O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 35 de 46

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O Judeu

Capítulo XV · Devíamos ter feito uma solene e festiva…

 

Devíamos ter feito uma solene e festiva paragem no ano de 1735. Neste ano, aos cinco de Outubro, Leonor foi mãe. Era uma menina, que na pia batismal recebeu nome de Lourença, por chamar-se assim sua avó e madrinha. Diogo de Barros, que já o tinha sido do casamento, foi padrinho da neta do seu sempre chorado Jorge de Barros.

Então se consumou a felicidade de Leonor. Sentiu ela, ao estreitar ao seio a filha, que lá do íntimo se desentranhavam afetos novos, alegrias doidas, consolações inenarráveis. Parece que daquela superabundância de amor, grande parte vertia ela no coração do marido. Agora, sim: amava-o, ternamente o amava, descobria o sacratíssimo mistério do amor de esposa nas delícias da maternidade.

O primeiro aniversário de Lourencinha foi festejado com pompa. António José da Silva abriu as suas salas aos amigos que a sua reputação lhe criara. A sociedade dos dignos homens de letras, que frequentavam o palácio dos Ericeiras, gratamente se curvou a beijar no berço a filhinha do mais festejado e popular talento do país.

Agora, atemos o fio no ponto em que deixámos este ditoso pai planejando instrumentos para afronta e completa vingança dos baixos de traidores.

Neste tempo, recebeu António José da Silva, como em todos os paquetes, carta do seu amigo Francisco Xavier de Oliveira, respondendo na máxima parte às queixas enviadas pelo hebreu das interpretações caluniosas que a gentalha literária dava às suas óperas, no intento de irritarem contra ele o Santo Ofício.

Francisco Xavier dizia-lhe que saísse de Portugal quanto antes; porque se o rastilho da pólvora chegava à Santa Casa, não havia forças de contramina, e a conflagração seria inevitável. Lembrava-lhe Holanda, Itália, Inglaterra como países libérrimos, e alentadores de altos corações e espíritos. Prometia-lhe, se ele a quisesse, posição honrosa na embaixada do ministro conde de Tarouca, homem de boa alma que tinha-o de estimar grandemente. Depois, contava-lhe a realização do seu casamento em Viena com Mademoiselle Eufrosina de Puecbberg e Enzing, menina de virtudes condignas do seu distinto nascimento, bem que desprovida de dote. Relatava muito de espaço e desenfadadamente um episódio que lhe sucedera, quando foi ao consistório prestar juramento de que a sua primeira mulher tinha morrido. Trasladá-lo-ei como ele o reconta no seu Amusement périodique do mês de Julho de 1751. Antes, porém, do extrato, releve-me o autor que por pouco tempo o detenha para me ajudar numa averiguação importante, quando se trata da biografia, mas rápida que seja, de tão celebrado sujeito.

Dizem unanimemente os biógrafos de Francisco Xavier de Oliveira que ele saíra de Lisboa, na qualidade de secretário do conde de Tarouca, para Áustria, em 1734. Uniformes asseveram que ele ia já viúvo da sua primeira mulher, D. Ana Inês de Almeida. O senhor Inocêncio Francisco da Silva, enúnente esquadrinhador dos traços principais da vida dos escritores que biografa no seu valioso e prestantíssimo dicionário, diz com referência a Francisco Xavier de Oliveira, firmado no parecer unânime dos seus antecessores, o seguinte: “achava-se no estado de viúvo, quando por óbito do seu pai foi nomeado para o substituir na qualidade de secretário do conde de Tarouca, então ministro plenipotenciário em Viena de Áustria. Aos 19 de Abril de 1734 saiu a barra de Lisboa, deixando a pátria, para mais não torná-la a ver. “

Ora, se Francisco Xavier saiu viúvo de Lisboa em 1734, e passou as segundas núpcias em Áustria, seria absurdeza irrisória dizer-se que ele casou segunda vez em 1733, isto é, que passou a segundas núpcias antes de viúvo da primeira mulher. E, entretanto, o leitor tem de julgar entre o Cavalheiro de Oliveira e os seus biógrafos, depois de ler as textuais palavras que vou copiar da narrativa propriamente dele: “An 1733, ayant résolu de contracter de secondes noces à Viennel, je fus obligé de prêter en personne serment devant le consistoire de cette ville, que ma première femme était morte, etc. “ É ele pois quem assevera que deliberou matrimoniar-se segunda vez em 1733, um ano antes da sua saída de Portugal, consoante a data assinada pelos biógrafos melhormente informados. Poderá conjeturar-se que a realização do casamento foi posterior alguns anos à deliberação de casar? Não: a hipótese é prejudicada pela afirmativa de que ele saiu de Portugal para Viena em 1734: fora preciso que ele fixasse, ao Menos, este ano, para poder vingar a hipótese da distância temporária entre o intento e a realização. Neste caso, por qual das datas se decide o leitor? Inclina-se a crer que todos os biógrafos se enganaram, por ser Francisco Xavier de Oliveira a autoridade mais verdadeira em coisas que lhe principalmente a ele tocam? Não concordamos. Eu abundo no que está dito e confirmado por biógrafos que deviam examinar competentemente o ano em que Francisco Xavier enviuvou, e o ano em que saiu de Portugal. ao meu juízo, a incongruência destas datas procede de um erro tipográfico na última letra numérica do ano designado no periódico do Cavalheiro de Oliveira. A publicação era feita em Londres, e eu suspeito que o escritor, naquele ano de 1751, tivesse a vista muito debilitada pelo chorar, senão pela fome. Viu mal as provas, falta que muitas vezes nos oferecem estes dois volumes. Se tal suspeita se figura argumento pouquíssimo ou nada sólido, a favor dos errados biógrafos do Cavalheiro de Oliveira, então vejamos se o Cavalheiro de Oliveira se desmente.

Que discussões eram estas do Cavalheiro com o conde?

Escreve Francisco Xavier: “ — A suprema loucura — , me dizia o conde de Claravino, é o casamento, e eu não sei qual seja a estação da vida apropriada a semelhante tolice! O casamento é o pior dos males: é uma escravidão, um inferno! — “Estais em erro, senhor” lhe repliquei. — O casamento, no meu modo de ver, é o mais belo, mais cómodo, feliz e útil estado da vida. Errado andaria eu também se dissesse que em todo casamento se associavam aquelas excelências; mas que há aí casamentos em que elas se conjuntam, isso acreditei-o sempre e acredito ainda. Devo pugnar por tal estado. Aquele em que eu me vejo é tão desgraçado que só a selvagens convém...”

Esta prática ou discussão com o conde de Claravino deu-se em 1735 e ainda em 1736. Não há aí, pois, mais evidente coisa que a impossibilidade de ter o Cavalheiro casado segunda vez em 1733. Aí está, portanto, justificada a afirmativa dos biógrafos enquanto ao ano da ida do Cavalheiro para a Áustria. Parece-me agora de todo aceitável a hipótese do erro tipográfico, porque é inadmissível a leveza da contradição em escritor tão refletido.

Está o leitor enfastiado já destas académicas esgaravatações. Indulte-as àquele râncido achaque dos muitos anos que inclinam os velhos a esta coisa de peneirar a poeira dos séculos; donde resulta sair-se nós com os olhos cegos de pó, sem achar pedra que valha na joeira. De mais disso, a mim custava-me que, se alguém visse a errada data destes livros do Cavalheiro, me arguisse de inventor de anacronismos inculcadamente históricos.

Vamos agora todos melhorar de sorte, assistindo a um lance, com o qual se hão de ensoberbar os atuais cavaleiros da Ordem de Cristo, pelo que já daqui dou os parabéns ao meu barbeiro.

Narrava, pois, Francisco Xavier então a sua ida ao consistório alemão para dar juramento da sua viuvez, e continua agora:

“À entrada do tribunal o porteiro pediu-me a espada. Recusei-me. Deu-se parte ao bispo-presidente da minha recusação. O prelado, que me conhecia, mandou-me dizer por um dos conselheiros, que eu devia submissão às leis do país, e antigos usos do consistório que não permitiam entrar alguém de espada. Redargui que o principal adorno da minha ordem consistia no uso da espada; e que um dos seus maiores privilégios era poder, e até dever trazê-la em todo o tempo, sem exceção do acto religioso da comunhão, a qual me era permitido receber de espada à cinta. Fez-me o bispo saber que o conde de Sinzendorf, poucos dias antes, indo ao consistório, não duvidara deixar a espada em poder do porteiro; que eu bem sabia que ele era cavaleiro do Tosão, e podia contentar-me com tal exemplo, e segui-lo. Retorqui ao conselheiro que a Ordem do Tosão, conquanto ilustre, não fruía os privilégios que os papas e outros príncipes tinham conferido às ordens militares. E, que tendo eu a honra de professar uma destas, não cabia no meu arbítrio despojar-me dela, entregando a espada, da qual nem o rei propriamente podia privar-me, salvo sendo eu culpado de crime de lesa-majestade. Enfim, disse eu gracejando, mais facilmente prescindo passar sem a mulher que sem a espada: uma posso renunciá-la, a outra não.

O conselheiro irritado pelo gracejo, ou cansado de mensagens, me disse de má sombra: — Espanta-me que o senhor pretenda ser preferido ao conde de Sinzendorf, e não distinga entre pessoas! — Respondi: — As distinções não está o senhor conselheiro no caso de as fazer: não é o Cavalheiro de Oliveira que contende com o conde: é a Ordem de Cristo com a do Tosão. Faz-me muito favor se se dignar participar isto ao senhor bispo.

O bispo, depois, mandou-me entrar num quarto, onde estive sozinho uma boa hora. Em seguida, mandou-me ir ao consistório, e prestar juramento, corri a espada à cinta. Desculpou-se do acontecido dizendo que ignorava ou se tinha esquecido de que a Ordem de Cristo era militar...

Desta enfatuada narrativa, passava Francisco Xavier a contar os escandalosos amores de D. Luís da Cunha, ancião de oitenta anos, ministro de Portugal em Paris, o qual se apaixonara na Haia por uma senhora Salvador, judia, pertencente a uma família hebraica estabelecida em Holanda, e a trazia consigo pelo mundo. Conta que estivera ceando com ele e ela, e pasmara do temperamento amoroso do decrépito ministro, quando lhe ele disse: “Sem amor não há vida feliz; a paixão do amor é o mais agradável negócio da vida, e todos os prazeres são enjoativos, se o amor os não aduba.“ E, dito isto, tomara a mão da bela, e exclamara:

 

Est-i rien de plus beau que Vinnocente flamme,

Qu'un mérite éclatant aflume dans une âme?

Et serait-ce un bonheur de respirer le jour,

Si dentre les mortels on bannissait

Vamour? Non, non, tous lesplaisirs se aôutent à le suivre,

El vivre sans aimer n 'est pas proprement vivre.

 

E, depois, a Salvador, pela sua vez, tornou a mão do velhinho, e declamou:

 

Avoir un amant d'un mente achevé,

Et sen voir chèrement aimée;

C'est un bonheur si haut, si relevé,

Que sa grandeur nepeut être exprimée.

 

Francisco Xavier mostrava-se vivamente compadecido da senil miséria de D. Luís da Cunha, aliás habilíssimo ministro; porém, o que ele não podia perdoar-lhe era o escândalo de conferir a Ordem de Cristo à Salvador, lançando-lhe ao pescoço o cordão e a cruz que ela usava publicamente, denominando-se “cavaleira da Ordem Real de Portugal!

“Como quer que seja”, terminava Francisco Xavier escrevendo a António José da Silva, “sai daí, vem para este grande mundo, onde há ridiculezas deste tamanho; vem gozar a vida, repartindo-a entre a seriedade do estudo, e as brilhantes futilidades, de que nós se pode rir impunemente. Enfardela a trouxa, e parte o mais breve que possas... “

— Que te parece? — perguntou António José a Leonor. — Vamos! — exclamou ela — , mas o tesouro da Bemposta ?