O Judeu
Capítulo XI · Dias depois daquele inesperado anúncio de casamento,…
Dias depois daquele inesperado anúncio de casamento, Francisco Xavier de Oliveira, desquitado da influência mágica da cigana, dava a mão de esposo a D. Ana Inês de Almeida, e logo na próxima semana era agraciado com a mercê de cavaleiro fidalgo da casa real, e cingia a espada de cavaleiro professo da Ordem de Cristo.
Leonor, até então, para sustentar o fingimento, digamo-lo assim, segurou a máscara na cara com penetrantes agulhas. Custava-lhe tormentos indizíveis aquela afetação de indiferença. Devia de estar-lhe muito enraizado na alma aquele amor, tanto mais violento no desengano, quanto abafado estivera no recôndito do peito.
Sara adivinhou-a; abriu-lhe com a chave da ternura o mistério; achou uma fonte de lágrimas represadas. Ajudou-a a chorar, e diligenciava sempre aliviar-lhe o coração, chamando-lhas à face. Leonor pediu encarecidamente à mãe que saíssem de Portugal para Amesterdão. Lembrava-lhe as profecias que fizera, ao separar-se dos ossos do seu pai e do afeto extremoso da sua querida gente, dos Sãs que tantos infortúnios, com as suas lágrimas, lhe agouraram.
Não ousava Sara contradizer a filha; senão antes lhe pedia que, por piedade, a não acusasse, que o seu arrependimento lhe bastava para castigo e flagelo. Instava, porém, Leonor na volta para Holanda, como meio de esconjurarem maiores infortúnios, que maiores lhos pressagiava o coração.
Queria Sara condescender; mas não tinha força para romper os laços com que a boa parentela do seu marido a soubera prender, não tendo em vista mais que honrar a memória de Jorge, nas pessoas mais queridas, por quem ele tanto sofrera, e, ao fim de breve e desgostosa existência, deixara pobres. Depois, não saberia Sara dizer que delícias lhe era aquele ar e viver em Lisboa, querida de fidalgos, ameigada de damas, que se não dedignavam de a chamarem sua prima. De mais disto, a amizade de Lourença Coutinho, que não cessava de a querer disputar à posse dos parentes. Sobrevinha ainda a compaixão de António José da Silva, o qual, a juízo dela, era dotado de excelências raras, e próprias da felicidade de uma esposa. Como se tudo isto não fosse empeço aos rogos de Leonor, acrescia ainda a esperança ambiciosa, mas razoável, de possuir as riquezas da Bemposta, com as quais sua filha poderia aspirar a jovens de nascimento e bens de fortuna iguais aos tão encarecidos e invejados dotes de Francisco Xavier de Oliveira.
Assim foi protraindo Sara a decisão, até que o tempo deliu a pouco e pouco o maior da dor, de modo que Leonor, condoída da sua mãe, e gravemente repreendida pelo tio Diogo, deixou de falar na ida para Amesterdão, e aparentemente vivia conformada, saindo raras vezes às salas, e quase nunca, se lhe diziam que lá estava António José da Silva.
Entrou também o desesperar e o desenganar-se na clara razão do hebreu, depois que ele, com os pés sobre a dignidade própria, lhe escreveu lamentosas cartas às quais Leonor respondia com o silêncio ou com uma sequidão ainda pior.
Naquele tempo, o poeta apaixonado não desdenhava o socorro da musa para expressar a sua angústia. Nos tempos de agora, seria ridículo o malfadado amante que, em vez de prosa a rever lágrimas, enviasse à ingrata quadrinhas de sílabas acentuadas segundo a arte.
Nas óperas de António José da Silva, representadas anos depois, apareceram algumas trovas das que ele enviara a Leonor naquele período de excruciante desesperação. Nenhum poeta de torno quereria hoje assinar, em carta escrita à sua vizinha rebelde, as seguintes quadrinhas que o hebreu mandava suplicar misericórdia aos pés da desamorável menina:
Toda a minha alma
Se abrasa amante,
E a cada instante
Morrendo está,
Mais que os minutos
Só meus ardores;
Nos teus rigores
Conta não há.
Mas, ai 'tirana,
Se a quem te adora
Fosse esta hora
Hora d'amar!
Se ao leitor se figura que este versejar em redondilha menor era impróprio de alma apaixonada e queixosa; se entende que o verso hendecassílabo, o soneto, o majestoso soneto, foi sempre o respiradouro dos grandes poetas, crucificados no amor, como o amante de Laura, e como o suspiroso cantor de Natércia, aqui tem um dos sonetos que a impassível Leonor recebeu e leu enfastiada:
Não intento favores merecer-te,
Leonor, quando chego a idolatrar-te;
Que excedendo os limites só de amar-te
Nunca os princípios toco de querer-te.
Com razão poderias ofender-te,
Se ambicioso chegara a desejar-te, Que, para ser mais fino no adorar-te,
Sem prémio, o sacrifício hei de incender-te.
Amar não é querer; que impura ardera
A chama de Cupido, se esperara
Frutos, aonde tudo é Primavera;
E, se acaso, ó Leonor, imaginara
Que na tua beleza prémio houvera,
Pelo prémio a beleza desprezara.
Parece mais engenhoso que apaixonado o poema. Cumpre, porém, saber, por honra do amante desditoso, que naqueles dias de decadência literária e século de chumbo da nossa poesia, os poetas, não só amorosos, mas ainda pendurados no triângulo, expiravam proferindo trocadilhos, gongorices, marinismos, uma coisa triste de ler-se, na qual António José ainda foi o menos pecador.
Hão de dizer os bardos modernos que esta poesia do hebreu é seca, desflorida, sem auras, sem borboletas. Não, senhores. António José da Silva também fez à sua esquiva poesias com borboletas. Por exemplo:
Borboleta namorada
Que nas luzes abrasada,
Quando expira nos incêndios
Solicita o mesmo ardor...
Tal, ó Clóris, me imagino,
Pois parece que o destino
Quer, por mais que tu me mates,
Que apeteça o teu rigor!
Se com tudo isto, o poeta não lograva comover Leonor, o defeito não era da poesia, digamo-lo em pró das camenas dos nossos avós: defeituoso era o coração da filha de Sara, se é que podemos arguir máculas em objetos que saíram das mãos de Deus, tão primorosos quanto nos cumpre presumir que ele se esmerasse na compostura interna do peito da mulher. Argumentamos fundamentados na perfeição exterior, feitas as exceções, que as há deploráveis, por dentro e por fora.