O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 16 de 46

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O Judeu

Capítulo IV · A prisão de Lourença Coutinho, nos cárceres…

 

A prisão de Lourença Coutinho, nos cárceres do Rossio, foi das menos tenebrosas. Não obstante, a esposa de um marido amado e de três filhos estremecidos, desde a primeira hora em que foi arrancada aos braços deles, ficou num torpor de espírito, numa insensibilidade estuporosa, que parecia alheá-la de refletir na sua miséria.

Não sei descrever aquela primeira noite. Lourença olhou para as trevas da noite como para a luz da sua primeira aurora nos cárceres da Inquisição: aqueles olhos, sempre abertos, pareciam ter cegado, ao mesmo tempo que a memória do passado se escurentara também.

Às oito horas levantaram-na de um tamborete, e conduziram-na a outro quarto. O chaveiro que a foi guiando, disse-lhe ao entrar na outra prisão:

— Este quarto é bem melhor; isto nem é cárcere; tem grades sobre o Rossio; é como quem está na sua casa.

— E meu marido? e os meus filhinhos?

— Esses não vieram — respondeu o guarda.

— Vieram — insistiu ela.

— Não, senhora: foram-se embora lá para onde quiseram.

— E eu fico? — exclamou ela.

— Por ora, fica; mas, cá pelas minhas contas, Vossa Senhoria não está cá muito tempo. já hoje chegaram ordens do senhor inquisidor-mor para se lhe dar um dos quartos reservados.

— E eu posso ver meus filhos e o meu homem? — disse Lourença.

— Olhe, se eles ali passarem no terreiro, pode vê-los à vontade. Isto aqui é só não sair à rua; que o mais não há em Lisboa janelas de tanta vista.

— E então que é dos meus filhos? Onde ficaram eles? Aqui rompeu ela em desabafado gemer e chorar, correndo às reixas, e chamando os filhos e o marido, com os olhos esgazeados sobre quantas pessoas iam passando.

O guarda ordenou-lhe que se aquietasse, quando não, corria perigo de descer às masmorras.

Lourença encolheu-se a tremer com as mãos postas, e bebeu as lágrimas com os soluços que a estrangulavam.

Às dez horas foi conduzida pelo guarda a um recinto vasto, pouco iluminado, e de profundo teto. Viu um velho de agradável sombra, que a mandou sentar, e a esteve contemplando alguns segundos, como quem desconfiava da insânia da infeliz mulher. Falou-lhe no marido e nos filhos; deu-lhe uma volumosa carta; asseverou-lhe que a sua desgraça não iria além da privação da liberdade por alguns meses, e pediu-lhe que fosse escrever sobre uma banca das que estavam na sala duas palavras de mulher corajosa para seu prostrado marido.

Lourença ouvira tudo taciturna; recebera a carta sem abri-la; o familiar do Santo Oficio esperava que ela se erguesse a escrever as palavras pedidas, e Lourença permanecia imóvel.

— Então? Escreve, senhora? — disse Diogo de Barros. — Olhe que eu sou tio de Jorge: confie em mim.

— E os meus filhinhos? — perguntou ela impetuosamente achegando-se do velho.

— Os seus filhos e marido são meus hóspedes. Eu hei de conseguir trazer-lhe à sua vista os meninos; mas tenha ânimo. Por amor deles, sustente coragem de mãe. Verá que este infortúnio acaba depressa. Quer ler a carta do seu marido?

— Ah! — exclamou ela — , é do meu marido esta carta... é?

— Sim, é; e outra de Jorge, escrita quando o atribulado doutor não podia senão chorar.

Lourença leu em convulsivo tremor, enquanto as lágrimas a deixaram.

— Não posso! Não vejo nada, meu Deus! — bradou ela.

— Pois lerá no seu quarto, quando puder; mas se agora conseguisse escrever algumas expressões consoladoras ao seu marido... Pode? Quer alevantá-lo do seu mortal abatimento? Quer que os seus filhos não tenham de chorar a perda do pai?

— Sim!... — clamou ela. — Diga-me o que hei de escrever Vossa Senhoria.

— O que lhe parecer melhor para que ele se persuada que a senhora tem forças para resistir a esta adversidade.

— Oh, meu Deus! — disse ela. — É a primeira vez que minto ao meu marido... Vá!... que viva ele para que os meus filhos não acabem na indigência ...

E escreveu um quarto de papel grande, com vertiginosa celeridade.

— Veja... — disse ela a Diogo de Barros. — E ele acreditará?

O familiar do Santo Oficio leu, e disse: — Não acreditará que a senhora está tranquila, como lhe diz; mas crerá que sente o favor divino da resignação. Agora, senhora, ver-me-á de três em três dias; e das grades do quarto que tem verá todos os dias, às onze horas, seu esposo e filhos à portaria do Mosteiro de S. Domingos. Se com estes intervalos de felicidade, ainda não concedida a hebreus, a senhora Lourença fraquejar e sucumbir, dir-lhe-ei que é por demasia frágil, principalmente quando recebe de mim a certeza da sua liberdade, sem beber do cálix amargo — continuou ele abaixando a voz — que nesta casa são obrigados a beber os mais inocentes.

Achou Lourença em si a alma de mãe e esposa, relendo a carta do marido, na ausência de Diogo de Barros. Prostrou-se largo tempo com a face no chão, orando não sei se ao Deus de Jacob, se ao de S. Domingos de Gusmão, se à Providência Divina que vale mais que os outros. Orou, e sentiu-se confortada.

Às onze horas, dadas na torre dos dominicanos, correu à janela, e viu o esposo e os filhos. Os meninos, agrupados diante do pai, olhavam contra as grades donde lhes transluzia um pano branco. João Mendes, cauteloso da observação dos transeuntes, relanceava para lá os olhos, e passava por eles o lenço que lhe embebia as lágrimas.

Os dias foram assim passando arrastados. A pobre mulher sentia-se amparada de Deus. Era o hábito da desgraça, este dom misericordioso da natureza humana que se deixa identificar com a dor, a ponto de dulcificar a peçonha com os choros. É, todavia, provável que está Deus nisto. Esta conformidade serena, e quase saborosa, não na sentem os celerados.

João Mendes da Silva, obrigado a obtemperar à sua saudade, e distrair o espírito em planos pertinentes à subsistência de mulher e filhos, deliberou abrir escritório de advogado em Lisboa. Pensava ele que lhe não devolveriam mais os seus haveres no Brasil, talvez já confiscados, como era de lei, assim que o tribunal da fé entendia com a consciência dos possuidores. A Inquisição, por facilitar o caminho do céu aos judeus, aliviava-os do peso dos bens terrestres, e convertia estes bens em regalias dos fiéis. Estes fiéis percebiam o espólio gradualmente, segundo sua categoria, desde o monarca até o derradeiro esbirro do Santo Oficio.

Algumas pessoas de valia, aparentadas com os Barros, inculcaram a perícia do advogado vindo do Brasil. Assim que João Mendes abancou, e, abafando o coração na onda das lágrimas, se prestou a ouvir o arrazoado dos clientes, a concorrência foi tal que o seu nome emparelhou com o dos primeiros jurisconsultos.

Jorge de Barros, saudoso da sua família, deixou Lisboa, e a liberdade de Lourença encarregada ao generoso tio. Alguma vez, o tesouro da Bemposta lhe beliscou o desejo de uma tentativa; mas ele tinha jurado a sua mulher, empenhando a vida da filhinha, que se não exporia às suspeitas, nem arriscaria a sua segurança.

Neste tempo, Jorge de Barros considerava-se mais que remediado em bens de fortuna. Metade dos seus teres quisera ele dar ao marido de Lourença Coutinho; porém, o advogado, se não tinha bom sangue, estreme de partículas judaicas, era dotado daquela estimável compleição de homens que a si próprios se obrigam a se remirem e proverem com o trabalho. Nisto, os judeus eram santos. O trabalho era o seu martírio deles.