião católica em Holanda. Respondi que não, e ele sorriu-se. É preciso supor que os sorrisos de um inquisidor são como o abrimento da boca dos crocodilos. Cautela, Jorge! A tua mãe não há idade nem desgraça que lhe amolgue a índole rancorosa. A tua mulher é filha de hebreus, que muita gente viu morrer no Terreiro da Lã. Olhai por vós, que eu receio não vos poder valer, se uma vez cairdes nas mãos dos dominicanos. A tua presença em Lisboa é inútil para a liberdade da senhora Lourença Coutinho. Com pesar te digo que vás para a Covilhã, e te não detenhas lá mais tempo do que eu te prescrever. Assim que te eu disser que fujas, foge, porque eu hei de saber pontualmente quando se passarem ordens para a vossa captura.

— E sabê-lo-á, meu tio? — perguntou Jorge. — O segredo do infame tribunal ser-lhe-á revelado?

— Não chames infame ao Tribunal da Suprema Inquisição — acudiu Diogo de Barros, sorrindo — porque eu... sou familiar do Santo Ofício.

— O tio!? — exclamou Jorge.

— Sim, eu: entendi que assim era necessário para salvar-te. Pedi que me aceitassem, logo que soube do teu casamento com Sara. Na qualidade de empregado da Inquisição ofereço ao senhor doutor João Mendes da Silva o meu préstimo, se lhe sirvo como portador das suas cartas para sua mulher. Ora, ambos estão vendo que o ser familiar do Santo Ofício tem prerrogativas não despiciendas; e, depois de tudo, e por cima de tudo, asseveram os filhos de São Domingos que os familiares da santa empresa gozam na bem-aventurança um lugar distinto, sentados logo abaixo do trono de Torquemada, de Pedro Arbués, e doutros apóstolos da redenção de Israel. E agora — continuou Diogo de Barros batendo no ombro de João Mendes — peço-lhe encarecidamente que venha com os seus filhos sentar-se à mesa deste vigilante da Inquisição. Precisamos comer para assistirmos a esta deplorável tragédia que vai correndo há não sei quanto mil anos debaixo dos olhos da Providência.