O Judeu
Capítulo XII · Ao aclarar a manhã do dia 18…
Ao aclarar a manhã do dia 18 de Outubro de 1739, abriu-se a majestosa Igreja de S. Domingos, já decorada para a celebração do auto-de-fé. Estava pomposa. Era o leão coberto de grinaldas e laçarias, enfeitado e vistoso, com as fauces abertas à espera do bodo daquele seu dia de festa, do seu almejado domingo do Advento.
O altar-mor, bem que negrejasse de crepe, resplendia com os seus doze candelabros de prata, e doze alvíssimos círios em argentinas tocheiras. Dois tronos se erguiam laterais ao altar: o da direita pertencia ao inquisidor-geral e Supremo Conselho; o da esquerda à casa real.
Abaixo do arco da capela-mor, entre as naves, estava outro altar, sobre o qual se viam dez missais abertos com as suas capas de couro, relevos dourados, e fechos de prata. Daqui até à porta do templo, construíram uma galeria abalaustrada de ambos os lados, com passagem pelo centro, e bancadas no interior: eram os lugares destinados aos presos e aos padrinhos. Panos de seda adamascada franjados de ouro e prata pendiam dos tetos e frontispícios das capelas, em que sobressaíam a meio relevo “figuras de boa marcenaria e todas cosidas em ouro sem se ver outra coisa”, como conta frei Luís de Sousa na luxuosa descrição desta igreja, a qual não é já a que o leitor conhece.
Às oito horas já o grande espaço da vasta igreja estava ocupado por parte das mais lustrosas famílias de Lisboa e fidalgos provincianos, que iam gozar-se daquele espetáculo, superior em aparato ao das outras Inquisições do reino.
Às nove horas e meia subiu ao seu magnífico camarote o cardeal inquisidor-mor D. Nuno da Cunha, e os conselheiros. O palanquim real conservou corridas as cortinas durante aquele primeiro acto do sanguinário drama ao divino.
Assim que o inquisidor-mor apareceu no adro do templo, dobraram os sinos, e logo a procissão do auto-de-fé saiu da Santa Casa, e a breves passos assomou no limiar do templo o estandarte do Santo Oficio com um longo séquito de dominicanos. O fundador da ordem, estampado num riquíssimo panal, com a lampejante espada em punho, era a insígnia do estandarte, perante o qual o povo ajoelhava e batia nos peitos. Em seguida aos frades inquisidores, caminhavam três mulheres sem hábito; uma, com os olhos no chão, e braços pendidos, andava com firmeza: era Leonor; outra, que dois esbirros amparavam desfalecida, era Lourença Coutinho. Cada presa levava na mão direita um círio amarelo. Seguiam-se os condenados a abjurarem com penitência, ou a prisão indefinida ou galés.
Entre estes e outros mais desgraçados hasteava-se um grande crucifixo, com a face voltada para os que entraram primeiro no templo. Depôs a cruz, iam três estátuas de hebreus ausentes, condenados ao fogo, dois caixotes de ossos doutros que tinham morrido por efeito da tortura, e três penitentes de carocha e samarra ou sambenito pintado de demónios e fogueiras com fogo revolto. Um destes era António José da Silva: diziam que era, dizia-o a sentença escrita na orla da samarra: mas depois de dois anos e onze dias de lágrimas e trevas difícil seria individuar-lhe as feições antigas. O povo, o povo que se rejubilava nas óperas daquele mártir, contemplou-o, e não chorou uma lágrima!... Oh!, o povo!, a canalha de todos os tempos e costumes!
António José da Silva não abrira os olhos, durante o trânsito da Inquisição à igreja. Encostado ao ombro do padre Francisco Lopes, levemente lhe acenava quando o pálido jesuíta lhe perguntava algum artigo essencial para a sua salvação.
O banco da galeria em que António José se assentou era dos últimos. Lá estava entre ele e as suas mãe e esposa a imagem do Cristo, voltando-lhe as costas, como no dia do Juízo Final, consoante rezava o evangelho do Advento.
Fez-se profundo silêncio. Um frade arrábido subiu ao púlpito, e pregou. Num dos períodos mais levantados da sua oração, exclamava ele:
“É a Santa Inquisição como a arca de Noé; porém, amados irmãos, quão grande diferença vai de uma à outra! Os animais que entraram na arca, abaixadas as águas do Dilúvio, saíram animais da natureza que tinham; ao passo que a Santa Inquisição por tal maneira muda os entes que em si encerra, que é digno de ver-se como saem cordeiros os que tinham entrado cruelíssimos lobos e ferocíssimos leões.“
Terminou o sermão. Subiram dois promotores ao púlpito para lerem as sentenças. Cada penitente ouvia ler o seu processo e condenação em pé , no meio da galeria, com a tocha em punho, e o alcaide à sua beira. Depois, levavam-no à banca dos missais, ajoelhava, punha a mão sobre o sagrado livro, e esperava nesta postura que os condenados fossem tantos como os missais. Depois, acompanhavam o promotor recitando com ele um acto de fé.
Findas as cerimónias com os presos que não tinham sentença de morte, vieram os outros, os relaxados em carne. Eram três homens e duas mulheres.
António José foi transportado em braços. Já não ouviu o processo. Tinha perdido o alento, quando viu Leonor a debater-se soluçante nos braços de dois meirinhos, que lhe abafavam os gritos.
Lidas as sentenças, a Inquisição, ao entregá-los à justiça secular, pedia encarecidamente às leis e aos juízes que se tivessem clemência e piedade daqueles miseráveis, e se lhes impusessem pena capital, fosse, ao menos, sem efusão de sangue.
A história das ferocidades religiosas não conta maior infâmia!
Acabou este acto do drama.
Leonor e Lourença foram transferidas em braços para a Santa Casa.
António José da Silva ainda esperou, depois que o levaram da Relação, sem consciência de vida, a aurora do dia seguinte.
Quando chegou ao Campo da Lã ardiam já as achas resinosas da fogueira.
O mártir não viu-as. Devia ir quase morto, porque escassamente viram-no estrebuchar.
Seio do Altíssimo!, se te não abrisses àquela alma, criada ao bafejo da tua, que serias tu, Deus?, que serias tu, palavra?
Naqueles dias publicou-se um impresso, que o senhor Inocêncio Francisco da Silva traslada na biografia do Aristófanes português.
Reza assim o extrato:
Lista das pessoas que saíram condenadas no auto público da fé, que se celebrou na igreja do Convento de S. Domingos de Lisboa no domingo 18 de Outubro de 1739, sendo inquisidor-geral o cardeal Nuno da Cunha.
Pessoas relaxadas em carne: N., 7. Idade 34 anos. António José da Silva, x. n, (cristão-novo), advogado, natural da cidade do Rio de Janeiro, e morador nesta de Lisboa ocidental, reconciliado que foi por culpas de judaísmo, no auto público da fé, que se celebrou na igreja do Convento de S. Domingos desta mesma cidade em 13 de Outubro de 1726. Convicto, negativo e relapso.
Pessoas que não abjuram nem levam hábito: N.º 5. Anos de idade 27. Leonor Maria de Carvalho, x. n., casada com António José da Silva, advogado, que vai na lista, natural da vila da Covilhã, bispado da Guarda, e moradora nesta cidade de Lisboa ocidental, reconciliada que foi por culpas de judaísmo no auto público da fé , que se celebrou na Igreja de S. Pedro da cidade de Valhadolide, reino de Castela, em 26 de Janeiro de 1727. — presa segunda vez por relapsia das mesmas culpas, Pena: cárcere a arbítrio.
N.º 6. Anos de idade 61. Lourença Coutinho, x. n., viúva de João Mendes da Silva, que foi advogado, natural da cidade do Rio de Janeiro, e moradora nesta de Lisboa ocidental; reconciliada que foi por culpas de judaísmo no auto público da fé, que se celebrou no Rossio desta mesma cidade em 9 de Julho de 1713; presa terceira vez por relapsia das mesmas culpas. Pena: cárcere a arbítrio.