O Judeu
Capítulo III · — Sempre resolveste procurar o cofre, António? — perguntou Leonor.
— Sim, minha querida, resolvi; mas não o digas à mãe. Custa-me a crer que ela seja capaz de julgar tão aviltantemente o nosso amigo Duarte!... Os elogios respeitosos, que ele te faz, Leonor, provam a excelente índole daquele homem...
— Mas — objetou Leonor — não te ouvi eu dizer que ele era bastante estragado de costumes?... Então sonhei...
— Disse-to; mas a desordem dos seus costumes não faz repugnância ao que se chama probidade. Era a libertinagem própria dos vinte anos a que me eu referia. Desde, porém, que se ocupou em mordomizar os rendimentos dos infantes, não sei que ninguém o exceda em morigerada regularidade de vida. Que nos faz a nós, para o nosso intento, que ele extravaganciasse lá na sua juventude? Não goza créditos de honrado Francisco Xavier de Oliveira? E quem foi mais libertino que ele?! Ora queres tu saber? É tão escrupuloso Duarte em pontos de honra que não quis saber onde está o tesouro, e disse que bastava sabê-lo no acto em que eu lhe mostrasse o sítio, e dissesse: “É aqui.“ Há, porventura, sombra de suspeita que nos absolva de desconfiarmos dele?
— Creio que não — respondeu Leonor com indeciso ar meditativo. — Mas...
— Mas quê?!
— Olha, António... As suspeitas da tua mãe pode ser que procedam de antipatia particular que tem com o homem... Será isso, será... Entretanto, o meu coração tem pressentimentos fatais... Eu, quando saí de Amesterdão, adivinhava quantas desgraças sobrevieram; ainda antes de as esperar, a meio caminho de Portugal, estava na Inquisição. A minha mãe, olhava para mim, e exclamava: “Porque não escutei os teus presságios, minha filha! “ Isto vem ao caso de eu, com bem pesar meu, te asseverar que a minha alma está inquieta, e vaticina algum passo horrível por causa daquele tesouro. Tem desgraça aquele dinheiro! Dizia-o meu pai, quando eu era menina, olhando para o anel; dizia-o minha mãe, e Simão de Sã. O meu tio Diogo, sempre que se fala no cofre da Bemposta, recorda-me as aflições dos últimos dias do meu bisavô; a crueldade feriria da minha avó; a perseguição que duas vezes minha mãe sofreu; o risco em que esteve a vida do meu pai. Mil infortúnios!...
— E mil superstições, Leonor. Essa cadeia de desgraças tem a sua lógica e natural explicação. Não é fado nem influição diabólica ligada ao tesouro. Foram ódios motivados pela ambição; mas não se segue daí que tu, legítima senhora dele, hajas de sofrer a continuação dos dissabores que sofreram teus pais.
— Será assim!... — disse ela. — Vai... faz o que quiseres... Praza a Deus que a nossa filhinha não participe de alguma calamidade, se nós a temos sobre as nossas cabeças. Deus preserve a inocentinha! — continuou ela, soluçando com a filha estreitada ao coração.
António José da Silva, bem que forte de espírito e isento de preconceitos, estremeceu quando viu as lágrimas da esposa a derivarem à face de Lourencinha.
— Pelo amor de Deus! — clamou ele — , não me aterres! Tu que tens, Leonor?, que te diz o coração?, tu fazes-me fraco e crendeiro em agouros!... Diz... não queres que fale mais no dinheiro? Não falarei!... não...
Leonor atalhou-o: — Isto não importa nada... Sou mãe. Não faças caso de lágrimas nem de agouros, António. Faz o que quiseres; mas não me consultes.
Depois, fugiu com a filha para o seu quarto, e fechou-se para que o marido a não ouvisse desabafar em altos soluços.
À meia-noite deste dia, 15 de Agosto de 1737, António José da Silva saiu com Duarte Cotinel da casa do almoxarifado, por uma porta de armazém que abria para a quinta. Chegados à cancela de um pomar, disse Duarte com muito recatado som de voz:
— Agora dirás para onde vamos. Dá-me alguma indicação.
— Leva-me a um tanque onde está uma estátua de Neptuno.
— É lá em baixo, no interior do bosque. O sítio é bom, que ninguém nos ouvirá cavar; mas sabes tu se já fariam obras no local?
— Creio... quase tenho a certeza que o local do cofre está intacto.
Caminharam de manso desviando-se das áleas onde o tapete da folhagem acusava os passos.
— É aqui — disse Duarte. — Ali tens o tanque e o Neptuno.
— Está seco? — perguntou António José.
— Está, há muitíssimos anos. Ouvi dizer que a rainha de Inglaterra, quando fez estas obras, mandou levar daqui a água para fontes públicas.
— Bem. Entremos ao tanque.
— Espera... vou acender a lanterna de furta-fogo, que as copas das árvores não deixam entrar raio de lua.
— Não acendas. — Temos que levantar alguma pedra? Então vou ao jardim buscar um ferro de monte que lá pus ao anoitecer.
— Não é necessário — disse António José — , ajuda-me a descer o Neptuno do pedestal.
— Pois é aqui?!
— É.
— Então foi milagre o conservar-se! Quantas vezes os senhores infantes me têm dito que é melhor tirar esta coisa inútil daqui para fora!... Ainda no ano passado!...
Duarte dizia isto com profunda mágoa. O tesouro podia tê-lo encontrado ele, e possuí-lo, sem inquietação de consciência.
Deram um sacão à estátua, que estremeceu; deram-lhe outro, e deslocaram-na. Desceram-na vagarosamente, e pousaram-na sobre o rebordo do tanque.
Ambos a um tempo introduziram as mãos no recipiente da água, e tatearam um corpo liso cingido de braçadeiras de metal.
Ambos unissonamente exclamaram: — Está! Da veemência da exclamação dos dois, não poderia inferir-se qual fosse o dono do tesouro.
Havia espaço entre as paredes da caixa de pedra e as argolas do cofre. Introduziram as mãos, e tiraram fora o pesado caixote.
António José sentou-se. Carecia de ar. Duarte Cotinel não estava menos abafado e arquejante. Não era o cansaço; era num alegria legítima, noutro uma infernal exultação.
— Vamos, Duarte? — disse António e juntou: — Estou a tremer, como se fizesse um roubo.
— Também eu; mas é de contentamento de te ver rico. Vamos. Podes com o cofre?
— Posso. — Então carrega com ele, que é obrigação tua — disse o almoxarife gracejando.
Saíram do bosque; esperaram que se fechassem as janelas da recâmara de um dos infantes, e acolheram-se a casa estugando o passo.
Era uma hora.
— Vou acompanhar-te a casa — disse Duarte. — Estava para te pedir esse favor.
— Não era preciso. Deixa-me ir armar, que há ladrões nas ruas de Lisboa como no pinhal da Azambuja.
Duarte voltou logo, entregou a António José uma pistola de dois canos, e disse-lhe:
— Leva isto.
— Não preciso — disse o hebreu — , vim armado. Foram da Bemposta, sem encontro suspeito, até ao Largo do Socorro.
O almoxarife, à porta de António José, quis despedir-se.
— Não: hás de entrar: quero que assistas à abertura do cofre; quero que vejas se me enganei.
— Amanhã mo dirás, adeus, — Não consinto: hás de sabê-lo agora. Lourença Coutinho e Leonor estavam ainda a pé. Lourença orava ao Deus de Jacob; Leonor orava ao Deus dos aflitos. Oravam ao mesmo Deus, segundo minha fé em divindades.
Quando ouviram bater, desceram ambas ao pátio. Viram António com o caixão sobraçado. Lourença exclamou:
— São e salvo o meu filho!
— E porque não? — disse Duarte, ela não tinha visto.
António José corou até às orelhas, e quase odiou sua mãe.
Voltou-se a Duarte, e disse:
— Minha mãe receava que os ladrões me saíssem nalguma esquina, por isso fui armado.
Leonor aproximou-se do caixão, que o marido pousara sobre um escabelo do pátio, para limpar o suor. Dobrou-se ela sobre o cofre, beijou-o, e disse:
— Neste caixão pôs as mãos o meu virtuoso bisavô!...
— Vamos — disse António, retomando o cofre. E subiram à primeira sala. Duarte quis ainda despedir-se, alegando que naqueles prazeres de família um estranho era coisa impertinente.
— Não consinto! — repetiu António com dissabor.
— Porque não há de tomar um quinhão do nosso contentamento, senhor Duarte? — perguntou Leonor, impedindo a saída. — Os amigos são sempre família...
Pousaram o cofre sobre um bufete. Eram duas as fechaduras de espelhos dourados.
— É preciso arrombar — disse António José. — Dá-me um ferro qualquer, minha mãe?
Lourença Coutinho trouxe o ferro de frisar com que o seu marido costumava encalamistrar a cabeleira nos dias de aniversário natalício das pessoas reais. Quebraram a presilha das fechaduras que prendiam na lingueta, e... levantaram a tampa!
Havia ali coração que se regurgitava como em caso de mortal congestão. A circulação parara no peito de Duarte, ao rangerem as perras e oxidadas dobradiças da tampa.
O primeiro objeto era uma caixa de prata de lavores primorosos, baixa de altura de uma polegada, e larga à medida do âmbito do cofre. Abriram a caixa: eram os pentes de ouro, cravejados de brilhantes, e quinze anéis, enfiados num agulheiro de ouro.
Destas joias dizia o apontamento de Luís Pereira de Barros: “Que foram da minha avó D. Leonor de Barreiros.“
— Que admirável peça! — exclamou Duarte. — E que digna possuidora aqui está! — continuou olhando delicadamente em D. Leonor.
— Agradecida, senhor Duarte. Os meus adornos mais queridos da cabeça são flores.
A um canto daquela caixa estava inclusa outra de veludo carmesim, oblonga e convexa. Abriram-na: continha os vinte e quatro brilhantes dos quais dizia a nota: “Que foram do meu avô Pedro de Barros e Almeida.”
Levantaram a caixa, e descobriram a segunda camada. de uma saca de pelica tirou António José os copos de uma espada, recamados de pedras de diversas cores. Desta riquíssima preciosidade dizia o contador-mor: “Copos da espada que o meu avô materno D. Jorge de Barreiros trouxe do governo da Baía.“
Noutra caixa de ouro encontraram uma miniatura, retrato formosíssimo em marfim, com cercadura de diamantes. Era o retrato de D. Inácia Teles de Meneses, mãe de Luís Pereira de Barros. Leonor lançou mão dele, e não se cansava de o contemplar.
A outra camada e última era dinheiro em rolos: “Vinte e quatro contos de réis em variadas moedas de ouro”, conforme o dizer do apontamento.
— Que te parece Duarte? — perguntou António José.
— Erraria eu muito o cálculo? Isto valerá os cento e cinquenta mil cruzados?
— Vejamos — disse o almoxarife. — Vinte e quatro contos, sessenta mil cruzados, ou mais, porque as moedas antigas são pagas como de mais valor. Os brilhantes, se não valem mais, valerão outro tanto, porque estão aí duas dúzias deles, como eu ainda não vi muitos; e, se quiseres vendê-los, acharás em Londres ou Amesterdão quem te dê vinte e quatro mil cruzados. Os pentes podem valer... que sei eu!... e os copos da espada!... e a cercadura do retrato!... Finalmente, não te enganarias muito no cálculo! O que se segue é que estás riquíssimo, e eu também participo da tua riqueza por poder dar a estas duas damas os mais cordiais e jubilosos emboras, que podem alegrar o coração de um amigo. Agora, deixo-os que está a romper o dia, e já hoje não me deito, porque amanhã tenho jornada ao Ribatejo por causa de aforamentos. As minhas senhoras, adeus.
— Espera! — disse António José, tomando seis dos brilhantes de maior quilate e lume. — Aceita esta memória da noite de quinze de Agosto de mil setecentos e trinta e sete.
— Memória!... — disse Duarte Cotinel rejeitando delicadamente — , a melhor memória é a lembrança de que contribui um pouquinho para a felicidade de uma família. Não instes comigo, que perdes o tempo, e me desgostas.
Saiu.
— E então? — perguntou António José à mãe com gesto de censura — , que lhe parece o homem? Arrepende-se dos seus preconceitos, minha mãe?
— Arrependo, filho: Duarte parece-me homem de bem.
— E os teus agouros, Leonor? — tomou António.
— Ainda não se calaram... — respondeu ela.
CAPÍTULO IV
António e a sua mãe passaram o dia em análise contemplativa das pedras e das moedas antigas; Leonor, no entanto, como estranha ao contentamento dos seus, não se despegava de uma joia formosíssima, santa, e de divinos quilates, que era a filhinha, aqueles vinte e dois meses lindos de celestial meiguice.
Chamada a dar seu parecer sobre o destino que deviam tomar, respondia que estava por tudo que o seu marido e sogra quisessem. O hebreu, a falar verdade, já mal acertava com os seus projetos da véspera: aquele resplandecer das pedras ofuscava-lhe a memória dos planos: era um embevecimento de criança, para não dizer a absorção voracíssima de olhos de avarento cravejados no íman do ouro.
Ao outro dia, Duarte Cotinel, de volta da sua jornada, procurou o hebreu, para lhe dizer que não havia nada no Santo Ofício, para que ele devesse temer e apressar a saída. Lamentou que o seu António não pudesse gozar em Portugal as riquezas, e viver perto do seu mais dedicado amigo, que vinha a ser ele. Aconselhou-o a que não vendesse pedra alguma em Portugal, nem revelasse os seus haveres, porque a Inquisição não perdoava aos judeus opulentos; e, se alguma vez tinha sido piedosa, era com os indigentes, cuja alimentação corria por conta da Santa Casa.
Voltou no dia seguinte, muito rogado por António José, e chegou em ocasião de estar o judeu castigando uma escrava da sua mãe, porque fora surpreendida a roubar das gavetas de um contador algum dinheiro. O castigo era com disciplinas, segundo o direito dos senhores sobre os escravos, que somente vinte anos depois foram libertos por lei do marquês de Pombal.
Duarte pediu o perdão da negra, e conseguiu-o; a escrava, porém, assim que uma entreaberta se lhe ajeitou, fugiu, receosa de que uma busca à sua arca lhe redobrasse o castigo.
Lourença Coutinho teve pena da preta, que comprara criança no Brasil, e trouxera consigo, quando veio presa. Diligenciou encontrá-la; mas não houve notícias dela.
Duarte Cotinel saiu a averiguar, e descobriu que a preta passara o Tejo, e se assoldadara em Almada. Calou-se com o descobrimento, dando a supor que a negra se lançaria ao Tejo, desesperada como outras muitas, que preferiam a morte à servidão. (*)
[(*)Naquele tempo, a vida dos escravos em Lisboa era aflitivo, e os castigos cruéis. A limpeza diária das sentinas domésticas era feita por escravas, que levavam os grandes vasos ao Tejo, desembocando de cada rua em longas caravanas. Que deliciosa e perfumada Lisboa era aquela, à qual Jácome Ratton, com desenfeitado estilo, denomina por excelência a “fedorenta cidade de Lisboa!“ Como D. José declarou livres todos os escravos que entrassem no reino, as pretas eximiram-se do seu escravo de escoadouros. Depois é que Lisboa se tomou limpa... “Então”, diz o citado coevo daqueles olorosos dias, “então os moradores de Lisboa se viram obrigados à fazer os despejos das imundícies nas ruas.”]
— Mas a minha escrava não era tratada com rigor, para se matar! — dizia Lourença. — Tenho imensa pena dela!... Ali está ainda a arca fecha da como ela a deixou.
— Era bom ver-se!... — disse o almoxarife com ares familiares de muito amigo.
— Dizes bem! — aprovou António José da Silva. — Vejamos o que ela tem na caixa.
— Farrapos... que há de ela ter? — observou Leonor.
— Sempre é bom ver, senhora Dona Leonor — insistiu Duarte.
— Pois vejam... — condescendeu a contrariada senhora. Arrombada a caixa da escrava, encontraram-se algumas miudezas, por cuja falta as senhoras não tinham dado, coisas de insignificante valor. Concluiu o hebreu que a negra furtava, para as vender, coisas de que ela não podia usar.
— Tal escrava não lhe convinha, senhora Dona Lourença — disse Duarte. — Deixe-a ir, que não se foi boa peça. O valor que ela tinha perdeu-se, é isso verdade; mas esta casa não fica hoje prejudicada com a fuga de uma preta. António José da Silva pode comprar hoje toda a África e os sertões do Brasil.
Festejaram o dito, e divertiram a conversa para outro assunto. Leonor lembrou que a sua Lourencinha fazia anos em 5 de Outubro.
— Faltam cinquenta dias — disse ela. — Onde estaremos nós então?
— Talvez em Paris — disse António.
— Se não puderem estar sossegados em Lisboa — observou Duarte.
— Pois decerto. Se eu pudesse aqui viver sossegado, não trocava país nenhum por este, onde tu vives, meu bom Duarte.
— Eu, não sei porquê — disse Leonor — , desejava festejar o segundo aniversário da minha filha fora de Portugal.
— Ó Duarte — exclamou de golpe o hebreu — queres tu vir passar connosco um ano a Paris? És homem para nos dar esse grande prazer?
— Era homem para o sentir com mil vontades, se fosse livre. Sabes que não posso renunciar à posição que ocupo, nem incumbir ninguém do trabalhoso encargo que promete a minha futura e descansada estabilidade. Depois, meu pai está velho, está rico, segundo penso, e tem mais filhos. Se eu arredar um passo contra vontade dele, vinga-se excluindo — me da herança. Que mais razões queres?
— Mas — tomou o generoso coração do hebreu — faz de conta que és meu irmão; gastas irmãmente comigo, e nunca sentirás precisão da herança do teu pai.
— És ainda muito criança, homem! — redarguiu o almoxarife. — Estes poetas, minhas senhoras, tem absurdos que seriam lamentáveis, se não fossem engraçados! Como este louco imagina que um homem, aplicado a ganhar a sua independência com a fadiga e sacrifício dos melhores anos da juventude, possa aceitar uma oferta que o inutilizaria aos seus próprios olhos!... Antoninho, não sejas sempre rapaz; não vás tu lá por fora arranjar alguns irmãos que fraternalmente te devorem as peças, os brilhantes, e os copos da espada do tresavô da tua senhora e a minha ama. Cuidado com os parasitas, ouviste? Olha que os portugueses, lá por essas nações, gozam fama de valentes; mas também a gozam de estúpidos que se deixam gozar. Sê caritativo; mas não sejas pródigo...
— Pareces um velho a aconselhar! — interrompeu António. — Nem que tu não tivesses trinta e dois anos como eu!
— É verdade; mas há muito que vivo cá em baixo terra a terra; e tu, desde que te conheço, encontro-te sempre nas regiões mitológicas com os Anfitriões e Alcmenas, e Proteus, e Apolos. As tuas comédias fazem crer que tu tens muita imaginação; mas juízo não no inculcam; aliás, em vez de comédias, escreverias versos laudatórios aos reis, aos bispos, aos frades, a quantos magnatas por aí há incapazes de tos perceberem. já fizeste versos a algum destes estafermos?
— Não. Versos a reis, ou a filhos de reis, apenas tenho aquele epicédio que fiz o ano passado à infanta Dona Francisca.
— Depois de morta. Isso de que presta?... Bem me recordo: glosavas os versos do soneto de Camões:
Alma minha gentil que te partiste
Tão cedo desta vida...
— É verdade — acudiu António José com desvanecimento. — Glorio-me de ter levado a primazia entre todos os poemas que saíram a chorar a princesa.
— A chorar!, chorava lá ninguém, homem. Quem é que chora pela senhora Dona Francisca, que Deus haja muitos anos lá sem mim? Os meus patrões, e muito sentimentais infantes, ao outro dia da morte dela, andaram na tapada da Bemposta a matar melros. Choraste-a apenas tu! Ele chorou, senhora Dona Leonor?
— Não me recordo bem... mas parece-me que sim, quando ma recitou.
— Poetas!... Ficaram no lugar das carpideiras que o meu avô ainda na morte do meu bisavô mandou alugar para chorarem vinte e quatro horas...
— Olha que a mim não me deram nada! — interrompeu António. — Por isso estou eu. São capazes de te dar tanto, como àquele Manuel Fernandes Vila Real que defendeu com a pena e com a espada, estando em Paris, os direitos de Dom João quarto à coroa contra Filipe e contra os portugueses acastelhanados; e, depois, como viesse a Portugal, os frades agarraram-no, deram-lhe garrote, e Dom João quarto não lhe acudiu. O António Henriques Gomes e o Manuel do Leão que também escreveram miríficas coisas em favor de Dom João quarto e de Dom Pedro segundo, se caíssem nas aboízes que a Inquisição lhes tinha cá armado, eram irremediavelmente assados. Não faças versos a príncipes mortos nem vivos, António. Gasta o teu dinheiro como quem não tem espírito de que dispor em divertimento dos outros. Queima os livros. Auto-de-fé aos livros, e eu faço de barbeiro do novo Dom Quixote de tramoias. Esquece-te de que tens lá nos escaninhos da cabeça um formigueiro de versos. Deixa ser o mundo bestial à sua vontade, e adeus até depois de amanhã.
CAPÍTULO V
Ao outro dia, Duarte Cotinel passou a Almada, e procurou em casa de um fazendeiro a negra fugitiva. Foi-lhe apresentada a escrava, que tremia enquanto não reconheceu o homem caridoso a quem devia o escapar-se às mãos de António José.
Chamou-a Duarte a um lado, onde os não ouvissem, e deteve-se largo tempo, Começou por lhe incutir medo à perseguição que os seus senhores iam fazer-lhe, persuadidos de que ela os tinha roubado, e vendido os furtos. Fez-lhe sentir que a compaixão o movera a vir ali avisá-la para que mudasse de terra e nome. E, quando a negra, tremente de susto, se debulhava em lágrimas, por não saber para onde fugisse, Duarte, ressalvando habilmente qualquer intenção dupla, disse-lhe em tom de piedade que passasse a Lisboa ao fim da tarde, e fosse ter a casa dele à Bemposta, onde ficaria até se lhe arranjar amos e segurança longe de Lisboa.
Assim o fez alegremente a escrava. O almoxarife recebeu-a com boa sombra, mandou-lhe dar ótima ceia e excelente cama. Ao outro dia, como a negra carecesse de mudar a roupa com que fugira, Duarte proveu-a do necessário, comprando-lhe umas roupinhas e mantéus escarlates, encantadores objetos que tinham sido o sonho dela, nunca realizado. Feliciana, conquanto orçasse por quarenta anos, começava a imaginar, à vista de tantas venturas, que o almoxarife não desgostava dela, e nutria intentos ao seu respeito, Admirava-se, porém, a preta, ao fim de três dias, das delongas não usadas, entre o desejo e a execução, com pessoas da sua laia.
Ao quinto dia de hospedagem, a escrava parecia a filha primogénita de um sova! A carapinha brunida e oleosa encaracolava-se-lhe fantasticamente. O rubi dos beiços incendidos parecia a porta do amoroso inferno que lhe ia nas entranhas do peito. As formas, aliás redondas e anchas, como que, debaixo dos trajes escarlates, entremostravam graças que a natureza, desacompanhada da cor e feitio do jaqué, nunca tivera nela.
Quando Duarte a chamou, em ocasião de estar sozinho, Feliciana entendeu que era chegada a hora de ouvir uma revelação de amor, feita com a delicadeza de que o seu novo amo e senhor a considerava digníssima.
Principiou o almoxarife perguntando-lhe se estava contente, se era bem tratada, se queria viver em companhia dele, ou sair de Lisboa. A preta não tinha expressões com que boquejar uns longes da sua felicidade, e confessava, no auge da sua modéstia, que não merecia o bem que estava gozando.
— Visto que estás satisfeita — disse Duarte — ficarás comigo mais algum tempo; e depois, se eu desconfiar que te perseguem, passarás para uma quinta do meu pai em Torres Novas; mas é necessário que te escondas, se alguma vez aqui vier o senhor Silva, ou criado da casa dele, porque eu não quero indispor-me com esta família. Ora — continuou ele — diz — me cá, Feliciana... Prometes debaixo de juramento responder às perguntas que eu te fizer?
— Prometo, senhor, assim Deus me salve.
— Os teus amos Silvas fazem lá algumas rezas que não sejam à moda e costume dos cristãos?
— Algumas rezas?!...
— Sim: eu vou perguntar-te de modo que tu possas responder a verdade a uma pessoa que te estima e promete fazer-te mais feliz ainda do que és. Ora diz-me: lá em casa era costume acender-se na sexta-feira à tarde, uma hora antes do pôr do Sol, uma lâmpada com quatro torcidas?
— A senhora Lourença fazia isso todas as sextas-feiras.
— E a lâmpada ficava acesa todo o sábado, não é verdade?
— É sim, meu senhor.
— E que fazia a senhora Lourença no sábado?
— Estava lá dentro do seu quarto a ler, nem se penteava nem lavava, nem pegava em agulha, nem cortava ou raspava as unhas, nem bebia vinho, nem comia coisa gordurenta, nem escrevia.
— E sabes se a senhora Lourença rezava de manhã assim que se levantava?
— Não, meu senhor; sem se lavar muito lavada, e mais coisas, não pegava no livro.
— Lembras-te de algumas palavras que ela dissesse? — Uma coisa que ela dizia todos os dias era isto: “Bendito sejas tu que deste ao galo instinto para distinguir entre o dia e noite:”
— Havia algum mês no ano em que a tua ama não jejuava?
— Era no mês de Março. Mudava de cama ou de roupa na véspera dos dias em que jejuava?(*)
[(*) Decidiram os rabinos que se não jejuasse no mês de Março, porque este tempo, como aniversário da saída do povo hebreu do Egipto, deve ser consagrado ao reconhecimento e ao júbilo.)]
— Sim, meu senhor; deitava-se num colchão duro com lençóis de estopa, e só comia ao outro dia à noite; e desde dezassete de Junho até dez de Julho não comia senão hortaliças, e punha cinza na cabeça.
— Outra coisa: teu amo doutor também fazia essas coisas?
— O senhor Antoninho?
— sim. — Nada; esse não rezava coisa nenhuma, nem jejuava. — E a senhora Dona Leonor? — Também não. — Então ela e o marido não praticavam acto nenhum de cristãos ?
— Que eu visse, não, meu senhor. Depois de mais algumas perguntas, Duarte Cotinel tirou de uma gaveta um fio de contas de vidro amarelas, e deu-o a Feliciana, dizendo:
— Aí tens para enfeitares o pescoço. Gosto de ti, e quero que estejas contente.
— Ora, se estou, senhor Duarte!... — balbuciou ela sinceramente comovida. — Muito feliz sou na sua casa!
— E serás uma ingrata, se me deixares!...
— Isso só por morte! — clamou ela com entusiasmo. E, como visse que o senhor não tinha mais que lhe dizer, retirou-se.