O Judeu
Capítulo XI · Cessaram as escavações na Bemposta. D. Francisca…
Cessaram as escavações na Bemposta. D. Francisca Pereira consultou os jurisconsultos para autorizar um requerimento pedindo a prisão de Jorge, como ladrão do anel. Os homens da lei denegaram-lhe apoio a semelhante escândalo da sã moral das famílias, e da faculdade que as leis concedem a um avô de dar ao neto um anel não vinculado, nem testado a outrem por instrumento público.
Ao mesmo tempo, soube D. Francisca Pereira que o filho tinha saído de Lisboa com destino a Castela, engano que os filhos de Diogo de Barros fizeram de indústria propalar.
Cuidaram os obreiros das escavações em entulhar as covas e murar as paredes aluídas, porém, nos lanços do palácio antigo, acontecia que umas paredes se desmantelavam enquanto os alvenéis refaziam outras. A fidalga espreitava ainda as paredes derrocadas; mas o entusiasmo da esperança esvaíra-se mais depressa que os aromas nada orientais do cofre saudado com tamanhos júbilos.
Dizia D. Francisca Pereira:
— Se esta casa não fosse vínculo, e o cofre aqui não estivesse, vendia-se, que está muito velha e fede que tresanda desde que se cavou nas lojas.
Dias depois que ela isto dissera, a procurou o provedor das obras do paço para lhe anunciar que o Sr. D. Pedro II lhe queria comprar o palácio, e as casas, hortas, jardins e bosques contíguos, no intento de construir ali um palácio real para sua irmã a Sra. D. Catarina, viúva de Carlos II, rei de Inglaterra.
Digamos breves palavras desta rainha.
O leitor sabe que o libertino e empobrecido filho de Carlos I aceitou de Portugal dois milhões de cruzados e a ilha de Bombaim; e, como suplemento àquela, para o tempo, enorme quantia, também aceitou a irmã de Afonso VI como esposa.
D. Catarina era senhora de egrégias virtudes e primorosa entre as mais excelentes princesas do seu tempo; porém a formosura com ela tinha sido sovinamente dadivosa.
Um poema de abalizado autor, entre os muitos que então celebraram aquele faustoso casamento, pregoa maravilhas da formosura da princesa. Eis aqui um fragmento da musa dadivosa do notável poeta de Barcelos. Está já embarcada a rainha na passagem para Inglaterra:
Via-se a nau feliz empavesada
Flâmulas, e bandeiras tremulando,
A quem a nau de Colcos celebrada
Estava entre as estrelas invejando;
E a carroça da Deusa namorada,
Que de Chipre as boninas vai pisando,
Vendo na nau mais alta formosura
Teve em pouco esta vez sua ventura,
Esta oitava pode não prestar; mas fica sempre o mérito de dar ideia de uma esquadra, porque tem três naus.
A seguinte é mais conceituosa, e orça pela outra na puxada da metafórica beleza da rainha:
Os cavalos do Sol, que cada dia
Pascendo estrelas, bem beber salgado,
António Vilas-Boas e Sampaio: “Saudades do Tejo e de Lisboa na ausência da Senhora Catarina rainha da Grã-Bretanha. “
Se Faetonte deles se confia
Segunda vez se vira despenhado:
O seu gosto fora só, sua alegria
Levara Catarina, e o seu cuidado,
Era tomar a estrada do Ocidente,
Para trocar coa nau, que o não consente.
Os poetas são a indemnização das senhoras feias, mormente se elas são princesas. Não assim os historiadores. Goldsmith reduziu a proporções medianíssimas a formosura de D. Catarina para explicar o desamor e devassidão de Carlos 11. Historiador melhormente conceituado ainda, David Hume exprime-se deste teor:
Testemunhas de crédito dizem que Carlos II deliberou esposar uma princesa de Portugal, sem avisar os ministros, nem ceder a nenhumas contradições. O chanceler, Ormond, e Soulhampton impugnaram-lhe o alvitre com numerosas objeções, e mormente insistiram no boato geralmente derramado que a princesa era incapaz de conceber; sem embargo, todos os argumentos foram rebatidos. Proposto em conselho o negócio, conckmaram todas as vozes aprovando o príncipe, e o parlamento condescendeu também. Assim se efetuou, sob cor de universal consenso, aquele desgraçado casamento com Catarina, princesa de virtudes imaculadas; bem que não vingasse nunca fazer-se amar do rei por graças pessoais. Não obstante, a atoarda da sua esterilidade parece que era falsa, pois duas vezes foi declarada em estado de gravidez.
À falta do amor do marido, a irmã de Afonso VI acrisolou-se em amor a Deus. Escrevia cartas muito católicas ao papa Alexandre VIII e aos cardeais, pedindo nomeação de bispos para Portugal, e prosperidades para os católicos de Inglaterra. Guerreou diplomaticamente os hereges, conquanto o marido favorecesse a Reforma. Também escrevia cartas ao provincial dos arrábidos de Portugal, pedindo-lhe oito frades, incluindo “um pregador de satisfação, e os mais proporcionados para entoarem o nosso canto de que se há de usar no coro”.
E para lá foram os frades ajudá-la a passar o arrastado tempo. Pobre mulher! Que entretimento aquele! Oito frades da Arrábida! Que piedoso martírio, e que alma tão feriada a Deus, e conquistadora da bem-aventurança! Ainda assim, com tão piedoso viver, foi acusada no Parlamento de querer propinar peçonha ao marido! O rei propriamente saiu por honra e defesa dela. Alguns deputados opinavam que se degolasse Catarina com o cutelo de Carlos I e de Maria Stuart; porém o desterrado amigo de Afonso VI, o marquês de Castelo-Melhor, tanto rogou e defendeu a irmã do seu rei perante os inimigos conjurados dela, que vingou não a prenderem sequer. Em paga destes bons e capitalíssimos serviços, o premiou a rainha com muito dinheiro e joias, com que ele fundou o morgadio chamado de Santa Catarina, em comemoração da infeliz e dadivosa senhora. Os fradinhos também estiveram a pique de serem dependurados. Um dia, os parlamentários cercaram-lhe o convento, e foram dentro procurar armas. Encontraram umas disciplinas. O Castelo-Melhor, tirando-as fora do prego, disse aos fidalgos invasores: “Estas são, senhores, as armas com que estes pobres homens vos intentam conquistar; e, se quem os acusa a eles usara destes instrumentos, vos pouparia esta visita; e ao povo a perturbação em que está.” Apesar disto, diz um historiador arrábido que os seus irmãos tiveram muitas vezes na garganta o fio do cutelo.
Morreu Carlos II, já convertido à fé católica, em 1685. D. Catarina, passados oito anos, escreveu ao seu irmão Pedro II significando-lhe o desejo de voltar a Portugal, depois de uma ausência de vinte e três anos incompletos. O rei de Portugal tratou logo da transferência da irmã. Em 20 de Janeiro de 1693, entrou a rainha da Grã-Bretanha em Lisboa, e recolheu-se ao paço de Alcântara. Daqui mudou para o palácio do conde de Redondo a Santa Marta; e, não contente do local, passou para o do conde de Aveiras, em Belém. Por último, resolveu edificar palácio no sítio da Bemposta.
Estas divagações enfadosas eram necessárias para de mais longe explicar a quem isto ler a missão do provedor das obras do paço a D. Francisca Pereira Teles e ao seu marido Plácido de Castanheda de Moura.
CAPÍTULO XII
Se acontecesse D. Francisca Pereira gostar da sua casa da Bemposta, ser-lhe-ia inútil responder ao rei que a não vendia. Felizmente para ela, a casa estava abalada, e por isso as reais ordens alegraram-na. Tratou logo em transferir-se para o seu palácio da Pampulha.
A escritura da venda vai ser textualmente translada do tomo nove do Gabinete Histórico, de frei Cláudio da Conceição. Reza assim:
Aos quatro dias do mês de Julho de 1701, na cidade de Lisboa, Rua dos Mouros a S. Pedro de Alcântara, nas casas em que vivia o desembargador Bartolomeu de Sousa Mexia, juiz dos Contos do Reino e Casa, achando-se aí presente como procurador de ebrei, e da outra Sebastião Leite de Faria, escrivão da mesa dos despachos dos Contos, em nome, e como procurador de Plácido de Castanheda de Moura, contador-mor dos mesmos Contos, por virtude de uma procuração, que apresentou, e assim o doutor Manuel Gomes de Palma como procurador de D. Francisca Pereira Teles, mulher do dito Plácido de Castanheda de Moura, foi dito perante o tabelão, que eles eram senhores e possuidores de umas casas, e outras pequenas com as suas hortas, sitas nesta cidade à Rua Larga da Bemposta, que parte dele é morgado de que ele dito Plácido de Castanheda de Moura é administrador por cabeça da sua mulher, e a outra parte livre e desembaraçada, partem todas pelas suas devidas e verdadeiras confrontações com que por direito devam partir; nas quais se está fazendo um palácio para a rainha da Grã-Bretanha, e em razão do dito senhor ordenar que se vendessem segundo a avaliação que delas se fez, que são pelo que toca ao dito morgado, por preço de dezasseis contos quatrocentos e sessenta e seis mil seiscentos e sessenta e seis réis, de que o dito senhor daria juro real em sub-rogação dele, e livre por doze contos novecentos e setenta e sete mil quinhentos e quarenta e sete réis, resolveram o dito Plácido e a sua mulher em vender, e sub-rogar as ditas casas pelo preço referido. O dito senhor dará um juro real para que fique tocando ao dito morgado, em satisfação da parte do dito morgado, a seguir a natureza dele, ficando uma coisa pela outra sub-rogada, de sorte que as ditas casas do morgado fiquem livres para a dita rainha, para quem el-rei.
Pedro mandou-as comprar, para que ela faça delas o que lhe parecer, e a dita quantia que se há de dar do juro real fique sendo do dito morgado de que é administrador o dito Plácido por cabeça da sua mulher: e parte das casas que são livres as vendem por doze contos novecentos e setenta e sete mil quinhentos e quarenta e sete réis de que logo ali recebeu o dinheiro de contado, com a condição seguinte:
Foi dito pela dita D. Francisca Pereira Teles que o seu pai o contador-mor Luís Pereira de Barros lhe dissera, que na ocasião dos motins recolhera nas ditas casas em parte oculta grande quantidade de dinheiro, cujo lugar constava das letras de um anel, que ele trazia no dedo, ordenava que na hora da morte se lhe tirasse; e porque o dito anel desapareceu, e o dito dinheiro se não achou, no caso que nalgum tempo apareça e se descobrir, lhes ficará pertencendo a eles vendedores in solidum ou aos seus herdeiros e sucessores!
Assim o outorgaram, pediram e assinaram... etc.
Seguem outras condições estipuladas acerca de pagamento do juro dos padrões, nada importantes à urdidura da história.
Quando à Covilhã chegou, em carta de Diogo de Barros, a notícia da venda do palácio da Bemposta e cópia da escritura, Jorge deu como perdido o tesouro, quer se ensenhoreasse dele sua família, quer o sonegassem os alvenéis e mais operários do reviramento pelo qual tanto as casas, jardins, como hortas e bosquetes deviam geralmente passar desde os alicerces e raízes. Não sem causa entendeu ele que o tosco Neptuno seria apeado, e logo a caixa do repuxo ficaria a descoberto. Este fundado susto afligiu-o grandemente, porque naquele cofre, além da riqueza destinada a futuros contentamentos, estavam objetos sacratíssimos para seu avô e para ele.
Bem que Simão de Sã o contrariasse, Jorge planeou ir aforrado a Lisboa, entrar à quinta enquanto as demolições se faziam na casa, e subtrair o cofre. Parecia-lhe isto fácil e inquestionável. As razões alegadas convenciam; e, sobre todas, com uma argumentava ele de muita força:
— Se meu avô soubesse que eu nenhuma diligência pusera em salvar de mãos estranhas, ou ainda da posse da minha mãe, aquele tesouro, amaldiçoar-me-ia!
Deu-se, portanto, pressa em executar o intento, que lhe parecia desempecido de todo embaraço.
É de saber que Filipe, Garcia, e outros familiares de D. Francisca, desde que os derribamentos começaram, vigiavam juntos ou à vez os pedreiros e cavadores. Era já notória em Lisboa a condição da escritura: muita gente, levada da curiosidade, concorria às obras da Bemposta, na esperança de assistir é exumação do tesouro, que os mais imaginosos asseveravam ser enormíssimos cabedais que Afonso VI, antes de ser preso, confiara ao seu amigo Luís Pereira de Barros.
Alguns obreiros da reedificação conchavaram-se em sonegar dos vigilantes espreitadores os lugares em que algum indício topassem do caixão enterrado. Estremunhados pela espora da cobiça, erguiam-se à meia-noite os que ficavam de guarda às ferramentas, e cavavam e revolviam entulhos, até à madrugada, nos sítios que deixavam de véspera intencionalmente mal rebuscados. Por maneira que as avenidas do palácio quase arruinado eram tão vigiadas de dia como de noite.
D. Francisca Pereira, avisada dos trabalhos noturnos, mandou para as obras pernoitar criados de confiança, os quais, conluiados com os pedreiros, prosseguiam nas escavações, pactuados em repartirem irmãmente o tesouro.
Das pesquisas interiores passaram a descalçar e cavar no chão dos caramanchões, e no lajeado das fontes. Chegaram a desguarnecer as paredes dos azulejos, e a derrubar estátuas do jardim para descoser as pedras das peanhas. Da noite ao dia era prodigioso o progresso das ruínas, no decurso de três semanas.
Os incansáveis exploradores aproximaram-se uma noite do tanque do Neptuno; saltaram dentro alguns; levantaram a tampa do aqueduto por onde se desobstruía noutro tempo o encanamento. Palparam. Entrou o mais afoito à mina, e voltou praguejando, e dando ao diabo a alma e os braços de quem enterrara o dinheiro e os trazia tresnoitados. O deus do mar, que ali estava com a boca aberta, parecia rir deles. Um dos pedreiros reparou na cabeça de Neptuno, e disse que lha quebrava, se não fosse a imagem de S, Pedro. Perguntou outro porque tinha ele o gadanho na mão, sendo o costume usar S. Pedro de chaves. O interrogado satisfaz a crítica do companheiro, esclarecendo que o pau com três ganchos era ferramenta de andar à pesca, no tempo em que o santo vivia de pescar; pela qual razão o meteram os antigos naquele tanque.
Com estas e outras interpretações não lidas nos florilégios, nem na Legenda Áurea, de Voragine, afastaram-se dali os pedreiros, e foram desfazer uma casa de fresco já meio desmantelada no fundo do bosque.
Numa destas noites de Agosto, por volta de onze horas, avizinharam-se das obras de Bemposta dois sujeitos rebuçados de maneira que deram nos olhos de alguns pedreiros deitados em palestra no terraço onde tinha sido o pátio do palácio: a muita calma e o muito encapotar-se dos vultos eram coisas que se não compadeciam sem suspeita dos alvenéis.
Era Jorge de Barros e o escudeiro António Soliz. Jorge parou em frente daquelas ruínas, e disse:
— António, vê tu a casa do meu avô!...
E o velho, debulhado em lágrimas, apenas respondeu com soluços.
— Ainda há nove meses que saímos daquela porta com o meu avô nos braços!... — continuou Jorge. — Que voltas, António!... Que mudanças!...
— Não se esteja afligindo, senhor Jorge — disse o escudeiro, — Pensemos no a que viemos... Eu vejo no pátio uns homens que nos estão olhando...
— Que nos faz a nós isso? Passemos adiante. Vamos rodear a quinta: pode ser que alguma parte do muro já esteja arrasada. A minha opinião é que o tanque do Neptuno já lá vai...
Deram volta ao muro da quinta, e não acharam lanço acessível. Desandaram, praticando no modo de entrarem, mediante uma escada, na seguinte noite. Pararam novamente diante da fachada do palácio. O escudeiro quis evitar que o amo se aproximasse de um pedreiro que saíra à rua e se assentara no friso do cunhal da casa tangendo numa bandurra, e cantarolando trovas, alusivas aos dois embuçados que ele imaginou amadores das próximas vizinhas. Dizia a letra:
O luar da meia-noite,
Tu és o meu inimigo
Estou à porta de quem amo,
E não posso entrar contigo.
O pedreiro, se não era o inventor da trova, não tinha obrigação de ser mais correto que o menestrel. Acercou-se Jorge do epigramático trovador, e disse-lhe:
— Amigo, boas noites.
— Deus o guarde, senhor! — respondeu cortesmente o pedreiro, como visse lampejar, na orla do reguingote do embuçado, a ponteira amarela de uma bainha.
— Estais folgando com a vossa bandurra? — disse Jorge.
— É verdade, senhor: nós com a calma nem dormir pode.
— Sois, pelos modos, alvenel da casa da senhora rainha da Grã-Bretanha...
— Sim, senhor.
— Vão adiantadas as obras?
— Isto vai de galope: não cansam braços nem dinheiro.
— E o tal tesouro apareceu? — voltou Jorge.
— Qual tesouro nem qual carapuça!
Têm aí cavado nesse chão que é um por demais! A quinta está toda minada, e até à data de hoje o que apareceu é pedregulho. Eu acho que o tal velhote, que morreu, enterrou tanto dinheiro na quinta como o que eu tenho, que não é nenhum!
— E minaram também a quinta? — perguntou Jorge com interesse.
— Sim, senhor, tudo até lá baixo.
— E também chegaram à mata?
— Ora!, como o senhor sol! Havia lá uma casinha de fresco de porta aguçada à antiga; puseram-na de feitio que parece uma cisterna.
— Então também desfizeram o tanque...
— O tanque que tem o São Pedro com a gadanha? Nada esse lá está. Acho que foi por amor do santo que o não escangalharam, mas já lá andaram homens na mina aqui há quatro noites atrás, e saíram de lá sem uma de três réis.
Os filhos do senhor contador-mor, de quem era este palácio, também lá foram, assim que souberam que os pedreiros lá tinham ido. Os fidalgos desconfiam de toda a gente, e não querem sair de cá. De dia vêm eles, e de noite trazem criados a rondar a casa e a quinta. Afinal, amanhã ou depois vem tudo isto a baixo; e, assim que os alicerces começarem, o dinheiro, se cá está, cá fica.
O escudeiro, temeroso de que alguma impensada pergunta do seu amo desse ao pedreiro suspeitas da localidade do cofre, levou-o dali tirando-o brandamente pelo braço.
Àquela hora recebia D. Francisca Pereira Teles denúncia de ter saído da Covilhã seu filho Jorge.
A precatada fidalga, mediante o valimento do seu marido com os recebedores em todas as cabeças de comarcas, conseguira estabelecer na Guarda e Covilhã uma atalaia aos passos do filho. Surpreendê-lo no lanço em que ele pessoalmente diligenciava apossar-se do cofre era a última esperança e máximo empenho da infatigável mulher. Neste propósito, desistiu de espicaçar o Conselho Geral da Santa Inquisição, formado de frades de S. Domingos. Avisadamente pensou ela que afugentar a judia, caso ela estivesse na Covilhã, seria afugentar o possuidor do segredo. Perder-se o cofre para ela, embora se perdesse também para Jorge, não lhe era suficiente consolação. D. Francisca antes queria o dinheiro que ver Sara na fogueira, ou pelo menos optava pela mais incerta das coisas, visto que os frades eram menos engenhosos em desencantar tesouros do que em transferir ao inferno a alma extraída de um corpo queimado.
Recebida a nova e confirmada no dia seguinte por um próprio, que seguira o itinerário de Jorge, com distância de cinco léguas, D. Francisca chamou a conselho os filhos, que, logo ao primeiro aviso, saíram com os criados a rondar a Rua da Bemposta, uma hora depois que Jorge retirara a hospedar-se em casa de Diogo de Barros. Para a noite seguinte, deliberaram Garcia e Filipe emboscar-se com os criados nas vizinhanças da casa entre as árvores da quinta, e esperarem a provável entrada dele pelos muros.
O plano traçado era vigiar a direção de Jorge; e, logo que ele denunciasse com o rumor de deslocação de pedra o local do cofre, afugentarem-no a tiros de pólvora seca. As maternais entranhas de D. Francisca Pereira tiraram a partido que, somente em último recurso, fizessem sangue.
Ao anoitecer, os irmãos de Jorge recolheram-se com quatro criados à quinta, e confiaram a ronda exterior do palácio ao mais valente e sagaz de todos, posto que sexagenário, o qual era o cocheiro do defunto Luís Pereira de Barros. Este homem, posto que de condição bastante má para atraiçoar a confiança da ama, tinha uma fibra incorrupta no coração: era o reconhecimento ao velho escudeiro António Soliz, que muitas vezes o socorrera em apertos de dinheiro, quando, no meado do mês, tinha esvaziado por tavernas e bordéis o ordenado e a quantia a maior que o fidalgo lhe dava para as despesas da cavalariça. De mais disto, se Luís de Barros por outros motivos queria despedi-lo, o escudeiro requeria-lhe o perdão do criado, e conciliava a indulgência do amo. Ora, o escudeiro condoía-se deste homem, por analogia de desgraça com a sua sorte no berço. O povo tumultuoso matara-lhe o pai, arcabuzeiro inofensivo, que cumpria suas obrigações de soldado à porta do paço, e nem sequer apontara o ferro ao peito dos invasores. Luís de Barros condoera-se da viúva e do filho recém-nascido, alimentou-os, e levou para seu serviço o rapaz mal dotado de instintos, mas amparado pela misericórdia do fidalgo e bondade do escudeiro.
Era, pois, este o encarregado de vigiar que Jorge se não introduzisse por alguma das portas do já quase derruído palácio. Ao fim da tarde, saiu ele, e foi a casa de Diogo de Barros. Procurou António Soliz; e, como lho negassem, insistiu dizendo:
— Ora vamos, não me queiram enganar, que é escusado... Digam-lhe lá que está aqui o Bonifácio cocheiro.
Dado o aviso, António apareceu, e não hesitou em chamar Jorge, assim que Bonifácio lhe contou o modo como a fidalga soubera da chegada deles a Lisboa.
Ouviu Jorge os pormenores da emboscada, pagou generosamente a denúncia, e despediu o cocheiro do seu avô. Nessa mesma noite, dizia ao seu tio Diogo de Barros:
— Sou uma baixa alma, meu tio.
— Porquê, Jorge?!...
— Porque deixei um tesouro de alegrias inestimáveis, e vim procurar outro cuja conquista me poderia custar a vida; e, se acontecesse sair-me eu ileso desta façanha, o ouro e pedras que o cofre encerra não bastariam a comprar um contentamento. Fique-se embora o dinheiro que tem condenação fatal! Eu vou-me a toda a pressa procurar o tesouro que deixei; e esse sei eu e juro que hei de encontrá-lo... é o coração de Sara.
E, nesta mesma noite, saiu de Lisboa.