O Judeu
Capítulo III · Plácido de Castanheda de Moura, volvidos alguns…
Plácido de Castanheda de Moura, volvidos alguns dias, disse ao sogro:
— Trato de arranjar posição a Jorge: é preciso tirá-lo desta vida de estudante, que não vai dar a coisa nenhuma.
— Pensas erradamente, Plácido: a vida de estudante vai dar à sabedoria, que é tudo.
— Mas não é profissão lucrativa, queria eu dizer. Lembro-me de lhe arranjar um governo dos subalternos na Índia ou no Brasil.
— Bom começo de vida é; mas seria bom que começasses pelo mais velho — observou Luís de Barros intencionalmente.
— Esse tem o morgadio... — acudiu o genro.
— Que pode desbaratar — disse o ancião — , se o deixares na liberdade, no ócio e dissipação em que vive.
— É rapaz: nós não fomos melhores, meu pai...
— O que tu foste, mal o sei; eu de mim, comecei a ser homem de bem desde os quinze anos... Lembrava-me que requeresses o governo para Filipe, que não tem morgadio.
— Filipe tem inteligência muito curta.
— Então já te parece que o estudar serve de alguma coisa... Vens dar-me parte da tua resolução, a respeito de Jorge, ou pedes o meu parecer?
— Desejava ouvi-lo...
— Deixa estar o rapaz em casa: é-me necessário, criei-o eu nestes braços, quero-lhe muito. Isto não é parecer, é súplica.
— Cumpra-se a vontade do pai; porém, Francisca vive desgostosa por certos amorinhos de Jorge com a judia...
— Sempre a judia! — atalhou sorrindo tristemente o ancião. — Dantes chamava-se Maria a desventurada criatura; de há tempos para cá, sempre que falam dela, chamam-lhe, em tom de desprezo, “a judia”!... A tal respeito, já eu disse a Francisca bastante e de mais. Ela que to refira, se ainda o ignoras. Tu e a tua mulher sois maus! — bradou de repente o ancião, erguendo-se convulsamente sobre os encostos da poltrona. — Sois maus, sois feras para este filho, que é um bom rapaz, e para aquela mocinha, que é uma desgraçada! Andai! Andai! Apertai bem a coroa de espinhos sobre as cãs de quem vos deu tudo, e reservou para si o amor do neto, que lhe quereis roubar!
— O pai é injusto! — exclamou o corrido genro. — Não consente que Jorge dê contas das suas ações a quem lhe deu o ser ?!...
— Consinto e quero; mas reservo para mim o direito de vos pedir contas a vós, e Deus mas pedirá a mim. Deixai-me na paz que os meus anos e os meus trabalhos carecem.
O velho escondeu o rosto entre as mãos, e Plácido de Castanheda foi relatar à esposa a irritação do pai.
— Está decidido! — exclamou ela. — Jorge põe-nos o pé na garganta! E daqui a pouco a judia fará o mesmo...
E soltou uma gargalhada, articulando entre os impulsos do maldoso riso:
— Havia de ter graça!... Não!... Dela eu me vingarei!... Eu sou filha de Dona Maria Teles — prosseguiu ela com disparatada cólera. — Tenho sangue da rainha que fez enforcar a gentalha em frente do paço de a par São Martinho. Sou Teles, e basta!
— Não te aflijas! — acudiu Plácido. — Não é para tanto o caso, menina... Se alguém te ofendesse, filho ou criada, bastaria a mão do teu marido, ou as correias dos teus lacaios para te vingarem!
Ao mesmo tempo, Luís Pereira mandava sentar Jorge à sua escrivaninha, e dizia-lhe:
— Escreve o que eu vou dizer. Olha que vais dar-me prova de homem de bem. Escreve.
E ditou:
Eminentíssimo e muito reverendo cardeal, arcebispo, primo e senhor meu. O jovem que vos leva esta é vosso parente, e o meu neto, Jorge de Castanheda de Barros. Dai-lhe a vossa bênção, e consenti que vos ele beije os pés. Depois fazei-me a mim mercê, como a primo, e amigo vosso desde que vos beijei, quando eu tinha quinze anos, aos peitos da vossa mãe, a senhora condessa D. Leonor de Mendonça, minha muito prezada prima e senhora; mercê, digo, me fareis de mamordes escrever, e rubriqueis ordem ou aviso para que no Convento da Madre de Deus seja recebida como secular, a expensas minhas, uma donzela familiar desta vossa casa, que houve nome batismal de Maria Luísa de Jesus, e antes fora Sara de Carvalho, filha de hebreus que morreram no fogo. Deus vos guarde anos dilatados, primo, prelado, cardeal, e senhor meu.
Casa, 2 de Novembro de 1699
Vosso servo e primo
Luís Pereira de Barros
Jorge escrevia com os olhos turvos de lágrimas. O avô, atraneto, e disse:
— Essas lágrimas não envergonham, filho; e a obediente coragem com que escreveste, sem levar mão do papel, é a tua meritória façanha de homem de bem. Ora vai. Os lacaios que tirem fora o meu coche. Irás como teu avó costumava ir ao paço dos príncipes da Igreja, quando eles não eram inquisidores...
O cardeal D. Luís de Sousa acolheu muito benigno o seu parente, cruzou-lhe muitas bênçãos, e mandou que sem demora lhe entregassem o aviso solicitado.
Posto em presença do avô o consternado Jorge, com a ordem do arcebispo, chamou Luís de Barros o seu velho escudeiro António Soliz, e ordenou-lhe que pedisse à Sra. D. Francisca o favor de vir àquela sala.
E a Jorge disse:
— Vai, e espera que eu te chame. Entrou a fidalga.
— Chamei-te, minha filha — disse o velho — , para te avisar de que Maria vai recolher-se ao Convento da Madre de Deus. Assim acabam teus dissabores e receios.
— Então vai para criada de alguma freira? — perguntou ela em tom de menoscabo.
— Não vai para criada de freira. Vai como secular.
— Quem a sustenta?!
— Eu.
— O pai?!...
— Sim filha.
— Pode fazer o que quiser... — disse com má sombra.
— Agradecido à condescendência — redarguiu Luís de Barros, sorrindo. — Tenho ainda a pedir-te que dispenses uma das tuas criadas para ir com ela até ao convento.
— Pois sim...
— E com as duas irá o Jorge.
— O meu filho?! Não sei se me parece bem um meu filho a acompanhar criadas!
— Assim como o teu pai foi ao cardenho do atafoneiro buscar Sara, a filha dos judeus queimados, do mesmo modo pode sem desaire ir teu filho acompanhar ao convento Maria, a cristã.
— Bem... Faça-se em tudo a vontade de vossa Senhoria.
— Agradecido, filha. Dá ordem para que Maria venha falar-me.
D. Francisca transmitiu à serva o recado por uma escrava.
Maria, trémula e lacrimosa, entrou à antecâmara do fidalgo. já a triste nova da clausura lhe tinha soado por intermédio de Jorge.
— Vem cá, menina — disse ele. — Salvei-te do infortúnio da orfandade há quinze anos: não pude remediar todas as dores que perseguem a filha sem pai nem mãe; fiz, porém, o que pude.
Entraste nesta casa como criada, e vais sair como senhora. No Convento da Madre de Deus tens uma cela e uma pensão abundante; e na prioresa desta casa acharás uma amiga. Vai com Deus, e prepara-te.
Jorge, novamente chamado, escreveu, conforme os dizeres do avô, uma carta à sua parenta soror Leonarda, prioresa da Madre de Deus. Ao fim da tarde, Maria foi, lavada em lágrimas, despedir-se de D. Francisca. A fidalga voltou-lhe as costas, dizendo:
— Quem havia de supor que esta raça maldita viria perturbar o sossego da minha casa!?... Nós faremos contas...
Repelida tão desabridamente, foi despedir-se de Plácido de Castanheda de Moura, que restringiu o seu menospreço às palavras: “Passe bem. “
Filipe e Garcia andavam no picadeiro amestrando cavalos, e dispensaram as despedidas da criada.
Luís de Barros não pôde evitar que Maria, ajoelhada, lhe beijasse os pés. Apertou-a ao seio, e disse-lhe:
— Sê virtuosa para nos encontrarmos no céu; que na terra, não nos veremos mais.
Jorge esperava, no pátio, Maria e a criada que lhe era companhia. Por ordem do velho, entraram no coche, carruagem sua especial dele. À portaria daquele triste mosteiro, Jorge proferiu as primeiras palavras na presença da criada particular da sua mãe. Foram estas:
— Maria, não desanime. Temos vinte anos.
— Até ao Dia do Juízo? — disse ela arquejante.
— Ânimo! — murmurou ele apertando-lhe a mão. D. Francisca, informada deste breve e aflitivo diálogo, exclamou:
— Eu vos tomo à minha conta, canalhas!... Que vergonha!... Um neto de Maria Teles!... Um filho de Francisca Pereira Teles apertar a mão da criada da sua mãe... da judia!...