O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 24 de 46

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O Judeu

Capítulo II · — Outra coisa? — perguntou António José.…

 

— Outra coisa? — perguntou António José. — Tu eras sebastianista, há um ano. Esperas ainda o rei?

— Não me fales nisso, que é a minha grande vergonha! Imaginas tu que amizades perdi de parentes, e graves amigos que endeusavam o meu talento, e lhe queimavam incensos no altar do Bandarra? Minha mãe ainda hoje chora, quando se lembra que eu já não sou sebastianista! E eu choro, quando me lembro que me deixei seduzir por aquele soez franciscano Vicente Duarte, cujas histórias tua mãe ouvia com uma fingida dor de dentes para que não vissem o ímpio riso!

— Então agora em que crês? — perguntou o hebreu.

— Na vinda do Messias, decerto não — respondeu com chocarreiro riso Francisco Xavier. — E tu esperas?

— Espero que não venha confundir-se com os patifes deste globo; mas que ele não veio é certo.

— De acordo contigo. Não veio, com o nome que lhe deram. já tinha vindo, e chamava-se Sócrates; voltou a vir, e chamou-se Lutero.

— Estás protestante?

— Sim!, protesto contra todos os embusteiros e hipócritas; protesto, em nome de Deus, contra todos os que lhe infamam o nome.

— Isso é justo. E de amores, como te corre a vida? Quem amas? Dura ainda o reinado da Joana Vitorina? A cigana decerto deslumbrou a memória da pobre estrangulada da Inquisição, e daquela Amónia Clara...? (*)

 

[(*)Os amores de Amónia Clara devem ser contados por ele: D. António Manuel, irmão do conde de Vila Flor possuiu, três anos completos, a encantadora Antónia, Um transporte de ciúme indispô-los a ponto de ser despedida a formosa manceba por D. António. Caiu-me em sorte; e, posto que D. António se arrependesse de a ter assim tratado, o mal já não tinha remédio. Antoninha não quis mais ouvir falar dele, e ele não ousava nem podia reclamar um bem, cujo legitimo possuidor eu era, porque lha não tirei por força ou velhacaria. Antónia, como fosse um dia confessar-se ao cura da sua freguesia, o confessor propôs-lhe que me abandonasse, e consentisse em fazer as pazes com D. António. A rapariga extremamente magoada com tal conselho no confessionário, negou-se a aceitá-lo, e de volta revelou-me tudo. Custou-me a crê-la, porque o confessor era pessoa muito do meu conhecimento, Além de que suspeitei que Amónia me estava encarecendo os favores, querendo mostrar-me que por amor de mim desprezava um piegas suspiroso da estofa e méritos de D. António. Sem embargo, como eu sabia que este homem era particular amigo do cura dos Anjos, quis convencer-me da verdade da solicitação que a rapariga com juramento me certificava. Neste propósito, mandei-a, passados dias, procurar o padre, e dizer-lhe, que estando de mal comigo, e refletindo no que lhe convinha, resolvera aceitar o seu conselho, e voltar para D. António e por isso pedia ao cura que fosse a casa dela ao outro dia entre dez e onze horas da manhã, asseverando-lhe que eu, a tal hora, estava no Tribunal. O pobre cura caiu na esparrela, chegou à hora combinada, e declarou a Antoninha qual era a força da paixão que D. António por ela conservava, acrescentando que ninguém melhor do que ele a merecia, e dali se ia logo a levar-lhe a boa e inesperada nova. Nisto, saí eu de um esconderijo, e disse-lhe que para ir mais depressa, saltasse pela janela, o infame recoveiro! Um raio, se caísse sobre o padre, decerto o mataria; mas atarantá-lo tanto como ele ficou decerto não. Ajoelhou-se-me aos pés, pedindo-me em nome de Jesus Cristo e da sua Santíssima Mãe que lhe perdoasse o ultraje e desgosto que me ele queria dar. Eu estava iradíssimo, e resolvera castigá-lo deveras, porque estava na minha mão perdê-lo. Não obstante, deixei-o; e disso me não arrependo. Quatro anos depois fez-me uma grosseria na sua igreja, ofendeu-me, e deu azo a que eu contasse o caso a dois amigos dele: logo que o soube, tratou de reconciliar-se comigo. Desprezei-o então, e ainda o desprezo se está vivo, muito mais pela sua ingratidão que por os seus outros desregramentos. “]

— A Joana é fatal! — disse Oliveira. — Fatal como todas as da sua tribo. Traz-me o coração debaixo dos pés. É a mais vergonhosa e mais doce escravidão da minha vida. A minha mãe chora muito por mim; porém as lágrimas que eu tenho chorado pela cigana... são incomparavelmente mais. Enche-me o peito de brasas a maldita com os ciúmes que me faz!

 

— Olha lá... — atalhou António José. — Como foi aquela passagem de expulsares o diabo do corpo da mãe dela?... Falaram-me nisso em Coimbra... Crês, ao menos, que o diabo entra nos corpos?

— Entra, e sai facilmente pelo processo que eu empreguei na mãe de Joana. Aí vai a receita. Corria como coisa averiguada que a velha estava incubada de demónio. Os trejeitos e destemperos, que ela fazia em casa, eram pavorosos. Não me deixava parar meia hora sossegado com a filha. De repente, começava a escumar, a rolar os olhos, a ranger com os dentes, e a caretear visagens de tamanho horror, que se me arrepiavam os cabelos. Os criados andavam de dia e de noite a chamar confessores e exorcistas. Entrei a suspeitar que a energúmena era uma perversíssima impostora. Entendi-me com a filha, comuniquei-lhe as mesmas desconfianças, e ela concordou. “Havemos de curá-la”, disse eu a Joana. Véspera de Natal, entra o tal demónio com ela por volta de onze horas da noite. Escabujava nos braços da filha, dava pontapés de derrear um elefante, coleava-se como serpente e pinchava como uma cegonha no sobrado. Depois caiu em letargia aparentemente mortal. Eu já me tinha preparado para a cura. Levava comigo dois tijolos que mandei aquecer até os abrasear, e depois ordenei a Joana que os achegasse às solas dos pés da mãe, os quais estavam nus e fora do leito, onde eu a mandara Pôr. Parece que o demónio dela estava alerta; porque assim que eu falei em tijolos quentes, recobrou os sentidos de golpe, sentou-se na cama, chamou-me bárbaro algoz, e disse contra a filha insolências diabólicas. O certo é, amigo António, que a velha nunca mais foi vexada de diabo nenhum, e passa regularmente. Aqui tens como foi.

— E com a Joana, como te vais dando?

— Já te disse: sempre traspassado das agulhas do ciúme. Agora, está aí em Lisboa um castelhano que me dá que fazer. Já lhe segui de noite o vulto para o atravessar com a espada; mas as mortificações, que eu tenho causado aos meus pais, são já tantas, que me não posso resolver a matar o homem. Joana já teve o desaforo de me dizer que o não acha feio nem desprezível. Eu quis cevar nela a minha raiva; mas deves saber que a cigana é mulher de faca, e não se ensaiaria em mim se me esfaqueasse, porque o exemplo já ela o deu com um dos meus predecessores na posse daquele formoso seio, cofre de um péssimo coração...

— E amas assim uma mulher?! — atalhou António José da Silva.

— Amo, amo miseravelmente! Pergunta ao duque de Cadaval porque ama ele a Paulina que o atraiçoa todos os dias; pergunta ao conde de Arouca porque ama aquela impudentíssima Rocha, que o cobre de irrisória ignomínia; pergunta ao rei porque amou com tão cega paixão a dissoluta Margarida do Monte que morreu freira no Convento da Rosa, o ano passado! (*)

 

[(*) O amante de Paulina era D. Jaime Pereira, cunhado de el-rei D. João V. Tirante a miséria daqueles escandalosos amores, o duque foi um dos mais respeitáveis e respeitados fidalgos do seu tempo. A manceba do conde de Tarouca, mulher da ínfima plebe, chamava-se a Peles de alcunha; mas como casasse com um fulano Rocha, criado do conde de Tarouca, tomou-lhe o apelido. “Como bom homem, que era este marido”, diz o Cavalheiro de Oliveira, “conseguiu ser criado supranumerário da imperatriz Amélia.” O Cavalheiro referia-se à imperatriz da Áustria, onde o conde de Tarouca pai do conde em questão foi ministro português. A tal Rocha ou Peles fugiu ao conde para os braços do padre Domingos de Araújo Soares, capelão particular, que tinha sido, do conde. “Este padre”, diz Oliveira, “nunca disse missa: única virtude que ele praticou. Era um celerado de profissão.” Cumpre saber que o conde tinha tirado a Rocha ao pai, insulto de que o padre vingou o velho. O cronista, a respeito desta balbúrdia de perfídias, exclama com um poeta francês: Amour, amour, quand tu nous tiens, Onpeut bien dire, adieu, Prudence!]

 

— Tens um sestro fatal! — observou António José. — E quando tu, há três anos, falavas em morrer héctico de amores pela atriz espanhola Zabel Gamarra!

— É verdade... já sabes que ela professou nas Agostinhas no Convento de Santa Mónica?

— Já sei. E o marido professou também?

— Não: foi-se embora, depois de receber seis mil cruzados, que lhe deu, em troca da esposa, o marquês de Gouveia...

— Não é cara — disse António José.

— Quanto achas tu que levou de Portugal aquela Petronilha do Dom João quinto?

— É incalculável. O sabido e notório é que ela levou de Lisboa trinta bestas carregadas, e que as damas de primeira plana de Espanha, quando viram-na carregada de joias no teatro de Madrid, assombraram-se do tamanho dos brilhantes. Vê tu onde foram cair as joias das rainhas de Portugal, e as mais preciosas, que vieram do Oriente no reinado de Dom Pedro segundo!... Voltando à Gamarra, deixa-me contar-te episódios galantes, que iam descambando em tragédia, e pode ser que afinal disparem em terrível catástrofe. O marquês de Gouveia bebe os ventos pela mulher, principalmente depois que a meteu no convento e lhe vestiu o hábito. Soror Isabel folga de ter acorrentado às grades do mosteiro o grande senhor. Aconteceu, há meses, mandá-lo chamar a Gamarra, ao mesmo tempo que o rei. O marquês vacilava aflitivamente, sem saber decidir-se. Sai o marquês, entra no coche, e diz ao cocheiro que o leve à corte; mas, a meio caminho, manda desandar para o Convento de Santa Mónica. Para encarecer o seu amor, diz à freira que el-rei o estava esperando; porém, antes desagradar ao rei que à sua amada. “Se não procedesses assim, não me verias mais”, disse-lhe soror Isabel. “Mas”, tomou o marquês, “calculas quanto arrisco por amor de ti?“ — “Deves arriscar”, redarguiu ela, “antes que todo es mi dama”, juntou ela, em espanhol, com o título da comédia de Calderón. “Quem se não sacrificar por mim não me ama, nem me agrada.“ Seguiu-se dar-lhe o marquês o seu retrato engastado em círculo de brilhantes, e jurar obediência eterna. Depois, com o consentimento dela, foi ao rei. Este diálogo ouvi-o eu da grade próxima, porque eu estava com ela quando se anunciou o marquês...

— Então é certo que a amas e és... amado, como os outros. — interrompeu António José.

— Não. Sou confidente do único homem quê ela sinceramente ama. Conheces o meu amigo Valentim da Costa Noronha?

— Também esse! Casado! Pai de quatro lindos filhos! Esposo de uma virtuosíssima senhora!...

— Tudo lhe sacrificou à funesta mulher! Está sem amigos, sem consideração, sem filhos, sem mulher, e receio muito que breve esteja sem vida. Já duas vezes os sicários do marquês lha quiseram roubar. de uma vez o ajudei eu a defender-se, contra quatro assassinos. Se o não matarem, mais hoje mais amanhã, alguma ordem do rei o manda fechar nalguma torre... A despejada mulher, depois que o marquês saiu da grade, fez-me portador do retrato e dos brilhantes do amante, como presente a Valentim de Noronha!...

O amigo de António José da Silva previra o destino de Valentim de Noronha numa das duas hipóteses. Por ordem régia, Noronha foi encarcerado no Limoeiro, a pedido do marquês de Gouveia. Ao fim de nove meses de prisão rigorosa, teve o preso a boa sorte de morrer o marquês no vigor da idade. Não obstante, D. Gaspar de Moscoso e Silva, tio do marquês defunto, e sumilher da cortina de el-rei D. João V, embargou por muito tempo o livramento do preso, para assim vingar o afrontado sobrinho.

A freira, assim que o marquês expirou, quis voltar para o marido, que representava nos teatros de Espanha. Obstaram-lhe as leis à renunciação dos votos com que professara. Gamarra tomou o mais sumário dos expedientes.

— Agora, falemos de ti. A judiazinha tem-te escrito? Conta-me alguma coisa da esquisita Leonor dos teus sonhos... Que sabes dela? Vem para Portugal?

— Vem brevemente. A última carta de Sara para a minha mãe diz que por estes seis meses, deixam a nevada Holanda em que o coração da pobre menina morre de frio! Olha que ainda me não escreveu palavra que não venha entanguida do frio lá da terra! Aos versos responde na mais chá e sovina prosa que inventaram mulheres desamoráveis.

— Tu és um tolo sincero! — exclamou de golpe Francisco Xavier. — Pois tu podes amar seriamente a rapariga, que nunca viste, só porque te disse tua mãe que ela, muitos anos antes de nascer, já era destinada tua mulher?

— Posso e amo — disse António José. — Fantasiei-a. Não sabes tu o que é fantasiar, meu sebastianista? Pois tu não imaginavas, há pouco tempo, um rei Dom Sebastião que tinha morrido século e meio antes? Então que tem que eu espere a felicidade de uma mulher, que vive, e se veste das cores celestes que a minha fantasia lhe dá? Sei que ela é formosa: que tem que eu a imagine formosíssima? Sei que é instruída: que faz que eu a fantasie uma das irmãs Sigeias? Se os meus sonhos hão de acabar, quando me ela aparecer, pouco perdi: os adornos, que a minha imaginativa lhe deu, são propriedade minha; posso dá-los a quem eu quiser depois. Isto que tem de extraordinário?

— Pois — tomou Oliveira — se não queres ser tolo extraordinário, serás um tolo vulgar.

Fugiu do convento, fisgou-se ao marido, que tinha ido furtivamente a Lisboa, passou a Espanha, e voltou à vida antiga do teatro. Eis aqui uma criatura à espera de um romance em três volumes, graças às informações de Francisco Xavier de Oliveira.