O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 42 de 46

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O Judeu

Capítulo XI · Estavam em campo os poucos amigos e…

 

Estavam em campo os poucos amigos e os muitos inimigos de António José da Silva.

Inimigos eram os homens de letras, que se julgavam compreendidos na alegoria daqueles que D. Quixote e Sancho Pança levaram a pontapés para fora do Parnaso; eram os ouvintes piedosos das suas comédias que riam muito das facécias indecentes e censuravam a licença desbragada do judeu; eram os frades, que através da gelosia do seu camarote, se tinham doído das frechadas que o judeu nunca lhes apontara.

Amigos tinha dois dedicados e diligentes: eram Diogo de Barros e o conde da Ericeira; mas o amigo que ele em maior conta e préstimo tinha era Duarte Cotinel.

O conde, desde logo, anteviu o desastre, inferindo-o do sobrecenho com que o inquisidor-geral, e parente seu, D. Nuno da Cunha o desatendia em rogos pertinentes ao judeu. Diogo de Barros, pela sua parte, achava de bronze o peito dos membros do Supremo Conselho. Todos, à uma, professavam ódio entranhado ao judeu que pudera salvar-se do justo castigo, para reincidir na mesma culpa; e demais disso atentar contra os bons costumes expondo ao povo os quadros irreligiosos e desonestos das suas óperas, recheadas de gentilidades, heresias e chascos à piedade.

Diogo de Barros, confiando no olhar suplicante da menina que tinha na sua casa, ia com ela aos inquisidores, levava-a nos braços, e ensinava a criancinha a dizer “piedade” àqueles homens severos que lhe faziam medo.

Alguns, tocando na face da menina, diziam-lhe: “Deus te afaste dos pais que tinham de perder a tua alma. “

Outros, voltavam-lhe as costas, e respondiam azedamente ao solicitador da liberdade de três relapsos, que tão mal pagaram à misericórdia das entranhas do nossoSenhor Jesus Cristo.

No entanto, António José espantava-se de não ser chamado a novo interrogatório, decorridos vinte dias de prisão. O mês de Outubro tinha passado: para ele era já ponto decidido que ainda estaria preso um ano, até ao primeiro auto-de-fé, a não dar-se algum extraordinário e raríssimas vezes sucedido caso de sair livre sem o cerimonial daquele espetáculo de morte para uns e de perdão para outros — espetáculo de “justiça e misericórdia“ como dizia a tarja que circundava o painel do fundador do Santo Oficio, arvorado na procissão, aquele S. Domingos que numa das mãos empunhava um ramo de oliveira, e noutra uma espada nua.

O processo estava, porém, instaurado, e o inquérito das testemunhas continuava. Quais testemunhas?

Aqui é o ponto de colher os panos à imaginação, e encostar-se o romancista ao pouco de que pode amparar-se para não escorregar no plano inclinado das hipóteses impróprias do assunto.

O processo de António José da Silva está no Arquivo Nacional da Torre do Tombo: para ali foi nos cartórios das Inquisições em 1821. Alguns curiosos possuem cópia do processo; eu não vi-a, nem estou ao alcance de poder ainda consultar as peças principais, que mereciam a publicidade, usurpada por farragens inutilíssimas que pejam as livrarias.

Costa e Silva viu o processo, ou o principal dele; todavia, um sujeito que se prezava de ser futilmente prolixo em numerosas páginas a propósito de nada, foi mais que omisso na biografia importantíssima de tão assinalado escritor, e desassisado nalgum dos esclarecimentos que levianamente dá. Outro bibliógrafo de maior tomo, o senhor Inocêncio Francisco da Silva, não obstante a breve e sucinta notícia com que antecede a relação das óperas do judeu, pensa em corrigir de passagem os graves erros do seus antecessores, e restaura lucidamente a verdade de alguns essencialíssimos factos. Como quer que seja, pelo que respeita ao processo, é judicioso atermo-nos ao que estiver escrito por pessoa que o haja examinado. Nesta parte, irei trasladando o pouco de Costa e Silva. Diz ele:

“Sepultado o suposto réu no cárcere número seis, do chamado corredor meio novo, deu-se obra ao seu processo, e como faltavam provas, e culpas articuladas, e definidas, pois todas se reduziam às acusações vagas, tais quais as podia dar uma negra boçal de Cabo Verde, quiseram os seus juízes, ou seus algozes, sair da dificuldade criando-as na mesma prisão.

Do seu processo... consta que os guardas foram incumbidos de o espionar pelas escutas ou buracos, que existiam nos cantos dos tetos dos cárceres daquele terrível tribunal, dispostos de maneira que se pudesse ver e ouvir quanto neles se passava, como eu notei visitando grande parte daquelas masmorras, quando se patentearam ao público em 1821. Que os ditos guardas quase, todos depuseram que muitas vezes viram-no ajoelhar, persignar-se, e recitar devotamente as orações cristãs; acrescentando somente alguns que ele alguns dias não tocava na comida, naturalmente (diziam eles) por satisfazer aos jejuns da lei de Moisés...

Consta igualmente do mesmo processo que o poeta protestou sempre pela sua inocência; que produziu na sua defesa muitas testemunhas, e entre elas religiosos graves de diferentes ordens, até da dominicana, e que todos eles afiançaram o seu zelo religioso, a sua exação no cumprimento dos preceitos da Igreja... “

Quais testemunhas, pois, depuseram contra António José? Os guardas dos cárceres, os oficiais subalternos e sujeitos ao alcaide, a quem incumbia a diretoria interna das prisões. Contra o testemunho dos guardas e o depoimento da escrava assassinada baldaram-se os esforços mais ou menos conscienciosos dos frades das diferentes ordens, com quem o hebreu industriosamente mantivera sempre boas relações, pensando que assim preparava patronos para a crise que sempre se lhe antolhara. Duarte Cotinel levara aos antros da Santa Casa o valor do mínimo daqueles brilhantes, e corrompera as sete consciências necessárias para fazerem prova de que o preso, algumas vezes, não comia, nem, nos interrogatórios subsequentes, confessava a razão que o fazia abster-se de alimentos.

Lourença Coutinho e Leonor, levadas à confissão na tortura, ignoramos quais revelações fizessem, arrancadas pela mortificação. É natural que Lourença, esperançada no perdão, se acusasse de judaizante, e que Leonor, compelida por igual esperança, mentisse aos verdugos para que em nome do Deus misericordioso lhes perdoassem a culpa.

Correram dezassete meses. O processo dos presos fechou-se em II de Março de 1739. A sentença de morte de António José da Silva, a requerimento do promotor, foi lavrada naquele dia, e logo relaxada ao braço secular. O acórdão da condenação não transpirou. já aquela vida estava irremissivelmente condenada ao fogo, e tanto o réu com grande número do seus amigos esperavam a absolvição no auto-de-fé do próximo Outubro.

Decorreram ainda sete meses. Neste período, o mais concorrido espetáculo do teatro da Mouraria era a ópera do judeu, o Precipício de Faetonte, que entrara em cena, quando o autor já sofria o terceiro mês de cárcere, em Janeiro de 1738. O público vitoriava o infeliz, sem ousar maldizer a justiça que matava lentamente o seu mais festivo e popular autor.

Os frades lá estavam casquinando no seu camarote; as famílias dos inquisidores concorriam à festa do talento do hebreu, que, àquelas horas, ajoelhava pedindo à Providência um testemunho do seu poder.

Avizinhou-se o mês de Outubro. António José, como nos últimos meses o não chamassem a perguntas, duas conjeturas devia de fazer: uma a da sentença já relaxada de morte; outra a do perdão, mediante o abjurar no auto-de-fé. Não se demorou a pensar na mais pavorosa das hipóteses: fiava na sua inocência, no valimento dos amigos, na fraternal amizade do seu Duarte, e, mais que tudo, na justiça de Deus.

Desde o primeiro dia do fatal mês de Outubro, o coração do hebreu pulava-lhe no peito de cada vez que se corriam os ferrolhos do seu quarto. Fitava o rosto do alcaide, que nunca se lhe voltou de frente, nas raras ocasiões que entrava à prisão; pedia aos chaveiros que lhe dissessem alguma coisa do seu destino; pedia notícias da sua mãe e de Leonor; rogava que ao menos lhe dissessem se elas viviam. Não lhe respondiam, cumprindo rigorosamente as prescrições do Santo Ofício, concientes de que a morte era o castigo da infração.

Às três horas da tarde do dia 16 de Outubro, ouviu António José da Silva rumor de passos ao longo do corredor; colou o ouvido ao tabuado, e sentiu que se vizinhavam da sua prisão. Abriu-se a porta, e logo assomou o promotor da Inquisição, e um meirinho da justiça secular.

O promotor, sem encarar no preso, leu a sentença pausadamente: “Relaxado em carne, morto, queimado, como convicto, negativo e relapso.“

Lida a sentença, o meirinho lançou em volta das mãos do preso um baraço, como sinal de que tomava posse do réu que a justiça eclesiástica abandonara.

António José da Silva morreu naquela hora. Estava em pé, tinha os olhos iluminados, respirava, ouvia, via, e entendia; mas estava morto.

À beira dele, depois que o promotor e o meirinho saíram, ficou um homem, chorando. Era um jesuíta de S. Roque, o padre Francisco Lopes, a quem incumbiram conduzir o padecente ao oratório.

O hebreu deixou-se levar. Entrou no santuário, com os olhos postos na imagem de Cristo, que lhe antepunha o padre. Ajoelhou, caiu, quando aos seus pés se fez um vácuo, um súbito aluir-se o pavimento por abismos em que ele se despenhava com o peito congelado do frio das entranhas mortas.

Fechou-se a porta do oratório. Num caso análogo de inexprimível tormento, perguntava Feréal, historiador da Inquisição de Espanha: “Quem pode sondar os mistérios da agonia e da morte, daquela suprema luta entre a forma terrestre e o homem imaterial? “