O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 7 de 46

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O Judeu

Capítulo VII · Nos últimos dias do ano de 1699,…

 

Nos últimos dias do ano de 1699, Luís Pereira de Barros disse a Jorge:

— Não chego ao novo século...

— Olhe que são hoje vinte e três de Dezembro, meu avô — atalhou Jorge.

— Bem sei, filho, bem sei... Acabo com o meu espírito em toda a luz, que n Senhor lhe deu. Não tive ainda hora de me esquecer; e, contudo, o esquecimento, neste meu triste acabamento de corpo, seria um favor do céu. Falemos com tempo, Jorge.

— Vai falar-me de morrer... — interrompeu o neto. — Não quero ouvi-lo...

— Hás de ouvir-me, que não tens querer. E tirou do dedo o anel, dizendo:

— Lê essas palavras que aí estão escritas no reverso do arco. Jorge hesitava em pegar do anel. Luís de Barros instou:

— Lê, Jorge...

O jovem, alimpando as lágrimas, leu:

 

NA CAIXA DE NEPTUNO.

 

— Percebes? — perguntou o velho. — Quer dizer que o cofre está no depósito daquele Neptuno do chafariz do bosque. Sabes?

— Sim, meu avô.

— Dá-me uma carteira que está na quinta gavetinha daquele contador.

O neto foi buscar a carteira, e o velho continuou:

— Lê o que diz a última folha de um caderninho que aí está. Jorge leu:

 

NOTA

Contém o cofre vinte e quatro contos de reis em variadas moedas

de ouro.

Item: duas dúzias de brilhantes que foram do meu avô Pedro de

Barros e Almeida.

Item: as joias encastoadas em pentes de ouro, e quinze anéis que

foram da minha avó Dona Leonor de Barreiros.

Item: os copos da espada com diversa pedraria, que o meu avô

materno Dom Jorge de Barreiros trouxe do governo da Baía.

Item: o retrato da minha mulher, sobre marfim, broslado de

cercadura de diamantes, que lhe dera sua mãe Dona Inácia Teles

de Meneses.

 

— É isso mesmo — disse Luís Pereira — , lembro-me muito bem. Tira essa folha de papel do caderno, e guarda-a, para que dês no futuro o apreço de coração que deves dar a alguns desses objetos de família.

— É cedo para eu me fazer depositário desta nota — disse Jorge.

— Não é cedo; é a hora ao justo. Agora, guarda esse anel, não já por amor das letras, porque de memória as tens; mas porque foi o primeiro e único anel que tive na minha vida. Deu-mo em mil seiscentos e trinta e seis Dom João de Bragança, que, passados quatro anos, era rei de Portugal. Tinha eu vinte e um anos e andávamos a caçar na tapada de Vila Viçosa. Atirei a um veado com tal agilidade e perícia, que o duque, arrebatado de gosto, sacou do dedo este anel, e mo deu, dizendo-me: “Se eu fosse rei, Luís, fazia-te monteiro-mor do reino.“ — “Antes contador-mor dos contos do reino, senhor duque e o meu príncipe”, lhe disse eu, beijando-lhe a mão. E, quatro anos depois, era ele rei, e eu contador-mor. Aí tens o anel e a sua história, meu filho. Agora, escuta. Depois da minha morte, não te dês pressa em ir buscar o cofre. As entradas do palácio da Bemposta hão de ser espiadas noite e dia. Os alviões e enxadas, se não trabalham já na escavação das lojas e derrubamento das paredes, assim que eu fechar olhos, não há de haver braço inerte naquela casa. Os teus passos hão de ser vigiados de sol a sol. se os teus irmãos souberem que tens no dedo o anel, serão capazes de te mandar matar à hora do dia. Esconde-te, se necessário for. Na segunda gaveta daquele contador de pau-santo acharás dinheiro que farte para viver seis anos fora de Portugal. Será prudência que te alongues da vingança dos nossos. Farás isto?

— Farei o que o meu avô ordenar.

— Mais: o dinheiro, que está na terceira gavetinha, dá-lo-ás a António Soliz, meu honrado escudeiro, que é filho natural daquele Simão Pires Soliz, que, em mil seiscentos e trinta, foi sentenciado como sacrílego, queimado vivo, e inocente padeceu. Eu tinha então quinze anos. em frente da minha casa morava a mulher que houvera de Simão Pires um filhinho, e acabava de o dar à luz quando ao pai da criança lhe estavam cortando as mãos em vida. A mulher morreu.

A criança ficou nos braços da comadre. Soube-se isto na nossa casa. Pedi à minha santa mãe que ma deixasse ir buscar. Alegrou-se o coração da virtuosa. Fui com uma escrava buscar o menino, que é este velho que vês ao pé de mim há tantos anos. Queria deixar-to como herança; mas prevejo que o teu viver será inquieto; e ele tem sessenta e nove anos: carece de repouso. Dá-lhe, pois, o dinheiro para que o meu António goze, desafogados de cuidados, os últimos anos.

Terminou o testamento verbal de Luís Pereira de Barros. Jorge recadou o anel, e a nota cortada do caderno.

Neste dia, D. Francisca Pereira Teles, sujeitando a ira a uma tardia astúcia, ou, porventura, esporeada de remorsos, procurou o pai. Assim que ao ancião lha anunciou o neto, disse ele, sorrindo a Jorge:

— Aí vem, pois, minha filha visitar o anel. Empresta-mo, para que ela não escandalize esta família com alguns assomos de desesperação. Para mim, para ti e para todos é bom que ela o veja. Digam-lhe que eu a recebo. Quero perdoar-lhe antes de me ver com a face do supremo juiz.

De feito, D. Francisca, ao beijar a mão do pai, cravou no anel os olhos. O ancião estremeceu e arquejou ao lembrar-se que era aquela a filha enternecidíssima, o bálsamo das suas chagas trinta anos antes. Nublaram-se-lhe os olhos de água, reparando nela como quem para sempre se despedia.

— Porque não vem para sua casa, meu pai? — disse D. Francisca.

— Já agora — respondeu ele tardiamente — aqui me virão buscar pouco mais morto do que saí da minha casa.

— Pois tem piorado, meu querido pai?

— Não: tenho melhorado. Estou cada vez mais perto do termo da viagem. A canseira é maior; mas a vista da pátria alegra o viandante fatigado.

— E porque não quer morrer no seio da sua família? — tomou a filha.

— Porque a não tenho pelos laços do coração: os do sangue que montam? A minha família toda está figurada em Jorge...

D. Francisca fez um gesto repugnante.

O pai continuou: — Queres ver teu filho?

— Como Vossa Senhoria quiser...

— Não, filha: como for tua vontade.

— E desejará ele ver-me?

— Entendo que sim... António — disse Luís de Barros ao escudeiro — , diz ao menino que venha ver sua mãe.

— Deixe-o estar... deixe-o estar — atalhou D. Francisca.

— António — disse o velho — , não digas nada. E baixou a cara pensativa, enquanto a filha exclamava: — Pois eu não sei que ele me odeia?! Não sei que por causa do tesouro do pai faz guerra aos irmãos e a todos? Não sei que ele é capaz de todas as abjeções e hipocrisias para ficar com o segredo do dinheiro? _ Foi a isto que vieste? — perguntou Luís de Barros, depois de larga pausa.

— Não, senhor: eu vim vê-lo, e pedir-lhe que tome para a sua família. Toda nós está espantada da sua saída!

— Sei que toda nós está espantada, de mais o sei... — disse o ancião. — Já agora não há para que lhe aumentemos o espanto com a minha tomada para a casa onde nasci. Não vou.. Agradeço a tua visita, e vai com a graça de Deus e com a minha bênção.

— Permite-me, ao menos, que eu continue a visitá-lo?

— Sim... — murmurou o pai.

— E quer ver seus netos? — tomou ela.

— Não. Perdoo-lhes, para que me deixem... E tu se tens lá, no secreto da tua vingança, alguma nova aflição que me dês, não venhas aqui.

— Pois assim me lança de si?! — exclamou D. Francisca refinando a malícia com a impostura.

— Eu queria morrer com Jorge ao meu lado — disse o velho — e tu não podes estar onde ele está.

— Que me importa? Deixá-lo estar...

— Não. ódios ao pé de um agonizante são maus sentimentos para ajudar a bem morrer. Francisca, não és boa mãe, como te hei de eu aceitar como boa filha?!

— Sou mãe injuriada, insultada, e escarnecida! Sou filha desprezada e esmagada por um pai iludido pelas astúcias de um perverso!... — bradou ela voz em grita.

— Basta! — clamou o velho — , esta casa não é a tua! Não me envergonhes, nem te cubras de vilipêndio aos olhos dos nossos parentes. Sai daqui! Vai pregar aos frades de São Domingos a virtude purificante do fogo! Vai cavar na masmorra da pobre Sara! Vai ver quantas espadanas de sangue sujam os guadamecins do inquisidor-geral! Sai-te, coração de hiena!

Na sala próxima estavam já os donos da casa, atraídos pelos roucos brados do ancião.

D. Francisca passou por entre eles flamejante de raiva. Nem . de leve acenou com a cabeça. Saltou à sege, e partiu com a garganta recingida da serpente do ódio, que lhe afogava os soluços.

CAPÍTULO VIII

 

A família entrou de roldão na antecâmara de Luís de Barros, protestando não mais deixar subir D. Francisca Teles à presença do pai. O ancião não respondia às perguntas, nem assentia às reflexões. Parecia surdo, ou falecido de entendimento.

O abalo extenuara-lhe muito das restantes forças. Inclinara ele a cabeça para o ombro de Jorge, que lhe não despregava os lábios da cara. O escudeiro colava a face à respiração do seu amo, desconfiando da brevidade da morte. Jorge murmurou:

— Parece-me que está adormecido... Não façamos rumor. Não tenhas medo, António... O meu avô não pode estar morto...

E o ancião acenou com a cabeça negativamente. As pessoas da casa retiraram-se pé ante pé, cuidadosas em fazer-lhe ministrar os sacramentos. Assim que elas saíram, Luís Pereira restituiu o anel ao neto, e disse com vozes cortadas de pausas ansiosas:

— Não te aflijas, filho, que ainda não é a hora... António — continuou, chamando o escudeiro — , é tempo de ir à Congregação chamar o meu padre Manuel Bernardes... que venha ouvir-me de confissão, e dizer-me as suas últimas revelações da outra vida... Parece que dá saúde ao corpo e à alma ouvir aquele altíssimo espírito do meu oratoriano...

Adormeceu o ancião reclinado na espádua do neto um breve sono entrecortado por passageiras dores, que ele acusava com gemidos e estremecimentos.

Acorreu prestes o douto e apostólico Manuel Bernardes, o qual, com o rosto radioso de alegria, se assentou à beira do seu confessado de vinte e cinco anos, perguntando-lhe:

— Já vos alvorece o dia almejado, meu velho amigo? Temos à vista o farol do céu? Ora, pois, atiremos o ligeiro esquife à garganta das vagas encapeladas, deixá-las remugir, e vamo-nos de nado à praia, que lá estão os anjos com roupas enxutas para nos entrajarem das galas do empíreo.

Jorge, obedecendo a um aceno do sublimado místico, saiu da câmara, e foi chorar nos braços de António, que estava em joelhos e mãos postas na sala vizinha.

Quando estas coisas corriam, Garcia, Filipe e Plácido de Castanheda de Moura, com alguns criados de mais conta, andavam escavando nas lojas e aluindo paredes meio esburacadas. D. Francisca dirigia a exploração com uma atividade digna de melhores resultados. O marido apalpava os terrenos batendo com a alçaprema; e onde quer que a pancada batesse em oco, ou a imaginação lho fizesse parecer, aí caíam as enxadas e alviões com suada freima.

Ao escurecer, abriram mão da obra, e gizaram as escavações do dia seguinte.

— O cofre há de aparecer — dizia D. Francisca — , ainda que se arrase o palácio!

— Não será prudência isso!... — observava o marido timidamente.

— Qual prudência nem meia prudência! — vozeava a consorte, batendo o pé rijo. — Há de aparecer o cofre, porque ele está em casa; e, se esperas pelo anel, então, meu amigo, histórias! Que dizes tu, Garcia?

— Eu digo que sim: o tesouro está lá por baixo, e nós havemos de achá-lo, sem arrasarmos a casa. A mãe já disse muitas vezes que o avô desceu as escadas para o pátio de dentro com o caixote.

— Foi assim — confirmou a mãe.

— Então não há que duvidar — disse Garcia — , se não estiver numa loja está na outra. Havemos de cavar...

— Até ao inferno! — disse Filipe.

— Credo! — atalhou D. Francisca. — Não fales em inferno, menino, que se me arrepiam os cabelos.

— Isto é um modo de falar! — emendou o filho. — Havemos de cavar até onde toparmos o dinheiro.

— Asneira no caso! — interveio Plácido de Castanheda. — O teu avô não teve tempo de fazer grande cova, já porque foi sozinho, já porque se demorou cerca de uma hora, como diz tua mãe. E então é escusado cavar muito ao fundo. O mais que se deve procurar é até à fundura de três palmos; e, se não aparece, pôr o sentido e o trabalho noutro lugar.

— Deixa lá os meninos com o negócio, que eles são mais espertos do que tu — contraveio D. Francisca.

— Pois façam lá o que quiserem — concluiu Plácido para não assanhar a mulher, que já tinha o sobrolho avincado.

No dia seguinte, começaram os desaterros nas cocheiras antigas. Um dos cavadores sentiu estalar debaixo da enxada coisa sonora como tampa, e exclamou: “Cá está! “

Concorreram os interessados por diferentes portas do palácio. D. Francisca Pereira, descendente da rainha Leonor Teles, surgiu à porta da cocheira de saia branca e pantufas de liga. Plácido de Castanheda de Moura saiu de outra porta encapuzado num reguingote, a espirrar muito endefluxado.

Os fidalgos novos arremangavam as camisas para com as próprias mãos desbastarem a camada de terra, e ressurgirem o cofre do seu túmulo de quarenta e três anos, Acocoraram-se todos em redor da cova. Filipe e Garcia esgaçavam as unhas mimosas agadanhando na terra. Lobrigaram uma clareira de superfície sólida do quer que era. A cor era preta.

— Preto era o caixote — disse alvoroçada D. Francisca. — Bem me lembro: era preto com cintas de cobre.

Continuaram a descobrir sem tomarem fôlego. A fidalga, de impaciente, quis também sujar a sua mão de marfim. O contador-mor, em atenção aos reiterados espirros, abstinha-se de humedecer as mãos. Grande júbilo! Encontraram uma argola. Garcia perguntou:

— Minha mãe, o cofre tinha argola?

— Havia de ter por força... — disse ela — Achaste-a?

— Cá está.

— Então venha uma corda, e puxemos — disse Filipe.

— Isso é asneira! — admoestou o pai.

— Porque é asneira?! — interpelou D. Francisca.

— Ora supomos — explicou Plácido — que o caixote está podre do contacto húmido da terra: se está podre, desfaz-se com o empuxão e entorna-se o conteúdo.

— És parvoinho! — retrucou a esposa. — Venha a corda!

— Arranjem lá... — condescendeu o contador-mor, abrindo a boca para facilitar o espirro.

Enfiaram a corda pela argola, e puxaram os dois fidalgos e dois lacaios. Deu de si a tampa: repuxaram, e a tampa ressaltou de um sacão.

D. Francisca fez pé a trás com a mão no nariz. Filipe e Garção saltaram para fora da cocheira. Plácido parecia espirrar o cérebro. Os criados exclamavam:

— Com dez diabos! Fedor assim só no inferno! — Examinado o local pelo servo mais corajoso de nariz viu-se que a tampa era de lousa, e o que ela tapava era o suspiro do escoadouro das fezes, que naquele ponto se havia entupido.

Se este acaso fosse obra providencial, muita gente havia de crer que a Providência castiga como Aristófanes e como Juvenal. Aquele género de zombaria, se não foi odorífero, caiu perfeitamente de molde na ocasião.

D. Francisca foi respirar sais antipútridos. Os filhos, de modo que a mãe os não ouvisse, riam com as mãos nas ilhargas. Os criados, para rirem impunemente, puseram-se de barriga ao chão, abafando as cascalhadas. Plácido de Castanheda de Moura franzia as fossas nasais para provocar o espirro e desinfecionar a cabeça.

Quando se encontraram à mesa do almoço, e encararam uns nos outros, então foi o desabafarem numa gargalhada estrídula e compacta.