O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 19 de 46

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O Judeu

Capítulo IX · Sara já não achava graça na história…

 

Sara já não achava graça na história do doutor Machuca. Lavavam-na enchentes de lágrimas, quando recebeu a carta da sua amiga. Jorge piorara tanto, que já se não podia erguer, nem planear inúteis mudanças para outro clima.

Quis ele ouvir a carta, e chorou no período em que Lourença escrevia do desamparo de D. Francisca Pereira, e da penosa agonia com que a Divina Providência a castigava, amarrando-a ao leito de entrevada. Sara respondeu com lágrimas às do esposo, e disse:

— Se esta senhora nos quisesse receber na sua companhia, com que amizade e amor a não trataríamos na sua triste enfermidade!...

— Talvez rejeitasse a minha submissão — disse Jorge — , porque Deus não quer que ela aceite... A justiça divina opera só: a nossa caridade para com a minha desgraçada e criminosa mãe seria oposição aos decretos da Providência... Não pode ser uma filha impunemente má... Sofreu muito meu avô... Dores, como as dos últimos anos daquele santo velho, Deus as não faça provar à filha desavergonhada!... Eu sei que ele lhe perdoou; sei; mas a justiça divina é menos indulgente: quer que os ofendidos indultem os agravos que particularmente receberam, e reserva para si o castigo, a execução de uma lei geral e inquebrantável. A minha mãe há de padecer, expiar, e recordar-se muito tempo das agonias do seu pai. Fez-me infinita compaixão o seu desamparo dela! Aquilo é que é angústia humanamente incomportável! O meu avô tinha, quando morreu, muitos parentes e amigos em volta de si. Ela não terá ninguém! Eu beijava as mãos frias do velho, que morrera serenamente, abençoando-me; minha mãe acabará amaldiçoando o filho que odiou, e a chora hoje; amaldiçoando também o filho que tanto amou, e a despreza na sua última miséria! Ó Sara — prosseguiu Jorge, apertando ao seio as mãos da esposa — , ó Sara, que infernos tem este mundo!... Não há outros, não te assustes da existência doutros, minha querida amiga; não ensines a tua filha outros infernos: mostra-lhe somente aquele em que penou sua avó...

Passados alguns segundos de silenciosa cogitação, Jorge prosseguiu:

— Tens tu ânimo, Sara, para combinar comigo no que te cumpre fazer, se a minha vida for tão breve quanto...

— Não! — atalhou ela. — Não! Por Deus te rogo, pela filhinha, Jorge, por este anjo te suplico...

E, como os soluços a entalassem, continuou a súplica em lágrimas, corri que refrigerava as mãos ardentes do marido.

— Sossega, sossega — disse meigamente Jorge — , que eu não digo mais nada... Tens razão... é ainda muito cedo para pensarmos nisto... Pode ser que eu melhore... Aos trinta e oito anos, a natureza ainda vence a morte. Mudaremos de terra, assim que eu poder levantar-me. Os médicos dizem que os portos de mar são nocivos aos meus achaques; vamos procurar montanhas... Quem me dera as da nossa pátria, ó Sara! — disse ele, com muita saudade, olhando por uma janela, como a procurá-las, e talvez a vê-las na ilusão da febre as montanhas da sua terra!

— Vamos nós! — exclamou ela de súbito e alvoroçada. — Vamos, Jorge?

— Para onde, Sara?

— Para a Covilhã... nós esconde-se... O nosso Simão fará que vivamos sem risco nem medo até que estejas restabelecido.

O alvoroço de Sara comunicou-se ao espírito do marido, porque a saudade da pátria o dispusera a aceitar um alvitre, que noutra hora recusaria por imprudente.

— E quem sabe?! — disse Jorge com exaltada alegria, estreitando a filha ao peito.

— Quem sabe?! Pode ser que eu me cure com um mês ou dois de respirar aquela saúde das montanhas da Covilhã!... De dia, não sairei; dormiremos; mas de noite, iremos por aquelas veigas fora, e subiremos às serras, e veremos romper a aurora, já de volta para os esconderijos do nosso Simão: queres, Sara? Vamos?...

— Hoje mesmo... se te pudesses erguer... — acudiu a alegre senhora, crendo que já via cor de saúde nas faces escarnadas de Jorge.

— Erguer-me poderia eu... poderia, que a esperança é uma forte e celestial medicina; mas o pior é a viagem por este mau tempo que faz! Os balouços do navio, assim nesta fraqueza em que estou, quem sabe se me acabariam o resto das forças... Se te parece, escrevamos primeiramente a Simão, esperemos resposta que há de ser boa, no entretanto vou-me eu avigorando, e a Primavera chega também. O mais acertado acho que é isto, Ao outro dia, com muita vontade e pouquíssimo vigor, saiu Jorge de Barros da cama, dando a mão à filhinha, que presumia ser amparo do pai, e recurvando o braço direito pelo pescoço de Sara. Deu alguns passeios numa saleta, saiu à janela que se abria sobre uma praça muito soalheira, e ali esteve alguns minutos gozando o ar tépido de um meio-dia de Dezembro sem nuvens na Itália. Dizia ele que se lhe estava aliviando muito a opressão do peito, como se àquele sol se derretessem os tumores que lhe impediam a inspiração do ar. Sara, de jubilosa, desfazia com beijos as faces de Leonor.

Por espaço de vinte dias, aquelas melhoras, quando não aumentassem, conservaram-se; porém, o contentamento do enfermo e da esposa tanto as encareciam que já um nem outro sabiam falar senão em vida para alegres futuros. A morte costuma assim zombar com algumas das suas presas, como a fera com a vitima, quando a deixa fugir já ferida, e salteando-a outra e muitas vezes, renova o gozo de lhe rasgar as carnes, até que de uma assentada a despedaça.

Jorge de Barros passeava um dia no cais do desembarque, porque esperava cartas de Amesterdão, por onde as de Simão de Sã lhe eram enviadas. Um navio holandês, que naquela manhã ancorara, devia levar-lhe a suspirada resposta do hebreu da Covilhã.

Uns passageiros saltavam das gôndolas ao cais; outros vinham de longe acenando às pessoas que os esperavam em terra. Sara, reparando numa daquelas gôndolas, porque lá vinha uma senhora acenando para o cais muito agitada, expediu um grito e exclamou:

— Ó Jorge!... ó Jorge!...

— Que é?! ...

— Acolá vem Judite!...

— Que Judite?

— A filha de Simão... e o pai também... não vês?

— É ele! — clamou Jorge.

— E o marido de Judite lá vem também, não é?

— São eles!, são eles! — bradaram juntos os esposos agitando os braços, e aproximando-se do canal.

— Venho trazer-vos a resposta da vossa carta — clamou Simão de Sã, ao passar-se da gôndola para terra.

— Ó Judite! — exclamou Sara, apertada ao seio da sua amiga.

— Corno teu marido está desfigurado! — disse Judite ao ouvido de Sara, querendo esconder de Jorge o espanto e as lágrimas.

— Se tu o visses há vinte dias! — volveu Sara. — Só a esperança de voltar à pátria parece-me que o arrancou à morte... Esperávamos hoje a vossa resposta, para sairmos daqui, e vós vindes nesta ocasião...

— Vem ouvir meu pai, que ele está contando a Jorge a razão da nossa fuga...

— Fuga! — atalhou Sara. — Pois vindes fugidos?! A quê?

— À Inquisição. Afinal, chegaria a nossa vez da fogueira, se não tivéssemos bons amigos em Lisboa...

Recolhidos à residência de Jorge de Barros, contou Simão de Sã que a perseguição se acendera com bravura inexorável contra os hebreus, principalmente simulados cristãos-novos, refugiados pelas províncias, e com mais particularidade contra ele Simão de Sã, porque tinha lutado peito a peito com um fidalgo da Guarda, que lhe quisera roubar uma filha, violentando-a. Ora, sucedendo que o fidalgo, contuso das mãos do hebreu, era irmão de um ministro secular do Conselho Real, dignidade atinente ao Conselho do Santo Oficio.(*)

 

[(*) O Conselho do Santo Ofício tinha presidente, que era o inquisidor-geral, e conselheiros sem número certo. Entre estes, eram também nomeados ministros seculares, chamados do Conselho Real, dos mais abalizados em letras e autoridade. O secretário do rei era-o também do Santo Ofício. Mediante ele, se comunicava a Inquisição com a coroa. Este secretário expunha vocalmente ao rei os negócios da Inquisição, e não por escrito, para assim impedir que os segredos do Santo Oficio se soubessem. A perseguição ao favorecido judeu da Covilhã foi tão ativa e poderosa que o duque de Cadaval, protetor de Simão de Sã, apenas pôde antecipar o aviso vinte e quatro horas antes do assalto dos esbirros.]

 

Simão de Sã, com a sua numerosa família, fugiu sem mais demora que a precisa para entrouxar o mais urgente, especialmente o muito dinheiro que, já de herança de avós, tinha amuado no cofre para o caso previsto da fuga, enfim realizado, quando ele menos se temia da Inquisição. Expondo-se ao risco de incutir suspeitas em Espanha, Simão de Sã, coadjuvado por valiosos parentes que o acompanharam desde Bragança, ganhou porto de mar, onde voltou o navio que o desembarcou nas salvadoras praias de Holanda. Logo que aposentou sua família em Amesterdão, fez-se ao mar em demanda de Jorge de Barros, com o seu genro e filha, para pessoalmente acudir à inquietação do seu amigo, e demovê-lo do propósito de entrar em Portugal, numa época tão infamada do recrudescido barbarismo do Santo Ofício.

Entristeceu-se amargamente o enfermo Jorge, e logo se viu quanto as melhoras dele pendiam da esperança de ainda ver o céu de Portugal. Sara, posto que os hebreus da Covilhã lhe prometiam distrair-lhe o esposo das saudades da pátria, animava Jorge a insistir no seu intento, lembrando-lhe que podiam viver desconhecidos nalguma aldeia da província mais afastada de Lisboa, e menos vigiada pelos esbirros da Inquisição. Jorge respondia:

— Tanto monta morrer em Holanda como em Portugal Agora vejo que as minhas melhoras eram um milagre da esperança. A esperança era aquele viver da Covilhã, onde passei os mais ditosos dias da minha vida. já não existem as condições que se me figuravam. Noutro qualquer ponto de Portugal ser-me-ia tão penosa a existência como aqui. Iremos todos para Amesterdão. O que me resta da felicidade passada és tu e eles: bom e doce será o morrer entre vós. Ao menos, Sara, quando eu fechar os olhos, tu e a minha filha vereis muitos olhos piedosos em redor de vós, e uma família que vos será amparo. É grande esmola da Providência este juntarmo-nos em tempo que tu corrias o perigo de te veres sozinha com uma criança em terra estranha.

No discurso desta e doutras falas, Sara debulhava-se em choros, porque via definhar-se o rosto e apagar-se o lume febril dos olhos do seu marido. Então era o vertiginoso abraçar-se com a filha, e erguê-la ao seio, como se a mostrasse a Deus, naquele seu afligido rogar, que era mais por soluços que palavras.

Alguns dias passados em busca de navio, as duas famílias passaram para Amesterdão. Os padecimentos de Jorge aumentaram na viagem, bem que ele, condoído das penas de Sara, fingis — .se vigor e esperanças, que ninguém já alimentava por serem a cada hora mais declarados os sintomas de próximo fim.

Um dia, Jorge de Barros disse à mulher, olhando sobre o anel do avô:

— Há quanto tempo nos não lembra este anel!... Vamos falar disto, que é necessário, Sara. Tu conheces perfeitamente o local onde está o tesouro. Ainda te recordas?

— Recordo, Jorge.

— Pois, por amor da nossa filha, não o esqueças nunca. A mim já me não aproveita; e a ti... futura-se-me que também não; mas pode ser que a nossa Leonor alguma vez encontre o acaso que lhe restitua o património do seu pai, que outro não lho restituirão os descendentes do meu irmão Garcia. Assim que Leonor compreender as tuas explicações, ensina-lhe a significação das letras deste anel, e descreve-lhe em miúdos a forma do tanque e da estátua, que cobre o depósito da água, onde está o cofre. Quem sabe? Passados anos, a nossa filha poderá sem risco ir a Portugal, e talvez que a justiça lhe faça restituir o que ela legitimamente herdou do seu pai. Os reis, que hoje possuem o palácio dos meus avós, podem e devem dispensar a posse de uns bens de fortuna que, segundo consta da escritura da venda, claro é lhes não pertencem. Ainda mesmo que o tesouro haja de ser repartido entre mais herdeiros, o quinhão de Leonor, como minha filha, há de ser o maior de todos, porque os herdeiros atuais dos haveres dos meus avós sou eu e o meu irmão. Leonor é minha única herdeira; e, como tal, meeira nos bens livres que existirem por morte da minha mãe... Fatigam-te estas observações, Sara? Tem paciência... São necessárias; não as percas da memória... Chora-me, lembra-te sempre de mim; porém, não seja isso motivo a que te esqueças do futuro de Leonor. Olha que ela e os nossos netos hão de pedir esmola, se nos descuidarmos de olhar para a única fortuna que lhes deixamos... bem sabes que nenhuma outra lhes resta além do segredo deste anel.