O Judeu
Capítulo XVI · EPÍLOGO
Volvidos vinte anos, o leão de S. Domingos já recebia resignadamente as ferroadas dos insetos. As fogueiras do Santo Ofício, como se disse, tinham sido apagadas, desde 1761, com o sangue do padre Malagrida. A estátua de Francisco Xavier de Oliveira foi o último personagem de gesso e papelão que figurou irrisoriamente de par com as agonias de um homem queimado em vida.
Alguns hebreus voltaram à pátria do seus país, não a pedirem os bens confiscados, mas a beijarem a terra que era cinza do seus avós.
Em 1775, algumas famílias, refugiadas em Holanda, aportavam a Portugal. Entre estas, a mais numerosa era a dos Sãs, repartida noutras, que se restabeleceram em diversos pontos do país.
Um neto de Simão de Sã, com uma senhora sexagenária, que era sua sogra, e outra senhora de quarenta anos, que era sua esposa, e uma roda de mancebos e meninas que eram seus filhos, foram procurar os descendentes de Diogo de Barros à Rua da Madalena. Encontraram uma casa de cinco andares no local onde a mais velha daquelas senhoras, D. Leonor Maria de Carva — lho, asseverava que tinha existido um palacete de quinze janelas num andar único. Pediram informações explicativas às pessoas antigas do local. Breves e tristes lhes foram dadas. A maior parte da família Barros tinha morrido nas ruínas da sua casa por ocasião do terramoto de 1755. Dois netos de Diogo de Barros que, no dia da grande desgraça, andavam caçando no Alentejo com o duque de Aveiro, tinham desaparecido em 1757, e era pública voz que o marquês de Pombal os fizera morrer nas masmorras da Junqueira.
D. Leonor, lavada em lágrimas, disse à filha:
— Vês, Lourença?... morreu tudo... tudo, meu Deus!... Porque me conserva neste mundo a divina vontade?
— Para fazer a felicidade da sua filha... — E dos seus netos... — juntaram duas meninas, que se abraçaram na viúva de António José da Silva.
A divina vontade não a quis muitos mais anos conceder ao amor de filha e netos.
Leonor morreu aos sessenta e seis anos, na terra onde nascera, na Covilhã, local único em que o terramoto lhe deixou algumas vivas memórias da sua infância.
Lourença ainda vivia no princípio deste século. Os netos de António José da Silva abrem hoje, porventura, os livros denominados ÓPERAS DO JUDEU, e não sabem que são do seu avô, o mais desventurado e talentoso homem que a religião de S. Domingos matou em Portugal.
FIM
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Camilo Castelo Branco