O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 45 de 46

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O Judeu

Capítulo XV · CONCLUSÃO

 

Em meado do ano de 1753 desembarcou em Lisboa de um navio das Antilhas espanholas um sujeito que dizia chamar-se D. Pablo de Burgos, comerciante que tinha sido em Porto Rico.

Figurava cinquenta anos com o vigor dos trinta. As longas barbas, raiadas de branco, desciam-lhe a meio peito. O olhar ensombrado por densas e longas pestanas afuzilava de sob a convexidade das pálpebras, como o fitar oblíquo e espavorido do celerado que receia ser conhecido apesar dos anos corridos e da boa compostura do disfarce.

O cônsul espanhol em Lisboa recebeu da mão deste forasteiro carta do governador das Antilhas, apresentando-lhe D. Pablo de Burgos, que ele encontrara ricamente estabelecido em Porto Rico, desde 1741, e agora, volvidos doze anos, se resolvera a voltar à Europa, e residir em Portugal, com preferência às províncias vascongadas donde era filho.

O cônsul francês acolheu-o atenciosamente, hospedou-o na sua casa, e fê-lo conhecido dos ricos negociantes franceses que demoravam na capital, os quais lhe andaram mostrando as coisas notáveis de Lisboa, incluindo nestas o palácio da Bemposta, onde o espanhol empregou mais reparos que na Capela de S. Roque e no Aqueduto das Águas Livres.

D. Pablo mostrou-se muito agradado da situação e clima de Lisboa. Achou admirável a Rua do Alecrim para ali edificar uma casa torreada com vistas sobre o Tejo. Animaram — no à empresa os amigos, e o mesmo foi negociar-se a compra do terreno, e apenar os melhores alvenéis, sob a direção do arquiteto João Pedro Ludovici, para, no mais breve tempo, levantarem edifício tão majestoso e aformoseado, quanto setenta a oitenta mil cruzados permitissem.

Divulgou-se a nova em Lisboa, e já D. Pablo de Burgos não passava despercebido pelos coches dos magnatas, que fitavam com certa veneração as barbas do espanhol e aquela gentil compostura de velho que indiciava origem ilustre, por qualquer misterioso motivo ocultada.

D. Pablo saiu um dia de passeio na sua liteira, e mandou guiar para os sítios da Bemposta. Ali apeou e pediu licença para dar umas voltas no magnífico árvoredo da quinta.

Saiu a recebê-lo o almoxarife, com extremada cortesia; e, posto que o visitante o dispensasse, quis o serviçal indivíduo acompanhá-lo.

Residia então na Bemposta o infante D. Pedro que depois foi rei. Os filhos de Pedro II tinham morrido alguns anos antes. Disse o almoxarife que tinha entrado na mordomia daquela casa em 1740; e então lhe saiu de feição contar que o seu antecessor, chamado Duarte Cotinel Franco, fugira com um enorme roubo feito à família do célebre autor de comédias António José da Silva que a Santa Inquisição condenara ao fogo em 1739.

— Vossa Senhoria há de conhecer de nome este grande autor português.

— Não me lembro — respondeu serenamente D. Pablo.

O almoxarife continuou: — Fugiu o tal ladrão assim que o padre confessor do condenado se lhe apresentou a pedir-lhe que passasse o grande caixote de riquezas ao poder de um fidalgo, que morreu, há anos, em companhia do qual estava uma filhinha do judeu...

— Agora me recordo — atalhou o ricaço espanhol — de ter ouvido falar nisso... Esse tal judeu não tinha mulher, ou mãe, ou não sei quem também presas na Inquisição?...

— Sim, senhor: tinha mulher e mãe. A mãe morreu na prisão pouco depois que ele foi queimado, e a mulher conseguiu livrar-se, porque a justiça soube que a cobiça do tal ladrão fora a causa da morte injustíssima do grande poeta. Depois de livre, foi-se embora, e não sei que feito é dela.

— E que fim teve esse Duarte? — perguntou a indignada curiosidade do visitante.

— Sabe-o Deus! Nunca mais se tiveram notícias dele. Eu ainda vi morrer aqui nesta casa o pai dele, que não era boa rês, e chegara a ser capelão-mor dos senhores infantes, e deputado do Santo Oficio. Pois, apesar de ele ser de má casta, a ladroeira do filho buliu tanto com ele que o homem nunca mais saiu de casa com vergonha de aparecer ao público. Ainda ele era vivo quando eu entrei; mas pouco viveu. Há bons doze anos que o come a terra. coisa singular, meu senhor! Aqui, há seis anos, andando eu a fazer obras num quarto, que tinha sido do tal ladrão, fui topar com um falso, onde achei um caixote de pau — santo com laçadeiras de bronze, e duas fechaduras de prata, coisa riquíssima! ao meu ver aquele caixote foi o cofre donde o Cotinel levou o roubo se Vossa Senhoria o quiser ver, tenho muito gosto nisso...

— Não, se me dispensa, que tenho algumas voltas que dar — respondeu D. Pablo no mais correto castelhano. E despediu-se muito agradecido.

A fábrica do edifício da Rua do Alecrim progredia espantosamente. A generosa paga duplicava os braços dos obreiros.

Ludovici aprimorava-se voluptuosamente nas graças da sua obra. Afestoava as colunas e pilares e grinaldas; florões e laçarias caíam das cornijas formando em descendentes ramagens os adornos laterais das janelas. A menor peça fazia consonância à majestade do portal e espaçoso pátio, circundado de arcarias assentes em colunelos de primoroso lavor. As janelas eram frestas ogivais que a tempo deviam ser vestidas de vidros variegados. O telhado queria-o D. Pablo lajeado à volta, com cercadura de vasos e estátuas do melhor mármore e alabastro. O arquiteto incansavelmente expedia ordens a mandar vir da Itália peças que os seus alvanéis e escultores não sabiam dignamente emoldurar e arrancar das pedreiras de Mafra. Era ali naquele local um continuado pasmar das turbas, posto que D. João V as habituasse às obras magníficas. A cada palmo que o edifício se alevantava, Ludovici, o arquiteto ou continuador dos Arcos das Águas Livres, esmerava-se em exceder as maravilhas com que enfeitara a fachada do seu palacete em frente da Torre de S. Roque?

E enquanto a prodigiosa casa se andava construindo, D. Pablo de Burgos ora viajava por França e Itália, ora se ia a Sintra e às quintas suburbanas de Lisboa, onde seus donos o recebiam como a sujeito que o conde de Oeiras se não dedignava de convidar para grandes empresas industriais, visto que ele adotava Portugal como pátria e nela mandava fabricar tão grandiosa vivenda.

Em Agosto de 1755 estava concluído o palácio. As alfaias tinham já vindo do estrangeiro. Vestiu-se o interno do palacete com magnificência condigna da riqueza exterior. Franquearam-se as portas à admiração pública. As primeiras damas honraram as alcatifas chinesas de D. Pablo, e miraram-se nos alterosos espelhos de Veneza, cosidos a ouro, que pendiam dos tetos sobre tremós cujo feitio deslumbrava o áureo esplendor, que vestia os torneados. Vasos etruscos, imitados nos alabastros napolitanos, dos ângulos das salas cativavam a atenção logo cativa de mais ricos adornos. Para que mais encómios se todo o encarecimento vem curto? Aquilo era um encanto de olhos, e um quebrar corações de invejas.

D. Pablo aceitava os agradecimentos do seus hóspedes com uns ares de modéstia, última demão que faltava ao esplendor de tantas maravilhas. W, as damas até as apostólicas barbas lhe achavam encantadoras. Concertavam-se todas as probabilidades em favor dos que pressagiavam o breve matrimoniamento do espanhol com alguma das muito fidalgas e esbeltas meninas, cujos pais se honravam de hospedar o maduro ricaço.

Deliberou D. Pablo oferecer um banquete de príncipe aos seus amigos, que já eram numerosíssimos, em todas as jerarquias, e mareou o dia primeiro de Novembro nos convites antecipados quinze dias. Contratou os mais famigerados cozinheiros, vestiu de limiste os criados que deviam servir à mesa, tirou das prateleiras riquíssima baixela de prata em competência de valor com as mais preciosas louças do Japão, compradas aos netos empobrecidos dos antigos vizo-reis da Itália.

Desde o romper de alva do dia primeiro de Novembro, uma chusma de criados, uns encarregados do adorno da longa mesa, outros auxiliares dos inventivos cozinheiros, não tinha mãos a medir. Era um redemoinhar de gente afanosa como em casa dos imortais glutões da Roma imperatória, predecessores beneméritos da Roma cardinalícia.

Às nove horas e meia da manhã, D. Pablo de Burgos acabava de sair do leito e apresilhar um farto gibão de seda, no intento de deitar uma vista de olhos aos preparativos confiados aos servos e escravos. No momento em que transpunha o limiar da antecâmara, sentiu vibrar-lhe a casa debaixo dos pés, e logo um soturno estrondo, o tremer convulso dos móveis, o baquear das estátuas e jarrões depostos sobre os bufetes, o alto clamor dos criados, o estridor de louças partidas, o tropel dos servos que fugiam, e o estampido longo de um como ruir de paredes. Era o primeiro empuxão do assolador terramoto daquele dia.

D. Pablo correu desnorteado primeiro contra a escada para ganhar a rua; depois, voltou sobre si, impelido por um demónio que lhe disse: “Olha que deixas na tua recâmara riquezas que vão ser soterradas ou roubadas.” Entrou na recâmara, e não pôde ter-se em pé, resistindo ao impulso de um alteroso guarda-roupa de pau preto que ao voltar-se lhe roçou num ombro. Levantou-se. Abriu muitas gavetas de um contador, e amontoou numa toalha promiscuamente sacos de ouro e mãos-cheias de brilhantes.

Ao sair do quarto, ouviu o gritar aflito da vizinhança. Chegou a uma janela, e viu, através de cerrada nuvem de poeira, o interior das casas vizinhas, aluídas as carairas, e os moradores em desesperadas evoluções, com os braços estendidos ao céu sereno e límpido, como em manhã de Agosto. Fez pé a trás espavorido, e foi à escada no intento de a descer. Olha ao fundo do primeiro mainel e vê um lanço de parede fendida, e os tijolos a despegarem-se, A um terceiro tremor mais rijo, foge subindo para o terraço construído à roda do zimbório. Apenas relanceia os olhos em volta por sobre o centro da sumptuosa Lisboa, a custo e escassamente lhe deixa a densa poeira dos edifícios aluídos, descobrir um acervo de ruínas, e aqui e além multidões de fugitivos, uns que serpenteiam por entre o entulho buscando a margem do Tejo, outros que retrocedem espavoridos, porque o mar subia levantado em furioso vagalhão alagando a cidade baixa.

D. Pablo, naquele conflito, raciocinou. Era homem para discutir com a morte até ao fim, se necessário fosse. De si consigo disse ele que a sua casa, construída sobre rijos e fundos alicerces, devia resistir aos solavancos do terramoto mais que as outras meio derrubadas e enfraquecidas pela velhice. Alentado pela hipótese judiciosa, desceu do terraço, e com prudente vagar espreitou o estado das paredes. As fendas não eram assustadoras. Foi descendo e chamando os criados: ninguém lhe respondeu. Abriu uma janela do primeiro andar, olhou, e viu alguns acervos de cadáveres meios enterrados nas ruínas, e algumas aflitas mães, que procuravam os filhos, enquanto os maridos as empuxavam pelos cabelos, no propósito de salvá-las.

Os abalos, posto que menores, continuavam com breves intervalos. D. Pablo atentava a orelha: já não ouvia o estrupido do desmoronamento. A grande destruição fez-se em sete minutos.

O que ressoava formidavelmente era o estridente alarido de milhares de pessoas às portas dos templos, cujas abóbadas abateram sobre milhares de devotos, que os enchiam, ouvindo missas, naquele solene dia funeral de Todos os Santos.

D. Pablo raciocinava ainda. Bem que o sólido edifício estivesse de pé sobre os profundos cimentos, podia acontecer que ulteriores abalos o derribassem. Determinou sair com algumas preciosidades, e seguir as turbas, que fugiam na direção de S. Roque para o alto chamado então as obras do conde de Tarouca, e depois da Cotovia, e mais tarde a Patriarcal. Quis guardar em si a pedraria e ouro amoedado que ensacava; mas o peso privava-o do movimento. Não tinha criado ou escravo que o ajudasse. Repôs os sacos do ouro nas gavetas do toucador, e meteu às algibeiras as bocetas aveludadas das pedras preciosas como prevenção para o caso de algum desastre no edifício, enquanto ele ia providenciar a mudança da baixela.

Fechou o portão e saiu, caminho de Santo Amaro, onde morava o seu particular amigo o embaixador francês, Encontrou-o passado do terror, e tratando em fugir com as suas bagagens para o Lumiar.

O espanhol dispunha-se a acompanhá-lo, quando correu brado de estar em chamas a cidade baixa. Outra nova igualmente aterradora sobreveio àquela. Dizia-se que ferozes joldas de ladrões assaltavam e roubavam as casas desertas, e matavam os inquilinos que, no apuro das suas angústias, ainda tinham de defender as relíquias dos seus haveres. O espanhol, sem consultar o amigo, correu à Rua do Alecrim, e presenciou logo à entrada a luta a punhal dos ladrões entre si ou contra os mais aferrados defensores das suas ruínas. Este quadro horrífico era um escabujar de demónios entre labaredas e fumarada negra: o Inferno devia de ser, na fantasia do seus imaginadores, uma pálida imitação daquela atroz realidade. Às poucas janelas dos primeiros andares que, para assim dizer, tinham engolido os sobrados superiores, dardejavam línguas de fogo, que se cruzavam com as das janelas carairas. A estreita rua, atravancada de entulho, de madeiras incendidas e cadáveres, dificultava o trânsito. O espanhol saltou por sobre brasas e entre chamas. Ao avizinhar-se do seu palacete, viu rolos de fumo negro a romperem das janelas cujos vidros tinham estalado. Atirou-se aflito contra o portão, e viu-o aberto a machado.

— Estou roubado! — exclamou ele. Galgou ao terceiro andar. Quando subiu ao primeiro mainel, viu de relance alguns marinheiros que se disputavam o espólio das opulentas salas. No segundo andar, outra horda de marujos e homens andrajosos sobraçavam as taças, bandejas, castiçais, faqueiros e mais baixela que os criados, três horas antes, começavam a dispor na mesa do banquete. Subiu ao terceiro andaime, por onde lavrava intenso o incêndio, e foi, cegado pelo fumo, até à recâmara onde tinha os contadores. Arrancou dos sacos aceleradamente, e correu para uma sala, onde as labaredas não tinham ainda chegado. Aqui foram cruelíssimas as ânsias do homem, cruelíssimo o dilema: se saía às escadas, os ladrões lançariam mão dele, e nem vida nem ouro lhe deixariam: se ficava na sala, esperando que os salteadores desalojassem, o incêndio já se fazia ouvir com o seu horrífico estalejar de madeiras e desabar de vigamentos. Esta segunda ponta do dilema traspassava-lhe mais o peito que a outra.

Abriu uma janela e gritou por socorro.

Quem havia de ouvi-lo, se todos gritavam, e os mais dignos de compaixão, se houvesse ali compadecidos, seriam os que gritavam entalados nas soleiras das portas, e esmagados pelas traves fumegantes?

A resolução era urgentíssima, que já a sala estava escura de fumo. Lançou-se às escadas, desceu até ao segundo mainel, por entre os ladrões que se esfaqueavam na disputada posse de um jarro de ouro. A meio da escada do primeiro andar, sentiu-se agarrado por três homens que o seguiam a saltos de tigre.

— Deixa ver o que levas! — disse um, apontando-lhe a navalha à garganta. — Larga, ou reparte connosco, patife!

— Este é o ricaço! — bradou outro. — Cá leva o fardel! Larga, se não morres, castelhano!, cão danado!

D. Pablo reconheceu um dos três sicários, pelo rosto e pela voz; lançou-lhe o braço livre à volta do pescoço com brando jeito, e disse-lhe ao ouvido o quer que fosse.

— Tu! — exclamou o ladrão, com os olhos esbugalhados pois és tu!... és tu aquele...

O espanhol sentiu cair-lhe o coração, quando viu tão contrário o efeito que ele esperava do segredo posto no ouvido daquele homem.

E o salteador prosseguiu:

— Ó diabo!, tu não sabes que eu pela tua causa fui vergalhado na Santa Casa, que ainda tenho as costuras nos lombos! Não sabes que me prometeste mundos e fundos se eu jurasse contra o António José da Silva, que tu roubaste, alma de Satanás, e não repartiste nada comigo! Não sabes, cão, que eu ando há dezasseis anos sem ter quem me dê uma sede de água, porque ninguém me quer dar que fazer, e todos sabem que eu jurei falso contra o António José, e fiz jurar os guardas que todos andam a pedir ou a roubar?

— Pois eu reparto convosco, e deixai-me fugir... Aí tendes tudo... ficai com tudo... e não me mateis!

Duarte Cotinel Franco arremessou aos pés dos salteadores a toalha em que levava os sacos do ouro, por saber que os brilhantes escondidos nas algibeiras excediam o valor dos sacos, Feito o arremesso, ia fugir; mas o antigo alcaide da Inquisição da altura de três degraus caiu-lhe sobre as costas com uma faca apontada e com tanta força e ímpeto que mais não pôde arrancar-lha dentre as costelas retorcidas.

Duarte Cotinel gargarejou um arranco debaixo dos punhais que lhe cortaram o segundo na garganta.

À volta daquele cadáver travou-se uma briga de peito a peito, um cortar de ferros e ressaltar de sangue que espirrava à face do morto: eram os três assassinos a defenderem o espólio das presas de uns que subiam, e doutros que desciam acossados pelas chamas. Depois, seguiu-se o estampido do travejamento dos tetos e abóbadas que se despenhava por entre os sólidos e alterosos muros. Uns ladrões premiram-se contra o portão, escoando-se pela brecha que os machados abriram; outros, como descobrissem o cinturão cingindo o cadáver, curavam de arrancar-lho e espedaçá-lo a golpes de navalha, quando as lajes do firmamento do pátio lhes esmagaram os crânios contra os degraus marmóreos da escada. Um destes crânios era o do antigo alcaide do Santo Ofício.

Nas escavações feitas nas ruínas do palacete de D. Pablo de Burgos, quatro cadáveres se encontraram tão próximos que pareciam família muito entreamada que num abraçado grupo arrancara da vida. Esta hipótese desvaneceu-a a boa crítica; porque os mortos, debruçados sobre o cadáver vestido de lemiste, tresandavam o bafio dos seus andrajos. A putrefação permitia ainda examinar as chagas do pescoço de D. Pablo, que debaixo deste nome o lastimavam amigos e a boa sociedade de Lisboa. O conde de Oeiras sentia dolorosamente não ter mandado arvorar forcas nas ruas, como duas horas depois mandou para pendurar ladrões onde quer que a justiça os encontrasse. já se não podia valer à perda de um homem que tanto prometia às empresas industriosas de Portugal! Em compensação, responsar-lhe-iam a alma com magníficos funerais, pagos com pouquíssimo do muito e rico espólio que os cavadores desentranharam do entulho. Para a entrega da valiosa herança, pediram-se informações para Espanha e Antilhas. Ninguém saiu aos reclamos como herdeiro de D. Pablo de Burgos. Todavia, se, por um eventual acaso, se descobrisse que o assassinado era um Duarte Cotinel Franco, celerado ladrão, cujo nome era em Lisboa ainda o provérbio da suprema perversidade humana, a mim me quer parecer que os herdeiros se tinham de acotovelar em volta daquele cadáver, provando a primazia no grau do parentesco.