O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 12 de 46

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O Judeu

Capítulo XV · Celebraram-se as núpcias de Jorge de Barros…

 

Celebraram-se as núpcias de Jorge de Barros e Maria de Carvalho. Causou estranheza o sucesso aos fidalgos da Covilhã, porque o acto foi público. O enlace de mancebo da primeira nobreza com uma cristã-nova era caso singular, desde que D. Manuel desprestigiara a riqueza dos hebreus, roubando-lha com a vida. Não acontecia assim na época em que os israelitas se nobilitavam em Portugal, à semelhança de um Moisés Navarro que instituiu em Santarém um dos maiores vínculos do século XIV com permissão de D. Pedro I.

Assim que a notícia soou fora do templo, meteu-se logo a caminho um portador para a Guarda, e daqui para Lisboa cartas avisando D. Francisca Pereira Teles do despejo, senão apostasia, do filho.

À hora, porém, em que a fidalga devia receber a nova, já Sara e o seu marido teriam no mar alto a defesa das ondas, levantadas entre o seu amor e o paço dos Estaus.

Como se disse no capítulo anterior, Simão de Sã destinou que, no mesmo dia, se casassem sua filha Judite com Eflakim. Como simulados cristãos, os noivos receberam as bênçãos do padre católico, e foram depois secretamente revalidar sua união segundo o ritual judaico.

Jorge era já como da família, bem que não praticasse o mosaísmo. Foi-lhe permitida a assistência ao acto, que ele ardentemente desejava presenciar.

— Para satisfazer-lhe completamente a sua curiosidade — disse Simão de Sã — convém referir-lhe as cerimónias que já precederam esta final cerimónia do casamento. Há seis meses que o meu sobrinho Eflakim entrou nesta casa, e, em presença de testemunhas, disse a minha filha: “Sê minha mulher.” Ao mesmo tempo deu-lhe um anel, cerimónia que aboliu a outra mais antiga de uma moeda de indeterminado valor. Depois, meu sobrinho dotou minha filha, porque entre nós as mulheres não podem levar aos maridos dotes consignados em escrituras. Assim que os noivos reciprocamente consentiram, o rabino proferiu uma breve oração em louvor de Deus que permitiu o casamento e proibiu o incesto. Os mancebos e donzelas, que assistiram a este acto, lançaram ao chão as bilhas que trouxeram, quebrando-as, como presságios de abundância e prosperidade. Os esposos beberam depois algumas gotas de vinho de uma taça comum, e quebraram-na também. Quer isto significar a comunidade e fragilidade dos bens da fortuna. Eis aqui o que, há seis meses, se passou. Agora, verá o restante. Como não temos sinagoga, as cerimónias fazemo-las em casa.

Conduzido, depois desta breve narração das precedentes cerimónias, a uma sala luxuosamente decorada com antigos adornos, que deviam ter sido de templos anteriores à perseguição, viu Jorge de Barros entrar a noiva cintilante de pedraria, debaixo de um docel, arvorado por quatro mancebos. Todas as pessoas, que estavam na sala, à entrada de Judite, disseram: “Bendita seja quem chega.“. Em seguida, acenderam círios, rodearam a noiva, e cantaram uma suave e afinadíssima melodia. Depois, a esposa fez três giros em redor do esposo, em virtude de Jeremias ter dito: “A mulher rodeará o homem.” Assim que ela parou, Ebakim deu duas voltas em redor de Judite.

Os circunstantes, logo depois, espargiram alguns grãos de trigo sobre os esposos, exclamando: “Crescei e multiplicai-vos”, enquanto Simão de Sã semeava num vaso de terra algumas daquelas sementes, para depois, desabrochados os grãos, os levar aos esposos como símbolo de pronta propagação.

Colocou-se a esposa à mão direita do marido, porque o salmista dissera: “A tua mulher está à tua direita.” Voltou-se ela para o lado do meio-dia, e cobriu-se com um manto chamado talete, do qual também se cobriu o esposo, porque Rute disse a Booz: “Estende o teu manto sobre a tua serva.” O rabino tomou um copo de vinho, e ofereceu-o a Ehakim, bendizendo o Senhor porque criou o “homem e a mulher, e defendeu o incesto e ordenou o matrimónio”. Elfakim bebeu daquele vinho, deu um anel sem pedra a Judite, e disse-lhe: “Eis que és minha esposa, conforme o rito de Moisés e de Israel. “Repetiu-se a oferta do vinho à esposa por um gomil estreitíssimo, visto que era donzela. Se fosse viúva, a boca do gomil devia ser mais ampla. Enquanto os assistentes entoaram seis bênçãos, os esposos beberam, e lançaram fora o vaso, em sinal de alegria e abundância.

Seguidamente, passaram à mesa onde estava posto um primoroso jantar. O primeiro prato servido a Judite foi uma galinha e um ovo. Assim que a noiva provou da galinha, trincharam-na e repartiram-na pelos convivas. Neste ponto, Simão de Sã pegou do ovo, sorriu-se, e riram todos, exceto Jorge.

— Sabe o que este riso quer dizer, senhor Jorge? — perguntou Simão.

— Não sei.

— É que a praxe manda que se atire o ovo ao nariz do cristão que assistir à cerimónia.

— Em tal caso — disse Jorge — não quebrantem o ritual. Aqui lhe ofereço o nariz.

— Está dispensado — disse Judas Ben Tabbay, o rabino que viera de Bragança celebrar o casamento.

Durante o jantar, cantaram-se sete bênçãos. Ao anoitecer, dois hebreus de idade, denominados “paraninfos”, conduziram os esposos ao seu aposento.

Assim findaram aquelas cerimónias. Havemos de alcunhá-las de ridículas, quando expurgarmos a nossa religião doutras que sobre-excedem aquelas em ridiculez.