O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 28 de 46

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O Judeu

Capítulo VII · Francisco Xavier de Oliveira, desde a hora…

 

Francisco Xavier de Oliveira, desde a hora em que foram presos António José e o prior de S. Jorge, fez ao demónio da vingança um tão fervoroso voto como, anos antes, em perigo de naufragar, fizera à Senhora da Penha de França. A vítima, que ele prometeu sacrificar na hecatombe do diabo, era aquele Bartolomeu, filho do tradutor da Sentinela contra Judeus, e propugnador dos rabinhos dos mesmos.

Era incapaz de matar traiçoeiramente um homem Francisco Xavier. A sua robustez, muitas vezes provada com grandíssimo dissabor dos seus adversários deslombados, instigava-o a encarar de frente os inimigos, e esmagá-los, se a vítima ficava entre ele e uma parede. Um só homem, em Lisboa, lhe disputava primazias em força: era um D. Henrique Henriques de Arroios, que sustentava durante quatro minutos na palma da mão a mó de um moinho, e, arremessando-a depois, a fazia rolar a distância de dez a quinze passos.

Em corridas de touros, um outro homem lhe competia em destreza e força: era o marquês de Alegrete, Manuel Teles da Silva, que, numa festa da Senhora da Piedade, no pátio do duque de Cadaval, estando presente o rei, cortara cerce a cabeça a um touro de uma só cutilada.

De si diz o Cavalheiro de Oliveira que, aos vinte anos, agarrava um boi e o subjugava em singular combate. junta que ninguém o venceu no atirar ao alto uma bala de ferro, que recebia na queda, e três vezes sucessivas arrojava à mesma altura.

Ora, um homem que assim brincava com uma bala de ferro devia de conjeturar que a cabeça de Bartolomeu nas suas mãos não pesaria mais que uma avelã.

O seu máximo cuidado era sair-se limpamente da empresa para não desgostar sua família nem incomodar amigos no livramento.

Bartolomeu tinha uma quinta em Oeiras, sobre o mar, onde costumava passar o Estio, em saborosa companhia dos seus livros, relendo e comentando as obras inéditas do pai, no intento de as estampar, quando a ilustração pública merecesse tamanho brinde. Francisco Xavier farejava-lhe a pista, sem revelar a ninguém o propósito com que miudamente galopava na estrada de Pedrouços.

Uma tarde, quando se recolhia, já lusco-fusco, enxergou na praia do Dafundo o pensativo Bartolomeu que se passeava filosofando à beira-mar. Francisco Xavier descavalgou, depois de ter relançado os olhos por sobre a praia deserta. Avizinhou-se de Bartolomeu, e perguntou-lhe se achara nas suas meditações a causa eficiente de uns rabinhos que surdiam do fim do espinhaço de certos judeus.

Bartolomeu tremia e balbuciava. Francisco Xavier, sôfrego da oportunidade, perguntou-lhe se o não abrasavam remorsos de fazer desterrar inquisitorialmente um velho de sessenta e cinco anos, e de fazer esmagar na tortura os dedos de António José da Silva. Bartolomeu preparava-se para arrancar alguns gritos do peito ansiado, quando Francisco Xavier lhe disse, segurando-o pelo pescoço:

— Vossa Senhoria precisamente arde de remorsos, e carece de refrigério.

Dito isto, filou-o pelas roupas do costado, sacudiu-o para ganhar impulso com o balanço, e remessou-o ao Tejo. O homem escabujou alguns segundos à tona de água, sumiu-se, mostrou as pernas mais longe onde a ressaca o levou, e não deu mais conta de si aos olhos atentos de Francisco Xavier, que invocava as estrelas e a Lua como testemunhas daquela boa ação da sua vida. O jovem cavalgou placidamente, e, como quem depois de um feito brioso tira a limpo os corolários excelentíssimos do acto, ia dizendo consigo: “Se os cristãos depuram os hereges no fogo, porque não hão de os homens racionais depurar os fanáticos na água? Façamos também aquaticamente nossos autos-de-fé. “

Na madrugada do dia seguinte, a maré revessou o cadáver de Bartolomeu ao sopé da Torre de S. Gião. A notícia chegou logo a António José da Silva, que não sabia se devia folgar, se temer-se da possível imputação do homicídio. Francisco Xavier encontrou-o nesta vacilação, e disse-lhe:

— Não temas, parvo, que o infame denunciante morreu sem a mais leve contusão. Peguei-lhe jeitosamente pelo estofo dos vestidos, e apertei-lhe o pescoço com tal cuidado, que o homem apenas passou pelo incómodo de beber água à proporção das lágrimas que fez chorar. Estás vingado, é o grande caso. Se não te pude livrar da Inquisição, livrei a humanidade de uma fera.

— E estarei eu livre das outras? — perguntou António José, com temeroso aspeito.

— Estás, se continuares nessa tua hipocrisia salutar de te gastares por conventos de frades. Faz isso que é bom; mas a mim não me enganes.

— Cala-te! — acudiu o judeu. — Cala-te que eu creio em Jesus Cristo e na Virgem.

— Fazes muito bem, meu amigo; diz isso a toda a gente; diz-mo também a mim...

— Se tu ouvisses o frei António Esteves de São Domingos... Queria que o ouvisses!... Convenceu-me, reduziu-me ao puro cristianismo com razões inexpugnáveis. O meu amigo, torna-te à tua fé antiga. Eu pedirei à Senhora da Penha que te ilumine e converta àquele fervor com que lhe pediste remédio quando as ondas te soçobravam...

— Pois sim — atalhou Francisco Xavier — , pede lá o que quiseres; mas conta-me alguma coisa daquela peregrina Leonor, formosa a mais não poder, Casas ou não casas? Olha que eu, se lhe não acodes depressa, vou galanteá-la! À fé!, não me leves isto em graça!

— Faz a tua vontade — disse triste e serenamente o Silva. — Eu perdi o gosto da vida. O sangue, que me tiraram, era o do coração. Quebraram-me corpo e alma. A luz de esperança em coisas desta vida, apagaram-ma. Não vês a minha tristeza sem intermitência de satisfação? Tudo me enfastia, cobrei tédio de tudo! Como hei de eu ir associar à minha desgraça aquela menina, tão de luto já no coração de quinze anos!... Para mim e para ela há vulcões que nos refervem debaixo dos pés. de um momento para outro, cairíamos abraçados no abismo de fogo. Um inimigo basta para nos perder; um inimigo que disponha de algumas consciências vendidas! Que se não casem homem e mulher em cuja cara a sociedade abriu a ferro o estigma da maldição! Dois malditos que se reproduzem em filhinhos amaldiçoados do mundo! A mãe há de arrancar o peito da boca da criança para seguir o enviado do Santo Oficio; a criança, agonizando de fome, não terá seio de cristã que se lhe abra! Tu não vês uns meninos esfarrapados, que se aconchegam uns dos outros no coberto de São Domingos? São os filhos dos hebreus, que já morreram queimados, e doutros, cujos gemidos eles poderiam ouvir, se colassem os ouvidos à s paredes negras da Casa Santa, e se os guardas dos calabouços não cortassem com um tagante as carnes dos que gemem. Aqueles meninos não deviam ter nascido! Foram gerados na maldição. Foi perversidade dos pais darem a este mundo aqueles padecentes, que vão ali estender as mãozinhas descarnadas...

— Aos verdugos do seus pais — atalhou Francisco Xavier. António José da Silva fitou com penetrantes olhos o amigo, deixou depois cair o rosto sobre o seio, e murmurou:

— É assim... é assim. Os pais e mães daquelas crianças mataram-nos eles; esmagaram — nos debaixo do madeiro do Crucificado...

E, erguendo-se de vertiginoso salto, exclamou:

— Celerados!, celerados!, que mal fiz eu para martírio tão longo! Se tu visses como estes ossos das mãos me rangiam entre duas lâminas de ferro que se queriam juntar através das fibras... E o sangue a espirrar debaixo da pressão do torniquete... Olha!...

E mostrava-lhe as fendas da carne esfacelada, e por entre elas o roxo dos ossos, com laivos de sangue e o amarelido dos tendões que pareciam cancerados.

— E podes ainda levantar essas mãos ao Deus de Domingos de Gusmão!? — perguntou ironicamente Francisco Xavier, voltando o rosto do espetáculo nauseento das feridas ressumando pus sanguíneo.

António José pensou por momentos, e disse: — Não me tentes!... Deixa-me crer para ter vontade de outra vida... Este mundo, sem fé, sem esperança, é um horror inconcebível.

— Pois crê! — voltou Xavier. — Mas crê como homem que rejeita Moisés e o divino Cristo. Crê em Moisés como num legislador bárbaro, e em Cristo como num reformador dulcificado pelas doutrinas de Sócrates e de Fílon. Crê no destino do homem para além desta vida. Crê na virtude sã dos sectários de todas as religiões: crê que o verdadeiro Deus está no coração do maometano virtuoso, do hebreu honrado, do cristão caritativo, do brâmane inofensivo. Sê hipócrita, se te é precisa à vida essa vil qualidade; mas não pervertas a tua inteligência, não aniquiles os teus dons de altíssimo engenho, não bestifiques as tuas luminosas faculdades.

CAPÍTULO VIII

 

Francisco Xavier discorreu longo tempo. Escutava-o silencioso António José da Silva. Quando o filho do contador-mor se retirou, a razão abafada do jovem conflagrou-se, como o rápido alar-se da chama, que rompeu súbita por entre as vigas da casa incendiada.

Ressaltou-lhe a alma do quietismo letárgico em que passava os dias, no mais recôndito e escuro da sua casa. Agitavam-no fúrias blasfemas que intimidavam a família. Extenuado dos sacões que fazia com os braços ainda quebrados dos jejuns e dores do cárcere, caía prostrado e febril.

Esta agitação de alguns dias acabou em sossegado repouso e lúcido entendimento. Era, já conversável e judicioso nas suas práticas. Ia com o seu pai ao escritório, e aplicava-se ao estudo da jurisprudência com tenacidade. Descontinuou as visitas aos mosteiros; mas, tal qual vez, escrevia a dois frades, que se lhe tinham figurado mais doutos que o comum, e estranhos aos processos inquisitoriais, e talvez avessos e censores do procedimento do Santo Ofício em grande parte dos seus actos. Ao diante, os dois frades hão de dar de si tão boa conta que a posteridade haja de os louvar como honrados amigos e defensores do talentoso hebreu.

A longos termos, António José da Silva visitava Sara, nos primeiros meses. Depois, amiudaram-se as visitas. Por fim, ao cabo de um ano, o coração do jovem não estava sossegado na presença nem na ausência de Leonor. Esperança inquieta ou inquieta saudade divertiam-lhe a ideia do estudo, mormente do árido estudo do Direito, posto que ele, vasta capacidade para tudo, despachava os feitos que o seu pai considerava dignos de mais hábil e engenhoso articulado.

Já o bacharel, quando Oliveira lhe pedia vénia para galantear a judia adorável, sorria ao requerimento jocoso do amigo, e aconselhava-o que dissesse da sua justiça no tribunal dela, por ser o competente.

Com as alvoradas do amor, dilucidou-se a escureza das suas cogitações, desnoitou-se — lhe o coração, repontaram ideias claras e alegres, e, a poucas voltas, fez-se dia esplendidíssimo, vida nova no íntimo e no exterior do jovem.

Renasceu o gosto e vocação da comédia. Rebuscou os seus papéis esquecidos; uns poucos existiam ainda, que o maior número deles rasgara-os João Mendes, receando que o Santo Ofício fizesse busca e lhes espremesse a herética peçonha que eles, apertados entre mãos de inquisidores, gotejariam certamente.

A ópera, ou comédia, que António José prediletamente polira e repolira em Coimbra, como peça com que tencionava estrear-se, era a Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança. Esta, e mais outras com que, mais tarde, o hebreu levantou a meio a quebrada coluna da sua glória, lia ele à numerosa assembleia de fidalgos que Diogo de Barros convidava em honra do engenhoso jovem. Estas leituras, por onde o seu nome se divulgara até às camadas inferiores da cidade, ser-lhe-iam de muito desprazer, se Leonor as não agradecesse, como favor e brinde feito especialmente a ela. Decerto era; que a índole melancólica de António José da Silva desdizia das gargalhadas com que o auditório vitoriava as cenas ridentíssimas do D. Quixote, da Esopaida e do Anfilrio. E todavia, Leonor, cerimoniosamente, e não do coração lhe agradecia. Do D. Quixote, especialmente, uma cena das mais cómicas, sem ser das menos urbanas em linguagem — esmero pouco usado dos dramaturgos francos e populares daquele tempo — , repetiam-na de memória os admiradores de António José da Silva. É a cena VIII. D. Quixote declama em solilóquio numa floresta, e diz:

“Há dias que trago no pensamento uma coisa que me tem causado grande preocupação! Dar-se-á caso que os meus inimigos encantadores tragam transformada a beleza da senhora Dulcineia na figura de Sancho Pança! E os motivos que tenho para isso é ver a paciência com que este escudeiro me atura as minhas impertinências sem salário nenhum; e ver que jamais foi possível ver eu Dulcineia no seu original e nativo esplendor. Tudo pode ser que seja; pois se leem, nos antigos livros de cavalaria andante, outras transformações de ninfas, ainda em mais ruins figuras, qual a de Sancho Pança, e porque este pensamento não é fora de conta, bom será averiguá-lo, que a diligência é mãe da boa vontade. (Entra Sancho.)

 

Sancho

Senhor, o rocinante está esperando que Vossa Senhoria o cavalgue, e tem dado tais relinchos, pulos e... que suponho nos prognostica alguma boa ventura.

D. Quixote

E, se bem reparo agora nas feições deste Sancho, lá tem alguns laivos de Dulcineia; porque, sem dúvida, Sancho, às vezes, o vejo com o rosto mais afeminado, que quase me persuado está Dulcineia transformada nele.

 

Sancho

O meu amo está no espaço imaginário! (À parte) Ah!, senhor, toca a cavalgar, que o rocinante está selado e o burro albardado. Senhor, Vossa Senhoria ouve?

 

D. Quixote

Sim, ouço. Que seja possível — prodigioso enigma do amor! — galharda Dulcineia del Toboso, que os mágicos antagonistas do meu valor te transformassem em Sancho Pança!

 

Sancho Ainda esta me faltava para ouvir e que aturar! (À parte) Que diz, senhor?, está louco?, com quem fala Vossa Senhoria?

 

D. Quixote

Falo contigo, Sancho fingido, e com Dulcineia transformada.

 

Sancho

Se Vossa Senhoria algum dia tivesse juízo, dissera que o tinha perdido. Que Sancho fingido ou que Dulcineia transformada é esta?

 

D. Quixote

Não sei como agora fale, se como a Sancho, se como a Dulcineia! Vá como quer que for: saberás que os encantadores têm transformado na tua vil e sórdida pessoa a sem igual Dulcineia! Vê tu, Sancho amigo, se há maior desaforo, se há maior insolência destes feiticeiros, que em mascarar o rosto puro e rubicundo de Dulcineia com a máscara horrenda da tua torpe cara!

Sancho

Diga-me, senhor, por onde sabe Vossa Senhoria que a senhora Dulcineia está transformada em mim?

 

D. Quixote 

Isso é o que tu não alcanças, simples Sancho; pois sabe que nós, os cavaleiros andantes, temos cá um tal instinto que nos é permitido conhecer onde está o engano e transformação pelos eflúvios, que exala o corpo, e pela fisionomia do rosto.

 

Sancho

... Que parentesco carnal tem a minha cara com a da senhora Dulcineia? Ora eu até aqui não julguei que Vossa Senhoria era tão louco! Julgo que nem na vida de Vossa Senhoria se conta semelhante desaventura!

 

D. Quixote Quanto mais te desconjuras mais te inculcas que és Dulcineia; deixa-me beijar-te os átomos animados desses pés, já que me não permites tocar com os meus lábios o jasmim dessa mão, dulcíssima Dulcineia! (Chega-se D. Quixote para abraçar Sancho.)

 

Sancho

Aqui-del-rei que não sou Dulcineia! Tire-se lá!, olhe que lhe dou uma canelada!

 

D. Quixote

Ora, meu Sancho, diz-me aqui em segredo se és Dulcineia, que eu te prometo um prémio.

 

Sancho

Como, senhor, lho hei de dizer? Sou tão macho como Vossa Senhoria.

D. Quixote

Sancho, nesse mesmo dengue agora confirmo mais que és Dulcineia.

 

Sancho

Ora leve o diabo o dengue! Que queira Vossa Senhoria que à força seja eu ensanchada, ou Sancho endulcinado! Ora pois, já que quer que eu seja Dulcineia, para cá que lhe quero dar dois coices. 

Tu me queres dar coices? Agora vejo que não és Dulcineia; pois Dulcineia tão formosa e tão discreta, nunca podia ser besta, nem ainda transformada para dar o que me ofereces com a tua grosseria. “

Acabada esta leitura”, prossegue Costa e Silva, “algumas vezes interrompida pelo riso, Bocage prosseguiu: — Então? Que te parece? Não é isto uma lembrança bem original, bem graciosa e bem própria? E o judeu não soube tirar dela um grande partido produzindo uma cena bem cómica? W, esta ideia devia ter ocorrido a Miguei de Cervantes!“

Até aqui o amigo de Bocage. Que outra ordem de considerações mais literárias e filosóficas não faria Elmano, ponderando o ingente infortúnio do engenhoso hebreu, mormente nos dias que passou no cárcere da Inquisição! Manuel Maria Barbosa do Bocage, se lá tivesse entrado cinquenta anos antes, não sairia para mais longa vida que António José da Silva. As feras de Domingos de Gusmão, na época de Bocage, rugiam apenas, acorrentadas à jurisprudência civil. O marquês de Pombal arrancara-lhes os dentes, e emprestara-lhos uma vez para despedaçarem o padre Malagrida.