O Judeu
Capítulo VIII · Chegou o dia 5 de Outubro, segundo aniversário de Lourencinha.
Diogo de Barros, com todos seus filhos e netos, e alguns poucos mais parentes de Jorge, à hora do meio-dia estavam em casa do advogado António José da Silva, depois de previamente remeterem os seus presentes em bandejas de prata cobertas com alvíssimas toalhas à cabeça de escravas, as quais iam acompanhadas por lacaios das casas respetivas.
À uma hora estava o jantar na mesa. Abancaram todos alegremente, excetuado o pai da festejada criancinha, porque meia hora antes recebera um bilhete de Duarte Cotinel Franco, lastimando-se por não poder comparecer na festa, e mais ainda por motivo de não poder desamparar um posto, donde estava observando a tecedura de uma intriga inquisitorial contra o seu amigo, intriga que requeria urgentíssimo remédio.
António José da Silva, terrivelmente surpreendido, escondeu de todos, e até da esposa, o conteúdo do bilhete, para não perturbar a satisfação dos convidados. Julgou ele que a intriga ou seria logo desfiada por esforços do amigo, ou viria a vingar mais tarde: como quer que fosse, absteve-se de sobressaltar a família e os hóspedes, simplesmente anunciando que Duarte Cotinel faltava ao jantar por desculpáveis motivos.
Lourencinha, durante o jantar, andou pelos braços de todos, e o mais do tempo esteve nos do padrinho, Diogo de Barros.
O ancião, já sabedor da breve saída de Leonor, fitava olhos húmidos na afilhada, e dizia-lhe:
— Não chegas a conhecer o teu decrépito amigo. Quando tiveres sete anos, tua mãe te falará de mim, e te dirá quanto quis aos teus avós, aos teus pais e a ti, anjinho do céu.
— Essas lágrimas, meu tio, vêm amargurar a festa da nossa Lourença — disse Leonor. — Quem sabe ainda se nós iremos para fora? Parece-me que vamos já esquecendo...
— Não esquecemos, não... — acudiu António José, reconcentrado e triste.
— Pois que há, António? — perguntou Lourença.
— Nada, minha mãe!... E, tomando da mesa uma alva caneca indiana, exclamou: — Bebamos à saúde de Duarte Cotinel Franco, amigo honrado, amigo dos que a Divina Providência dá aos infelizes que a não denegam nem ofendem! Bebamos à saúde do generoso defensor que faltou nesta festa de família, porque não podia ao mesmo tempo estar aqui e defendê-la das armadilhas dos nossos inimigos! Bebamos à saúde de Duarte!
Bradaram todos, tirante Leonor e Lourença:
— À saúde de Duarte!
— Tu não bebes? — perguntou António à esposa.
— Estava distraída... — respondeu ela; e, pegando da sua taça, disse ela: — À saúde dos sinceros amigos!
Lourença Coutinho bebeu também. António José olhou-as com severidade, e murmurou:
— Sois ingratas!...
— Então, senhor Silva? — exclamou Diogo de Barros. — São isso palavras que se digam?
— Pois que quer Vossa Senhoria? — redarguiu o hebreu. — Ainda não pude provar a estas criaturas que Duarte é um homem de bem!...
— Nem a mim — atalhou Diogo.
— Pois quê?!... — volveu António José com muito espanto — , nem a Vossa Senhoria!
— Não; mas não debatamos hoje essa questão, senhor doutor. Falemos linguagem amorosa, que a nossa criancinha entenda. Chegai-me cá essa bandeja de confeitos para a beira da minha afilhada...
Fez-se um forte estrondo na porta da escada e calaram-se todos. Antes que entrasse criado a dar aviso, apareceu Duarte Cotinel, com a vista esgazeada e descomposto rosto.
— Que é? — perguntaram muitas vozes.
— Vem cá, António!... depressa... depressa... Todos se levantaram, e só o judeu passou com ele à próxima sala.
— Vais ser preso — disse ofegante o almoxarife.
— Preso?, já?...
— Já os familiares e meirinhos estavam à boca da rua. Sei que a ordem também se entende com a tua mãe e mulher. O meu pai já não pode salvar-te; mas arrancar-te-á brevemente da prisão... Não percas agora a cabeça, António! Vem cá!...
O judeu corria de um lado para o outro apertando vertiginosamente as fontes.
— Vem cá... escuta-me...
— Que é? — disse António com espasmo de idiota.
— É preciso salvar o teu tesouro das garras da Inquisição. Bem sabes que os hebreus ricos, se podem salvar-se do fogo, saem mendigando do cárcere.
— Sei... e então! — De quem confias as tuas riquezas? — De quem?... de ti, de ti... Duarte!... — E já!, então deve ser já, antes que os familiares arrestem o que estiver de portas adentro. Leva-me onde está o tesouro, que eu desço com ele para os baixos do pátio, e fujo depois que os familiares entrarem.
António correu à sua câmara: abriu o gavetão de um contador, e entregou-lhe o cofre, e mal articulou estas vozes:
— Não nos desampares, não nos desampares... Duarte desceu pressurosamente ao pátio, e escondeu-se no quarto dos criados.
Instantes depois, entraram dois familiares do Santo Oficio e dois meirinhos.
Quando chegaram ao topo da escada, ouviram grande alarido de gritos, Bateram.
Saiu-lhes Diogo de Barros, que devia conhecer os familiares: eram duas pessoas nobilíssimas, nascidas em duas das mais distintas casas da monarquia?(*)
[(*) Os primeiros fidalgos de Portugal honravam-se grandemente com apresilharem no ombro a insígnia de quadrilheiros da Inquisição. Era uma medalha de ouro com as armas do Santo Ofício gravadas.]
Diogo de Barros, com as faces cobertas de lágrimas, proferiu palavras suplicantes, compungentes, e todavia inúteis.
Um dos familiares disse:
— Vossa Senhoria sabe quais são as minhas obrigações, porque, na qualidade de familiar do Santo Ofício, sabe cabalmente quais são as suas.
— Uma das presas tem uma filhinha de dois anos... — disse Diogo — , como há de ser isto?
— Como é costume — respondeu o enviado da Inquisição as crianças ficam no poder de quem as quer aceitar.
Os brados redobravam interiormente, porque Leonor tinha ouvido dizer ao familiar: “As crianças ficam.”
Foi dentro Diogo, e os quadrilheiros seguiram-no. Leonor girava em volta dos hóspedes, como para fugir-lhes, temerosa de que lhe arrancassem a filha. António José, a um canto da sala, encarava, num letargo de brutificação dolorosa, os movimentos frenéticos da mulher. Ninguém sabia nem podia ali consolar: choravam todos.
Os familiares, com braços cruzados, esperavam o quebrar daquela tormenta, e mediam de alto a baixo dois filhos de Diogo de Barros que, num instante de indiscreta ira, tinham posto as mãos nas guardas dos fains.
António José da Silva saiu do seu estupor, e caminhou com presença de alma a encontrar a mulher numa das suas irrequietas arremetidas.
— Leonor! — disse ele — , isto é irremediável. Entrega a nossa filha ao senhor Diogo de Barros.
As damas rodearam Leonor, e ampararam-na. A criança expedia altos gritos. A mãe largou-a, ou por julgar que a estava estrangulando no apertar dos braços, ou porque os sentidos lhe faltaram. Uma das senhoras passou a outra sala com a menina.
Diogo de Barros pediu aos seus colegas do Santo Oficio a graça de concederem que Leonor e a sua mãe fossem transportadas de liteira à Santa Casa.
Responderam: — Não temos alçada. Pediu-lhes que o esperassem enquanto ele ia falar ao cardeal inquisidor. Responderam que não podiam esperar mais tempo.
Leonor e Lourença cobriram as mantilhas, e desceram encostadas às espáduas de António José.
Um dos meirinhos fechou as portas, depois de ordenar da parte do Santo Ofício que saíssem todos os escravos e criados.
Assim terminou o dia 5 de Outubro de 1737, segundo aniversário natalício da filhinha de António José da Silva.
CAPÍTULO IX
A Inquisição tinha diariamente dois conselhos, chamados ordinários. Um das oito às onze horas; outro do meio-dia às quatro.
Quando os presos chegaram à Santa Casa, já os inquisidores e secretário tinham saído da Mesa do Santo Ofício.
O alcaide conduziu-os a um vasto salão, já iluminado com lampadários pendentes do teto esfumado, e mandou-os esperar, recomendando a Leonor, que soluçava, completo silêncio.
Um guarda, ou chaveiro, ficou encostado ao batente da alterosa porta.
António José sentou-se num tamborete de pau entre sua esposa e mãe. Apertou nas suas as mãos de ambas, e murmurou:
— Não desanimem, que Duarte asseverou-me a nossa próxima saída.
Lourença soltou um gemido, e apenas balbuciou:
— Duarte!... Creio que estamos perdidas!... — Não estão... não estão... Tens coragem, Leonor?
— Tenho... que sou mãe... — exclamou ela, levantando a voz.
O guarda pronunciou um longo sio. Às cinco horas voltou o alcaide, e disse às presas que o seguissem.
— Adeus! — disse Leonor ao marido, inclinando-lhe ao peito a face.
Lourença Coutinho beijou o rosto do filho, e disse-lhe ao ouvido:
— Até Deus, meu amado filho! António José abraçou-as a um tempo, e caiu sobre os joelhos com elas.
— Venham, mulheres! — disse o alcaide carregando o aspeito.
Levantaram-se: Deus viu-os levantar-se, e separarem-se. Viu-os, porque Deus está em tudo e vê tudo.
Enquanto o alcaide não voltou, o hebreu esteve de joelhos, com o rosto sobre o tamborete. Ouviu os sonoros passos do chefe dos carcereiros; levantou-se, e perguntou — lhe:
— Pode por piedade dizer-me se a minhamulher e a minha mãe ficarão juntas?
— Ficarão juntas até amanhã. Siga-me. António foi levado ao cubículo quadrado de dez palmos em que estivera onze anos antes: era o cárcere número seis do corredor meio novo. O alcaide deteve-se alguns segundos para lhe mostrar a enxerga e a manta, o pote da água e o púcaro; depois saiu com a lâmpada, rodou a chave, e fez as trevas profundas daquele ergástulo, por ordem dos levitas de um Senhor, que tinha feito a luz universal, num dia de boa feição, antes de fazer os levitas num dia de rancor às suas criaturas. Não sei se o hebreu ficou a pensar nisto: o blasfemar, naquela situação, seria não vulgar virtude.
Domingos de Gusmão, se está nalguma parte, e conserva a memória dos favores que fez ao género humano, deve saber contar como foi aquela noite de António José da Silva, de Leonor e de Lourença Coutinho, e daquela criancinha sem ver sorriso ou lágrimas de pessoa conhecida.
Às seis horas e meia abriu-se a porta do cárcere número seis: o guarda depôs ao lado da enxerga do hebreu um prato de arroz com uma posta de peixe, e saiu? (*)
[(*)A alimentação dos encarcerados, com alguma diferença, nas horas de lha ministrarem, era a mesma em todas as prisões inquisitoriais do território português. O autor da Inquisição de Goa, o qual, como se disse, foi muito tempo ludíbrio dela, no tocante aos alimentos, diz o seguinte: “Os presos são bem tratados; comem três vezes ao dia; almoço às seis horas da manhã, jantar às dez, e ceia às quatro horas da tarde. Aos pretos dão-lhes canja de arroz: chama-lhe o francês cange, ao almoço; ao jantar e ceia dão-lhes peixe e arroz Os brancos passam melhor: de manhã dão-lhes um pão fresco de três onças, e peixe frito, fruta, e uma linguiça, se é domingo ou quinta-feira; e nestes dias, ao jantar, dão-lhes carne, um pão como o do almoço, e um prato de arroz e algum guisado com farto molho, para adubar o arroz, que é cozido simplesmente com sal; nos demais dias o jantar é sempre de peixe; e à noite dão peixe frito, pão, arroz, e guisado; carne é que nunca lá se come à noite.” Presume o desconhecido autor que a abstinência da carne leva em vista evitar indigestões. Aqueles higiénicos sujeitos poupavam os corpos salutarmente, no intento de lhes purificar as almas no fogo. Em Lisboa prevalecia a mesma piedade. ]
António José deteve-se a olhar na chama da lanterna, que o chaveiro pusera ao lado do prato. Voltou o guarda, e disse-lhe que comesse.
— Não posso — respondeu o preso.
O guarda saiu com a luz, e correu os ferrolhos da porta. Ao romper da manhã, António José tinha os olhos cravados na alta fresta, por onde entrava o dia através das grades. Assim que o cubículo se aclarou, olhou em redor de si: reconheceu aquelas paredes. Viu um objeto novo: era uma cruz, feita com sangue, à cabeceira da enxerga. Algum desgraçado ali deixara aquele testemunho da sua religião, traçado com o sangue furtado ao constritor das torturas. Às seis horas, levaram-lhe o almoço. António José, como tivesse orado, cobrou alento. Orar a quem? Não se sabe; mas as testemunhas juradas contra ele disseram que, através das escutas da prisão, viram-no algumas vezes orar de joelhos. Orava a Deus.
O certo é que se lhe fez luz de esperança. Aceitou o almoço, e comeu porque esperava resgatar-se, depois de alguma flagelação. Deram-lhe uma vassoura para a limpeza do calabouço, um pote para determinado fim, e uma celha, que servia de cobertura ao pote, e de recetáculo de lixo. Depois, cortaram-lhe o cabelo, vestiram-no com o traje da casa, e despojaram-no de tudo que levava vestido.
O hebreu, onze anos antes, tinha deixado ali um alcaide que o tratava com menos crueza, bem que nunca lhe concedesse um livro? O novo oficial, que substituíra o outro, denotava a ferocidade ordinária daqueles funcionários da Santa Casa, e pode ser que extraordinária ferocidade com ele.
Leonor e Lourença tinham passado a noite juntas. Não nos arrojamos a bosquejar muito em sombra as presumíveis angústias das duas mulheres. A pena mais afeita a escrevê-las, ainda entre os dedos de Lorente e de Alexandre Herculano, cai desanimada. Esta ineficácia e incapacidade para descrições de agonias inenarráveis faz honra ao coração do homem.
Ao outro dia, por volta de onze horas, um guarda separou as presas. Abraçaram-se. Lourença disse à esposa do filho:
— Se vivermos... até ao auto-de-fé. Leonor, quando se viu sozinha, ajoelhou, e disse: — Meu Deus, graças te dou, porque me levaste minha mãe e o meu pai! Deus de misericórdia, leva-me a minha filhinha, se eu não hei de mais vê-la... leva-ma, ó Senhor, para eu poder acabar resignada!
Ao mesmo tempo, um oficial do Santo Ofício entrava à prisão do hebreu exortando — o a que declarasse exatamente os seus haveres, acrescentando:
— Da parte de Jesus Cristo vos digo que, se estiverdes inocente, vos será entregado tudo que o vosso for; e, se alguma coisa sonegardes, qualquer que seja a vossa inocência depois reconhecida, tudo perdereis.
António José respondeu que tudo que possuíra deixara na sua casa no Largo do Socorro; juntou que pouco herdara do seu pai, e a pequena herança a empregara em adornos da sua casa.
À uma hora da tarde, o alcaide e um guarda conduziram-no à Mesa do Santo Ofício, ocupada por três inquisidores e um secretário. Mandaram-no sentar em tamborete raso, único objeto desprezível no meio de ricas poltronas, tapetes, e guadamecins que exornavam o espaçoso recinto. Os inquisidores ocupavam parte das poltronas laterais à mesa. O secretário sentava-se rente ao topo da banca, voltando as costas a um grande Cristo que se alevantava até à abóbada. Começou o interrogatório, depois que ele foi ajuramentado com um missal. Perguntaram-lhe se sabia porque fora preso. Respondeu que não. Pediram-lhe “pelas entranhas misericordiosas do nossoSenhor Jesus Cristo!”, (Eram os termos sacramentais com que pediam tudo.) que confessasse para mais depressa experimentar a bondade e misericórdia daquele tribunal com os sinceramente arrependidos.
Disse o hebreu que se julgava vítima de odientos intriguistas, que tinham querido ver nas suas comédias alguns rebuçados insultos à religião católica. Instaram os inquisidores pela continuação das suas conjeturas. António José respondeu que não tinha outras.
Leram-lhe o que ele tinha dito, e mandaram-no assinar. Ao toque de campainha, entrou o alcaide, o secretário fez um gesto de cabeça, e o hebreu saiu.
António José quis ler no rosto dos inquisidores uma boa nova. Figuraram-se-lhe afáveis no trato e comovidos nos termos do interrogatório. Lembrava-se da aspereza dos outros que, da primeira vez, e logo às primeiras perguntas, o ameaçaram com a tortura. Saiu animado: enviou aos corações da esposa, da mãe e da filhinha um sorriso de esperança.