O Judeu
Capítulo VI · Aposentou-se Sara em casa do tio do…
Aposentou-se Sara em casa do tio do seu marido. Lourença Coutinho e a sua amiga encararam-se e duvidaram uma da outra. Na desfiguração destas atormentadas mulheres só a continuada reminiscência poderia entrever umas sombras da antiga formosura.
Sara quis ver António José, o homem formado daquela criancinha que andava na Covilhã com a sua filha ao colo, e tanto chorara por ela na despedida. O jovem encarou estupefacto em Leonor. A visagem não era bem de espanto: estava ali o quer que fosse do idiota, que se procura no seu passado a um raio de luz, da apagada luz da sua razão, do seu amor, das suas esperanças.
Leonor contemplava-o triste da comum tristeza das piedosas almas. Não o tinha amado; mas afizera-se a pensar nele. Imaginava-o jovem de muitos, espíritos, de airosa presença, simpaticamente melancólico; e via ali um homem como entanguido de frio de alma, em espasmos de santa introversão, olhando para ela com assombro, e para os outros com certo ar de quem pede que lhes iluminem as escuridades da memória do seu coração.
Leonor, avisada por Lourença, do estado lastimoso em que a tortura lhe transformara o filho, chamava-o às recordações do passado, recitava-lhe os versos dele que recebera em Amesterdão, pedia-lhe que lhe dissesse poesias novas; e convidou-o, uma vez, a glosar-lhe uma quadra. António José da Silva acedeu com um sorriso, e disse:
— Uma quadra espiritual... Seja! Diga que eu vou escrevê-la...
Mas, ao curvar os dedos para segurar a pena, soltou um leve gemido, e murmurou:
— Esquecia-me que não posso escrever... Tenho os dedos quebrados!
— Infames frades! — exclamou Leonor.
— Por quem é!... — acudiu António José — , por quem é!... não fale assim, Leonor! Não fale... que eu posso ser seu acusador na tortura!... Eu tinha desejo de morrer, quando me deram os tratos; por isso não acusei meu pai e a minha mãe, mas aqueles que não podem com a dor nem com o terror da morte... esses acusam pai, mãe, esposa e filhos... denunciam-se a si, caluniam-se, desonram-se, condenam-se a inferno sem fim, para não sentirem o repuxar e estalar de cada fibra do seu corpo, e o gotejar de cada gota do seu sangue, e o apagar-se compassado, lento, horrendíssimo de cada faísca luminosa do seu espírito...
— E como eram as torturas... como foi que lhe puseram as mãos neste estado? — perguntou Leonor.
António José da Silva fitou-a como espantado da pergunta, e disse:
— Nunca revele o que viu na Inquisição de Valhadolide, Leonor: olhe que não há perdão para a boca imprudente que deixou passar uma palavra reveladora do que lá vai naqueles infernos!...
E, dito isto, com torva e misteriosa solenidade, o filho de Lourença Coutinho saiu impetuosamente dentre as famílias hebraicas e cristãs que o viam e ouviam com os olhos marejados de lágrimas.
— E aqueles nossos planos, Lourença — disse Sara. — Vê tu como a desgraça no-los desfez!... O teu filho, se assim se vai... podemos perder a esperança de o trazer a uma regular vida em que possa realizar-se o casamento... Ele nada te diz?
— Se eu lhe falo nisso, diz-me que está morto para a felicidade, e que lhe não resta esperança de restaurar nada do que perdeu. Dantes era triste; agora está continuamente chorando. Não pode escrever... é o maior infortúnio... Não sei como hei de distraí-lo. Anda de convento em convento. Por aí, chamam-lhe hipócrita ao meu pobre filho... O que ele está é quase demente, se a Divina Providência o não socorre... A minha esperança és tu, Leonor! — exclamou Lourença, beijando a filha de Jorge de Barros. — Tu é que hás de salvar o meu António, o teu esposo!... Dá-lhe tu calor ao coração que se congelou no frio dos calabouços. Acorda-o, filha; chama-o às alegrias deste mundo...
— Eu não as tenho... — balbuciou Leonor. — Não tenho mais calor no coração que ele...
— Então não o amas?! — replicou Lourença, como admirada da frieza de Leonor.
— Como podem amar-se pessoas que apenas se viram na infância! — disse a filha de Sara. — Mas com isto, senhora Lourença, não quero eu dizer que me esquivo a ser esposa do seu filho, se tal é a vontade da minha mãe, e se já esse destino me tinha dado meu querido pai. Sem ideia de casamento, minha amiga, hei de fazer quanto puder por distrair o Antoninho das suas amarguras; creia-me...
Lourença levou a mão de Leonor aos lábios e, reparando, disse:
— Cá está o anel do teu pai, menina!... Não o percas... Deixaram-to os da Inquisição? Cá em Portugal não é costume restituir aos absolvidos as coisas, que lhe encontram, quando os prendem. A mim nunca me restituíram dois anéis de pedras e uma manilha que eu trouxe do Brasil...
Não vos cortaram os cabelos na Inquisição de Valhadolide?
— Não, nem nos mudaram os vestidos — disse Sara. — Então, filhas, não digais que sofrestes... A vossa prisão foi suave; o Deus compadecido dos infelizes sem culpa não vos desamparou... E o tesouro? — prosseguiu Lourença — , quando havereis à mão a vossa riqueza, filhas?
— Nem já pensamos em riquezas — disse Sara. — O tio do meu Jorge presume que o cofre já não existe.
— Há um ano — tomou Lourença — que o meu marido soube do capelão da Bemposta que tal coisa nunca aparecera.
— Isso me disseste para Amesterdão.
— É verdade: bem me lembro... E o filho do capelão, que é o almoxarife dos infantes, se souber que vós viestes de Holanda, é capaz de vos procurar a ver se descobre o segredo. Tende cautela com ele, que eu não lhe tenho muita fé, apesar de se mostrar muito compadecido do meu António, e me dizer que pedira por ele aos infantes. Chama-se Duarte Cotinel Franco, andou com os meus filhos e com o Francisquinho Xavier na escola, e Deus sabe que ele foi causa de muitos desgostos da minha amiga Dona Isabel, levando — lhe o filho para as noitadas da Bemposta, onde vão todos os perdulários e mulheres perdidas de Lisboa. Eu não gosto dele... Não sei o que me diz o coração daquele homem, que me não fez mal nenhum! São preocupações de quem anda sempre a tremer de falsos amigos... para além do mais consta-me que ele é familiar do Santo Oficio, e o pai é qualificador. Tudo isto vos conto, filhas, para que vos não confieis do tal Duarte Cotinel: basta-lhe ser filho de cigana, segundo dizem. O padre, que hoje goza boa fama, foi um dos mais libertinos clérigos de Lisboa. Agora, escolheram-no para qualificar e avaliar as culpas dos cristãos — novos, hereges e feiticeiros.