O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 34 de 46

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O Judeu

Capítulo XIV · Os bens de fortuna do advogado João…

 

Os bens de fortuna do advogado João Mendes da Silva permitiam largas ao prazer com que o velho preparava casa com excelentes cómodos para receber a esposa do seu filho.

Alugou um espaçoso prédio no Largo do Socorro, trastejou-o com a mobília dourada, que ainda hoje relembra a época de D. João V, alcatifou os pavimentos, pendurou lustres, vestiu de azulejos o pátio e paredes das escadas, limpou e areou os passeios do jardim, murou de vasos os alegretes, plantou trepadeiras para afestoar abóbadas de folhagem; em tudo, com menineira alegria, pensou afanosamente o ancião, pedindo conselhos a Lourença, no tocante aos objetos dos aposentos de Leonor.

A noiva visitou a sua futura casa, com as suas primas, alguns dias antes do casamento; e, como visse o júbilo do venerável João Mendes, de Lourença e do filho, mais feliz e menos expansivo que eles, disse entre si: “Razão tinha minha mãe!... Esta família sente e goza as alegrias das virtudes antigas do povo escolhido.”

O dia da suprema felicidade da família Silva foi o vinte de Abril de 1734. As festas do noivado foram muito gozar na casa de João Mendes, onde apenas se viam os Barros, únicos parentes de Jorge, que cruzavam o limiar de um hebreu. Muitos outros tinham ido suplicantes ao escritório de João Mendes pedir-lhe a sua ciência; e esses mesmos encostavam-se despejadamente ao telónio de qualquer judeu, quando a bolsa lhes pesava menos que a fidalga soberba e os cristianíssimos escrúpulos. É verdade que estes, depois, lançavam lenha à fogueira dos credores, e assim saldavam contas, convictos de que Jesus Cristo, no juízo Final, sairia em defesa deles, contra as objurgatórias do Diabo, e depoimento dos judeus roubados. Santa gente, que não tem menos razão de ser canonizada que Pedro Arbués, do qual dizem que vai rezar o calendário.

Leonor estimava profundamente seu marido: a consciência não a deixava doer-se da falta daquele sentimento. A profunda estima dela valia mais que a superficial paixão de muitas. António José da Silva não sentia necessidade de ser mais amado. Se ele tivesse conhecido carícias doutras, denguices usuais e convencionais, delírios de poesia, que desfecham num insulso prosaísmo ao terceiro mês de vida marital, pode ser que Leonor lhe parecesse fria, fleumática e desamorável; porém, como ela tinha sido a mulher única da sua esperança, e perdida da sua alma a considerara, tudo que a outrem parecera tibieza de afeto, se lhe afigurava a ele amor, juízo, reflexão, e pode ser que um quebranto das amarguras da vida passada.

O hebreu, aporfiando em contribuir com metade das despesas necessárias à decência da sua casa, trabalhava muito e de fervorosa vontade nos negócios forenses, sem, contudo, levar mão das suas composições teatrais.

Poucos dias depois de casado, assistiu ele com Leonor à primeira representação da sua segunda comédia, intitulada: Esopaida ou Vida de Esopo. Nos dias deste nosso século bem criado qualquer marido que escrevesse a Esopaida não levaria sua mulher a vê-la em cena, e menos lha recitaria em família. E, naquele tempo, de tantos frades e virtudes, as coisas e frases que se figuravam e diziam no palco eram tais que hoje a polícia prende nós desbocada que as diz na rua. Aquelas senhoras não tinham nem deviam ter mais melindroso ouvido que a virtuosa e pia corte de D. João IR, à qual medianamente incomodavam as facécias obscenas de Gil Vicente, e o recitativo lúbrico e sórdido do choro de Maria Parda.

A segunda comédia corroborou o triunfo que o judeu alcançara na primeira. Andava — lhe o empresário de mãos postas rogando que lhe não desamparasse o teatro e o público para quem já nenhum outro autor português ousaria escrever, sem plausível susto de ser assobiado.

Em Maio de 1735, novo drama de António José acudiu à ansiedade das turbas, que tinham desamparado o teatro. Chamava-se a ópera: Os Encantos de Medeia. Esqueceram as vitórias das anteriores comédias, deslumbradas pela última. O autor saiu nos braços da melhor gente, que frequentava o teatro da Mouraria. O conde da Ericeira dignou-se visitá-lo no camarote, e chamar-lhe o Aristófanes português.

Em Junho deste ano, morreu João Mendes da Silva com oitenta e um anos de idade, abençoando esposa e filho, e a carinhosa Leonor que lhe colheu a última luz dos olhos embaciados, e se viu espelhada neles através das lágrimas do trespasse. Lourença Coutinho exorou muito a Deus que a levasse então; o juiz incompreensível indeferiu o requerimento.

Em Maio do ano seguinte, apesar do aumento do trabalho de escritório, que a clientela levava ao filho, tão famigerado como o pai, representou-se a quarta ópera de António José, denominada: O Anfitrião.

O hebreu tinha inimigos, não poderosos para o afrontarem barba por barba, mas de sobra infames para o indisporem no conceito dos piedosos. Azou-se-lhes a oportunidade na récita de O Anfitrião: aqui se fala em cárceres, em bárbaros juízes, em patíbulos, em polés. António José não estudara a filosofia do anexim. Não falar de corda em casa do carrasco.”

A palavra polé ia vibrada ao camarote dos frades, que — digamo-lo em honra da arte — estava sempre empilhado deles. No drama, um personagem entre ferros recitava os seguintes versos:

 

Sorte tirana, estrela rigorosa,

Que maligna influes, com luz opaca,

Rigor tão fero contra um inocente!

Que delito fiz eu para que sinta

O peso desta aspérrima cadeia,

Nos horrores de um cárcere penoso,

Em cuja triste lôbrega morada

 

Habita a confusão e o susto mora!

Mas ó deuses, se sois deuses

Como assim tiranamente

A este mísero inocente

Chegais hoje a castigar??

 

Os poetrastos, açoutados no D. Quixote, farejaram impiedade no quarteto; os frades viram clara alusão à injustiça do encarceramento no Santo Ofício.

Estas interpretações chegaram ao conhecimento de Silva. Indignaram-no, e logo protestou não mais escrever para intérpretes estúpidos e malvados.

Protestos de dramaturgo! A paixão era despótica, e tanto que venceu lutando com os rogos de Leonor no sentido de manter inquebrantável o protesto de mais se não expor às insídias de inimigos invejosos.

Tanto assim, que já no mês de Novembro de 1736, apareceu no teatro com o Labirinto de Creta. Estava cheio o teatro e os inimigos a postos para notarem a lápis as frases suspeitas. O autor esmerara-se em não dar brecha à maledicência. Não se vos depara frase ambígua nem expressão bicara no longo drama: os celerados, porém, escavaram, escavaram até poderem mostrar intenção ofensiva e atentatória da religião cristã. Sem embargo, porém, da parcialidade odienta, os aplausos excederam as ovações passadas.

Já se não irritou António José contra os biltres difamadores. Prometeu vingar-se com a fecundidade do seu talento, e preparou duas óperas para o ano seguinte. Apresentou a primeira no Carnaval de 1737, conhecida pelo título de Guerras do Alecrim e Manjerona; e, depôs esta, deu para ensaios as Variedades de Proteu.

— Não quero outra vingança! — dizia ele à esposa — , hei de afastar estes cães dos calcanhares com a nobilíssima arma que eles não merecem. Provar-lhes-ei que fundo o teatro nacional, enquanto eles escavam com as garras a sepultura da sua inutilidade. O conde da Ericeira encarregou-se de dissuadir algum inimigo dos temíveis que tenho. Os outros, os invejosos, hei de esmagá-los debaixo do peso da sua ignominiosa paixão.