O Judeu
Capítulo II · Recobrara-se de vigor a esposa de Jorge…
Recobrara-se de vigor a esposa de Jorge de Barros. A vida no Brasil era-lhe mais divertida e variada. O marido planeava em transferir para o Rio de Janeiro o seu negócio, e o velho Soliz, que era o afortunado diretor de todas as empresas. Neste propósito, escrevia aos seus amigos de Amesterdão, quando recebeu consternadora notícia da morte do seu António.
O escudeiro legava ao neto de Luís de Barros, padrinho e benfeitor dele, todos os seus bens de fortuna, economias de cinquenta anos, e o capital que o seu defunto amo lhe mandara entregar, acrescentado com os lucros do comércio. Os livros de razão deixara ele, com o depósito dos haveres, em poder de um hebreu digno da confiança, a quem dera dois abraços para os seus amos, quando voltassem à Holanda.
Deu-se pressa Jorge em embarcar para a Europa, prometendo aos contristados Silvas voltar para o Brasil, tão depressa liquidasse a sua casa comercial.
No começo de 1709, Jorge de Barros dava sepultura honrosa ao seu escudeiro em Amesterdão, e tornava conta do negócio, no intento de o trespassar, e voltar cedo ao Brasil. Não alcancei, todavia, quais embaraços lhe estorvaram a execução do intento. Porventura, rogos de amigos, transtornos mercantis, ou talvez esperanças de vir a Portugal diligenciar senhorear-se do tesouro o embaraçariam. O certo é que em 1711 Jorge demorava ainda na Holanda, e neste ano deu Sara à luz o primeiro e almejado filho, que foi uma menina, à qual puseram nome Leonor, na pia batismal. Escreveu Sara alvoroçadamente a sua prima Lourença Coutinho noticiando-lhe o nascimento da esposa de António. Foi grande contentamento em casa dos Silvas; e de uma parte e de outra se ratificaram os juramentos com pueril solenidade.
Neste decurso de quatro anos, por vezes recebeu Jorge de Barros notícias da sua família de Portugal, por mediação do hebreu da Covilhã. Garcia de Moura Teles, ao passo que a juventude das famílias ilustres do reino cercava Badajoz, ou morria cortada das armas francesas em Xerez de los Cavaleros, ou assaltava valorosamente Ciudad Rodrigo e muitas praças pugnacíssimas, até assentar no trono Carlos HI, contra as pretensões de Filipe de França: enquanto os brios lusitanos assim lampejavam os seus derradeiros clarões em época já tão apagada de crenças e efeminada por delícias, Garcia de Moura vivia em Lisboa vida de libertino, apodrentado de vícios, e apontado como exemplo de jovens desonrados e perdidos por míngua de pai, de mãe e de mestres. A mulher com quem casara, fugindo aos maus tratos dele, requeria divórcio, e levantamento do dote com que fora nupcialmente dotada pelo inepto marido. Garcia, desprezando os processos judiciários, contubernara-se com uma cigana mulher de fascinações mágicas, celebrada em Lisboa pela sua beleza e artes diabólicas, por efeito das quais alguns mancebos e velhos se tinham empobrecido.
D. Francisca Pereira, já também separada do filho do inquisidor-geral, bebia gota a gota o fel que envasilhara para a velhice, afastada de parentes, opróbrio e irrisão da sociedade e dos salões, onde ela outrora entrava com o aprumo de uma soberba vergôntea de tronco real.
Jorge de Barros lastimava a rápida e desastrosa queda de tão próximos descendentes do respeitado contador-mor e amigo de D. João IV e Afonso VI. Enojava-o seu irmão e a sua mãe; todavia, assomos de piedade o impulsavam a salvar de uma ignominiosa e desamparada velhice a criatura que lhe dera o ser. Dominou-se, porém, entendendo que as caridosas tentativas seriam inúteis, senão parvas. De mais disso, sua mãe e irmão eram ainda ricos: ele é que trabalhava para viver, mercadejando, e emparelhando-se com gente de baixa extração para ganhar o pão e decência da sua família.
Vacilava Jorge entre fazer-se de vela para o Rio de Janeiro, ou dar primeiro um novo assalto ao tesouro da Bemposta. Este desejo acometia-o sempre que ele atentamente olhava sobre o anel do seu avô. Sara divertia-lhe o ânimo destas apreensões, rogando-lhe que não expusesse sua liberdade e vida, agora que Deus lhe dera uma filhinha, um tesouro do céu ao pé do qual o tesouro da Bemposta era um caixão de vil pó.
Pôde muito com ele esta santíssima poesia de mãe. Resolvido tinha finalmente passar ao Novo Mundo com os seus bens já liquidados, quando um amigo do Rio de Janeiro, no princípio de 1713, lhe escreveu noticiando-lhe a prisão de Lourença Coutinho e do seu marido, suspeitos de judaísmo, e como tais remetidos a Lisboa ao Santo Oficio. Dentro desta carta vinham duas linhas de Lourença para Sara. Diziam assim:
Apenas posso dizer-te que vou presa para Lisboa com o meu marido e os meus três filhos. Deus me ampare e dê paciência para as torturas.
Tua prima Lourença
Rompeu Sara em altos clamores, quando isto leu. Jorge, alguns minutos aturdido e perplexo, saiu do seu aflitivo recolhimento exclamando:
— Vamos para Portugal, que esta família não tem lá ninguém que lhe valha. Agora, é um dever que nos sacrifiquemos, Sara. Vamos, que eu conto com amigos e parentes.
Na primeira embarcação que aproava ao Porto, vieram Jorge, e Sara com a filhinha de oito meses nos braços. Do Porto jornadearam para a Covilhã, onde os recebeu surpreendido Simão de Sã. Dali escreveu o hospedeiro israelita para Lisboa, pedindo que lhe noticiassem a chegada do navio em que vinham presas cinco famílias do Rio de Janeiro.
Quando o navio chegou à barra de Lisboa, já, em casa de Diogo de Barros, estava Jorge. Sara prudentemente ficara na Covilhã, por ver que os seus créditos no tribunal da fé não deviam ser melhores que os de Lourença Coutinho.
João V iniciava o seu estúpido reinado borrifando de sangue a máscara de hipócrita. Como estivesse doente de uns flatos em 1760, foi o filho de Pedro II arejar-se na convalescença até Azeitão. Pernoitou em Coina, e foi ao outro dia visitar diversos frades, em companhia dos manos Francisco, António e Manuel, e do bispo capelão-mor D. Nuno da Cunha de Ataíde, homem de coração mau, figadal inimigo de hebreus e hereges, merecimentos que lhe ganharam em 1712 o barrete de cardeal e as insígnias de inquisidor-mor, concedidas pelo santíssimo papa Clemente XI.
João V saiu do castelo de Palmela, onde foi de visita, por tal maneira movido à conversão dos judeus — graças às súplicas do capelão-mor, e às de D. José Pereira de Lacerda, prior de Sant'Iago, cuja cabeça da ordem era o designado castelo — que logo ali prometeu ao Diabo e a S. Domingos disputar a um as almas que lhe lá caíam, e ao outro a glória de as içar à bem-aventurança por meio dos guindastes e roldanas das torturas chamadas “da corda”.
Apontado neste fervoroso voto, começou postergando vilissimarnente os tratados solenes que asseguravam aos hebreus das colónias brasileiras a inviolabilidade do asilo. A piedade puxava pelo ânimo do rei, que mais tarde fazia Mafra, ao mesmo tempo que violava o mosteiro de Odivelas, onde tinha, ali mesmo, paredes meias com o templo do Senhor, uma freira com filhos, bastante devassa para se não inquietar com a justiça de Deus e com o escândalo da comunidade.(*) Assim foi que do poder secular partiram ordens para serem presos além do Atlântico, e remetidos aos calabouços do Rossio, os portugueses suspeitos de judaísmo.
[(*) D. João V, nos seus primeiros anos de amores com a religiosa bernarda, entrava no convento debaixo do pálio. Diz a tradição que, uma vez, saindo o rei de se entreter com a freira, ao despedir-se da prelada, lhe dissera: “Que ides fazer agora?” — “Vou”, respondeu a prelada, “com a comunidade pedir em coro a Deus a saúde da vossa Majestade. “Estas palavras abalaram João V. Em consequência do qual abalo, mandou ele construir uma casa com passadiço para o convento, a fim de evitar o escândalo de entrar pela portaria.]
Quem denunciou a família dos Silvas, e que motivo dera Lourença Coutinho para ser especialmente acusada de hebraísmo? Não o dizem os muitos biógrafos franceses, italianos, brasileiros e portugueses, que têm comemorado os infortúnios daquela família. Nem Barbosa, na Biblioteca Lusitana, nem Sismondi, na Littérature du midi de Europe, nem Ferdinand Dinis, nem João Manuel Pereira da Silva, no Plutarco Brasileiro, nem Varnhagem, nem José Maria da Costa e Silva, nem Vegezzi Ruscalla, na biografia d'li Giudeo Portughese, Uma palavra enche esta lacuna: INFÂMIA, que não há nome ainda inventado com que dar em sombra uns longes da protérvia da Inquisição, daquele braço ensanguentado que feria no rosto a honra de Portugal com o cetro dos reis.
Achou Jorge de Barros, auxiliado pelos parentes, engenhoso expediente de fazer chegar às mãos de João Mendes da Silva algumas palavras escritas, animando-o a confiar no valimento dos amigos. Lourença Coutinho reconheceu a letra, e disse:
— Temos aqueles bons anjos por nós. Desembarcados, foram conduzidos entre quadrilheiros e chusma de plebe ao palácio dos Estaus. Lourença levava pela mão seu filho António, que tinha então seis anos. André e Baltasar iam pela mão do pai, e choravam, muito aconchegados dele, circunvagando os olhos horrorizados.
Lourença, às portas da santa casa, foi separada dos filhos e do esposo por dois familiares de boas palavras, que a conduziram através de salões. João Mendes ficou no vasto pátio, rodeado dos filhos, o mais novo dos quais chamava pela mãe lavado em lágrimas. O alanceado pai olhava como idiota sobre as crianças que se lhe cingiam com as pernas. Daí a pouco, João Mendes e os filhos receberam ordem de sair, que estavam livres para o fazerem.
— E minha mulher? — perguntou o advogado.
— Está presa para ser interrogada.
— Interrogada em quê? — disse o aflito marido.
— Ela o saberá — voltou mal-encarado o familiar do Santo Oficio. — Vá com Deus, que não tem que fazer aqui.
Saiu João Mendes por entre a multidão, que os soldados afastavam a murros e pontapés. Desviou-se das mãos do gentio, e manteve-se no coberto do Convento de S. Domingos, encarando na casa de lúgubre aspeto em que lhe ficava a mãe do seus filhos. E chorava acariciando os meninos, quando um desconhecido se acercou dele, e lhe disse:
— É o senhor João Mendes da Silva?
— Sou esse desgraçado.
— Jorge de Barros espera-o. Siga-me, e entre na casa onde eu entrar. Não receie, que eu sou primo do marido de Sara; e anime-se que a sua mulher tem protetores.