O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 32 de 46

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O Judeu

Capítulo XII · Francisco Xavier forcejou por avassalar o espírito…

 

Francisco Xavier forcejou por avassalar o espírito do hebreu a outra mulher. Nem António José da Silva se deixava alcançar de olhos que poderiam atar-lhe as asas da fantasia, nem as senhoras, parentas e conhecidas de D. Ana de Almeida, se prestavam a ser amadas de um judeu, que, dois anos antes, figurara no auto-de-fé, Francisco Xavier encomiava a levantada inteligência do seu amigo; recitava com entusiasmo os versos dele; abancava-o, nos seus jantares, à direita da sua senhora. Não era tudo bastante para que uma dama da sociedade alta se deixasse olhar duas vezes equivocamente pelo filho da judia Lourença.

António José olhou em si e compreendeu a sua posição aviltada nos salões de Lisboa. Refugiou-se na soledade do seu quarto, restabeleceu a intimidade que tivera com alguns frades, e consigo e com eles passava as horas, umas de pensamento doloroso, outras de recreada palestra literária.

De longe a longe, visitava Leonor. Perante ela não proferia expressão amorável nem queixosa. Escutava as conversas enfadonhas da sua mãe com a viúva; e, se Lourença, alguma vez, de indústria ou eventualmente, falava nos antigos projetos de casamento, em presença de Leonor, António José desafiava a menina a sorrir dos desígnios esquisitos das duas mães.

Leonor invejava a sorte das monjas cristãs. Aquele quieto viver à beira da sepultura parecia-lhe o bálsamo divino que a humanidade inventara para remédio dos seus desgraçados. Disse-o à mãe, que lhe respondeu soluçante. Comunicou as suas esperanças e desejos ao tio do seu pai. Diogo de Barros achou louvável o intento, menos a profissão, conjeturando de si para consigo que a raça materna lhe seria impedimento, que só os reis e os seus parentes costumavam vencer para darem hábito a cómicas e ciganas, umas que não podiam ser enterradas em sagrado, e outras que nem baptizadas eram. Margarida do Monte e a Gamarro eram exemplos recentes, e mais recente ainda o da freira de Santa Joana, amante que tinha sido de um dos infantes, mulher de mais encantos que vira Lisboa? (*)

 

[(*) Esta religiosa, de apelido Silva, morreu esmagada entre as quatro paredes da sua cela no terramoto de 1755. A beleza já devia ter morrido.]

Aceitou Leonor qualquer convento, e de qualquer modo. Pediu licença à mãe, coadjuvando-se dos rogos do tio. Depois de muito chorarem, mãe e filha, venceu Leonor, com promessa de passar alguns meses de cada ano com a sua família. Diogo de Barros preparou a entrada da sobrinha no Convento da Encarnação, de religiosas comendadeiras de Avis. Não lhe foi difícil provar que D. Leonor Maria tinha sangue da primeira nobreza, prova condicional para poder entrar como pensionária. Entrou alegremente para lá se engolfar nas suas tristezas. Má casa lhe escolheram para quem queria viver triste. As comendadeiras da Encarnação eram senhoras joviais, festeiras e dadas ao amor. As suas grades eram fontes de Vaucluse, onde mais felizes Petrarcas iam poetar. A liberdade, que estas professas beneditinas gozavam de sair, sob a responsabilidade da visita amiga ou parenta que as ia buscar de manhã e levar à noite, era uma liberdade geradora doutras muitas, que de si e por si geravam variados fenómenos de geração, com os quais andam grandemente povoadas as genealogias dos grandes senhores e grandes senhoras destes reinos. Ainda assim, o vício naquela casa tinha fidalga libré. S. Bento não se honrava de tais filhas, é isso verdade; mas a organização da sociedade de D. João V não as contava somenos elemento do seu luxo e policiamento.

 

Leonor competia com as mais belas, e primava entre as mais discretas. Mostrou-se, deixou-se ouvir, deixou-se admirar, deixou-se amar; e, depois, sumiu-se no seu cubículo. Chamaram-lhe esquisita, louca, ingrata às dádivas da opulenta mão da natureza. Não importou. Leonor não voltou aos palratórios, nem faltou aos seus deveres de pensionária. Costurava muito, lia pouco, e não rezava nada. A filha de Jorge, em coisas de religião, cria em Deus, criador, todavia imperfeito, porque ela, à imitação de abalizados filósofos, errava como eles, não querendo ver o perfeito no regirar evolutivo das harmoniosas imperfeições. Qual foi o autor que disse: “Homem solitário, das duas uma: ou santo ou demónio?” Da mulher sozinha, e de Leonor especialmente, direi que se há santidade, sem beneplácito de Roma, sem camândulas e sem água benta, santa era a filha da judia Sara.

Magoavam-na ainda as mordeduras da serpente do primeiro amor; soavam-lhe no seio uns rebates de saudades, que, por instantes, lhe enoitavam a mais clara luz do sol da sua cela: assim era; mas ninguém lhe ouvia queixumes, a ninguém consultara sobre os linimentos das suas feridas. Sofria calada e risonha?

Alegremente recebia as visitas da sua mãe e parentes. Lourença Coutinho ia à Encarnação com o filho, e alguma vez o filho sem a mãe. Leonor recordava-se das brincadeiras de ambos, na Covilhã, porque a mãe lhas entalhara na memória, contando-lhas frequentemente. Nisto passavam alguns minutos, e chamavam-se irmãos.

A visita de Lourença e do filho eram-lhe causa de dissabor, porque as fidalgas beneditinas conheciam de nome Lourença, mulher do letrado judeu João Mendes, e mãe do poeta Silva já penitenciado pela Inquisição.

Leonor sofria calada os remoques; não se queixava ao tio Diogo, por temer que a tirasse de lá. Aquele sofrimento parecia-lhe menor que o viver e tratar com muita gente, e o não ter um cubículo seu e defeso, às importunações.

E assim passou um ano, e cinco depôs o primeiro, triste sempre, sempre inflexível às maviosas súplicas que lhe fazia a mãe no sentido de aceitar o nobre e leal coração de António José.

Corria o ano de 1733. Leonor tinha vinte e um anos. Consoante ela tinha prometido, era chegado o tempo de decidir-se sobre o seu futuro. Perguntou-lhe a mãe qual era.

— Acabar aqui — disse ela. — Quando a mãe não puder dar-me a pensão, irei ser serva de alguma senhora noutro mosteiro. E Deus sabe que sacrifícios a mãe terá feito para me sustentar aqui!...

— Nenhuns, filha. Ainda tenho algum do dinheiro que Simão de Sã nos deu, como liquidado da herança do teu pai. Decides não casar com António?

— Nenhum de nós seria feliz. Não devo enganá-lo. Falta-me o amor que ele merece. Desperdicei-o... mas que remédio tem? Eu expio a minha cegueira, e ele abrirá os olhos quando Deus lhe mostrar mulher mais digna.

— E por quem te apaixonaste, filha!... — disse Sara. — Digno jovem era Francisco Xavier; não to posso negar, nem sei desfazer naquele brioso carácter; mas, logo que te ele deu como certa a sua indiferença, devias esquecê-lo, filha...

— Não pude; fiz tudo que podia, minha mãe. Tive o pensamento de me matar!...

— Deus de Israel! — exclamou Sara. — Pensava em matar-me, quando todos me viam rir, e falar como toda nós fala das coisas interessantes da vida. Eu sabia que, se o visse, depois, não podia aviltar-me; mas podia acabar comigo. Fugi-lhe para aqui, Poderia agora vê-lo sem alterar-me... Poderia... mas não quero experimentar. Ouvi dizer que Francisco Xavier enviuvou há dias, e que tem o pai a morrer...

— É certo, filha.

— Pois tenho pena imensa dele, se amava a esposa, quanto eu creio que ela o amasse... Começa a ser infeliz; desanda-lhe a roda. Enquanto foi mau, tudo lhe saía à medida do desejo; agora, que vivia honradamente, morre-lhe a mulher e o pai...

— E já me disse que sairá de Portugal assim que lhe faltar o pai, porque não pode viver entre estes desaforados hipócritas.

— Faz bem. Quem pudera também fugir daqui!... Se a mãe soubesse que sonhos... que pressentimentos!... Porque hei de eu pressagiar para mim um desastrado morrer!...

— Como, filha? — Lembro-me da Inquisição! Tenho dias que me não sai do pensamento o espetáculo horrendo!...

— Oh, filha!... por misericórdia, não me assustes!... — exclamava Sara.

E, poucas mais palavras ditas, a viúva saiu da grade, e entrou em casa quebrantada, queixosa e doente.

Poucos dias depois, Diogo de Barros foi buscar Leonor ao Convento da Encarnação para assistir à perigosa enfermidade da sua mãe. Ao princípio, quando Sara se queixava de dores da alma e ligeiros achaques do corpo, não se inquietaram extraordinariamente as pessoas, que se esmeravam em dar-lhe alívio noutras iguais doenças de espírito; mas, assim que a febre a prostrou, já a medicina viu-a com desconfiança. A viúva de Jorge de Barros tinha cinquenta e quatro anos; alvejavam-lhe, porém, os cabelos como aos setenta. Desde a morte do marido, o envelhecer foi tão rápido que, ainda sem as angústias e terrores do cárcere de Valhadolide, faria espanto em acabar-se e desfigurar-se assim a mulher, que aos quarenta anos dava invejas às formosuras em flor de juventude.

Leonor, aproximando-se do leito da sua mãe, compenetrou-se da certeza de a perder. Ajoelhou-se a pedir-lhe perdão dos terrores que lhe incutira com as suas visões.

— Não foi isso, filha — disse Sara. — A minha morte explicam-na os anos e as desgraças do passado. Vou deste mundo aflita... porque Deus te não levou diante de mim.

— Oxalá... — murmurou Leonor. — Do mais, que é morrer?, que sou eu neste mundo?... que faço eu aqui se nem já me é concedido ver-te feliz, pobre mulher?

A presença de Leonor parecia angustiá-la mais. A menina retraiu-se a um canto sombrio da alcova para chorar escondida da sua mãe.

O progresso rápido da doença ao seu termo fatal não dava intermitentes à esperança.

Ao quinto dia já a febre maligna se manifestara com os piores sintomas. Os intervalos de razão lúcida eram curtos.

Em um destes, Sara declarou que queria morrer na religião cristã, porque sabia que o seu padrinho Luís Pereira de Barros morrera como um justo, e o seu marido se confiara à Divina Providência, em vida, e pedira no dia final os recursos de um padre católico. Recebeu Sara os sacramentos corri fervor de catecúmena, Lourença Coutinho, israelita de consciência, assistiu com desgosto à fraqueza intelectual da sua velha amiga, como ela dizia ao marido. João Mendes da Silva, que então contava setenta e nove anos, quando sua mulher escondia o rosto amargurado para não ver as cerimónias da extrema-unção, disse — lhe:

— Deus sabe onde está a verdade, Lourença!... Nesta religião de Jesus de Nazaré vejo que há exemplos de vidas e mortes exemplares. Os cristãos morrem com uma certeza de castigo e recompensa... e nós...

— Também — concluiu Lourença. Um aceno de Sara, que parecia tranquila depois de sacramentada, fez aproximar Lourença e António José.

A moribunda pegou da mão de Leonor, e disse-lhe:

— Filha, atende à súplica da tua mãe. Pelas agonias desta hora te peço que sejas esposa deste infeliz jovem.

Leonor beijou-lhe a mão, e murmurou: — Sim, minha mãe... serei...

— Bem hajas do divino recompensador, filha do meu coração... Eu vos abençoo; sede bons; amai-vos... António, deixo-te a filha de Jorge de Barros...

António José da Silva ajoelhou ao lado de Leonor. Começou o arrancar da vida. Poucas mais palavras proferiu; foram curtos e quase serenos os paroxismos. Quando pensavam que Sara abria os olhos e lábios para ver e consolar quem a chorava, então foi ela que inclinou a cabeça para o ombro da filha, e expirou.