O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 44 de 46

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O Judeu

Capítulo XIII · No dia seguinte ao do suplício de…

 

No dia seguinte ao do suplício de António José da Silva, um padre vestido com a roupeta da Companhia de Jesus, bateu à porta de Duarte Cotinel Franco. Disseram-lhe que o almoxarife estava doente de cama. Instou o padre fazendo saber a Duarte que o procurava o indigno ministro do Senhor que assistira ao finado António José da Silva nos três dias do oratório.

Duarte sentou-se no leito, e pediu ao pai que o deixasse a sós com o padre. O capelão espantou-se do resguardo do filho; todavia, retirou-se, no intento de escutar a misteriosa prática.

Entrou o padre Francisco Lopes, e disse: — Senhor Duarte, compreendo a sua enfermidade. A desgraça do nosso infeliz amigo pesou-lhe dolorosamente.

— Aniquilou-me, senhor!... — disse Duarte, reconhecendo no jesuíta um dos muitos sábios e dos poucos virtuosos da Companhia.

O padre prosseguiu, enxugando as lágrimas:

— António José fez-me confidente de um segredo que apenas era sabido da sua família. Achou-me digno de confiança. Recomendou-me que lhe desse um abraço, e um adeus até ao reino do céu, onde eu piamente creio que entrou a alma purificada do nosso pobre amigo. Depois, me disse que em poder de Vossa Senhoria está um tesouro, que lhe ele entregara pouco antes de ser preso. É isto verdade? Não pode deixar de ser...

— É verdade... — balbuciou Duarte. — Se eu não tomasse conta do tesouro, sabe Vossa Reverência que a Inquisição...

— Sei, sei que ficaria a mendigar aquela pobre família, se Deus permitir que ainda se lhe abram as portas do cárcere. Se os grandes haveres de António José não puderem servir à esposa e à mãe, lá está a filhinha em poder de Diogo de Barros, varão de Deus que a Providência escolheu como amparo da inocente. A incumbência, que o desgraçado me fez, foi que viesse eu dizer a Vossa Senhoria que entregasse o cofre a Diogo de Barros, vendo ele que o encargo de guardar os objetos e dinheiro contidos nele, há de ser causa a mortificações do senhor Duarte.

— Prontamente... tartamudeou Duarte Cotinel. — Se o cofre estivesse no meu poder, passá-lo-ia já às mãos do senhor padre Francisco Lopes. Careço de sair a recebê-lo de terceira pessoa a quem o confiei, não o querendo no meu poder, porque era tido em conta de amigo do judeu, e receava das pesquisas do Santo Ofício...

— Foi prudência!... — atalhou o sincero padre. — Amanhã trato disso, e amanhã mesmo, ou muito tardar depois, irei entregar o tesouro do meu chorado amigo ao senhor Diogo de Barros, com todo o segredo para que a filha não seja ainda privada do seu grandíssimo dote.

— Cumpri a minha missão, senhor Duarte. Deus lhe fecunde os seus nobres sentimentos em alegrias puras e duradouras. Fique-se com Jesus Cristo; e receba o abraço de António José da Silva, cujas lágrimas ainda me queimam as faces.

Saiu o padre, e entrou o pai de Duarte.

— Que tesouro é esse que tinhas no teu poder? — perguntou o capelão.

— Eram os haveres do Silva, que mos confiou. — E não me confiaste o segredo a mim?

— Porque fiz juramento de o não confiar a ninguém. — E se eu delatasse ao Santo Ofício a existência desse dinheiro que virtualmente está confiscado?

— Fazia a desgraça de uma família, a troco de quatrocentos mil réis que tanto valerá o que me foi confiado.

— Quatrocentos mil réis! — replicou o delegado do Santo Oficio — , mas tu falaste aí no “grande dote“ da filha do judeu.

— Grande lhe chamei comparativamente à indigência em que ela ficou.

O capelão ficou satisfeito com a resposta explicativa. Neste mesmo dia, Duarte Cotinel, como o receio de perder o roubo, ganhado com tamanha perversidade, lhe botasse o gume dos remorsos que o anavalhavam, saiu da cama, e remexeu todo o dia no interior do seu quarto, acondicionando num vasto cinturão de couro os objetos contidos no cofre, que tirou de um falso por ele aberto debaixo do catre.

Ao anoitecer saiu da Bemposta, e recolheu-se numa estalagem contígua ao Terreiro do Paço, onde desvelou a noite esperando o repontar da manhã. Assim que os barqueiros saíram ao cais a encavilhar os remos nos seus botes, Duarte saltou no mais próximo do embarcadouro, e mandou remar para o Barreiro; aqui alugou carruagem, e seguiu o seu destino.

O capelão, afeito às longas ausências do filho, não se admirou da demora, ao fim de três dias. No entanto, o padre Francisco Lopes, preocupado com a recomendação do seu pobre padecente, procurou Diogo de Barros para saber se o tesouro estava na sua mão. O velho abriu um triste sorriso, e disse:

— Crê Vossa Reverência que tal tesouro seja restituído? — Creio, sim! Pois não ouvi eu a honrada e pronta confissão do possuidor?! Não me disse ele que antes de ontem, o mais tardar, viria restituí-lo?!

— Mas não veio, senhor padre Francisco Lopes!...

— É que se lhe agravou a enfermidade. Lá vou já daqui... Roubá-lo ele? É impossível! Um homem de quem António José me disse tão excelentes coisas e com tantos louvores do seu desprendimento!...

— Senhor padre Francisco!... — disse Diogo, e susteve-se. Depois, feita uma pausa reflexiva, continuou: — Não direi por enquanto o que sinto, o que senti e previ sempre... Vá, vá, e volte por aqui Vossa Reverência, se lhe não custar.

O jesuíta perguntou por Duarte. Saiu a falar-lhe o capelão, dizendo que o seu filho, no mesmo dia em que ele o procurara, saíra e não aparecera mais em casa.

— Então!... — exclamou o padre vencendo a sufocante surpresa — então é certo...

— O quê? — acudiu o deputado do Santo Ofício. — Que se fez um roubo...

— Um roubo?

— De valores de cento e cinquenta mil cruzados de que o seu filho era depositário.

— Quatrocentos mil réis, me dizia ele!... — redarguiu o capelão.

— Cento e cinquenta mil cruzados digo-lhe eu, senhor! — disse o jesuíta.

— Seja a quantia qual for, o ladrão fugiu. Que fuja!... os olhos de Deus hão de segui — lo... a justiça dos homens o alcançará!...

CAPÍTULO XIV

 

Lourença Coutinho, quando entrou no cárcere, depois de ter visto o filho ajoelhado para ouvir a sentença, ia moribunda. Os médicos da Santa Casa aconselharam os socorros espirituais. Um frade domínico foi assentar-se ao lado da enxerga de Lourença. A mãe do condenado que, àquela hora, saía do oratório para a fogueira, ouviu o gemer dos sinos, que pediam orações por alma dos supliciados. Estrebuchou, e conseguiu encostar-se à parede do seu antro. Fitou em rosto o frade que a chamava à meditação das misericórdias divinas. Estirou os braços, rangeu ferozmente os dentes, esbugalhou os olhos que espirravam sangue da congestão cerebral, fez um arremesso contra o filho de S. Domingos, e neste desesperado esforço, que o frade rebatia com exorcismos, arrancou da vida, batendo com a face no pavimento.

Frei João do Souto, que assim era chamado o confessor dos presos moribundos, contou com pavorosos gestos em reunião capitular que vira uma legião de demónios, quando a judia morrera, tomar-lhe posse da abria, e que o fedor sulfúreo era insuportável no calabouço. Os bons e judiciosos cronistas da Ordem Dominicana já tinham passado. Se o facto acontecesse cem anos antes, o leitor havia de lê-lo com as galas de linguagem do padre Cácegas ou daquele ilustre e degenerado visionário, chamado Manuel de Sousa Coutinho, que os frades tolheram.

O padre Francisco Lopes e Diogo de Barros divulgaram o roubo praticado por Duarte Cotinel. O Conselho Supremo do Santo Ofício gemeu, como se a Inquisição fosse a roubada. Os amigos de António José levaram à compreensão do inquisidor-geral a intriga tramada por Duarte no intento de roubar o homem que lhe confiara os seus haveres. Nuno da Cunha avocou a si o processo, examinou-o, e viu a crueza da sentença, e a probabilidade da urdídura. O alcaide, principal testemunha contra o hebreu, confessou na tortura que Duarte Cotinel se empenhava na perdição de António José. O alcaide foi açoutado pelos algozes do Santo Ofício, e expulso por grande misericórdia e bons serviços que tinha prestado à Santa Casa.

Este providencial sucesso abriu as portas da Inquisição a Leonor, dois meses depois do assassínio do seu marido. Diogo de Barros e Lourencinha foram esperá-la no pátio da Santa Casa. A menina já não tinha vaga lembrança da sua mãe. Chorou de medo daquela cadavérica mulher que lhe chamava filha. Leonor aqueceu as faces mortas nas da sua formosa criança, que tinha então quatro anos e dois meses incompletos.

Cobradas forças em companhia dos Barros, a viúva de António José, já sabedora do roubo daquela amaldiçoada riqueza, pediu ao tio do seu pai que lhe desse uma esmola para se passar com a sua filha para Amesterdão. Diogo prontificou-lhe sobejos recursos para a viagem, e uma regular mesada para sua sustentação. Quis ele ainda, para lhe aumentar o pecúlio, haver da Inquisição o valor da rica mobília confiscada e vendida em almoeda. O Supremo Conselho indeferiu o requerimento, sem, embargo da injusta condenação do possuidor dos haveres confiscados.

Embarcaram Leonor e Lourença. Em Amesterdão era já notória a morte de António José. Da família Sã ninguém esperava que a filha de Jorge de Barros volvesse à luz do Sol. O aparecimento de uma senhora com uma menina ao colo em casa dos filhos de Simão de Sã fez estranheza. Quando ela disse quem era, ergueu-se um grande choro em volta das duas infelizes, choro de compaixão de verem tão avelhada a peregrina Leonor, e de alegria por lhe poderem outra vez abrir o seio carinhoso. Leonor perguntou por Simão. Disseram — lhe que tinha morrido; mas que todos os seus lhe tinham herdado o coração.

Refloriram ainda algumas graças do belo rosto da filha de Sara, Tinha vinte e sete anos. As tristezas, por mais devoradoras que fossem, não podiam combater a força reanimadora dos afagos de Lourença. Onde ela assentava os seus lábios reviçavam as fibras amortecidas e requeimadas de lágrimas.

Leonor aos trinta anos dava ideias da beleza dos dezoito. Poderia ser amada e esposa, se o quisesse ser, de um rico hebreu também viúvo. Respondeu ela à proposta que não podia senão ser mãe e educadora da sua filha. Pediu que a deixassem enriquecê-la de virtudes e conhecimento antecipado das desgraças desta vida, para ter que lhe deixar, quando Deus a levasse.

Correram-lhe, senão felizes, tranquilos os anos.

A maior pena, que ainda lá a salteou, causou-lha um homem que passava, um dia debaixo das suas janelas, mal entrajado, com amargurado rosto.

Perguntou Leonor:

— Quem será este homem?! Não sei quem me parece!...

— É um português — disse uma senhora — ; já lhe ouvi o nome; mas esqueceu-me. Um dos manos conhece-o de vista, e foi quem me disse o nome dele.

Leonor foi ter com Levi de Sã, e perguntou-lhe quem era um português muito encorpado com barbas grandes, e vestido ordinariamente.

— É um homem que abjurou a religião cristã, e perdeu tudo o que tinha em Portugal.

— Como se chama?

— Francisco Xavier.

— De Oliveira! — acudiu Leonor.

— Justamente, de Oliveira. Há três anos que anda por Holanda, e vive com alguns israelitas que o favorecem.

— Pois ele está assim necessitado?... Oh, meu Deus!, não poder eu socorrer o primeiro amigo do meu infeliz António!...

E Leonor recordou-se daquele jovial e gentil mancebo que vira no adro da igreja de Valhadolide; recordou a paixão da sua juventude, que lhe crestara flores de coração que nunca mais enverdeceram. Chorava, como nos dias em que o amara, como naquela noite em que ele anunciara no salão de Diogo de Barros o seu casamento com D. Ana de Almeida. Este chorar tinha em si o travor doce das saudades. Era triste aquele encontro! Ver assim quebrantado e pobre o homem em volta de quem radiavam todos os prazeres deste mundo, desde a riqueza até ao culto das mulheres formosas e dos homens respeitáveis!...

Leonor pediu instantemente a Levi de Sã que fizesse saber a Francisco Xavier de Oliveira o muito desejo que tinha de o ver a viúva de António José da Silva.

Saiu Sã em demanda do português, e só no outro dia pôde saber que ele tinha saído para Londres.

Aqui vem de molde historiar-se o restante da vida, muito longa ainda, do Cavalheiro de Oliveira.

Em Novembro de 1739, chegou a Viena de Áustria a nova do suplício de António José.

Francisco Xavier, ferido no coração de sincero amigo, rompeu em brados contra a infame barbaridade dos inquisidores, sem poupar a religião divina do Cristo, que não tinha que ver com a protérvia dos seus sacrílegos sacerdotes. Raivou contra o pontífice, e não foi mais comedido nos insultos que vociferou contra o hipócrita e boçal rei D. João V. O ministro conde de Tarouca mandou-o calar-se, e respeitar o sucessor de S. Pedro, e o ungido do Senhor. Xavier retorquiu asperamente, aceitando satisfatoriamente a ameaça da demissão da secretária.

Dias depois, sobreveio um caso que determinou o completo rompimento das ligações do secretário com o ministro.

Andava em Viena um arquiteto milanês, chamado Inácio Maure Valmagíní, muito da privança do embaixador português. Dizia Valmagini que o rei de Portugal recompensava os biltres e vadios dos seus estados com o hábito de Cristo. O conde de Tarouca sabia-o, e dissimulava, não obstante ser um estrénuo propugnador das honras daquela ordem. Francisco Xavier, como ouvisse as costumadas insolências do arquiteto na presença do ministro propriamente, ameaçou-o de o atirar pela janela à rua.

O conde saiu em defesa do seu valido e Francisco Xavier separou-se do indigno embaixador e do serviço de Portugal?

Em Holanda, escasso de recursos, deu-se à vida de escritor.

O seu primeiro livro, impresso em 1741, eram as Memórias das suas Altezas, No mesmo ano, publicou um volume de Cartas Familiares, em Amesterdão, e o segundo das cartas em Haia. Sobre este livro, em que ele atacava o celibato dos padres, caiu a fulminante censura do inquisidor frei Manuel do Rosário, que taxou de herético o livro. Logo em Portugal foram queimados os livros do Cavalheiro de Oliveira, e defesa a entrada dos que ele de futuro publicasse. “O roubo que eles me fizeram, in nomine Domini, e sem mínimo escrúpulo, causou-me grande perda”, diz Francisco Xavier.

Fechadas as carairas de Portugal aos livros do herege, as condições vitais do escritor pioraram grandemente. Do seu país e até do seus parentes já nada tinha que haver nem esperar. O Santo Oficio espiava as migalhas que algum temerário amigo tentasse enviar-lhe.

Por 1744, ano em que Leonor o vira pobremente vestido, apesar da publicação doutros livros, saiu com a sua mulher para Londres no intento de revalidar com público instrumento a sua já feita apostasia da religião católica. De feito, abraçou o protestantismo; e para logo escreveu rijamente contra os papas, com o fervor congenial de todos os prosélitos assim das boas que das más causas.

O afeto de infância e de saudade que o prendera à vida e à memória de António José sugeria-lhe ainda enérgicos escritos em favor da raça hebreia. Em 1740, imprimira ele na Haia uma carta ao israelita Isaac de Sousa Brito, com a relação dos Privilégios Concedidos em Nápoles e Sicília à Nação hebreia, Traduzidos do Original Ralizão.

Em Londres, estreou-se o Cavalheiro com um livrinho recreativo intitulado Viagem à Ilha do Amor, Escrita a Filandro.

Escrevia sempre; mas publicava pouquíssimos dos seus escritos, à míngua de subscritores. Amparavam-no as esmolas dos seus correligionários, entre os quais o fidalgo português curava de esconder a sua origem e as insígnias nobilitantes. Acerca do hábito de Cristo, dizia ele: “Me trouvant aujourd'hui à Londres je n'y fais guère voir mon ordre. Cette marque rendrait ma pauvreté plus honteuse. Le peuple anglais aime l'argent, et préfère une riche roture à une noblesse indigente.”

A mesma página, vertida para português, faz ver quão grande era a tristeza da sua resignação: “Dizem que os grandes deste país consideram em muito as pessoas nobres e beneméritas em pobreza. Gozam tanto renome de ricos que de benfeitores. A minha natural timidez me não deixa avizinhá-los: não tenho a honra de os conhecer bastantemente. Vivo restringido ao meu quarto: apenas vou fora a visitar um diminutíssimo número de pessoas honradas que usam a generosidade de me estimarem e amarem. Dizem-no, e provam-no com os favores que me fazem. Assaz sabem eles que a mim nada me faz nem lisonjeia ser fidalgo... “

Que vida tão arrastada!, que paciência tão vencedora de aviltamentos devia de ser a do soberbo, e todavia generoso coração de Francisco Xavier de Oliveira! Que demorados e sempre iguais e amargurados anos até que os cabelos lhe branquearam!

Em 1751, já chegado aos cinquenta, criou o seu periódico mensal, tantas vezes citado nestes livros. Durou apenas oito meses. Não há número em que ele não advogue a causa, a liberdade dos hebreus. E, todavia, os perseguidos, que Francisco Xavier queria resgatar das presas do fanatismo estúpido, não lhe liam o periódico. Faz lástima ouvi-lo assim queixar — se: “Prova de que a ignorância dos judeus reina em Inglaterra como em toda a parte, é que eu apenas tenho quatro subscritores desta nação: o doutor Castro Sarmento, o Sr. Rebelo de Mendonça, o Sr. Abraão Viana, e Mr. Ratton. Atendendo aos esforços que eu nestes escritos tenho feito para acabar a injusta e cruel perseguição que se exercita em Portugal contra os judeus, não é bastante claro que eles não conhecem seus interesses, nem a candura e boa-fé com que eu lhes advogo a causa? ó tempos!, ó usanças! Há cinquenta anos que a minha obra não precisaria de mais alentos que o favor desta nação em que então abundavam homens assim ilustrados que generosos!

Mais deplorável ainda é este amargurado queixar-se, quando a vida já lhe pesa, e ainda os anos não chegam aos cinquenta: “Minha vida pode e deve comparar-se a um rosário, cada conta do qual é uma desgraça... Idade avançada, saúde achacosa, indigência indigna do meu nascimento; mil dissabores urdidos pela calúnia e indiferença de uns que eu noutro tempo considerei amigos: tudo isto reunido ao perdimento de pátria e bens de fortuna, por isso que abracei a religião protestante?, me desvaneceu toda a esperança de ainda ver entreluzir-me alguma alternativa neste mundo... “

Noutro lanço, diz o escritor com profundo desalento: “Naturalmente amo a vida, confesso. Deveria desejá-la muito duradoura; mas não, que o mesmo seria querer premeditadamente prolongar as mágoas do meu espírito e mortificações do corpo. Ainda assim, desejos de morte e fraqueza de suicida, tenham-nos os loucos e os covardes desesperados: assaz me contenta saber que sem desejar a morte, me não temo dela que queria eu hoje possuir? Uma saúde robusta? Ah!, a minha vigorosa saúde foi uma das principais causas dos desvarios da minha vida, e de certo modo a motora das desgraças presentes...“

O desventurado conta com a benquerença de cinco amigos; porém tão pouco dadivosos deviam eles ser, que Francisco Xavier inveja o carvão que inutilmente arde na deserta sala de um lorde, carvão que lhe chegaria a ele para se aquecer um mês. “E está sempre a fumegar aquela chaminé”, diz ele, “para aquentar um cão, por louca vaidade do dono!“

Pobre Cavalheiro de Oliveira, já o destino dos cães ingleses te arranca invejas daquele tão opulento e magnânimo peito!

Já, neste tempo, a sua segunda esposa teria voado a melhor inundo, ou voltaria a pedir um quinhão de alimento na mesa da sua ilustre família em Viena de Áustria? Não o diz ele nem os seus biógrafos.

Em 1755, escreveu Xavier de Oliveira alguns folhetos incitando os portugueses a conjurarem contra as doutrinas dos bonzos, contra os papas, contra as superstições cediças do catolicismo. A Inquisição lançou a garra aos escritos. Processou o autor, condenou-o como herege, revel convicto e relaxado à justiça secular. Queimaram-no em estátua, ao mesmo tempo que as carnes do padre Gabriel Malagrida se torravam na fogueira vizinha, no auto-de-fé de 20 de Setembro de 1761.

O original da estátua devia de rir-se, lamentando que ao clima glacial de Londres, naquele mês, lhe não chegasse um pouquinho do calor da estátua assamarrada e encarochada com fogo revolto e danças macabras de demónios comígeros e caudatos!

Então, muito de assento e com o riso nos lábios, escreveu ele: O Cavalheiro de Oliveira Queimado em Estátua por Herege; como e Porquê? Anedotas e Reflexões sobre Este Assunto, Dadas ao Público por Ele Próprio.

Desde que o queimaram até ao dia em que morreu interpuseram-se ainda vinte e dois anos.

Escreveu nesse largo espaço muitos livros, uns que ficaram impressos, outros manuscritos, e muitos perdidos.

Quando aquele homem chegou aos oitenta e um anos como olharia ele para as primaveras sobre as quais gearam trinta invernos aspérrimos de infortúnios?

Que reminiscências lhe iriam ao coração congestionado de lágrimas da mulher que a Inquisição lhe estrangulou; da Antónia Clara que o pároco dos Anjos lhe queria negociar; e da Joana Vitorina, aquela fatal cigana, de quem ele escrevia como da mulher que ele mais amara, sem exceção das duas virtuosas esposas?

Deus lhe perdoaria tantas levezas da alma em desconto das muitíssimas dores de corpo com que o purificou na decrepidez mais desamparada e cortada de penúrias!