O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 39 de 46

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O Judeu

Capítulo VI · Volvidos poucos dias, Duarte, apenas entrado na…

 

Volvidos poucos dias, Duarte, apenas entrado na sua casa, vestiu de cólera o rosto, e disse à negra:

— O teu amo doutor lá te mandou procurar a Almada por dois esbirros. Se lá estivesses, a esta hora estavas em lençóis de vinagre! São cruéis os tais judeus! Venho agora de lá, disse-lhes que eram duros contigo, que te deixassem, porque saíras quase nua e sem real de casa deles. Provavelmente não tomo lá. Gente com tão ruins entranhas não a quero para amiga. Ora vê tu, pobre mulher, que vontade eles têm de te esfolar!... Queira Deus que eles se não lembrem de suspeitar que estás aqui!...

— O meu senhor não me deixa prender... — exclamou ela, pondo as mãos.

— Não deixo, ainda que tenha de defender a casa com todos os criados dos senhores infantes. O judeu não se atreve a cá vir; podes estar sossegada, Feliciana. Tens em mim um verdadeiro amigo e defensor.

— Nossa Senhora lho pague! Muito meu amigo é, senhor Duarte! Eu não sei porque é tão meu amigo!...

— É porque tive muita pena de ti, e estou convencido de que tu eras incapaz de ser a ladra que eles dizem. Olha; eu confio tanto da tua limpeza de mãos, que te deixo abertas as gavetas, como se te conhecesse há muitos anos. Quando quiseres comprar alguma coisa, compra, que eu gosto muito de te ver asseada e satisfeita. Aqueles malvados!... É assim que te pagam trinta anos de serviços; e não se lembram que tu, se fosses vingativa, os podias perder e desgraçar. Pois não podias, Feliciana?

— Como era?! — perguntou a escrava, como admirada da sua desconhecida generosidade.

— Pois se tu fosses denunciar ao Santo Ofício que os teus amos judaizavam, pensas que eles não eram logo sepultados nas masmorras do Rossio?

— Ah!, sim?... Pois então que me deixem... senão...

— Quem sabe? — tomou Duarte — , pode ser que afinal, se te quiseres ver livre da perseguição, não tenhas remédio senão... Nada... denunciá-los, não. Há de haver muito quem os acuse. Veremos como eles se portam daqui em diante... Eu queria que tu saísses, Feliciana. Custa-me ver-te aqui fechada; mas tenho medo que te prendam lá por fora, e que te castiguem ou entreguem à tua senhora, antes de eu poder valer-te! já me lembrou de te resgatar, comprando-te; porém, o ódio que eles mostram ter-te é tamanho, que, ao meu ver, antes querem matar-te que vender-te. Esperemos alguns dias mais; e, se eles não estiverem quietos, pensaremos no que se há de fazer. Estas barbaridades irritam-me. Os escravos são nossos irmãos e filhos do mesmo Deus. Tomei à minha conta defender-te, e hei de salvar — te das fúrias daquela maldita casta de gente, que está sempre a ver como há de abrir as veias do próximo! Que admira se eles mataram Nosso Senhor Jesus Cristo!

— É verdade! — murmurou compungidamente a negra. — Eu já tenho ouvido dizer isso; e, lá no Brasil, quando prenderam a minha senhora, uns homens que viram-na passar, ficaram dizendo: “Esta é das que mataram Nosso Senhor!“ Eu, depois, contei isto à senhora Lourença, e ela...

— Que respondeu ela? — acudiu pressurosamente Duarte. — Disse que os tais homens eram umas bestas.

— E mais nada?

— Mais nada que me lembre.

— Pois olha: vai recordando todas essas coisas que viste e ouviste, porque pode ser que ainda precises de as dizer, para te livrares de cair nas unhas dos tais matadores de Jesus Cristo.

A sessão terminou, para se continuar no dia seguinte, e nos outros. O almoxarife trazia sempre de fora alguma história urdida para aterrar e enfurecer a negra. A tanto lhe apurou a raiva que já afinal era ela quem pedia licença para ir denunciar os amos ao Santo Oficio.

Num daqueles dias, António José da Silva bateu ao portão da casa de Duarte Cotinel. A negra precavida, assim que viu-o por uma gelosia, correu alvoroçada a prevenir o novo amo.

Duarte foi escondê-la muito longe da sala em que devia receber a visita do amigo.

António José vinha triste, a dar-lhe parte da sua definitiva resolução de retirar-se, porque o conde da Ericeira muito à puridade o avisara da necessidade de sair de Portugal, porque no Santo Ofício se lhe estão forjando desgraças.

— O conde da Ericeira — atalhou Duarte — não pode saber mais do que o meu pai. Os rumores, que lá se passam, muito há te disse eu que se passavam; todavia, por enquanto, não têm sintomas assustadores. Não obstante, se queres ir, vai; se tens lá fora mais tranquilidade, não te demores, que o meu maior prazer é ver-te em segurança. Quando tencionas ir?

— Não é já, porque o conde também me disse que eu poderia sem receio estar uns dias em Lisboa. No dia cinco de Outubro, faz minha filha dois anos, e eu tinha muita vontade de os festejar em companhia de ti e dos Barros.

— Estamos hoje a vinte e quatro de Setembro... Faltam onze dias... Posso asseverar-te que não corre o mínimo sobressalto a tua liberdade nestes onze dias. E a mobília da tua casa que lhe fazes?

— Vinha oferecer-ta. — Não aceito, António, porque não sei que lhe faça. Como vês, esta casa está decentemente mobilada por conta dos infantes, e eu não tenho outra residência. Vende a mobília a quem ela seja necessária; e, se não queres figurar nisso, eu me encarrego.

— Não posso dar trabalho a quem me não recebe o mais leve favor — disse António José. — Encarregarei a venda a algum parente da minha mulher. Diz-me cá: nunca pudeste descobrir que fim levou a desgraçada escrava?

— Não.

— Tenho feito diligências incansáveis! Ninguém me dá notícia alguma. A minha pobre mãe chora por ela, e queixa-se de mim, como causa de a sua Feliciana fugir. Se se matou, fica-me este remorso a trespassar-me o coração!

— Ora adeus!... remorsos de castigar escravos!... Fizeste menos do que fazem os outros senhores deles que lhes despem o couro. Deixa lá a negra, que está por aí a servir, e não pensa em se matar. Assim que saíres de Lisboa, aparece ela.

— Oxalá que assim seja. Hei de deixar-te uma boa esmola para lhe entregares, se a vires.

Saiu António José da Silva. Duarte foi buscar a negra ao esconderijo, e disse-lhe: — O teu amo asseverou-me que tinha a certeza de te haver às mãos antes de oito dias.

— Então fujo de Lisboa? — perguntou ela ansiada. — Não. Sossega. Eu vou sair, e volto daqui a duas horas. — Não me deixe prender, senhor Duarte! — exclamou a escrava de mãos postas.

— Estás pronta a fazer tudo que seja necessário para te salvar?

— Estou, meu senhor!

— Bem. Logo falaremos. Duarte Cotinel saiu; entrou em casa do promotor da Inquisição, e deteve-se meia hora. Dali foi em direitura ao Convento de S. Domingos, e demorou-se com dois conselheiros do Santo Oficio. Era de pronto recebido como familiar. À saída do convento, viu António José da Silva que desembocava das Portas de Santo Antão. Escondeu-se. Não lhe sobrou infâmia para se defrontar com o homem que ele andava apunhalando. Era um remorso dos celerados aquele. Lampejava-lhe uma luz nas trevas da alma; porém, luz do inferno, chama da consciência infernada.

António José da Silva não o vira. Ia abstraído, pensando no modo de brindar o amigo Duarte com um gracioso e ao mesmo tempo rico presente no dia de anos de Lourencinha.

Chegou o almoxarife a casa, esteve-se momentos em recolhimento acerbo, e chegou a pedir sacrilegamente ao diabo que lhe afastasse o cálix da tentação. O diabo conduziu-lhe a negra, que lhe vinha perguntar o que ela devia fazer.

— Eu te chamarei... — disse ele mal encarado.

Feliciana fez pé a trás, espantada da mudança. E o diabo, assim que a preta voltou costas, foi buscar o cofre de António José, e mostrou-lhe peça por peça a caixa dos pentes de ouro cravejados de diamantes, e as vinte e quatro pedras de extraordinário lume e quilate, e os copos da espada recamados de joias, e os vinte e quatro contos em moedas de ouro. Repôs tudo no cofre o expositor infernal, e disse, batendo-lhe com a mão de ferro calcinado no coração:

— Cento e cinquenta mil cruzados! Levantou-se de salto Duarte, e foi dentro chamar a negra. Compôs o gesto, abemolou o tom da voz afogada da rápida respiração, e disse:

— É necessário, se te queres salvar, que vás à Inquisição denunciar teus amos; senão, estás perdida, que eu não posso combater a perseguição que te fazem.

— Pois eu vou... e que hei de dizer?... — perguntou ela, tremendo.

— Tudo que sabes, tudo que viste. Não queres?

— Vou onde Vossa Senhoria me mandar. Pois não hei de ir?

— Porque se não vais és presa, e além disso estás excomungada.

— Excomungada!

— Sim. És obrigada a denunciar dentro de trinta dias teus amos, sob pena de excomunhão. Amanhã, às dez horas, irás à Mesa do Santo Ofício à Casa Santa. Diz ao alcaide que queres falar ao senhor inquisidor; lá te farão as perguntas, e tu responderás; mas olha, Feliciana, se te perguntarem o que fazia teu amo doutor, responde que fazia o mesmo que a sua mãe; senão, fazes prender a mãe, e ele fica livre para te acabar a vida nos ferros do Limoeiro ou nas galés.

A negra foi fazer exame de consciência como quem se prepara para salvar-se das galés.

A furto, lhe caía às vezes na alma uma gota dolorosa como de chumbo candente. A negra dava upas no catre, onde não provou cinco minutos de repouso. Um raio de penetrantíssima angústia lhe atravessava, a espaços, a cabeça, e ao fogo, que lhe acendia, mostrava-lhe os benefícios, afagos e cuidados com que Lourença Coutinho a tratava nas suas moléstias. Quando as lágrimas, ferventes daquele queimar, lhe ressumavam aos olhos cravados nas trevas, chamava ela no seu auxílio a lembrança das vergastadas que sofrera, doutras que a esperavam, e, depois, as gramalheiras da galé.

Lutou assim até ao dia. E, ao mesmo tempo, a noite de Duarte não foi mais repousada. Calculava ele as consequências daquele acto, que ele já, ainda que quisesse, não podia aniquilar. Se a negra, golpeada de remorsos, revelaria nos interrogatórios futuros que fora ele o motor da denúncia? Que pensaria o mundo da riqueza inesperada? Que julgaria da perfídia do homem que perdera uma família? Ocorreu-lhe a ideia valedora de todos os que não receberam ainda nome condigno e significante na perversão moral, que entesta com as raias do inverosímil. Lembrou-se de matar a veneno a escrava à hora em que fosse necessário sepultá-la com o segredo.

A negra não podia ser pálida diante do inquisidor que a interrogava, e do secretário que escrevia o depoimento; mas o tremor da voz dizia o que a escuridão da pele, oleosa de aflito suor, não podia delatar. A desgraçada estava já sentindo em corpo e alma as labaredas que se iam acendendo, a cada palavra dela, em volta da família com quem se criara desde criancinha.

Juramentada, confessada, e intimada para aparecer quando novamente a chamassem, saiu. Apertou o pé caminho da Bemposta, e limpou muitas vezes as lágrimas para ver o caminho.

Ansiosamente a esperava Duarte. Feliciana lançou-se-lhe de joelhos, exclamando:

— Eu fiz que vão matar a minha senhora, e a senhora Dona Leonor que nunca me fez mal nenhum! Não os deixe morrer, senão eu vou atirar-me à cisterna!

— Não morre nenhum, tola! — disse Duarte. — No primeiro auto-de-fé saem todos livres; e entretanto eu tratarei de te arranjar fora de Lisboa um modo de vida em que tu enriqueças. Hei de dar-te um bom dote para casares com um oficial de oficio. Ergue-te, Feliciana. Então respondeste? — Sim, meu senhor; mas eles, às vezes, faziam-me dizer o mesmo de muitas maneiras, e eu estava a tremer de medo daquele senhor da capa e barrete de borla, que tinha cara de meter medo...

— Está bom. Vai jantar, e come bem, que os teus amos não sofrem senão a prisão de algum tempo. já te não lembram aquelas vergastadas?...

CAPÍTULO VII

 

As pessoas não lidas nas mais repulsivas páginas que temos da história da humanidade; as que não viram ainda nem coraram de ver os irrefutáveis e imorredouros livros de Alexandre Herculano acerca da Inquisição em Portugal, desculpavelmente malsinam de inverosímil o carácter de Duarte Cotinel. Faz-lhes honrosa repugnância tão extremada infâmia, quando o intento e fito dela é aferrar de um cofre recheado de riquezas por cima da torrente de lágrimas e sangue de uma família, por cima de uma fogueira que derrete as carnes e pulveriza os ossos do possuidor do tesouro. Espantam-se, e refutam de boa fé, como desnaturais e insondáveis os abismos de infâmia donde lhes sai o homem que não pode alegar como causa da morte horrendíssima de uma família, senão a necessidade de a roubar, e a descoragem para matá-la a ferro quando ela o recebe no seu grémio confiadamente.

Espantam-se; mas não era mais para assombros Duarte da Paz, aquele hebreu que recebia dos da sua raça ouro a torrentes para os salvar em Roma, e os vendia aos algozes sagrados de D. João III? Não era mais incrível a denúncia do parente, que esperava sonegar ao confisco do Santo Ofício os tesouros do irmão, e às vezes do pai, que expirava amaldiçoando a cega Providência, por não saber quem o chumbara às lajes que o sol não aqueceu nunca?

O melhor e mais alto louvor que pode entoar-se a este século é não haver aí quem já aceite como praticáveis os atrozes lances de um passado, que dista de nós apenas século e meio. Que dias aqueles e que dias os nossos! Como a vida e alma humana eram então desgraçadas! Que deploráveis gerações de infelizes e de celerados rolaram à voragem em correntes de lama ensanguentada! Como o sol de Deus passaria triste no céu, e o que iria no grande Espírito Criador, lá em cima, cortinas adentro destes milhões de estrelas!

É preciso levar o pensamento ao âmago, ao turbilhão daqueles dois séculos nefastos que marcam o nosso opróbrio desde D. João III até ao marquês de Pombal, aurora do melhor dia, aurora manchada ainda de laivos de sangue, mas enfim o alvorecer, o redimir — se o homem, esquecido de Cristo, começou então, neste recanto de heróis piratas, e de apóstolos sanguinários! E a Providência não contava como seus, como obra sua, como filhos da sua eternidade aqueles dois séculos?

A Providência deixava escabujar o hebreu nas correntes da sua masmorra, e deixava aquecer-se o frade às chamas crepitantes dos seus cruentos holocaustos a Jesus.

Mas um dia, a última fogueira devia apagar-se devorando o mais fanático dos tonsurados, o padre que em si compendiava o ascetismo fraudulento, as ilustrações fictícias do alto, os dons falazes de inspirado, as raivas teocráticas, quantos herpes tinham roído e empeçonhado os liames que suavemente enlaçavam a humanidade com a cruz do seu mais divino redentor.

Um dia acendeu-se uma fogueira; e essa fogueira, que foi a última em Portugal, ao apagar-se deixara um sedimento lodoso em que a Providência mandou procurar as carnes, os ossos, e me quer parecer que a alma do padre Gabriel Malagrida.

Aqui está a Providência. Mas quem deu conta dos milhares de famílias, cujas cinzas levaram os quatro ventos do céu?

A Providência não as pediu — acrescenta uma blasfema filosofia.

Pediu. Destes atascadeiros do mundo não podemos desferir o voo lá para onde essas contas se pedem; cremos, porém, com a mais pia racionalidade, que os filhos de S. Domingos e filhos dos santos pontífices foram chamados a contas, e as deram como criminosos de um período do mundo em que a legislação civil não era mais misericordiosa que a eclesiástica.

Eu creio que ninguém tirou uma vida que não respondesse por ela quando o nome do assassinado fosse lido na lista do seu Criador.

E por isso pergunto aos oráculos dos nossos dias se os caprichos dos reis não têm que dizer da sua justiça, quando lhes perguntarem porque alvejam ainda as ossadas nos descampados em que passaram os reis, à frente das suas reses.

Não sei qual razão haja aí que legitime o morrer dos que pelejam; contra uma bandeira; e se deplore sobre a página tarjada dos que caíram nas lutas religiosas, mais ou menos covardemente assassinados.

De cadáver a cadáver não há distinção. É tudo o mesmo açougue.