O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 11 de 46

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O Judeu

Capítulo XIII · D. Francisca duvidou das informações dos seus…

 

D. Francisca duvidou das informações dos seus espias da Guarda, e Covilhã, ao fim de oito dias de inútil espera na Bemposta.

Enquanto os fidalgos, espancando o sono para espertarem os criados, passavam más noites escondidos por entre ramagens e rimas de entulho, o velho Bonifácio remoçava as cãs numa taverna de Andaluz, ou se adormecia regaladamente sobre a enxerga mais convizinha da pipa do Colares. Bem de estômago, melhor de algibeira, e ótimo de consciência, Bonifácio entendia que já na terra saboreava o céu das boas ações.

Enfim, recolheram-se as roldas e sobrerroldas, porque D. Francisca teve aviso da volta de Jorge à Covilhã. Então tratou ela que o filho desenterrara o cofre logo na primeira noite da entrada em Lisboa. Mandou que se interrogassem os pedreiros sobre se algum desconhecido penetrara a quinta naquela noite. Contou um pedreiro que estivera falando com dois homens embuçados, e referiu algumas perguntas que um deles lhe fizera. Isto bastou a considerar-se lograda irremediavelmente D. Francisca. Abrasaram-na chamas de rancor ao filho e à memória do pai. Insultou o marido que meigamente a consolava. Solicitou de novo, para a captura do filho, ordens absurdas que Diogo de Barros contraminava. Passou-lhe pelo espírito revolvido em infernos de impotente vingança denunciar o filho à Inquisição como renegado e circunciso por amor de Sara.

Na preparação deste projeto, cuja protérvia não ultrapassa os limites lógicos da vingança na alma desmoralizada, salteou-a castigo da visível Providência.

Filipe corria amores no mosteiro de Odivelas com uma religiosa de família muito ilustre de Lisboa, senhora desempoeirada e voluntariosa que trazia o convento em descrédito e as superioras constemadíssimas. Os gemidos da virtude escandalizada já tinham chegado ao paço. Pedro II, depois do falecimento da sua segunda mulher, caíra em si, se não é mais exato dizer que o demónio do remorso lhe caíra às cavaleiras. Como quer que fosse, o rei fez-se beato, amicíssimo de frades ascetas, zeloso guarda das leais esposas do Senhor, e desafeiçoado às infiéis. Os queixumes da prelada de Odivelas comoveram-no e irritaram-no contra a freira e contra o filho do contador-mor. Chamou à sua presença os pais de ambos os delinquentes: o da freira quis desculpar-se com a pertinácia de Filipe de Moura Teles; e Plácido de Castanheda fingiu que podia muito com o filho, e o desprenderia para sempre dos criminosos afetos.

Esteve alguns dias a religiosa fechada como em prisão nos seus luxuosos aposentos; e Filipe, repreendido pelo pai, transigiu por algum tempo com a vontade do rei, e rogos carinhosos da mãe.

Porventura, o amarem-se muito, e a condição inflexível de ambos, fez que reincidissem, volvido um mês, nas mesmas imprudências de colóquios noturnos, já não insuspeitos de escalada. Foram outra vez à ourela do trono as lágrimas da comunidade levadas por frei Manuel de S. Plácido, da Ordem Terceira, muito querido do rei Pedro II mandou prender no Limoeiro Filipe de Barros, e remover a religiosa incorrigível para um convento da Beira.

O valimento do contador-mor, e instâncias de D. Francisca Pereira com parentes donas de honor, conseguiram a liberdade de Filipe, sob condição de não mais inquietar a freira.

Estas coisas tinham passado nas três semanas anteriores à ida de Jorge a Lisboa, e no entanto o conde de S. Vicente, pai da religiosa inflexível, conseguiu levá-la da Beira para o mosteiro de Chelas.

Eram amores mal sorteados aqueles! Filipe, sem resguardo dos irmãos dela, homens de honra e já fatigados de aquinhoarem do descrédito da irmã, aparecia em Chelas, espotreando o folheiro cavalo, cortejando a dama que lhe fazia os costumados sinais, e deixava cair bilhetes esperançosos de mais felizes encontros.

Avisada a família da freira, saíram para Chelas os dois irmãos, que serviam grandes postos no exército. Um deles afastou-se da estrada para não serem dois os agressores; o outro saiu de frente a Filipe de Barros, e levou da espada, assim que Filipe se deu ares de acometê-lo. A pugna foi rápida e funestíssima para o filho de D. Francisca Pereira. O estoque saltou-lhe da mão, ao tempo que a espada do contendor lhe ensopava em sangue os rufados da gorjeira.

Era ao cair da tarde, quando D. Francisca pensava em denunciar Jorge à Inquisição, e recebia a nova de estar seu filho Filipe morto na azinhaga de Chelas.

Era de lama petrificada a alma daquela mulher! Em vez de dobrar o pescoço debaixo da — mão da Providência, rompeu em blasfémias que as masmorras da Inquisição nunca tinham ouvido dos israelitas postos a tormento.

Plácido de Castanheda de Moura foi queixar-se ao rei. Pedro II, ouvidas as exclamações do contador-mor, disse-lhe secamente:

— Ide queixar-vos perante os juízes, que não sou eu ministro das leis. Se tivésseis uma filha, e um libertino vo-la andasse desonrando, e os vossos filhos matassem o libertino, e o pai dele aqui viesse queixar-se como vós, mandá-lo-ia, como vos mando, requerer vossa justiça onde cumpre. Matar só Deus: castigar matadores só a lei. Pedro primeiro, o justiceiro, não sei se vos faria tanta honra como eu. O vosso filho, segundo estou informado, não prestava para nada. Além de que — acrescentou o rei — quem viu morrer vosso filho?! Como sabeis que o mataram os filhos do conde de São Vicente?

— Eles foram, senhor, que já o tinham ameaçado — respondeu timidamente Plácido.

— Ameaças não provam: e de mais, vosso filho mal fez em desprezar o aviso, e vós mal fizestes em desatender as minhas reflexões.

O sobrolho de Pedro II impunha silêncio. O contador-mor genufletiu com a perna direita, arqueou-se como se agradecesse uma mercê, e saiu, à s recuadas, consoante o cerimonial, da presença do rei mal-assombrado.

O irmão de Afonso VI não perdoara aos descendentes de Luís de Barros, o qual, desde a prisão daquele singular desgraçado, nunca mais pisara tapetes do paço, nem mais quisera encarar no incestuoso verdugo do seu rei.

Os homicidas chegaram impunemente à presença de Pedro II. Os corregedores, e quantas gamachas decoravam o templo da justiça, não tinham que ver com os filhos de Bernardo de Távora, general de batalha, conde de S. Vicente.

Naqueles tempos de tanta saudade, para os pregoeiros das virtudes dos nossos antepassados, casos de homicídio, denegridos por mais atrozes circunstâncias do que a morte do filho do contador-mor, se executavam com análoga e mais escandalosa impunidade. Aqui vem de molde referir um sucesso, que não prende com este romance, e todavia dá a medida da força das leis em antagonismo com a força bruta dos pulsos fidalgos.

Seis anos depois do período em que vai correndo esta narrativa, já quando os esplendores de D. João V iluminavam mais os espíritos, passou o caso seguinte, referido pelo Cavalheiro de Oliveira:

“Um corregedor guardava uma porta da igreja da casa professa dos jesuítas, quando ali se celebrava grande festividade. Somente o rei havia de entrar por aquela porta.

Chegaram aqui o marquês das Minas e o conde da Atalaia; mas o corregedor com razão lhes vedou o passo. Insistiram eles, dizendo ao ministro que as ordens recebidas não podiam entender-se com pessoa da sua esfera. Redarguiu o corregedor que as ordens ninguém excetuavam, e portanto, sem que o rei entrasse, não podia ele permitir que entrasse quem quer que fosse. Aqueles senhores podiam entrar por outras portas francas a toda a gente. Não obstante, obstinadamente exigiram do corregedor uma distinção que ele não podia dar-lhes sem transgredir os deveres... Os dois fidalgos, depois de o terem insultado, passaram às últimas. O conde da Atalaia deu com o chapéu na cara do corregedor, e o marquês das Minas traspassou-o com a espada, e matou-o. Em seguida cavalgaram, e saíram do reino. O marquês das Minas foi perdoado e voltou ao reino.“

Crê o leitor que, não obstante o perdão, o marquês das Minas passaria o restante da vida sequestrado das graças do monarca e da convivência das pessoas de bem? Não faça juízos temerários, leitor: o marquês das Minas recebeu o indulto, e ao mesmo tempo o bastão de general.

Já vimos a justiça dos homens: agora vejamos a da Providência. Servia no exército português um castelhano chamado D. Juan de la Cueva, que não dava “excelência” ao seu general, marquês das Minas, sem que este lhe desse “senhoria”. Ora, o marquês, assassino do corregedor — diz o Cavalheiro de Oliveira — , era soberbo e arrogante. Um dia, ao entardecer, saía ele da portaria da congregação de S. Filipe Néri, a tempo que desgraçadamente Juan de Ia Cueva ia entrando. Cortejou ele o marquês que lhe não deu a pretendida “senhoria”, e por isso De Ia Cueva lhe não deu “excelência”. O general, grandemente irritado, levantou o bastão e proferiu palavras ameaçadoras. De Ia Cueva, sem lhe dizer palavra, traspassou-o com a espada. O marquês não tugiu nem mugiu: quando caiu por terra, já ia morto. O padre, que o acompanhara até à portaria, e era confessor dele, apenas teve tempo de lhe apertar a mão. D. Juan de Ia Cueva pôde escapar-se, e refugiou-se em Espanha.

Na jurisprudência divina a justiça mais seguida é a pena de Talião.

CAPÍTULO XIV

 

D. Francisca Pereira caiu afinal extenuada. O esbravejar da raiva prostrou-a. O rancor ao filho Jorge declinou mais assanhado sobre os filhos do conde de S. Vicente. As pragas, que ela jurou sobre aquela família, tão próspera nos reinados de Pedro II e João V, pensaria ela que se empregaram, cinquenta e três anos depois, na família Távora, se pudesse antever os cadafalsos, e o esquartejamento e as labaredas, na Praça da Junqueira!

Mas a neta de Leonor Teles não se contentaria com prever a morte afrontosíssima dos descendentes do homicida. Mãe, a um tempo extremosa com aquele filho, e ferina de coração, pedia a brados vingança pronta e estrondosa. Era-lhe incomparável agonia não ter filho que ousasse afrontar-se com os Távora, porque o efeminado Garcia atendia seriamente a conservar-se, e mandar à posteridade sua raça na pessoa do seus descendentes.

Esqueceu-se, pois, da teia que andava urdindo contra Jorge; ou, a não esquecer-se, reservou a postema para supuração mais oportuna.

E, entretanto, o hóspede de Simão de Sã planeava ganhar sua vida, fundamentar alguma base de negócio ou indústria com o dinheiro que o seu avô lhe tinha mandado tirar das gavetas do contador. O israelita desviava-o de misteres incompatíveis com o seu nascimento, ofertando-lhe dos seus haveres o necessário para sossegadamente esperar monção de tomar conta assim do tesouro, como do património advindo por morte de pai ou mãe. Esta generosidade não o demoveu; todavia, Jorge de Barros, combatido pelo espírito de raça, ao qual as ideias do tempo o avassalavam, projetou ir fora de Portugal, e, salvo da crítica, mercadejar ou estabelecer oficinas, entregando a mordomia do seu tráfico a António Soliz.

Simão de Sã tinha em Amesterdão parentes, uns fabricantes de estofos, e outros tipógrafos abastados, bisnetos de judeus que, em tempo de D. Manuel, João III, e do cardeal-rei, para lá tinham fugido ao latrocínio, à violação das suas filhas, e ao fogo. A intercessão de séculos e da longitude não bastará a romper os laços de sangue entre os holandeses, que falavam da pátria do seus avós com a herdada saudade do seus pais, e os Sãs da Covilhã, que davam conta aos outros do infortúnio desesperançado dos israelitas portugueses. Jorge tencionava, portanto, ir morar em Holanda, levando recomendações para os hebreus poderosos de Amesterdão.

Sara escutava com opressivo silêncio estas deliberações, e não ousava perguntar a Jorge qual seria depois o seu destino dela. E o rapaz, ao contemplá-la assim triste e calada com a sua imensa dor, entreabria-lhe num sorriso uns vagos lampejos de luz de bem-aventurados, que ela não sabia explicar-se nem perguntar.

Um dia, duas semanas antes da projetada viagem, Jorge recolheu-se com Simão de Sã e Sara à livraria, em que o mais das horas lhe fugiam entretidas e desassombradas de penosas cogitações.

A judia não desfitava os olhos dele, enquanto os lábios se não abriram com estas palavras:

— Meu bom amigo, eu afiz-me a olhar em Sara como nas suas filhas. Como filha a encontrei querida e estimada nesta casa. Aqui a respeitei como a tinha respeitado sob o teto protetor da casa do meu avô, onde ambos nos criámos. Dito isto, senhor Simão de Sã, eu não pergunto a Sara se me ela quer dar a sua vida como sei que me há dado o coração; a Vossa Senhoria pergunto se lhe praz o nosso casamento.

Sara ergueu-se sobressaltada com as mãos erguidas, desatando dos lábios um ai, já quando as lágrimas lhe tremiam nas pálpebras. Simão foi de encontro ao peito de Jorge, e abraçou-o com veemência de arrebatada alegria. Depois, desprendido dos braços de Jorge, tomou Sara pela mão, levou-a às mãos do mancebo, e disse-lhes muito comovido:

— Sois dignos um do outro; e eu, pelo muito que vos quero, e pelo muito que a Deus tenho pedido boa sorte para vós, digno sou também deste contentamento.

Jorge continuou, largando as mãos de Sara: — A ti me ligo, pobre menina, porque te quero muito, e vi que a nobre alma do meu avô te considerava como se te tivesse destinado para a minha mulher. Porém, se menos te amasse, Sara, ainda assim te diria: sê minha esposa, pelo que tens padecido; aceita-me esta remuneração dos involuntários perigos em que arrisquei tua vida. A minha mãe queria-te morta, doce criatura que Deus defendeu da ira de uma mulher, cujas entranhas, assim que eu nasci, ficaram para mim cheias de peçonha. Deus me defendeu a mim com o anteparo do meu avô, porque a Providência de cristãos e israelitas viu que ambos nós éramos injustamente perseguidos. A perseguição dá-nos tréguas; mas voltará mais assanhada talvez; confiemos na proteção do Alto. Agora, enquanto a tempestade se está formando, fujamos para algum remanso. Vais comigo para Holanda; serás o amparo e estímulo das minhas forças, quando a desgraça as quebrantar. Nasceste no trabalho, serviste ingratos, endureceste o teu seio na peleja contra a dureza do teu destino. Não estranharás a pobreza, quando ela chegar. Estás contente, Sara?

— Senhor Jorge! Abençoada seja a sua resolução! Abençoada e perdoada seja sua mãe, que me preparou esta alegria! — exclamou Sara com transporte, beijando-lhe as mãos.

E Jorge atalhou-a:

— A nossa união será feita com o ritual católico. O meu espírito não está preocupado de religião nenhuma; todavia, a mesma razão de uma quase indiferença faz que eu não passe da religião com que me criaram para outra, cujos dogmas me não convencem. O casamento, como sacramento, já pode muito sobre a consciência: é um hábito que assumiu as proporções de consagração e identificação de duas vidas numa. Desejo, portanto, que nos ligue o sacerdote católico: qualquer outra cerimónia seria supérflua, se o senhor Simão de Sã pensa que o cerimonial mosaico é indispensável ao casamento.

— Não, senhor Jorge — disse Simão — , o Deus de israelitas e cristãos me livre de contrariá-lo. Respeitemos reciprocamente a nossa fé. A minha filha Judite vai também ligar-se ao meu sobrinho Eflakim. Há de ir ao templo dos cristãos, porque nessa conta são tidos; depois, hão de ligar-se conforme o cerimonial da bênção judaica; mas meu sobrinho e a minha filha seguem rigorosamente a lei mosaica. Se o senhor Jorge consente, eu farei que as duas alianças se celebrem no mesmo dia, e será depois testemunha da bênção nupcial da minha Judite, segundo o ritual hebreu.

Jorge aceitou alegremente o convite. Entregou a Simão a certidão do batismo de Sara; e, voltando-se à jubilosa menina, disse:

— Lembras-te do meu avô quando na pia batismal te pôs a mão na cara?

— E o senhor Jorge segurava nas mãos a coroa de Maria, mãe de Cristo... — recordou ela.

— Quem então diria!... — balbuciou o jovem.

— Éramos tão pequeninos então!... — volveu a judia. — O senhor Jorge sentava-se ao pé de mim, quando me via chorar com saudades da minha mãe, e dizia-me: “Anda brincar comigo, que eu peço ao meu avô.” Outras vezes, ia dizer àquele santo velho, que está na glória dos justos, que eu estava a perguntar se a minha mãe tinha morrido no auto-de-fé. O senhor Luís de Barros mandava-me chamar para ao pé de si, e distraía-me com meiguices, que eu agradecia com lágrimas...

— Não recordes — atalhou Jorge — que eu ainda não tenho coração que sem torturas escute falar do meu avô. O futuro, Sara, o futuro! Sejamos dignos da bênção daquele santo homem.