O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 36 de 46

Páginas do PDF

O Judeu

Parte Quarta

 

CAPÍTULO I

 

O expediente de vingança, que mais nobre se oferecera ao honrado ânimo de António José da Silva, não dava os esperados efeitos. A guerra, primeiro surda, já rumorejava nas praças, nos conclaves pios e, pior que tudo, nas cavernas do Santo Ofício.

Duarte Cotinel Franco procurou, com magoado aspeito, o seu amigo de infância para lhe recomendar precauções vigilantíssimas, assegurando-lhe que do seu pai, qualificador do Santo Ofício, soubera que uma pavorosa tempestade se estava formando sobre a cabeça do inocente autor das óperas; e, com imenso desgosto, era ele ineficaz a conjurá-la com o raciocínio.

Disse António José a Duarte Cotinel que se dispunha a sair de Portugal, tão depressa liquidasse o valor dos poucos bens que herdara.

— E o tesouro da Bemposta fica? — perguntou Duarte.

— Se fica!... Sei eu, porventura, se tal tesouro existe?! — E o anel não chegaste a vê-lo? — Não há anel nenhum, homem!... — tomou António. — Em horrível anel de ferro me querem cingir e afogar o pescoço estes cafres tonsurados a quem eu não fiz mal nenhum!

E, com palavras desviadas do assunto do anel, o hebreu foi declinando a conversa para esquivar-se a perguntas, e respostas falsas com que se lhe mortificava a consciência.

Duarte deixou-o a pensar no tesouro. — Seria uma doidice — dizia António José a Leonor — sairmos de Portugal, sem ao menos levarmos a certeza de que já foi roubado o cofre do teu pai. A riqueza, se é tanta como diz o rol, dar-nos-ia em toda parte do mundo uma folgada vida. Porque não tinha tua mãe confiança neste Duarte?

— Porque eu lhe disse que a não tivesse — respondeu Lourença Coutinho. — E a ti, filho, conjuro-te que a não tenhas. Vai perguntar a Diogo de Barros que casta de gente é esta dos Cotinéis.

— Mas — tomou António — se eu fizesse as coisas de modo que não pudesse ser logrado por Duarte? Se eu fosse pessoalmente desenterrar o tesouro, e trouxe-osse comigo?

— Acho que ele seria capaz de te matar lá mesmo!

— Ele quem? Duarte?! — Sim, Duarte.

— Ora, minha mãe!, está formando um injusto e ultrajante conceito do homem! Que é dos crimes dele que a autorizam a conceituar assim um rapaz que nunca nos fez mal, e de toda nós recebe provas de estima, e foi elevado pela sua honra ao grande emprego que tem no paço dos infantes!

— António, não te fies nele! Que interesse pode ele ter — replicou Lourença Coutinho — em que tu aches e possuas o tesouro! Se tantas vezes lhe ternos dito que o tesouro é uma fábula, ou, se não é fábula, é coisa perdida, para que anda ele sempre a falar-te no anel do contador-mor?

— É porque se mortifica, pensando que desconfiamos da sua lealdade... E então, Leonor, como entendes tu que procuremos desenganar-nos?

— Eu sei!... A dizer verdade, o tal Duarte não me merece confiança; mas pode ser que todos desacertem, menos tu, António. Dizes que irias tu mesmo buscar o cofre, e trazê-lo para a tua casa. Se assim for, não sei realmente como Duarte possa roubar-to. Pode ser que a ideia dele seja receber uma porção dos objetos. Se for isso, dá-se-lhe alguma coisa, que nos há de ainda ficar muito. Pois que outro intento há de ser o dele? Fugir com o tesouro? Isso não o fazia ele, porque era perder a honra e o bom oficio que tem com esperanças de outro melhor. O que ele quer é que o remuneres, e tu lhe darás o que for da tua vontade, meu amigo. Contudo, não te animo nem desanimo. Faz o que entenderes, sem desfazer nas apreensões da nossa mãe.

António José da Silva andou pensativo muitos dias. Atormentava-o o tesouro! Aquele foco de peçonha que destilara lágrimas, desgraças e ódios, no espaço de quase cinquenta anos, desde o dia em que Luís Pereira de Barros preferira Jorge entre seus irmãos com afagos prometedores da herança do segredo, até àquela hora, para além da qual Lourença agourava novos desastres.

E, ao mesmo tempo, o conde da Ericeira e outros amigos de igual tomo diziam-lhe que saísse de Portugal por alguns anos e voltasse em melhor época. O conde lembrava-lhe que fosse a Paris estudar os grandes mestres da arte cénica, aquecer-se aos átomos luminosos daquele ar todo ciência, todo inspirações, e voltasse depois a continuar a sua primazia no teatro, de teor que pudesse lustrosamente reformar, senão criar, a arte dramática em Portugal. Abraçava o hebreu alegremente estes conselhos, e retocava a sua ópera chamada o Precipício de Faetonte para a fazer representar como triunfal adeus que ele dava a ingratos, a estúpidos e a celerados malsinadores da sua consciência!

Precipício de Faelonte!, que título tão pressago!... que funestos agouros Leonor aventava daquele título significativo de desastre!

Duarte Cotinel, depois da representação vitoriada das Variedades de Proteu, em Maio daquele ano de 1737, procurou-o para lhe mostrar os relanços e frases da comédia, que, por ordem da censura, a requerimento do inquisidor-geral, tinham sido riscadas.

Algumas frases eram estas: “Amor nos homens é o mesmo que querer bem; nas bestas muares é o mormo, e nos outros animais apetite.“

— Então isto em que ofende a religião ou os bons costumes? — perguntou o hebreu.

— Não sei.

— Provavelmente os censores não querem que o seu amor seja mormo!

— Há de ser isso... — obtemperou o risonho Duarte. — Que mais riscaram?

— Isto: “ Isso é glória do céu da boca “: dizem que metes a riso a glória do céu.

— Menos a deles, que é a bem-aventurança dos parvos. Que mais?

— Dizem que fazes galhofa do inferno, quando escreves isto: “Na glória do amor há sombras do Inferno. “

— Ora!, não os mando para lá por não injuriar o diabo com tais hóspedes. Tu dirás onde os hei de mandar.

— Dizem mais que ultrajas as leis divinas do casamento.

— Aonde?, na minha casa, ou na deles? — Na comédia. Aqui está o escândalo: “ E quem seria o magano que tal lei inventou? (a lei do matrimónio) Foi Apolo em despique do rigor de Dafrie. “

— Basta! — exclamou António José. — Pleníssima liberdade a esses burros de escoucearem a minha comédia! Sujem e risquem à vontade os sevandijas. Não quero ver mais nada. Cafraria hedionda, terra empapada em sangue e lágrimas, não comerás meus ossos!

— Olha mais, António. — Não quero: faz-me nojo tudo isso, nojo e vergonha de ser português! Vou mandar buscar ao teatro o Precipício de Faetonte... Vou queimá-lo...

— Mas não digas nada, meu amigo... Lembra-te que em Portugal não se queimam só óperas. Prudência, prudência, António! Qualquer denúncia pode hoje perder-te.

António José refletiu, abraçou Duarte, e murmurou circunvagando os olhos, como se receasse ter sido escutado:

— Tens razão, Não direi nada... Tratarei em fugir, já que me não querem... O meu amigo, amanhã vou procurar-te, preciso falar contigo a sós. Ao meio-dia.

Lourença Coutinho ouvira as últimas palavras do filho, porque o espiava sempre que Duarte Cotinel estivesse com ele. Assim que o almoxarife saiu, entrou ela, perguntando:

— Que vais fazer amanhã a casa de Duarte?

— Vou lá... preciso lá ir — respondeu de má catadura António.

— Vais descobrir-lhe o segredo?

— Não sei. Que assédio! Que importunação!... A minha mãe quer voltar às masmorras do Santo Ofício? Quer ver como os meus ossos estalam no Campo da Lã?

— Oh, filho!, que desatinos estás dizendo! — exclamou a atribulada mãe.

— Preciso sair de Portugal, entendeu, minha mãe? Quero salvá-la, salvar-me, e a minha mulher, e a minha querida filhinha... compreende bem esta resolução feita, depois de cabalmente informado da sorte que me preparam os algozes, cujos aparelhos de tormento já eu experimentei nestas mãos e nestes braços?

— Pois, sim, meu filho, fujamos.

— Fujamos sim; mas sabe Vossa Senhoria a quem eu devo o aviso da minha futura sorte, se me aqui demorar? É a este excelente rapaz que a minha mãe detesta! É a Duarte Cotinel que me fala com as lágrimas nos olhos e o coração nos lábios! Sou-lhe grato, estimo-o, prezo-o como ao meu irmão. Os outros lisonjeiam-me, e perdem-me; ele, notando as minhas imprudências, manda-me fugir.

— Pois sim... mas vais dizer-lhe onde está o tesouro?

— E que vá? Isso que monta?

— Nada... — balbuciou Lourença Coutinho, como assustada da exasperação do filho.

Leonor aproximou-se da sogra, e disse-lhe afavelmente:

— Deixe-o lá, mãe, deixe-o que ele já tem experiência da vida, e deve conhecer Duarte melhor do que nós...