O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 20 de 46

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O Judeu

Capítulo X · Eram o amor de Sara e os…

 

Eram o amor de Sara e os cuidados extremos da família Sã, e porventura as orações da inocentinha Leonor, que iam tendo mão da vida de Jorge.

Na Primavera de 1719 descansaram os sobressaltos da esposa que, durante o Inverno, não tivera dia do seu que não passasse cortado de angustiosos receios, porque a desconfiança dos médicos alanceava o coração da inconsolável senhora.

Reanimou-se algum tanto o enfermo. Nem aquele sol, nem aquelas árvores tinham o aquecer e florir da pátria; todavia, o ar que lhe filtrava às cavernas ulceradas dos pulmões parecia coar bálsamos cicatrizadores. Renasceram esperanças e contentamentos.

Neste tempo, chegaram a Amesterdão cartas de Portugal. Lourença Coutinho fechara a sua com obreia negra.

— Morreu-lhe, talvez, o marido ou algum filho à minha pobre amiga!... — disse Sara alvoroçada.

— Ou pode ser que morresse minha mãe... — observou Jorge. Quando Sara começava a ler a sua carta, entrou Simão de Sã de golpe, exclamando:

— O seu irmão já não vive!

— O meu irmão morreu?! — perguntou Jorge.

— De desgraça... de grandíssima desgraça.

— Como Filipe? — atalhou Jorge.

— Pior... pior!... — disse Simão.

— Ah!... — exclamou abruptamente Sara, que continuara lendo a carta de Lourença Coutinho.

— Que é? — perguntou Jorge.

— O senhor Garcia — disse ela — morreu... enforcado!...

— Enforcado! — bradou Jorge. — Enforcado um neto de Luís Pereira de Barros! Oh!, que vaso de ignomínia a Providência impõe aos descendentes do mais honrado homem de Portugal!... Enforcado!... Que infâmia praticou meu irmão para tão aviltante morte!...

— A minha carta diz o seguinte — respondeu Simão de Sã, e leu os seguintes períodos:-... Há cinco anos que o rei Dom João quinto foi enfeitiçado, como cá dizem os pios cristãos, por aquela encantadora cigana, que eu, há três anos, te mostrei nas hortas de Chelas, chamada Margarida do Monte.

“Lembrado estás de te eu contar quantos desterros, quantos homicídios enegreciam a vida de Margarida, desde que o rei perdeu o tino por ela, sendo causa de tantas desgraças não poder a boémia guardar ao rei mais fidelidade do que tinha guardado aos outros mancebos e cúmplices da sua desenvoltura.

“O rei, irado de ciúme, obrigou-a a entrar no convento das domínicas da Rosa, na paróquia de São Lourenço; e violentou-a a professar, com muitíssima vergonha das outras religiosas, que se deram por grandemente agravadas de tal parceira. Tamanho foi o escândalo na cidade, quanto inúteis os queixumes das cândidas filhas de Domingos de Gusmão, de escaldante memória.

“Margarida do Monte, ao tempo que professava, ia declarando que não cria em Deus nem no Diabo; mas professou, sob ameaça de ir presa para a Torre de São Gião, e lá dar a ossada do mais galhardo corpo que ainda viram olhos mortais!

“Deram-lhe no convento luxuosos aposentos. A índia não teve mais que desse para ornamento dos profanos retretes, câmaras, recâmaras e antecâmaras da cigana domínica. Serviam-na criadas com ar de damas de honor, e ali estava como irmã de um rei a Margaridinha do Monte que há quinze anos aqui apareceu em Lisboa, trazida de Santarém pelo conde de Óbidos, como sua manceba, e com ele esteve, enquanto outro conde lha não empolgou, e outro a este, e não sei quantos ao último, até que o rei, fascinado dela numas touradas, a tomou, julgando que lhe cabia a honra de ser o derradeiro e absoluto possuidor da boémia.

“E, por se enganar redondamente, e ter coração curto, julgou que o vingar-se era roubá-la a alheios olhos, e amansá-la no convento para depois a retomar purificada dos braços do beato Domingos.

“Ninguém se atrevia a requestá-la no Convento da Rosa, posto que ela provocasse os mais audazes freiráticos de Lisboa: temiam o rei, e punham os olhos nalguns mancebos ilustres, que por causa dela andam desterrados, mais felizes que outros enterrados.

“Era preciso que o maior doido destes reinos se amoldasse aos caprichos vingativos da cigana: apareceu Garcia de Moura Teles, irmão do honrado marido de Sara.

“Já sabes que este Garcia com as demasias da sua despejada vida alheava de si todos os amigos e parentes. Rara semana se passava sem que algum enorme escândalo estrondeasse por conta dele, ou da mulher, de quem ele há muito se afastou, facultando a entrada da corrupção por todas as portas da casa, onde habita a esposa, criatura de vilíssima extração e piores instintos.

“Foi este homem, que já não era novo, quem se abalançou às temerárias asneiras dos vinte anos.

“Como visse Margarida do Monte na grade de uma secular extravagante do Convento da Rosa, aceitou-lhe a requesta, e correu regularmente com visitas e correspondência para o convento.

“Parece que o rei o soube, e enfurecido até mais não poder, quis pessoalmente matá-lo; todavia, os áulicos desvaneceram-no do intento, prometendo-lhe vingá-lo oportunamente, sem que o nome real ficasse enxovalhado no sucesso.

“Gente bem informada me conta que uma freira confidente de Margarida fora habilmente comprada por agentes do paço, para trair a confiança da boémia, e referir dia por dia o andamento dos amores dela com o alucinado Garcia de Moura.

“E o caso foi que a traidora denunciou o dia e hora em que, disfarçado em carvoeiro, Garcia de Moura havia de entrar no Convento da Rosa.

“Os ministros da real vingança providenciaram a espionagem tão acertadamente que o disfarçado carvoeiro foi agarrado no momento em que entrava com um saco de carvão sobre os lombos derreados.

“Apenas agarrado pelos quadrilheiros, despojaram-no de quatro pistolas que escondia num cinturão, levaram-no ao corregedor do bairro, e daqui para o Limoeiro.

“Ninguém esperava que um caso destes, segundo o exemplo doutros análogos, fosse castigado com mais severa sentença que um desterro temporário; porém, como o negócio era com o rei, os mais avisados esperavam que o desterro fosse para sempre e para alguma das mais inóspitas possessões.

“Eis senão quando corre um boato de que o preso seria condenado à morte. Os parentes de Garcia de Moura, quando isto souberam, saíram todos a suplicar como grande mercê o degredo do pobre louco. A mãe, que estava entrevada, ordenou que a levassem assim à presença do rei. Dom João, assim que lha anunciaram, saiu por outra porta, e foi para a quinta de Alcântara. A desgraçada mulher voltou para casa dando brados de doida, e clamando ao povo que não deixassem matar um neto de Luís Pereira de Barros, e um filho dela, que tinha nas veias sangue real. Do povo havia quem chorasse e quem risse. Eu fui um dos que choraram, porque a conheci em tempos de muito grande valimento e formosura por igual. Em tempos de virtude é que, a dizer verdade, nunca a eu conheci.

“Dos parentes o que mais ativamente entendeu na salvação do preso foi Diogo de Barros, e com ele a parentela que fala de Luís Pereira como de um santo. Baldou-se tudo!

“Ontem, por volta das dez da manhã, correu que se estava carpintejando uma forca no Campo da W (Local onde é hoje o Terreiro do Paço.), a tempo que um regimento de arcabuzeiros se formava à porta do Limoeiro. Toda nós entendeu que ia ser enforcado Garcia de Moura. Fecharam-se as janelas de muitas casas principais. A indignação era grande; mas o terror maior. A compaixão já perdoava as travessuras escandalosas de Garcia; mas ninguém ousava proferir palavra de descontentamento.

“Ao meio-dia, saiu Garcia de Moura Teles entre dois frades de Arrábida, que lhe diziam as costumadas pregações, enquanto dois homens o amparavam pelos sovacos. Eu o vi: ia como morto; não pude encarar naquele espetáculo por muito tempo.

“À uma hora e três quartos correram-lhe o laço, quando já pouca vida lhe poderia a corda apertar na garganta...

Simão de Sã interrompeu a leitura, porque Jorge de Barros, perdida a cor e o alento, caiu para sobre a espádua da sua mulher.

Passado largo espaço, deu sinal de acordo: eram torrentes de lágrimas, e vozes ininteligíveis. O hebreu. arrependera-se de ler a carta, sem predispô-lo a escutá-la. Pensava ele que Jorge devia de odiar bastante o irmão para não sentir tão profundo o golpe.

Depois das lágrimas, sobreveio uma torva serenidade ao rosto de Jorge, e logo estas pausadas palavras:

— Um irmão assassinado pelos Távora; outro... enforcado... Enforcado, santo Deus!... Um neto de Luís Pereira de Barros enforcado!...

Confluíam palavras consoladoras da esposa, de Simão, e de todos. Parecia não ouvi-las, nem ver quem lhas dizia.

— Aquela pobre senhora... a minha infeliz mãe!... — murmurou ele.

E, voltando-se para Simão de Sã, perguntou: — e a minha mãe ainda vive?

— A carta não diz nada a tal respeito.

— E a tua carta? — perguntou Jorge à esposa. — Que diz a Coutinho?

— Não a h toda... Vou ver — respondeu Sara, correndo os olhos por sobre as muitas páginas da carta.

Parou num relanço da última página, e leu: — O honrado Diogo de Barros, segundo me diz a minha amiga Dona Isabel, mulher do contador-mor, vai hoje buscar a senhora Dona Francisca para sua casa, porque se conta que enlouquecera, e diz e faz coisas de furiosa. Vê tu, Sara...

Sara susteve-se, e Jorge disse: — Vê tu... o quê? Lê o mais.

Sara leu: — Vê tu que espantoso castigo o desta senhora!... Os dois filhos que ela amava tão miseravelmente mortos!... Esta infâmia da forca para ela que tão soberba era da sua fidalguia!...

— Está bom... — atalhou Jorge. — Agora... deixem-me sozinho... deixem-me chorar...

O leitor faz-me certamente a justiça de supor que eu não imaginei um D. João V que amou uma cigana, chamada Margarida do Monte, a qual, na qualidade de freira domínica, se fez amar de um mancebo ilustre, que, por se fingir carvoeiro para entrar à cela da dileta do rei, morreu na forca. Se eu suspeitasse da desconfiança injusta do leitor, copiaria o seguinte período com que o Cavalheiro de Oliveira me justifica e abona: “... Eu vi o soberano arrastar pesadíssimas cadeias, em que muito tempo esteve cativo por astúcia ou feitiço, como se dizia, de Margarida do Monte, criatura da raça boémia. Quantas desordens, exílios, e até mortes se não efetuaram por intrigas daquela mulher! Morreu ela finalmente encarcerada no Convento da Rosa de Lisboa, em qualidade de religiosa da ordem do patriarca de S. Domingos. Este novo pai, que à força lhe deram, não a tomou mais ajuizada. Induziu ela um peralvilho a visitá-la na cela; prestou-se ele aos seus apetites, e foi desgraçadamente surpreendido, e pouco tempo depois enforcado. Entrara ele no convento, disfarçado em carvoeiro; e, como foi apanhado com o disfarce, hoje é mais conhecido pelo nome de Carvoeiro da Rosa, que pelo seu nome de batismo ou de família.

O amor das ciganas, naquele tempo, era funesto, invencível e fatal. No segundo volume desta narrativa virá melhor lance de exemplificar o prestígio das mulheres daquela raça que lá vai perdida na confusão de raças que, ainda bem, se fundiram, à luz da civilização, no molde universal da humanidade.

Que ideia formavam nossos avós da raça que tanto se chamava boémia como egípcia? Uns diziam que saíra da Tartária, e infestara a Europa em 1417, com passaporte de Sigismundo, rei da Hungria, e recomendações de alguns príncipes, que a veneravam como raça de profetas, videntes e extraordinariamente iluminados em coisas das altas regiões, cumprindo decretos de Deus, que a mandara cruzar a face da Terra, sob condição de não possuir um palmo dela. A juízo dos príncipes que os protegiam, os ciganos expiavam a culpa do seus antepassados, moradores do Egipto, os quais recusaram receber Jesus e a sua Mãe Santíssima, perseguidos por Herodes.

Cuidavam outros que os boémios procediam da Pérsia; e, de sete em sete anos, saíam em caravanas, obrigados por lei, a buscarem sua vida pelo mundo além, por não terem pátria que lhes abastasse o sustento.

Outros, por derradeiro, consideravam-nos descendentes das dez tribos de Israel, cativas de Salmanasar, rei da Assíria.

Como quer que seja, os filhos da misteriosa origem, em Alemanha eram chamados ziguener, em Itália cingari ou zingari, e nas Espanhas ciganos ou ziganos.

Se a história nos não diz coisa importante acerca de ciganos em Portugal, a legislação claramente nos assevera que eles por aqui estancearam em grandes e perigosas caravanas. Também se nos dá a inferir da legislação que alguns monarcas lhes deram indulgente faculdade de viverem em determinadas localidades do país: quais elas fossem não posso eu de pronto assinar; presumo, porém, com muitas probabilidades que algumas vilas das carairas de Trás-os-Montes e Beira Alta eram o paradeiro legal dos ranchos que anualmente visitavam as feiras principais da nação.

Citarei de passagem as cartas régias, que tenho à mão, pertinentes ao assunto, que merecia ser difusamente versado por quem o investigasse com mais saber e paciência indagadora.

Na Ordenação Filipina lá encontro uma carta régia de 17 de Agosto de 15 5 7 “sobre a saída dos ciganos do reino. “É enviada ao corregedor da comarca de Pinhel, e reza deste teor nos pontos concementes ao nosso intento: “Pela lei dos capítulos de cortes que el-rei meu senhor e avô, que santa glória haja, fez em Évora no ano de 1535, é mandado sob as penas nela conteúdas, que não entrem ciganos nos meus reinos e senhorios, por se evitarem alguns delitos que cometem e fazem em muito dano e prejuízo do povo; e porque me é dito que os ditos ciganos entram nos ditos meus reinos... Hei por bem e vos mando que os não consintais estar nem andar em lugar algum dessa comarca; e se alguns, agora ou ao diante, deles nela andarem ou estiverem os prendereis e procedereis contra eles à execução das ditas penas... O que assim hei por bem sem embargo de quaisquer provisões de el-rei meu senhor e avô, ou minhas que os ditos ciganos ou alguns deles tenham para poderem entrar ou andar nos meus reinos, as quais em todo revogo... E a estes tais que assim tiveram as ditas provisões assinareis termo de trinta dias para que saiam dos meus reinos... Jorge da Costa a fez em Lisboa a 17 de Agosto de 1557.”

Devia de ser urgentíssima esta carta régia, lavrada vinte e quatro dias depois da morte de D. João III.

Não sei até que ponto foram obedecidas as ordens da regência. Pode conjeturar-se que a disciplina se relaxou logo, ou poucos anos corridos; porque dezasseis anos depois, por alvará de 14 de Março e apostila de 15 de Abril de 1573, D. Sebastião, referindo-se ao desprezo com que eram esquecidos os regimentos e leis antigas, junta que os ciganos “fazem muitos furtos, e insultos e delitos de que o povo recebe grande opressão e trabalhos”. Pelo que, manda apregoar em todos os lugares públicos a saída dos ciganos e ciganas, e mais pessoas que com eles andarem, dentro de trinta dias, não obstante as provisões de D. João III ou dele propriamente.

E acabados os ditos trinta dias, acrescenta o pregão, os ciganos que se encontrarem sejam logo açoutados e degradados perpetuamente para as galés. Enquanto às mulheres — diz a apostila — como não podem sofrer a pena das galés, sejam publicamente açoutadas com baraço e pregão, e lançadas do reino.

O rigor das penas não enfreou a ousadia das hordas boémias. De envolta com elas andavam portugueses e estrangeiros de diferentes nações disfarçados em ciganos, e falando a linguagem deles, não aparentada com língua nenhuma conhecida dos lexicógrafos.

Ao meu juízo, estas conquistas de estrangeiros e portugueses quem as faziam eram as ciganas, mulheres sobremodo formosas.

A lei, que manda matar os ciganos e ciganas, rebeldes aos alvarás já sumariados, é de Filipe I. Do contexto da lei colhe-se quão poderosas e temíveis se tinham feito as quadrilhas boémias em Portugal, com as quais se bandeavam portugueses entrajados de ciganos, e falando a linguagem deles. Não era já atrevimento raro entrarem nas povoações de mão armada, saquearem as casas, e repelirem as justiças e tropas. Para aqueles que, no termo de quatro meses, não despissem os trajos da sua raça, não falassem língua portuguesa ou castelhana, e não convizinhassem em povoados, a sentença era de forca no local onde fossem encontrados. Às mulheres dos ciganos, presos nas galés de Lisboa, ordenava a lei que se afastassem no prazo dos quatro meses, sob pena de serem açoutadas com baraço e pregão, e degradadas para o Brasil.

Esta lei, à primeira vista severa, concedia aos ciganos um fácil direito de naturalização, facultando-lhes residirem em Portugal, mais amplamente do que lho tinham concedido as provisões dos reis antigos. Foi ela, enquanto a mim, que, em grande parte, acabou com as hordas vagabundas, dando, para assim dizer, pátria a milhares de famílias que não conheciam berço nem sepultura.

Todavia, algumas caravanas daquela insociável raça, talvez as mais ferozes, nem se temeram da forca, nem se lisonjearam com a permissão de se fazerem portuguesas. Grandes senhores em Portugal as protegiam, nomeadamente o conde de Óbidos no fim do século XVII. Refere um contemporâneo que anualmente na grande feira de Santarém se juntavam muitos, e se alojavam nas abegoarias daquele conde na aldeia de Pernes. O Cavalheiro de Oliveira, então rapaz, e dado aos amores das ciganas, ia passar a Pernes as três semanas da feira; e, segundo confessa, acariciava as mulheres e filhas dos ciganos, e presenteava-lhes os filhinhos. “Entendi”, escreve ele, “que era este o melhor, senão único expediente, de me livrar dos insultos e malvadez desta espécie de gente. E nisto me não enganei, que eles, como escravos, me obedeciam, chamando-me seu senhor, e adorando-me; e devo confessar, em pró deles, que nunca recebi mínima desfeita dos que formavam aquele rancho, e mais vivi com eles por espaço de quinze ou dezasseis anos. Os meus amigos e vizinhos da mesma povoação não podiam gabar-se do mesmo. Como eram maus para aqueles miseráveis recebiam o retorno da mesma natureza. Os ciganos respeitavam no extremo o conde de Óbidos, seu benfeitor. Creio que não hesitariam expor a vida em serviço dele; pelo menos assim mo diziam energicamente e com mostras de sinceridade. Também me diziam que a sua índole em geral lhes não permitia pagar o bem com o mal, e jamais poderiam ser ingratos a quem os beneficiava. Convencido estou disto por um lance que porei como exemplo e prova, o qual é raro em verdade e pode ser que único. A 7 de Novembro de 1727, entre onze horas e meio-dia, quando eu ia atravessando o pinhal da Azambuja, o Ziedel, rei ou diretor da cáfila, acercou-se de mim com mais três que eu não conhecia. Estavam eles armados de clavinas e pistolas; e, bem que eu estivesse armado como eles, tendo somente comigo dois criados, e um só com que podia contar, as forças eram muito desiguais. O Ziedel decerto me não temia, podia impor-me a lei, bastava-lhe arremeter comigo para eu lhe entregar a bolsa, e a vida, se ele a quisesse. Saudou-me o gentil salteador com quanto respeito imaginar se pode, e confessou que desde alguns meses vagueava naquela floresta, à frente de uma quadrilha de bandidos, que viviam tão-somente de roubar os passageiros. juntou que se teria ele a si em conta de infame, se levemente me molestasse; e, para de todo me tranquilizar, deu-me um bilhete assinado pelo seu punho, isto é, uma espécie de passaporte escrito nas costas de uma carta, que era um sete de paus, pelo que ordenava aos demais sócios que me deixassem livremente passar. De feito, este passaporte foi-me utilíssimo. Meia hora antes de entrar em Azambuja, encontrei a quadrilha que me respeitou tanto como o chefe. Seriam uns quinze a vinte celerados que eu não conhecia, e três dos ciganos que eu vira na aldeia de Pernes, os quais me trataram com. muita consideração, alegando os pequenos favores que lhes eu tinha feito. Estes homens, embora os julgueis infamados por aquele grupo de salteadores, não quiseram, por mais diligências que fiz, aceitar duas moedas de ouro que lhes ofereci.“

Ora, da tribo destes salteadores é que saíra aquela Margarida do Monte, amante de D. João V, freira dominicana da Rosa, por amor de quem fora enforcado Garcia de Moura Teles, que revive na tradição, com o cognomento de Carvoeiro da Rosa.