O Judeu
Capítulo XIII · Leonor manteve a promessa feita à mãe…
Leonor manteve a promessa feita à mãe expirante. Pediu que a deixassem despir o luto de órfã para vestir depois as galas de noiva. Era um ano de impaciente esperar; mas deliciosa impaciência para o hebreu. Já ele se não temia da quebra do juramento. E, para cúmulo de felicidade, Leonor dissera-lhe que seria sua, tanto porque prometera, quanto, ou mais ainda, porque o desejava ser.
Morrera, como se esperava, José de Oliveira, pai de Francisco Xavier. O conde de Tarouca, ministro plenipotenciário em Viena de Áustria, elegeu Francisco Xavier de Oliveira para seu secretário. Era esta a mais inquieta ambição do inimigo dos frades: sair de Portugal, ir para onde pudesse desabafar contra os hipócritas, escolher uma religião, ou menosprezá-las todas, sem receio de ser incomodado.
Despediu-se de António José da Silva vaticinando-lhe que nunca mais se veriam, salvo se o judeu procurasse terra, onde sua fantasia pudesse florir ao sol de Deus, aquecer — se ao calor das ideias novas, e não estar sempre a recear-se do calor das fogueiras da fé cristã.
António José da Silva, cego de amor, não teve olhos que vissem lacrimosos a ida do seu primeiro amigo. Sem temor de ofender-lhe a memória, abalanço-me a conjeturar que o judeu folgou de ver sair de Lisboa o homem, cujo nome ainda alvoroçava o peito de Leonor.
Saiu de Portugal Francisco Xavier de Oliveira em 19 de Abril de 1734. Mais tarde, iremos no encalço deste homem que vai indo sob o influxo de funesta estrela.
O contentamento espertou as glórias adormecidas de António José da Silva, as glórias do teatro. A ópera, que ele tinha concluída para ser posta em cena, era a Vida do Grande D. Quixote de Ia Mancha e do Gordo Sancho Pança. A companhia, que então representava no teatro do Bairro Alto, era boa e amestrada pelas lições e exemplo do famoso cómico espanhol António Rodrigues, que em Lisboa vivia lauta vida em galardão da sua eminente habilidade?
Foi D. Quixote para ensaios, que o autor dirigiu, por espaço de dois meses com incalculáveis aflições! O leitor entendido mais ou menos em arte dramática digne-se imaginar que mortificações alancearam o pobre autor, para meter em ordem os seguintes personagens da peça:
Dom Quixote. Sancho Pança.
A sobrinha de D. Quixote.
A ama do mesmo, Teresa Pança, mulher de Sancho. Uma filha do mesmo.
Um tabelião vestido de almocreve. Uma saloia num burro, Sansão Carrasco. O seu criado. Um diabo que vem no carro.
Outro diabo com muitos cascavéis Um homem que vem com o leão Belerma, Montesinos. Um que está na cova.
Caliope que vem na nuvem. Apolo e as musas.
Dois homens que são do moinho. Dois homens do barco. Um fidalgo. Uma fidalga. Um meirinho, Um escrivão, Dois homens que locam rabecas. Um homem que loca rabecão. Um médico, Um cirurgião. Um taverneiro. Uma mulher jovem com manto. Uma mulher velha em corpo. Um escudeiro. A condessa das barbas. Dois rebuçados. Dois homens para a audiência.
Ora, todos estes personagens deviam obedecer mais ou menos ao ensino do poeta, incluindo o burro da saloia, e o leão do homem; porém, as zangas e desalentos de António José da Silva eram incomparavelmente maiores no modo de fazer funcionar a tempo o chamado “aparato de teatro”, peças de magnífico espetáculo, de que acíntemente dou notícia para encovar o orgulho dos maquinistas modernos. Vejam:
Um carro com várias figuras dentro. Uma capoeira sobre um carro, em que irá um ledo, que sai fora ao seu tempo.
Um carro em que vem Dulcineia e várias figuras. Dois cavalos, um de D. Quixote, e outro de Sansão Carrasco. Dois burros, um para Sancho Pança, e outro para uma saloia.
O monte Parnaso com as musas, Apolo, e o cavalo Pégaso. Um barco, Um cavalo que vem pelo ar, e se lhe põe fogo. Uma nuvem. Um porco.
Este último personagem não voltou à cena — digamo-lo de passagem — desde António José da Silva. Supunha-se que o senhor Mendes Leal reabilitasse o porco, aqui há anos, quando povoou de camelos o teatro normal. A ocasião era aquela. Como passou, é de presumir que o porco se não logre de pisar outra vez o palco.
Vontade de ferro e coadjuvação dos primeiros talentos de Lisboa em tramoias teatrais, vingaram que a ópera se mostrasse ao público ansioso na noite de 14 de Outubro de 1733.
A ordem dos camarotes nobres estava adornada com as senhoras de primeira plana, que mal se viam por causa das gelosias.
O camarote dos frades, assim denominado por excelência, estava recheado de bons e devotíssimos teólogos, cujos narizes rúbidos. a custo podiam entrever-se através das rótulas? Na plateia, a pressão era sufocante. Pagavam-se as entradas a moeda de ouro; e, quando se anunciou que entrava em cena um porco e um cavalo que voava, os bilhetes subiriam a peça, se aparecessem vendedores.
As gargalhadas atroavam compactas desde a primeira cena. Riam os frades em contorções de júbilo, espirravam as damas simpáticos frouxos de riso, ria toda a gente, menos os poetas de Lisboa, que se tinham enfileirado, de antemão comprometidos a não acharem graça à comédia do hebreu. Parece que pressagiavam a trovoada eminente, e o raio fulminante da irrisão geral!
Chegou a cena VIII do 1.° acto. Ouvem-se músicas melodiosas.
D. Quixote
Não ouves, Sancho, uma suave harmonia?
Sancho
É verdade!, espere Vossa Senhoria, que lá vem voando o quer que é!
(Desce a musa Caliope numa nuvem, e D. Quixote e Sancho ajoelham. O cavaleiro da triste figura e o gordo pajem reverenciam a musa, que se abre nestes rogos ao donoso socorredor de aflitos.)
Caliope
Valente Dom Quixote de la Mancha, cavaleiro dos leões, eu sou a musa Calíope, a primeira e principal das nove, que assistem no monte Parnaso. Aqui venho aos teus pés enviada pelo meu amo, o senhor Apolo, o qual, como sabe que tens professado a estreita religião da cavalaria andante, e tens de obrigação o desfazer agravos, socorrer aflitos e restaurar honras perdidas, por essa causa te manda pedir encarecidamente queiras ir ao Parnaso, aonde se ele acha, cercado de uns poetas malédicos, que o querem despojar do trono; e juntamente para reformares a poesia, que se acha quase arruinada; para o que eu, da minha parte, como tão interessada neste desempenho, te suplico com o suave das minhas vozes, pois é certo que a música tem virtude para atrair os corações mais duros.
Sancho (À parte)
Aqui nos encaixa uma ária à queima-roupa!
(Caliope, defeito, cantou, enquanto o bravo pensa no modo de galgar ao Parnaso. Põe suas dúvidas à deusa, que lhas corta, arrebatando-o e mais o escudeiro numa nuvem. Aqui estamos já no Parizaso. Começavam a contorcer-se os poetas da plateia, já muita gente os tem de olho, e engatilha a risada para lha desfechar na cara.)
Apolo (Aos poetas)
Esperai, bastardos filhos, que cedo virá quem me vingue das vossas injúrias!
Poetas
Já não te reconhecemos, ó Apolo, por deus da poesia; pois qualquer de nós é Apolo, e cada ideia nossa uma musa.
Apolo
Assim vos atreveis a profanar o decoro que se deve aos meus apolíneos raios?!
(Aparecem D. Quixote, Sancho e Calíope.)
Poetas
Toca a investir ao Parnaso!
Apolo
Em boa hora venhas, valente Dom Quixote, que só a tua espada me pode segurar o trono e o laurel! Vem, vem a vingar-me destes poetazinhos, que sem mais armas que a sua presunção, querem não só competir com o meu plectro, mas ainda intentam despojar-me do Parnaso; e, como as armas e as letras são tão fiéis companheiras, quero-me valer das tuas armas para a restauração da minha ciência; e, como esta violência, que se me faz, não desmerece os empregos da tua cavalaria, peço-te que me socorras.
D. Quixote
Senhor Apolo, eu tomo sobre mim o seu desagravo; e já, desde agora, se pode assentar bem nesse trono que dele ninguém o há de arrancar.
Sancho Senhor meu amo, penso que estou a sonhar! Que Vossa Senhoria entre no Parnaso, não é muito, porque é louco; porém, eu, que, sendo um ignorante, também cá esteja, é o que mais me admira! E daqui venho agora a concluir que não há tolo que não entre hoje no Parnaso!
D. Quixote
Diga-me, senhor Apolo, e como se chamam os poetas que tanto o perseguem?
Apolo
Essa é a desgraça, Dom Quixote; que os poetas que me perseguem não são de nome; e, contudo, cada um julga que é mais do que eu mesmo.
D. Quixote
Dizei-me, poetas de água doce!... (O ator, que proferia a apóstrofe, fitou os olhos na turba dos vates. A hilaridade mal deixava ouvir os brados retumbantes do esgrouviado cavaleiro.) Dizei-me, rãs que grasnais no charco da Cabalina! Dizei-me, cisnes contrafeitos, que vos banhais no lodo da Hipocrene: com que motivo quereis competir com o deus da poesia?
Poetas
Porque esse Apolo, como não inspira, não merece o nome de Apolo; e assim queremos tornar-lhe o Parnaso e reparti-lo entre nós.
Sancho
Senhor!, não se meta a brigar com os poetas que são piores que gigantes. Veja Vossa Senhoria que eles trazem um exército de dez mil romances, quatro mil sonetos, duzentas décimas, oitenta madrigais, e um esquadrão de sátiras volantes em silva que arranha. Veja bem no que se mete!
O ator, que proferia a apóstrofe, fitou os olhos na turba dos vates. A hilaridade mal deixava ouvir os brados retumbantes do esgrouviado cavaleiro.
D. Quixote
Nada me assombra; porque eu só com esta espada hei de vencer quantos poetas há no mundo. Cerra Espanha! Viva Apolo!, e morram os traidores! (Grande algazarra.)
Apolo
A eles, meu Dom Quixote, que a vitória é nossa!
Sancho
Aqui d’el-rei, que estou passado de parte a parte com um soneto em agudos!
D. Quixote
Já fugiram como mosquitos!
Sancho
Avança!, que com esta gente sou eu gente!...
Felizmente para os poetas, com pouco mais, baixou a cortina do primeiro acto. Alguns saíram e não voltaram a expor-se às brutais risadas daquele selvagem público, de todo desaparelhado dos menores rudimentos de educação. Os mais briosos propunham-se chibatar o ator, e os mais covardes ameaçavam o judeu, em tom comedido que não podia chegar aos ouvidos de António José da Silva.
Correu a comédia sempre vitoriada, tirante os lances em que apareciam diabos em cena, porque então os frades do camarote resmoneavam entre si, dizendo-se:
— Como é que a censura deixou passar estas galhofas, que insultam a religião católica?
— Bem se deixa ver a cauda do judeu por entre as farsadas da sua tramoia!... Queira Deus que o autor não tenha de ir ainda purgar-se destas fezes que lhe sujam o talento!... — observava um leitor de Teologia do Convento de S. Domingos.
Sem embargo, a reputação de António José da Silva estava confirmada pelo delírio da multidão.