O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 17 de 46

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O Judeu

Capítulo V · Confiado na vigilância de Diogo de Barros,…

 

Confiado na vigilância de Diogo de Barros, Jorge estanciou alguns meses na Covilhã, esperando a liberdade de Lourença Coutinho, com o propósito de se encontrarem as duas famílias em porto de mar, donde saíssem para o Brasil.

Ao fim de três meses, chegou do Rio de Janeiro o instaurado processo. O defensor de Lourença, para destruir dois depoimentos que arguiam a presa de judaizar na observância da lei velha em certas festividades e jejuns, alegava, juntando aos autos, algumas poesias devotíssimas que João Mendes da Silva escrevera e mandara imprimir em Portugal, nomeadamente duas, uma ao padre Santo António de Pádua, e outra ao príncipe de Gandia S. Francisco de Borja, louvando-lhe a heroica humildade com que se ele albergara no Porto entre os pobres do Hospital de Santa Clara.

As esperanças dos protetores de Lourença, não obstante os bons serviços do promotor do Santo Oficio, ficaram bastante aquém do que se lhes antolhara. A presa estava de antemão absolvida, sem confissão, sem interrogatório, sem tortura; mas era forçoso que saísse reconciliada para não haver quebra nas praxes inquisitoriais; e, como reconciliada, somente em auto-de-fé podia sair. Felizmente para ela, naquele ano celebrou-se ainda o santo espetáculo em Julho, e não, como era costume, em Outubro, na primeira dominga do Advento. Aos nove de Julho, pois, saiu Lourença da Igreja de S. Domingos, onde entrou sem hábito, e foi, recebida a penitência da imposição do inquisidor, entregue ao familiar Diogo de Barros.

Na Covilhã foi a nova recebida com tamanhas exultações, que, ao parecer dos vizinhos de Simão de Sã, o Messias esperado tinha aparecido finalmente.

Lourença entrara no palácio dos Estaus ainda formosa; cento e sessenta dias daquele ambiente empestado das abafadas cavernas, em que apodreciam centenares de presos, bastaram a alvejar-lhe os cabelos e a enrugar-lhe a pele. Os filhos fitavam-na como se a não conhecessem. O marido beijava-lhe o rosto, e inundava-lho de choros como se com os beijos quisesse ressumar as cores doutro tempo, e com as lágrimas refrigerar-lhe a aridez da cútis. Sara pediu encarecidamente a sua prima que fosse recobrar a saúde extenuada nos ares sadios da Covilhã, e, se o marido não pudesse ir, levasse consigo os três meninos.

João Mendes aplaudiu a ida da esposa, porque temia perdê-la, bem fundado nos receios do médico hebreu Diogo Nunes Ribeiro.

Permaneceram Lourença e os três meninos na Covilhã por espaço de dois meses. António, o mais novo dos pequenos, andava, sempre que o deixavam, com Leonor nos braços.

Entrançava flores com que a engrinaldava; afofava-lhe coxins de folhagem à sombra das árvores; inventava brinquedos e trejeitos com que fizesse rir a criança.

Dizia Sara a sua prima: — Não te parece coisa estranha o amor do teu António à pequenina?!

— Maravilha-me isto! — confirmava Lourença. — Eu já pensei se Deus estará criando o coração destas crianças para se quererem, desde que nós tão alegremente nos conjurámos a casá-los!...

— Será assim... — obtemperou Sara.

— Mas, prima!... — tomou Lourença com tristeza — , que mágoa tenho se tu sais de Portugal e eu cá fico!...

— Pois não tomas para o Rio de Janeiro?!

— Parece-me que não... O meu marido sabe que tem inimigos lá, que hão de continuar a persegui-lo. As testemunhas, que juraram contra mim, adivinhou ele quem foram. João Mendes era o primeiro letrado, e o mais procurado. A inveja é um inimigo inexorável. Se voltarmos para o Rio, diz ele, e talvez tenha razão, que em breve tornaremos presos para Portugal. para além do mais, meu marido, por influência do teu Jorge, ganhou muitos amigos em Lisboa, e custa-lhe a vencer o muito trabalho que tem. Dinheiro por dinheiro, diz ele que lucra mais em Portugal; com a vantagem de lhe serem mais saudáveis os ares de Lisboa. Outra razão dá ele: é a educação dos filhos. Os mais velhos quer formá-los em medicina; e ao nosso António tenciona formá-lo em leis para lhe suceder no escritório. Eu não sei com que motivos hei de contrariar estas razões de João Mendes. Como sabes, meu marido é mais velho que eu dezasseis anos: tem já cinquenta e sete, e precisa de repouso: as viagens incomodam-no muito; e uma nova desgraça, como esta da minha prisão, cortar-lhe-ia o fio da vida. Já vês, minha querida prima, que os nossos pequeninos noivos vão ser separados, e Deus sabe se tornarão a ver-se. Porque não ficas tu em Portugal?

— E a Inquisição? — disse Sara. — Pois a maldita viria aqui perseguir-te? Os parentes do teu marido, aquele honrado Diogo de Barros não conseguirá que te deixem viver tranquila?

— Diz Jorge que não. O inquisidor-geral supõe que o meu marido se fez hebreu. A mãe dele é o meu terror enquanto viver. E eu sei que, se cair nas garras dos verdugos, não tomo a ver a luz senão a das chamas. Se aqui estamos sossegadas, é porque Dona Francisca Pereira não sabe que estamos aqui!... ó prima!... Se hoje me arrancavam ao meu marido e à minha filhinha!... — exclamou Sara apertando estremecidamente a criança contra o seio. — Se me tiravam a minha filha, como eu fui arrancada ao regaço da minha mãe... da minha pobre mãe!

— Não, não, Deus nos livre! — atalhou Lourença. — Sai, sai de Portugal, que tu não sabes o que é uma hora dentro daquelas paredes negras!... Quem sabe se a minha vinda à Covilhã será causa a perturbarem o teu sossego!...

— Não, prima, não é. Ninguém sabe aqui a tua vida, nem o teu nome fora desta casa. Jorge recebe aviso, logo que a nossa liberdade for ameaçada. Eu preciso destes ares, e o meu pobre Jorge, por amor de mim privado da pátria, também goza mais saúde aqui. Vê tu, filha!... Este Jorge, nascido para tanto, com espíritos tão levantados, sujeitou-se à vida de mercadejar em queijos e especiarias. Se o contador-mor Luís de Barros julgaria que educava para este destino o seu querido neto!._ E agora diz ele que precisa de trabalhar muito para educar e dotar esta menina. De casa não espera ele património nenhum; porque a mãe, antes de morrer, vende e dá tudo para nenhum filho se aproveitar de nada. Olha tu que desgraçada e castigada mulher aquela! Não estima ninguém, e não tem nesta vida pessoa que a estime, alma que lhe dê uma sede de água na febre da agonia! No que parou aquela senhora que eu conheci tão respeitada na corte, e visitada das mais ilustres fidalgas!... Disse-me Jorge que até as escravas a estavam menosprezando! E mais é ainda rica! Se um dia empobrecer, será necessário que o meu marido a vá tirar da lama das ruas!... Ora aí tens, minha querida Lourença! Aí vamos nós para aqueles frios nevoeiros e ardentes febres da Holanda. Queira o Senhor que o meu marido não adoeça... A sua misericórdia me leve deste mundo, se eu ainda hei de ver a minha Leonor sem pai...

— Que sustos! — interrompeu Lourença.

— O teu marido é forte, e rapaz. Se adoecer em Amesterdão vai para Londres ou para Roma, ou para qualquer cidade de Itália, onde está muita gente da nossa nação, que vos há de acolher e rodear de contentamentos. Não te dê preocupação o futuro de Leonor. João Mendes vai mandar liquidar a nossa casa do Rio de Janeiro, e empregar em Lisboa o capital. O meu António há de formar-se; e, quando tiver vinte e dois anos, será doutor, e bastante remediado para manter as regalias da nossa Leonor abundantemente...

O diálogo foi interrompido por Jorge de Barros, que entrou lendo uma carta.

— De quem é? — perguntou Sara.

— É do tio Diogo — respondeu com um sorriso de amargura o marido.

— A Inquisição fareja-te, minha Sara!...