O Judeu
Capítulo V · Os irmãos de Jorge, acirrados pela mãe,…
Os irmãos de Jorge, acirrados pela mãe, ocasionavam, a cada passo, insidiosas provocações que os acobertassem do ódio do avô, caso espancassem Jorge, a valer, como a vontade lhes pedia.
O irmão esquivava-se, e desarmava-os com a prudência muito recomendada pelo avô. Garcia e Filipe, todavia, não perdiam lanço de o chacotearem à conta da sua gravidade hipócrita, e presunção de sábio. Jorge redarguia com desprezador silêncio.
Um dia, porém, Garcia, como andasse jogando a barra com outros fidalgos no quintal, disse, galhofando, a Jorge, que passava:
— Ó mano, pega lá desta alavanca, a ver onde chega o teu pulso.
Jorge parou, e respondeu sorrindo:
— Se eu tivesse um bom pulso antes quisera exercitá-lo na espada.
Filipe acudiu com sarcástico remoque: — O teu pulso dava-se melhor com as manilhas das mulheres...
Retrucou Jorge, sorrindo ainda:
— Não sendo elas tão valentes como a Brites de Aljubarrota... Seria necessário que fossem das muitas que há tão linguareiras como tu.
— Boa palavra! — exclamou Garcia.
— Olha, mano, a língua de Filipe corta menos que a espada...
— Basta que regulem... — voltou Jorge.
— E tu? — interveio Filipe. — Que armas jogas?
— Tenho duas no meu cabido de armas: uma é a prudência, outra é o desprezo; e, se alguma hora precisar de armas brancas ou negras, para me tirar a limpo de alguma honrada façanha, pedirei de empréstimo as vossas, manos. — Eu só empresto as minhas a quem puder com elas — disse Garcia.
O inepto Filipe acrescentou: — Eu também.
— Qualquer asno albardado poderá com elas — disse Jorge, fazendo gesto de retirar-se.
— Olha cá — disse Garcia — , que notícias nos dás da judia?
— Nenhumas — respondeu o jovem serenamente, bem que lhe entrasse o coração em nojos, e o sangue em quenturas.
— Vê-la-emos cedo de sambenito e carocha? — disse, cascalhando brutalmente, Filipe.
— Desejas esse espetáculo? — perguntou Jorge. — Que mal te fez a desgraçada mulher?
— O bem fê-lo ela a ti... — redarguiu o irmão com intenção desonesta. — Guapa rapariga é!... Se o Santo Oficio ta pilha, temos assadura... nem o avô ta salva.
— Cala-te que te estás envilecendo, meu irmão! — disse Jorge sofreando os ímpetos.
— Vilão és tu! — bradou Garcia — , que nos estás sujando com esses amores próprios de criado de escada a baixo! Essas paixões costumam medrar nas cavalariças...
— Sois uns tolos maus... — concluiu Jorge, dando-lhes as costas.
— Olé! — vozeou. Garcia — , não te vás, perro de regaço; vem cá repetir isso, covarde!
Jorge retrocedeu, e disse:
— Deste-me nas costas um nome que me não cabe: diz-mo no rosto, Garcia.
Os jovens, que tinham assistido silenciosos à altercação, aproximaram-se de Garcia, e pediram-lhe que não fosse injusto com Jorge. O insultador, porém, rompendo os diques do ódio represado, repetiu a injúria, crescendo sobre o irmão. Jorge esperou-o impassível. Garcia arrojou ao chão a alçaprema que tinha sobraçada, e lançou-se-lhe arca por arca. Os fidalgos acudiram; mas já a tempo que o peito do agressor arquejava debaixo de um joelho de Jorge.
Filipe covardemente lançara mão da alavanca: os amigos e parentes arrancaram-lha, conclamando que não praticasse um vilíssimo feito.
Este lance foi visto e ouvido de D. Francisca Pereira Teles, desde a primeira palavra até que um dos filhos queridos caiu torcido pelo filho odiado. Levantou ela grande alarido, e foi queixar-se ao pai.
Luís de Barros mandou-a esperar, e ordenou que viesse Jorge à sua presença.
Entrado o jovem disse-lhe:
— Conta-me o que há passado. Jorge, sem deslizar um ápice da verdade, referiu o sucesso, posto que a mãe, às vezes, o interrompesse, clamando:
— Mentes! Finda a narração, Luís de Barros mandou chamar Garcia, Filipe, e os fidalgos testemunhas do conflito. Voltado a ambos os netos, o ancião disse:
— Um de vós conte o que sucedeu. Nenhum respondeu, encarando-se ambos reciprocamente. Luís de Barros, dirigindo-se aos amigos e parentes da sua casa, relatou o caso como o tinha ouvido a Jorge, e perguntou:
— Amigos, é verdade o que Jorge me referiu? Lembrai-vos de quem sois para não mentir a um velho que viu nascer vossos pais e mães.
Os interrogados, comovidos pelo respeito e pela consciência, responderam:
— É verdade. E um acrescentou:
— Eu pedi ao primo Garcia que não fosse injusto para seu irmão.
— Bem! — disse o velho — , falaste verdade, Jorge! Deus te abençoe. Podeis ir todos à vossa vida. A minha filha, sê boa mãe. Nada mais te digo. Pudera chamar-te fera; mas as feras amam os filhos. Garcia e Filipe, maus futuros vos agouro... E vós, jovens de bom carácter, sede sempre o que fostes agora, quando pesardes o ouro da vossa palavra. Ide todos em paz; e tu, Jorge, fica.
As conscienciosas testemunhas, por amor do seu depoimento, receberam, fora dos aposentos do velho, sinais de ódio nos trejeitos com que D. Francisca os encarou.
Os dois corridos mancebos voltaram-lhes as costas, quando eles se dispunham a dar-lhes satisfação por não poderem mentir aos cabelos brancos de Luís de Barros.
A descendente da rainha sanguinária chamou os filhos à sua antecâmara, disse-lhes com torvo rosto;
— Sois uns poltrões, se vos não desforçardes deste insulto! É o que me faltava ver!... Jorge a calcar-vos aos pés!... Isto não pode continuar assim ... Dizei ao vosso pai que Jorge há de sair desta casa, ou vós a deixais!
— Nada disso... — atalhou Garcia. — Há de deixá-la ele, ou eu lhe corto as goelas!
— Também eu — acudiu Filipe.
— Se o avô não estivesse ali — disse Garcia — , eu lhe juro, mãe, que ele não veria o sol de amanhã...
— O maldito anel!... — murmurou D. Francisca. — Aquele infernal anel!... Vós nunca pensastes no modo de quebrar este encantamento?...
— Eu já — disse Filipe — , mas não lhe vejo furo. Como se lhe há de tirar?
— Não sei, não sei! — disse com raivoso desalento a mãe. E acrescentou: — O pior é se eles vão para o Alentejo depois deste caso... E, se o vosso avô lá morre, adeus, tesouro!
— Se o avô desse o anel a Jorge — objetou Garcia — , o pé não o punha ele cá para desenterrar o dinheiro e as joias. nós supõe que o tesouro está nas lojas, ou nos entaipamentos da parte velha do palácio. Nós cavaríamos até encontrar: não tenha medo a mãe que o anel aproveite ao Jorge.
— Pensas bem! — disse alegremente D. Francisca. — Atiram-se a baixo as paredes velhas, e cavam-se os terrados das lojas. Eu lembro-me que o vosso avô, quando saiu com o cofre nos braços, era de madrugada, e demorou-se coisa de uma hora.
O cofre está enterrado dentro de casa: ele não o ia esconder na terra da quinta, com medo que alguma vez os lavradores o achassem.
— Isso é assim — concordaram os filhos.
— A mãe não tenha pesar de perder o anel — disse Garcia. — Por amor disso, não sofra o avô nem o Jorge. Se forem para a quinta, deixá-los ir.
Ao mesmo tempo, Luís Pereira de Barros dizia a Jorge: — Não pensemos na jornada, filho, que eu não posso. Olha tu como os pés me estão inchando!... já me pesam para a cova... Isto acaba já... Vou para os oitenta e cinco; e, se Deus me desse outra família, figura-se-me que chegaria aos noventa ou mais...
— Eu sou causa de muitos desgostos do meu avô — interrompeu Jorge. — Se eu tivesse saído dentre os meus, creio que o meu avô teria mais sossegada velhice... Se ainda fosse tempo, eu iria para longe...
— E poderias deixar-me nesta solidão a ver-me assim morrer de dores de corpo e alma? Poderias, Jorge?
O jovem ajoelhou diante do ancião, e aqueceu-lhe com os lábios as mãos enregeladas. Nos vincos daquela veneranda face luziam as lágrimas, em que pareciam vir os últimos raios da luz dos olhos que tão copiosas tinham chorado, desde o dia em que o seu querido Afonso VI perdera a liberdade, até àquela hora em que parecia oferecer-se-lhe o neto como continuador da sua existência amargurada.
E, como em prática de si consigo mesmo, murmurava ele:
— De que te servirá a riqueza, malfadado rapaz? Rico era eu, e quantas invejas tive dos meus servos e dos meus escravos!... Riquíssimo e rei era o filho de Dom João quarto, e da prisão de Sintra mandava pedir a esse bárbaro, que aí está no trono, que lhe mandasse o enxota-cães do palácio para companhia!... Mais feliz sou eu que vejo à minha beira umas lágrimas de amoroso coração, uns olhos consternados que se fitam nos meus, e não vêm, como os da minha filha, todos os dias, averiguar se este anel ainda aqui está... De nada te valerá o tesouro que ele encerra, filho, se a tua estrela é má!... Olha Jorge, assim que eu fechar olhos, o segredo que este anel te disser confia-o do nosso fiel António Soliz, que finge não o saber... Ele te ajudará, e tu protege-o depois... Não terás escavações que fazer...
— Meu avô! — interrompeu Jorge — , por caridade, não me fale de modo que me obrigue a considerá-lo morto!... Enche-me de amargura, que é mais do que pode comportar a minha despedaçada alma!... Faça por viver, meu amigo, meu amparador! Afugente essa ideia terrível, que o quebranta! Lembre-se de mim... Lembre-se daquela infeliz menina que, pela sua morte, vem a perder o amparo que hoje tem...
— Ampará-la-ás tu, Jorge...... — atalhou Luís de Barros.
— Eu!...
— Sim, tu, o teu ouro, o teu ouro não manchado... ouviste?... Não desonrado... Olha que não é salvação de mulher, seja ela qual for, o dar-lhe amparo a troco da pureza... compreendes-me, filho?
— Sim, meu avô... Eu não penso...
— Não pensas, não, Jorge... Tu és um anjo: se deixares de o ser, serás muitíssimo mais desgraçado.