O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 18 de 46

Páginas do PDF

O Judeu

Capítulo VI · O caso extraordinário do casamento de um…

 

O caso extraordinário do casamento de um fidalgo, descendente de avós e pais cristãos-velhos, com a filha dos judeus queimados no auto-de-fé de 1685, deixou viva e duradouramente impressionados e escandalizados os ânimos dos frades dominicanos e mais oficiais do Tribunal. Poderia conjeturar-se que a consorte de Jorge de Barros se convertesse de coração à fé católica para esposar o cristão; porém, esta pia hipótese encontrava o procedimento dos casados, ausentes logo da pátria, e residentes entre judeus, num país de heresia livre, onde as portas das sinagogas se abriam francamente ao culto satânico da raça deicida. Se a judia, ligada sacramentalmente a Jorge de Barros, era cristã, porque fugia? Se o marido era cristão, como lhe consentia a consciência baralhar-se com hereges, e hebraizantes descarados na Holanda, terra de maldição em que o Demónio armara suas tendas contra Cristo e contra o Sumo Pontífice?! Estas interrogações admirandas faziam-nas os peitos equâmines, lógicos e consternados dos filhos do glorioso patriarca S. Domingos.

Que a judia se despenhasse no Inferno, muito doía isto aos padres, porque era uma alma por quem correra sangue das chagas do Redentor; mas que a perversa arrastasse na sua queda a alma do marido, este desastre era lança penetrantíssima que trespassava corações menos sensíveis que os daqueles povoadores das altas regiões da bem-aventurança!

O remédio que lhes ocorria mais heroico e expeditivo, depois de largas cogitações, era queimar a judia, e purificar a alma contaminada do marido ao fogo em que estalassem os ossos da mulher.

Treze anos tinham derivado; e tão largo termo não bastou a delir da memória dos frades aquele salutar pensamento. Prova é que, ao cabo de tantos dias, quando os familiares da cidade da Guarda avisaram D. Nuno da Cunha, o inquisidor-geral, em papéis escritos do punho de D. Veríssimo de Lencastre, e do bispo que lhe sucedeu no ofício, encontrou notas recomendativas acerca de Sara de Carvalho, e Jorge, marido dela, filho de Plácido de Castanheda de Moura.

O cardeal recebeu o aviso da existência de Sara na Covilhã, e mandou oficiar ao Conselho Geral. Ao mesmo tempo, porém, o secretário do cardeal avisava o familiar Diogo de Barros com estas palavras: “Eu demoro quinze dias a participação aos frades, para dar tempo aos culpados a fugirem do seu vagar.”

Esta fora a má nova que Jorge de Barros lera a sua mulher. Num dos próximos dias, Lourença Coutinho voltou para Lisboa, cobrindo de lágrimas as mãos do seu protetor, e as faces de Sara e da filhinha. António também chorou muito abraçado em Leonor, quando a criança lhe deitava os braços em alto choro, ao afastarem-se.

Volveu Jorge de Barros a fazer sua residência em Amesterdão. Lançou mão, outra vez, da indústria comercial, e com mais atividade, em razão de ter uma filha. Se dantes passava algumas noites entretidas nos saraus literários da portuguesa D. Isabel Correia, depois escasseava-lhe o tempo às amenidades do espírito. As suas noites e horas do dia feriadas eram repartidas entre o coração e o repouso. No coração concentrara ele os prazeres da inteligência. A filha era-lhe tudo o que já Sara não podia ser, após doze anos de convivência. A hebreia fora-lhe a paixão, única; mas uma paixão, por ser exclusiva, não faz que a felicidade da alma seja permanente. Se alguma hora, todavia, Jorge de Barros, que não saíra excetuado de comum lodo, era surpreendido por vagos desejos de distrair-se em afetos novos, a filhinha reclamava para si a exuberância do coração do seu pai, e vingava senhoreá-la.

As notícias de Lisboa iam miudamente nas cartas de Lourença Coutinho para Amesterdão. Os diálogos epistolares das duas israelitas versavam no máximo sobre as suas alegrias maternais. Lourença escrevia a Sara que o seu filho António era muito esperto, e causava espanto ao mestre de primeiras letras mais afamado em Lisboa, o padre Lourenço Pinto. No profetar deste idóneo sujeito, o pequeno António, se a morte o não apanhasse, havia de ser coisa de prodígio, principalmente em poesia; porque, entre oito e nove anos de idade, fazia versos que Lourença avaliava muito superiores aos do pai. Se houvermos de crer nestes encarecimentos da extremosa mãe, António já andava nas asas da fama, e algumas famílias ilustres folgavam de o terem pelas suas casas com os filhos de quem ele era condiscípulo. Uma destas pessoas era José de Oliveira e Sousa, contador-mor dos Contos do Reino, que sucedera no elevado cargo ao defunto Plácido de Castanheda de Moura. Aquele fidalgo tinha um filho, de nome Francisco Xavier, mais novo três anos que António, e igualmente admirável por a precocidade do seu engenho. Era coisa para muito rir ver as duas crianças a contenderem sobre elegâncias de poesia portuguesa, repetindo trechos de Miranda e Ferreira, de Bernardes e Camões. António, contra o parecer do alegre auditório, sustentava com razões pueris que Gil Vicente era superior a Camões. A comédia era, no pensar do menino, a melhor forma da poesia, a mais agradável e recreativa. E os ouvintes instigavam-no a discorrer sobre estes e outros assuntos. Referia Lourença Coutinho difusamente estas áfricas do filho, e ao mesmo tempo as grandes virtudes da esposa de José de Oliveira — à parte os delírios da sua fé católica — , conhecimento e amizade que devia ao seu Antoninho. D. Isabel da Silva Neves era o nome da mãe do pequeno Francisco Xavier, legitimamente vaidosa do seu menino como a outra mãe; e, por aliança de simpatias e maternidade, muito íntima da esposa do advogado João Mendes.

Não obstante, Lourença Coutinho motejava das crendices piedosas da sua amiga, contando a Sara que D. Isabel tinha no santuário duas imagens, uma da Conceição, e outra da nossa Senhora da Graça, as quais ela amarrava uma à outra com um fio de pérolas, quando pretendia delas algum favor. Referia mais que a sua amiga tinha um Santo António, que ela frequentemente incomodava, assim que a mais insignificante coisa se lhe perdia. Ora, se acontecia o Santo não dar pronta notícia do objeto perdido, a devota desterrava o padre Santo António da companhia dos outros santos, e exilava-o para um canto escuro da alcova por espaço de vinte e quatro horas; findas as quais, se o objeto não tinha ainda aparecido, o rebelde santo era amarrado pelo pescoço com uma guita, e pendurado à borda do poço, até lhe dar água pela barba. Se a coisa perdida vinha a descobrir-se, então saía o santo da cisterna, e era processionalmente conduzido ao oratório, por entre lâmpadas e perfumes, terminando o triunfo por um lauto jantar ao qual eram convidados os parentes e amigos. juntava judiciosamente Lourença que estas irrisórias superstições eram aprovadas por um frade muito sábio, irmão do contador, chamado frei Francisco do Menino Jesus, prior dos Carmelitas, o qual estava continuamente ensinando ao pequenito Francisco histórias em que figuravam feiíssimos demónios com grandes caudas e retorcidas pontas e pés cabruns.

Dos seus dois filhos André e Baltasar dizia Lourença que não podia esperar nada na carreira das letras, porque eram o inverso do irmão em inteligência; pelo que João Mendes desistira de os mandar a Coimbra, e esperava mandá-los administrar as suas fazendas no Brasil, se eles ou elas não levassem descaminho.

CAPÍTULO VII

 

 

Em 1715, Sara de Carvalho escrevia à sua amiga com muitas lágrimas, noticiando-lhe que Jorge começava a queixar-se de sofrimentos do peito, supervenientes a umas teimosas sezões que o deixaram enfermo para sempre. Noutra carta imediata, dava-lhe parte da sua ida para Roma, onde o marido ia procurar a restauração das forças, posto que ela, convencida da sua fatal sina, pressagiava a curta vida do seu Jorge, e a si se acusava de ser a causa involuntária de tamanha infelicidade, supondo que o seu marido, restituído aos ares pátrios, poderia convalescer. Da filhinha Leonor dizia que eram seis lindíssimos anos, com um toque de sobrenatural pressentimento nos olhos sempre tristes, e nos jeitos melancólicos, ao invés de todas as crianças.

De Roma escreveu mais animada contando por miúdo as progressivas melhoras do seu marido. Nomeava os israelitas portugueses que lá encontrara numerosíssimos, vivendo ricos e sossegados, ali mesmo debaixo dos olhos indulgentes do papa. Muito se admirava ela da bondade do chefe da Igreja Cristã, e da crueza bárbara dos seus subalternos em Portugal; mas, no decurso da carta, dava a entender que os hebreus compravam muito cara a tranquilidade que tinham em Roma.

Lourença, contente da boa nova que a viera desafogar de ansiosos cuidados, voltou a referir alegres coisas do seu António, como quem as contava à futura sogra do seu filho. O menino estava já suficientemente instruído em Humanidades para entrar na Universidade; porém, faltava-lhe a idade para matricular-se. Dava-lhe a notícia de ter ele escrito uma comédia, que o pai lera e rasgara logo, querendo castigá-lo, porque a comédia feria os verdugos da Inquisição, pondo em imagens um conciliábulo de demónios, discutindo o melhor modo de acabar com a religião do Galileu, e concluindo por saírem do inferno com três refinadíssimos demónios, chamados Domingos de Gusmão, Torquemada, e Pedro de Arbués, vestidos de frades dominicanos.

Não obstante as severas ameaças de João Mendes, o pequeno reproduzira de memória as cenas principais da comédia trágica, e leu-as a sua mãe, segundo ela dizia, com uma graça e declamação que fazia ora chorar, ora rir.

Temia, porém, Lourença que o filho em Coimbra se desmandasse, e abrisse o seu abismo e o da família toda; pelo que lhe rogara com lágrimas que tivesse muita prudência, e fingisse quanto pudesse que era cristão.

Contava ela que D. Isabel não cessava de catequizá-lo para lhe incutir bem no âmago as suas doutrinas piamente engraçadas. Do pequeno Francisco Xavier dizia que nunca vira menino tão esperto, e ao mesmo tempo tão visionário. Tinha onze anos, e confessava-se todos os meses e comungava com uma reverência edificante. António ria-se da devoção do seu amigo, não em presença dele, mas em conversa com a mãe, que o admoestava a não dizer coisa que o pequeno pudesse transmitir à sua família. Dois padres de grande nomeada em Lisboa, o congregado Inácio Ferreira, e o loio Lourenço Justiniano, confessores e mestres do menino do contador, profetizavam que Francisco Xavier de Oliveira havia de ser um luminar da cristandade, porque já lhe descobriam no olhar e no dizer um não sei quê de predestinação. “Vê tu, minha amiga”, dizia Lourença, “corno em Portugal se inutilizam os grandes engenhos, e abafam os alentos e arrojos dos espíritos! O meu Antoninho diz que o seu amigo está já tolhido, e quando chegar aos dezoito anos estará sandeu. Mas não imaginas como eles se querem. “O António não sai de casa dele, ou ele da nossa, exceto nas horas em que o Francisquinho está orando com a mãe ou no confessionário, enquanto o meu poeta engenha comédias, com as quais João Mendes e eu temos ocasiões de rir até mais não poder.“

Ajuntava Lourença, com respeito à família do contador-mor José de Oliveira e Sousa, que naquela casa se acreditava que el-rei D. Sebastião havia de voltar, quebrado o seu encanto: de maneira que D. Isabel não consentia que se lhe fosse à mão nesta esperança em que ela punha tanta fé como na ressurreição dos mortos. Era grande parte nesta loucura um franciscano sebastianista, ancião de mais de noventa anos, chamado frei Vicente Duarte. Ouvira Lourença Coutinho, da própria boca do frade, esta lenda persuasiva da vinda infalível de el-rei D. Sebastião: “Andava por Lisboa, no fim do século dezasseis, um sincero sebastianista a quem alguns incrédulos escarneciam. Um dia, disse ele aos zombadores: — Acreditareis, que Dom Sebastião há de vir, se esta vara de marmeleiro, metida na terra, florescer e frutificar?“ – Acreditamos — , responderam os circunstantes.

E o sebastianista”, prosseguiu dramaticamente frei Vicente Duarte, “em presença de cem pessoas, cravou o bordão na terra, e para logo a vara bracejou ramos, que se vestiram de flores, e estas se formaram em belíssimos e maduros marmelos. Quantos estavam e provaram da fruta, se converteram do íntimo à fé e esperança do sebastianismo. O meu pai”, continuava o frade, “comeu daqueles marmelos prodigiosos”.

“Ora aqui tens, minha Sara”, juntava Lourença, “como está a razão de pessoas da primeira linha em Lisboa! Dona Isabel é uma das mais distintas damas, e, à semelhança desta, dizem-me que há centenares delas que ensinam aos seus filhos a crença de frei Vicente Duarte dos marmelos! Vê tu que marmelada!

Queres tu saber uma coisa mais espantosa? Há aqui ricos mercadores que vendem os seus géneros com a condição de receberem o pagamento deles, quando vier Dom Sebastião. O meu marido já viu escrituras destes contractos, lavradas há cinquenta anos, e postas em juízo, se pode haver juízo para tolices deste tamanho! Diz João Mendes que ainda agora há velhacos que se fingem sebastianistas para lograrem os miseráveis vendedores a prazo tal! Eu fazia de Portugal uma ideia muito diversa, quando estava no Brasil, O meu António diz que em Lisboa não há senão duas espécies de gente: fanáticos e hipócritas; com os primeiros estão os verdugos da humanidade, com os outros estão os patifes. Eu creio que ainda há gente boa como Diogo de Barros e a sua santa família, e como esta senhora minha amiga, que tem tanto de boa como de embrutecida por frei Vicente e outros, não sei se hipócritas se fanáticos.

A respeito de frades, vou contar-te um caso galante acontecido há dias. O teu Jorge há de folgar de o saber, porque sei que ele ainda é parente de um dos personagens desta comédia, que o meu António promete escrever. O conde da Atalaia tinha uma manceba muito bonita, segundo dizem. Ninguém se atrevia a disputar-lha, porque temiam o conde. Tentou a empresa um frade franciscano, e ganhou-a. Uma criada da manceba infiel denunciou a traição ao seu amo. O conde fingiu uma caçada, despediu-se da pérfida, e escondeu-se na cidade. Pouco depois, entrou o frade, e imaginou que estava na sua casa. Quando era meio-dia estavam dormindo sossegadamente. Eis que bate à porta o conde, e a criada abre prontamente. O frade, trajado como o inocente Adão, escondeu-se debaixo da cama. O conde da Atalaia entra no quarto, vê os hábitos de São Francisco, olha para debaixo do leito, e exclama: — Quer tu sejas demónio quer tu sejas frade, não te toco; mas ordeno-te que saltes daí para fora, que desças as escadas e vás para o teu convento: isto imediatamente. — O frade queria vestir-se, e o conde não deixava. Ajoelhou-se o francisco, pedindo-lhe que antes o matasse e o não obrigasse a sair naquele feitio. O conde foi inexorável até ao momento em que o frade lhe disse: — Que desonra Vossa Senhoria vai causar ao nosso comum padre São Francisco, expondo-o desta forma na pessoa de um do seus indignos filhos, à zombaria e escárnio do povo! — Ora o conde, como era irmão da Ordem Terceira de São Francisco, abalado pelo medo de ofender o padre comum, perdoou-lhe, e disse-lhe que se vestisse.

E vai o frade, tão depressa lançou mão do hábito, arranca duas pistolas, mete-as à cara do conde, e diz-lhe que o matava, se lhe não cedia a jovem. O conde, acovardado diante da fúria do agressor, saiu de casa, não sei se com intenção de voltar. O certo é que o frade saiu com a manceba, e até agora, que já são passados quinze dias, ninguém sabe dizer onde param, apesar das pesquisas de todos os quadrilheiros.

Aqui tens como está Lisboa, minha Sara. Deus me livre que esta carta fosse dar à mão dos que purificam o ar corrompido de Portugal com as fogueiras da santa fé!...”

CAPÍTULO VIII

 

Em 1716, recrudesceram os padecimentos de Jorge de Barros. Saiu de Roma, e vagueou pelos ducados italianos, experimentando alternadamente ora melhoras, ora empioramento do achaque do peito.

Instado por Sara, escreveu ao seu tio Diogo de Barros a pedir-lhe que lhe segurasse a ida para a pátria, cujos ares lhe poderiam ainda renovar o sangue.

Diogo sondou o ânimo do Santo Ofício, e colheu péssimas induções da sua raiva ao marido da judia.

De Roma tinham vindo ao inquisidor-geral avisos da embaixada, exagerando os serviços que Jorge de Barros andava lá diligenciando a favor da nação judaica em Portugal, fazendo reviver no espírito de Clemente XI escrúpulos e suspeitas, acerca do estilo de processar os judeus em Portugal, tais como as outras que o padre António Vieira tinha suscitado em 1674 por meio do seu opúsculo oferecido a Clemente X, com o título Notícias Recônditas do Modo de Proceder a Inquisição de Portugal com os Seus Presos.

Na verdade, Jorge de Barros, testemunha presencial dos flagícios corri que os cristãos-novos sem culpa se viam atormenta — dos em Portugal, solicitou audiência de alguns cardeais de mais humana índole, e advogou a causa dos hebreus, afervorando as súplicas com a justiça das razões. Os israelitas espanhóis e portugueses instigavam-no a ser-lhes seu amparador, oferecendo indeterminados cabedais para vencer algum pequeno relaxe nas gonilhas do seus pobres irmãos, e doutros que vagamundeavam espoliados dos haveres que a Inquisição lhes confiscara na pátria. Não surtiram efeito as suas ativas inteligências e diligências com alguns membros do Sacro Colégio. Empeceram-no as humilhações hipócritas da corte portuguesa aos pés do papa.

No ano de 1716 concedera Clemente XI ao rei D. João V o erigir-se em igreja patriarcal e metropolitana a real capela. Esta concessão era um chover copioso de prosperidades sobre Portugal, as quais o piedoso rei não sabia como pagar à munificência do bispo de Roma. Nunca tão do íntimo se tinham amado as duas cortes! Estava no trono de D. João I, o perdulário que havia de despejar o ouro do Brasil, contado por milhões, nos cofres de S. Pedro. Clemente XI não era homem que pudesse aplicar um ouvido ao som dos dobrões portugueses e outro às súplicas de um advogado de judeus. O dinheiro dos israelitas era humilde regato em comparação do Páctolo da corte. Com a bulla aurea enriqueceu o pontífice esta nossa terra de parvos, com a prosperidade de mais um cabido metropolitano com seis dignidades, e dezoito cónegos, chamados “principais”, que trajavam de bispos, e mais doze prebendados, após outros ministros eclesiásticos para o serviço da patriarcal. Todos estes sujeitos de ilustríssimo sangue, e estômago correspondente em lustre e elasticidade, eram favores que Roma, a pedido do devoto monarca, fazia ao erário, Ao mesmo tempo, D. João V lançava a primeira pedra daquela vasta mole de granito e mármore que aí está chamada Mafra, coisa de triste e pavoroso aspeto, monumento que a si se levantou um braço real, como se a qualidade do braço o ressalvasse, posteridade além, da nota de se ter imergido no tesouro da pátria, tirando e espalhando às rebatinhas mãos-cheias de ouro que deviam cair em estradas, em colónias, em benefícios da navegação, em benefícios da agricultura, em recultivação das terras de D. Dinis, cujos arados D. Manuel e João IH converteram em espadas e mandaram ensopar no sangue das nações de além-mar.

Baldaram-se, pois, os rogos de Jorge de Barros; mas, assim mesmo, no Conselho do Santo Oficio, o nome do generoso causídico da raça maldita foi duplamente cintado de negro.

Razão tinha Diogo de Barros para afastar seu sobrinho de Portugal, embora o matassem lá fora os ares pestíferos de Roma ou de Amesterdão. Antes morrer à beira das lagoas pontinas ou dos lameirais holandeses que nas labaredas do Campo da Lã.

Em dispendiosas viagens de dois anos e interrupção de trato mercantil se desfalcou o capital de Jorge. Atenuava-se ele a olhos vistos, quando se detinha a pensar no futuro de Sara e da filha, se a moléstia o matasse naquele seu andar de reino para reino, em cata da saúde que, a intervalos curtos, lhe abria luz de esperança, e logo o descaía na escuridão das suas longas noites de velar e gemer com Sara e Leonor à beira do seu leito.

Lembrou-se a esposa do clima brasileiro, onde ela recobrara saúde. O enfermo deixava-se levar como criança a toda parte. Bastava que Sara lhe dissesse: “Rogo-te que vamos em nome da nossa filha. “Leonor, quando a mãe falava assim, ia acariciar as faces de Jorge, e repetir a súplica no mais mavioso tom e sorriso de anjo da esperança.

Pouco tempo se detiveram no Rio de Janeiro. O governador da Baía, ido pouco antes de Portugal, avisou Jorge de Barros do perigo que a sua liberdade corria em território português. Deu-se pressa em voltar à Europa, com a moléstia agravada e o coração mais angustiado.

Alguns israelitas, seus companheiros de viagem, induziram-no a ir experimentar os ares de Londres. Desejava Jorge permanecer ali, porque a nação hebraica, em parte alguma — a não ser na Polónia, chamada “paraíso dos judeus” — gozava tanta liberdade e consideração.

Não tinha sido assim até 1649, época em que um espanhol escreveu e ofereceu ao Parlamento certa Apologia dos Hebreus, Uma razão alegava o apologista, que tem muita originalidade, e milagrosamente ponderou no ânimo da Câmara. Dizia ele: “Se os avós destes hebreus crucificaram o Messias, parece, em conformidade com o Evangelho, que os chefes e doutores da lei foram unicamente os réus de tal crime, ao passo que o povo exclamava: — Hossana, filho de David! “e que a posteridade não deve ser punida de uma culpa já expiada por tantas gerações. “Ajuntava o defensor que devia ser respeitado o carácter do povo de Deus, que os israelitas ainda tinham, como relíquias de uma aliança pactuada com eles solenemente por Jeová. Finalmente, dizia a representação que a tolerância de Inglaterra atrairia a bênção do Senhor ao reino que, nos cem anos últimos, tinha sido firmíssimo sustentáculo da verdade e valhacouto de infelizes.

Cromwell estava à frente do Parlamento. Sustentou a discussão a favor da apologia, e desatou as cordas opressivas da liberdade dos judeus.

Não soube ainda a História nem o souberam os hebreus de Inglaterra a quem deveram a sua redentora apologia. O incógnito benfeitor, no remate da sua súplica, escreve: “Lo que tengo escrito no ha sido a pedimento de ninguno de Ia nacián de los judios. Solo quiero mostrar lo que a tanto tiempo tengo en mi corazón, y sobre todo es mi intención fundada en la gloria de Dios.“

Desde Cromwell — o qual, no entender de alguns judeus tão gratos quanto estúpidos, era o seu verdadeiro Messias — a nação de Israel construiu sinagogas em Londres, e desassombradamente comerciou por igual com os papistas e protestantes.

Quando Jorge de Barros ali chegou já nenhuma baliza odiosa estremava os judeus da família humana. Em Londres, com muita distinção das outras paragens, o hebreu assumira a sua perfeita dignidade de homem. Em nenhum dos mais poderosos negrejava o ferrete da usura. Os costumes eram mais exemplares que propriamente os da severa Grã-Bretanha.

Esta sociedade cativou o espírito de Jorge; mas o ar de Inglaterra deslaçava-lhe as fibras dos pulmões. Saiu para Itália pela terceira vez. Tomou casa em Veneza, onde por aquele tempo demoravam dois mil hebreus, com as suas sinagogas, seu cemitério, e comércio desafogado de opressão, graças ao papa Inocêncio XI que, desde 1671, lhes quebrara os ferros com que a República os tinha sopeado.

Desde Veneza, escreveu Sara à sua amiga Lourença Coutinho, a quem raras cartas enviara no espaço de três anos, e de nenhuma esperava nem pedira resposta, por não ter permanência em reino algum.

Lourença Coutinho noticiou a ida do seu filho para Coimbra, com bem agouradas esperanças de ser ótimo estudante, e sucessor dos créditos do seu pai. António vinha sempre ao propósito de se ratificarem as promessas mútuas do casamento.

Narrando, como era costume dela, sucessos esquisitos de Lisboa naqueles dias, escreveu Lourença Coutinho.

“Vou-te contar o caso do doutor Machuca, em que toda nós de Lisboa fala. O teu Jorge há de conhecer, pelo menos de nome, este médico de maiores créditos. Dizem que ele tem vista dupla, e adivinha ou vê tudo que nós tem no interior do corpo e do espírito. A algumas mulheres casadas diz-lhes que a sua doença são ciúmes dos maridos; aos mancebos recomenda-lhes que divirtam o espírito de pensarem na fidelidade de tal e tal dama; a este doente diz que o seu mal foi comer uma azeitona contra as prescrições da dieta, àquele reprova ter provado um gomo de laranja. E o caso é que adivinha sempre, e com isto ganha rios de dinheiro.

Um outro médico muito infeliz nas curas e abandonado dos doentes foi ter-se com ele, e disse-lhe, segundo o doutor Machuca referiu ao meu marido: — Tu, digno homem, sabes que eu sou muito ignorante ou muito desgraçado: fomos condiscípulos, estudámos nos mesmos livros, começámos a curar ao mesmo tempo: tu estás muito acreditado e riquíssimo; eu, ninguém sabe como me chamo, nem eu sei como hei de sustentar minha família. Em nome de Deus te conjuro que me digas uma parte do segredo da tua felicidade.

O Machuca, apiedado das lástimas do seu colega, respondeu: “Meu amigo, eu não adivinho: o que faço é espreitar sagazmente certas coisas que, ao parecer dos estúpidos, são extraordinárias. Por exemplo: entro na alcova de um doente: sei que está ali uma rapariga incapaz de observar a abstinência prescrita; casualmente descubro ao pé do leito um caroço de azeitona ou uma casquinha de laranja; tomo-lhe o pulso, e digo-lhe: “A menina comeu disto ou daquilo? E vai ela nega, e eu insisto; ela cora, e eu teimo. Aí está logo toda a família persuadida que eu adivinhei. E à imitação deste caso, os outros, meu caro colega, são assim naturais e simples. — “Bem”, disse o médico infeliz, — farei por imitar-te.“

Sai de casa do Machuca o pobre homem, e topa na rua uma mulher que o chama para ir ver o marido, que tem febre. O doutor senta-se à cabeceira do doente, vê-lhe a língua; e, relançando a vista, segundo o sistema do Machuca, descobre que o doente debaixo do travesseiro tinha uma gabela de feno.

— Vossa Senhoria comeu feno”, diz o doutor. “Feno?!”, pergunta o enfermo.

— Sim, feno! O seu mal procede de ter comido ferio.

— Vossa Senhoria é um bêbado! — , exclama o doente.

– E você”, replica o doutor, — é uma carruagem que come feno!”

— Que besta minha mulher me trouxe!”, torna o doente.

— Mais besta é quem como feno! — , replica o médico.

O doente enche-se de ira, salta da cama, e juntamente com a mulher empurra o doutor do alto da escada à soleira da porta.

Aqui tens o ridículo e ao mesmo tempo triste caso que faz rir hoje toda a gente. Eu chamo-lhe triste, porque o médico foi para casa com um ombro derreado da queda.

Tenho pedido notícias da Sra. D. Francisca Pereira Teles. Dizem-me que já não sai à rua, porque entreveceu, e vive quase sozinha num velho palacete que tem no Bairro da Alfama, porque os outros lhe tiravam o filho Garcia e o marido. Ambos estes senhores vivem alegre vida; mas nenhum deles é recebido na corte. O Sr. Garcia de Moura Teles é teu cunhado, e por isso não repetirei o que a respeito dele ouço dizer. Basta que saibas que todas as portas das famílias honestas se lhe fecham. A companhia dele são as cómicas e cómicos espanhóis do Bairro Alto, que vieram para aqui há dois anos, e têm causado grandíssimos dissabores aos pais de família...“