O Judeu
Capítulo III · António José da Silva granjeara fama de…
António José da Silva granjeara fama de abalizado engenho. As suas jocosidades métricas andavam manuscritas por mãos dos entendidos, que as encareciam, por mais ou menos aquinhoarem das graças literárias da época, no nossos dias consideradas aleijões contagiosos das escolas italiana e espanhola. D. Francisco Xavier de Meneses, quarto conde da Ericeira, o mais fecundo e menos contaminado escritor português daquele tempo, recebia António José na sua casa, folgava de ouvi-lo recitar as suas comédias entremeadas de chistosas árias, recitava-lhe cantos da sua insulsíssima Henriqueida, e aconselhava-o a transviar-se da imitação servil dos espanhóis em composições teatrais, e dos trocadilhos de Gôngora nos poemas graves, em que apenas o bacharel por acaso se entretinha.
Francisco Xavier de Oliveira, reputado mancebo de rara inventiva e copiosa leitura nas intercadências das notórias travessuras, era também das palestras e saraus literários do conde da Ericeira.
Um dia, António José e Francisco Xavier encontraram na livraria do conde, folheando nos livros, enquanto o fidalgo não entrava, um Bartolomeu Lobo Correia, sujeito dado às letras, com o infortúnio deplorável de se não darem as letras com ele.
O conde, como amigo de gente ledora, ou porque não estremasse os incapazes, ou por se compadecer dos ininteligentes, acolhia Bartolomeu, dizendo aos mais íntimos que o pobre sujeito não tinha culpa de sair milagrosamente mais sandeu que o pai.
O pai deste Bartolomeu tinha sido um Pedro Lobo Correia, escrivão da Contadoria — Geral, falecido em 1708. Este sujeito entrara no templo das letras com o ofertório de um livro da sua lavra, intitulado Vida de Ako e Orações contra as Tempestades.
O título somente, sem ajuda das parvoiçadas interiores do livro, tinha sido o epitáfio do literato, tolhido no nascedouro.
Passados anos, como a paixão das letras o espicaçasse, deu-se a tradutor do espanhol, e saiu a mais modesto lume com o Nascimento, Vida e Morte Admiráveis do Grande Servo de Deus Gregório Lopes, Natural da Vila de Linhares: Composto pelo Licenciado Francisco Losa, Traduzido na Língua Portuguesa, e Acrescentado o Fim e Primeiro Capítulo. Ora, o fim e primeiro capítulo do livro era sobremodo tolo.
Além doutras traduções, Pedro Lobo, querendo dar testemunho público da sua piedade, das excelências do seu cristianismo, e assanhado rancor à raça hebraica, traduziu do castelhano um livro revulsivo, intitulado: Sentinela contra judeus, Posta na Torre da Igreja de Deus, & C Feito isto, e mais alguns serviços à religião da caridade e às letras portuguesas, morreu Pedro Lobo, deixando ainda um volume, o pior e mais brutal de todos, que era o filho Bartolomeu.
Estava, pois, Bartolomeu Lobo folheando os preciosos livros do conde da Ericeira, quando entraram António José da Silva e Francisco Xavier. Depôs estes, entrou o padre Luís Álvares de Aguiar, prior de S. Jorge, homem de sessenta anos e alegre sombra de velho em cujos olhos lampejavam ainda os clarões da juventude.
António José, que sinceramente odiava Bartolomeu, já pela estupidez herdada já pela própria, não perdia lanço de o meter a riso com salgadas galhofas na presença da fina e algum tanto livre sociedade do conde. Casualmente, relançando os olhos à livraria, o hebreu enxergou o livro em oitavo, intitulado: Sentinela contra judeus & C. Tirou o livro, e disse:
— Óh Francisco Xavier, já leste um diamantino livrinho traduzido pelo pai aqui do senhor Bartolomeu? A Sentinela contra judeus!
— Oh!... oh!... — cacarejou gargalhando o padre Luís Álvares. — Isso é uma obra que faz cócegas nos pés à gente.
— Então porquê? — perguntou o abespinhado filho do defunto tradutor.
— Porquê?! — disse o padre — , porque é obra recheada de sandices, e imoralmente porca e torpe.
— Que outro dissesse isso... — retorquiu Bartolomeu mas Vossa Senhoria, que é padre, e homem bem nascido!...
— Quer Vossa Senhoria — disse o presbítero — que os padres e homens bem nascidos sejam tão alarves como o senhor seu pai, que Deus haja na bem-aventurança dos pobres de espírito?
António José e Francisco Xavier riram. Bartolomeu, em harmonia com a sua costumada parvoíce, riu também; todavia, o ónagro, que fareja a fêmea nas brisas de Maio, ri com mais espírito.
O filho de João Mendes abriu ao acaso o livro, leu mentalmente algumas linhas, e disse:
— Ó senhor Bartolomeu, Vossa Senhoria estará na persuasão em que morreu seu engenhoso pai a respeito das doutrinas deste livro?
— Eu creio tudo em que o meu pai creu. Tudo que ele escreveu ou traduziu são verdades — respondeu o sujeito.
— Bem. Então defende o que se diz aqui, respeito à raça hebraica?
— Defendo, sim, senhor. São as doutrinas da Igreja; e por assim o entender, mandei reimprimir esse livro há quinze anos.
— Fez Vossa Senhoria muito bem, senhor Bartolomeu — obtemperou Francisco Xavier de Oliveira. — Estamos num país em que o livrinho do seu pai há de ser ainda terceira vez impresso. (*)
[(*) Foi efetivamente reimpresso em 1748.]
— Merece-o! — disse António José da Silva. — Ora digam-me, se a imortalidade não é pequeno galardão para um livro, onde se leem coisas. Atendam:... Se os homens tiveram o cuidado em sinalar os judeus, para que fossem conhecidos pelas suas traições, não menos pensou Deus de os sinalar para confusão sua, e castigo do que mereceram seus antepassados. Não são em alguns muito patentes os sinais que pela sua mão lhes põe a natureza; mas em outros se descobrem claros e evidentes, sem que à gente os possa o seu cuidado esconder ou encobrir... Digo pois que há muitos sinalados pela mão de Deus, depois que crucificaram a sua divina majestade; uns...
“Reparem nisto! — exclamou António José interrompendo a leitura. — Reparem, por honra da história natural e do defunto Lobo morto, e do Lobo vivo!
E prosseguiu na leitura: — Uns têm uns rabinhos que lhes saem do seu corpo do remate do espinhaço; outros lançam e derramam sangue...
— Alto lá! — atalhou o padre Luís Álvares. — Estão senhoras na sala próxima: quem quiser, vá ler à rua o restante da imundícia.
— Eu já li — disse Francisco Xavier apertando as cartilagens do nariz. — Isto vapora miasmas de latrina.
— E com que então — repetiu o hebreu — está Vossa Senhoria persuadido, senhor Lobo, que alguns judeus têm uns rabinhos que lhes saem do seu corpo do remate do espinhaço?
— Estou, sim, senhor.
— Já viu dessas coisas com os seus olhos penetrantes? Agora vejo eu também que não é quimérico o anexim respetivo aos entendidos que metem o nariz em tudo! Que grande alcance e que profundas investigações por lugares tão desfrequentados tem feito o seu nariz de sábio, senhor Bartolomeu!
O padre Luís Álvares de Aguiar, desabafados os impulsos de riso, compôs o rosto, e disse:
— É grandíssimo desdouro para Portugal que este e quejandos monstros da loucura humana corram impressos. Lastimo, senhor Lobo, que Vossa Senhoria ande a fazer ganância com estes excrementos das pobres e servis vigílias do seu pai, cuja capacidade intelectual está medida por esta produção, que ele foi buscar, para traduzir, aos escoadouros de Castela. Veja, por honra sua, amigo e senhor Bartolomeu, se pode chamar a si todos os exemplares desta vergonhosa obra, e queime-os; queime este opróbrio do seu pai e seu. Queime-os...
— Ou dê-os — acrescentou António José — para alimentar as fogueiras de algum judeu...
— Pode ser... — murmurou Bartolomeu, a ponto que vinha entrando o jovial conde da Ericeira, pedindo desculpa da demora.
— Que livro lê o nosso moderno Gil Vicente? — perguntou o conde. — Ah!... Sentinela contra judeus... Isso é galante livro, que prova o adiantamento da história natural nas Espanhas. Fala aí de uns rabinhos...
— Com eles nos entretínhamos — acudiu o prior de S. Jorge.
— E viram — tomou o conde — o porquê de terem rabinhos alguns israelitas? A explicação está duas páginas adiante.
— Cá está — disse António José, e leu: — Os que têm os rabinhos no remate do espinhaço são por linha direita descendentes daqueles que entre eles eram mestres, a quem chamavam rabis, e nós nomeamos rabinos; estes se tentavam a julgar, e hoje ensinam sua lei como mestres e juízes, e para pena sua, e sentados não possam estar sem moléstia e trabalho, lhes saem aqueles rabinhos no próprio lugar que lhes pode causar penalidade.
— Parece que o senhor Bartolomeu Lobo está com azeda sombra! — atalhou o conde. — ó nosso amigo, seu pai não tem que ver com a nossa crítica. A um tradutor tão-somente se pede contas da lealdade da versão; e, ao meu ver, esta versão do espanhol é fidelíssima. Da má substância do livro está seu pai inculpado, amigo Lobo.
— Meu pai, senhor conde — disse Bartolomeu — , não pede desculpa de ter feito um bom serviço à religião. Aos judeus é que ele não fez grande favor, traduzindo este religioso livro, de que estes senhores estão zombando.
Bartolomeu feriu com os olhos as costas de António José da Silva, quando proferiu as palavras: aos judeus...
O filho de Lourença Coutinho apanhou-lhe no ar o tiro, volveu-se rápido para ele, e disse:
— Os judeus que tiveram a desventura de nascerem em território português têm quinhão na ignomínia deste livro, por estar em linguagem que se parece tanto ou quanto com a portuguesa; enquanto ao mais, Deus nos livre que o Santo Ofício acreditasse na existência de rabinhos!... A perversidade, em geral, costuma ser menos estúpida. Hoje não haveria ninguém que quisesse inspecionar as tais excrescências a não ser Vossa Senhoria, senhor Bartolomeu!...
O conde fez a António José um expressivo gesto de silêncio. Bartolomeu deteve-se alguns instantes, e pediu licença para retirar-se, cumprimentando profundamente o padre, o judeu e o filho do contador-mor.
— Faz mal, senhor Silva — disse o conde gravemente depois que Bartolomeu saiu — , faz mal em disparar tão certeiras flechas contra a cabeça dura 'deste homem! Vossa Senhoria esquece-se de que há no Rossio um palácio, que se chamou dos Estaus, e hoje se chama vulcão de fogueiras. Tenha prudência. Diante de mim, diga o que quiser a favor de Moisés e contra São Paulo; mas do maior número de sujeitos, que entram nestas salas, guarde-se.
CAPÍTULO IV
Quinze dias volvidos, aos 6 de Agosto de 1726, entrava António José da Silva, segundo o seu costume quotidiano, no escritório do seu pai, quando três familiares do Santo Ofício lhe ordenaram que os seguisse ao Tribunal. O hebreu hesitou alguns instantes, meditando no mais fácil meio de escapar-se. Um dos familiares, entrando-lhe no ânimo, descerrou um riso de escárnio, e disse:
— Não pense em fugir, que as avenidas da sua casa estão vigiadas. Em toda a parte há “sentinelas contra judeus”.
António José da Silva entendeu a alusão. Pediu que o deixassem despedir do seu velho pai e da sua mãe, obrigando-se a subir acompanhado. Negaram-lhe a licença, solicitada com lágrimas.
António José saiu na frente dos três familiares, e pediu ao merceeiro vizinho que avisasse seus pais de que elo, ia preso.
No mesmo dia e à mesma hora, foi também preso o prior de S. Jorge, Luís Álvares de Aguiar, e conduzido aos cárceres da Inquisição.
A captura do filho de Lourença Coutinho não fez estranheza. A Inquisição e os devotos lembravam-se ainda da judia, que saíra absolta donde a piedade requeria que saísse de carocha e sambenito. Grande parte de público estava escandalizado daquele singular caso de indulgência, que, até certo ponto, ameaçava quebranto na inteireza dos inquisidores. Por isso, com a notícia da prisão de António José da Silva, os pios escandalizados sentiram a satisfação desagravante.
Enquanto ao prior de S. Jorge, muita e boa gente se espantou. O padre Álvares de Aguiar, oriundo de muito ilustre família, em limpeza de sangue podia pleitear antiguidade com a mais primorosa raça de cristãos. Corria fama de que ele, desde os quinze até aos sessenta e tantos anos que tinha então, se distinguira em femeais mundanidades, amando as mais formosas e fidalgas com requintado e versátil amor nem sempre ideal. À volta dele, no dizer do seu amigo Francisco Xavier de Oliveira, florescia uma espécie de harém espiritual, composto de tenras e juvenis belezas, das quais ele se denominava pai, sendo, ao mesmo tempo, dono e galã. Este bom padre — diz o contemporâneo — que outra quebra não tinha senão a paixão do amor, não deixava ressumar a sua tendência nem por obras nem por palavras. Apenas sustentava que “o amor é o complemento e epítome de toda a lei; e que a chamada caridade nas Santas Escrituras não é senão o amor, segundo São Jerónimo”. Bem que amasse idolatricamente as mulheres formosas e as de mais lustrosa raça, nunca falava senão do amor de Deus; e deste amor parecia desbordar-lhe o coração, se atentarmos nas magnas obras de caridade que ele constantemente exercitava. Diz mais o Cavalheiro de Oliveira: “Eu vivi muito na sua intimidade. Tão excelentes no âmago eram as qualidades dele, que toda nós o estimava, sem distinção das mais gradas pessoas de Portugal, quer pela qualidade da sua fidalguia, quer pelo seu copioso saber.“
Todos, pois, se maravilharam e condoeram. Ninguém sabia conjeturar o motivo de semelhante prisão. Quem, com efeito, mais cabalmente podia informar a curiosidade do público, seria o filho do tradutor da Sentinela contra Judeus.
Esperemos-lhe a sentença. João Mendes da Silva, tão depressa pôde transportar ao leito sua mulher desmaiada e como morta pelo golpe da notícia, correu a casa do conde da Ericeira a pedir a redenção do seu filho.
O conde ouviu aterrado a nova, e disse:
— Eu previ isto... Sei donde partiu a denúncia... Vá com Deus, que eu começo desde já a trabalhar na salvação do pobre jovem.
Daqui, foi João Mendes em cata do contador, pai de Francisco Xavier de Oliveira. Encontrou-o aflito.
— Também meu filho — disse José de Oliveira e Sousa — esteve em risco de ser hoje preso. Salvou-o ontem sua mãe, ajoelhada aos pés do inquisidor, porque um conselheiro do Santo Ofício se apiedou das minhas cãs, e me avisou. Não sei que hei de fazer no seu auxílio, senhor João Mendes!... Eu já sou também suspeito. Quando a Inquisição prendeu o prior de São Jorge, não sei que haja ninguém defeso!...
João Mendes saiu desanimado. Foi ainda socorrer-se daquele Diogo de Barros, santo valedor de infelizes. O ancião algumas esperanças verteu no coração do septuagenário, dizendo-lhe que ainda era familiar.
— E então agora — disse Diogo de Barros — , agora que vinha aí a filha do meu Jorge para se efetuar o casamento! É preciso salvarmo-lo antes que ela chegue. Eu não lho faço saber a ela nem a Sara. Recomende à senhora Lourença Coutinho que não diga nada para Amesterdão; ou, a dizer-lho, que as dissuada de virem a Portugal.
António José da Silva foi conduzido ao chamado corredor meio novo, cárcere número seis.
Ao oitavo dia foi levado a perguntas à chamada Mesa do Santo Ofício. Estava adiantada a instauração do processo. Leram-lhe o depoimento das testemunhas que o capitulavam de judaizante. António José disse francamente que não tinha vivido como cristão nem como israelita; mas, se lhe concedessem vida para o arrependimento, faria inteira abjuração do seus erros.
Aceitaram-lhe o abjurar; todavia, como ele não confessasse que em casa do seus pais se judaizava, puseram-no a tratos, chamados do torniquete. A tortura exerceram-lha nas mãos, até lhes esbrugar a carne dos ossos. O padecente, consoante consta da consignação dos autos, no mais cruel remoer do tomo sobre os dedos, invocava Deus, e não a Virgem, nem algum santo do reino do céu.
Ao tempo deste suplício lento, com intercadência de trevas na masmorra, que fazia Francisco Xavier de Oliveira?
Padecia tratos de outra natureza. Aquela Joana Vitorina, tão da sua alma, a cigana requestada pelo fatídico espanhol, desapareceu-lhe um dia, deixando a mãe com a condição de a mandar buscar. Francisco Xavier, com dois membrudos criados, agarrou da velha, e ameaçou-a de a pôr a tormentos até lhe arrancar o segredo do destino da filha. A demoníaca de outrora, ao lembrar-se dos tijolos ardentes, revelou que a sua Joana fugira para Valhadolide com um espanhol, que lhe prometera palácios na sua terra e a mão de esposo.
O alucinado jovem esqueceu o pobre amigo preso, a mãe angustiada, o pai que de puro medo da Inquisição caíra enfermo, tudo esqueceu, porque a serpente do ciúme se lhe enroscou no peito, e verteu peçonha aos seios da alma até lhe queimar as febras todas da amizade e filial amor.
Pediu o dinheiro que não pôde furtar dos contadores paternos, e foi a caminho de Espanha. Entrou em Valhadolide, onde não conhecia ninguém; mas ao seu pai ouvira dizer que D. Rafael Hernandes de Bobadilha, alcaide de Valhadolide, era seu amigo, e parente do marido de uma sua irmã, casada em Barcelona.
Apresentou-se ao alcaide: disse-lhe quem era e ao que ia. D. Rafael acolheu-o com benignas risadas, exclamando:
— Eu sei onde pára a cigana, meu ditoso rapaz!
— E o covarde que ma roubou? — acudiu Xavier.
— Esse foi ontem preso: está no castelo, e de lá veremos para onde as leis mandam os caudilhos de salteadores. Fica Vossa Senhoria sabendo que a sua Joana teve a honra de hospedar no largo peito o coração do mais temeroso bandido das Astúrias. Agora veja lá se lhe serve a criatura enfarruscada com tão abjetos amores.
— Onde a encontro? — disse com veemência o português.
— Na estalagem onde o salteador foi preso. Que quer Vossa Senhoria fazer à mulher?
— Matá-la!
— É muito bem feito! — acedeu gravemente o alcaide. — Vá matá-la, que é uma devassa a mulher! Faz um serviço à humanidade, Dom Francisco! Eu, se não tivesse que fazer, ia também dar-lhe uma cochilada no pescoço...
— Dom Rafael está a zombar com a minha desventura? — interrompeu o jovem.
— Não senhor. Estou a recrear-me com Vossa Senhoria enquanto não chega o chocolate que mandei preparar... Aí vem o chocolate. Sente-se para aqui, rapaz. Merende, e depois irá perpetrar o ciganicídio, a uma hora própria dessas atrocidades. Deixe nascer a Lua, para os poetas de Espanha terem azo de falarem na Lua, ao cantarem em funérea xácara a morte da cigana às mãos do traído paladim Dom Francisco — o português! Ai!, que grilharia não vão fazer as musas!, que poemas a pingar sangue não vão sair do peito esfaqueado de Joana! Que leve a breca tal nome! Nunca vi Joana em verso! É pena que ela se não possa crismar antes de morrer, cavalheiro! Se me dá licença, Dom Francisco, ainda vou, por amor da poesia castelhana, entender-me com o bispo, a ver se a podemos crismar. Faça-me o favor de não matar a rapariga até amanhã por estas horas!
Francisco Xavier tomava o chocolate, e ria-se, quando não cravejava os dentes no beiço inferior.
Terminada a refeição, D. Rafael Hernandes de Bobadilha ajeitou o aspeito gravemente, e disse:
— Fui, sou e serei amigo do seu pai. Estivemos em Flandres há trinta anos: éramos ambos secretários dos ministros da nossas pátrias. O seu pai era honrado, e fidalgo da velha estofa. Vossa Senhoria ainda então se gerava nas entranhas do nada, senhor Dom Francisco. O resultado é estar Vossa Senhoria aí quase imberbe, e eu coberto de neve. Estas cãs devem — lhe incutir a ideia de que eu já tive cabelos pretos, e experimentei tantas paixões quantos cabelos tenho. Está Vossa Senhoria diante de um velho que lê nos refolhos do coração. A cigana, que trouxe-o a Valhadolide, é mais amada hoje do que era antes de lhe fugir...
— Oh! — atalhou Francisco Xavier. — Nada de retóricas nem de teatro, Dom Francisco. Pergunto: quer levar a cigana? Vamos: responda!
— Preciso vingar-me! Quero matá-la, amando-a!
— Nesse caso, mate-a! — disse o alcaide, no tom da primeira galhofa. — Eu vou mandar consigo à estalagem quem lha ensine. Morra embora a Joana, e fiquem os poetas tolhidos por causa do mais vilão nome que ainda se ouviu em tragédias! Vá, vá, dom assassino!
Ergueu-se o alcaide, chamou da janela um quadrilheiro, e ordenou-lhe que conduzisse o seu hóspede à estalagem que indicou.