O Judeu
Capítulo X · Anunciou-se no portão dos Barros o almoxarife…
Anunciou-se no portão dos Barros o almoxarife do palácio da Bemposta, para haver de falar à viúva do senhor Jorge, neto do contador-mor Luís de Barros.
Sara, assim que recebeu o aviso, lembrou-se logo do Duarte Cotinel Franco, e da misteriosa aversão de Lourença Coutinho ao amigo do seu filho.
Duarte, entrado à presença de Sara, expôs difusamente o propósito da sua visita, fundada nos boatos correntes a respeito de um tesouro enterrado na quinta da Bemposta, de um anel transmitido com o segredo do tesouro a Jorge de Barros, e da cláusula da escritura de venda da dita propriedade, mostrando o traslado que ele Duarte fizera tirar da nota do tabelião. Dito isto, declarou ser desde menino particular amigo de António José da Silva, o qual, segundo a voz pública, brevemente esposaria a filha do senhor Jorge de Barros. juntou, com muitos recamos de palavreado, que ele desde muito pensava em ser o restaurador daquela riqueza soterrada; e lamentava que a viúva e filha de Jorge de Barros vivessem pobremente podendo gozar-se de rica independência. E, portanto, concluindo ao fim de estirada parlenda, ia ele solicitar de Sara que consentisse em ser rica, dignando-se confiar da probidade inteira e da amizade extremosa do amigo do seu futuro genro, ou o anel, ou a declaração do local onde Luís Pereira de Barros enterrara o tesouro.
Sara, sem tergiversar, como quem já trazia de muito urdida a resposta, disse que poderia ser que o tesouro existisse na Bemposta, ao tempo do falecimento do avô do seu marido; sabia, porém, que o revolvimento dos alicerces e jardins da casa, feito por ordem da sua sogra, provavelmente descobriu o cofre, se ele existia. Enquanto ao anel, disse que nunca vira ao seu marido anel com tal significação, nem lhe constava que ele o tivesse.
Redarguiu Duarte Cotinel, lastimando-se de não merecer a confiança da senhora, e fazendo votos porque ela se não fiasse doutrem, e arriscasse o completo perdimento da riqueza; dando assim a entender que julgava mentirosa a negativa de Sara, e verdadeiro o boato do anel.
A viúva de Jorge, ao outro dia, perguntou a António José se tinha em boa conta a probidade do almoxarife da Bemposta. Respondeu António que, desde menino, o tratava, e sempre o encontrara leal amigo, homem de bem, e dotado das excelentes qualidades que em tão verde juventude o fizeram digno do almoxarifado da Bemposta. Sara referiu o que passara com ele. António José disse que a não aconselhava em coisa de tanto melindre, bem que, se ele fosse o senhor daquele tesouro, insuspeitosamente comunicaria o segredo a Duarte Cotinel Franco.
A viúva ouviu o parecer de Diogo de Barros, que foi contrário ao de António José. A razão com que o velho desabonava o almoxarife não era judiciosa. “De tal árvore”, dizia ele, “não pode sair bom fruto. Eu conheci o tal capelão da Bemposta, cujo filho é Duarte; conheci-o espião de Castela em Portugal e espião de Portugal em Castela. Foi frade, e secularizou-se depois. Vivia em mancebia escandalosa, e pregava sermões às rainhas mulheres de Dom Pedro segundo. Fez-se confessor dos infantes, capelão-mor, e qualificador do Santo Ofício, tendo começado sua vida na forja do pai, que trabalhava de ferreiro à porta do marquês de Ferreira, à custa do qual fez frades dois rapazes e freiras três raparigas, que em pequenitas vendiam arféloa na Praça do Terreiro do Paço e na feira do Rossio?
No entanto”, prosseguiu Diogo de Barros, “pode ser que ele seja boa pessoa. Será; mas a ocasião, diz o provérbio, faz o ladrão. Esperemos, minha sobrinha. Por enquanto, não se vos é necessário aquele tesouro.“
Duarte Cotinel, descoroçoado dos bons efeitos da tentativa, procurou António José, para instigá-lo a mover Sara. O hebreu desculpou-se dizendo, como sempre dissera, que não tinha certeza de existir tesouro nem o anel em poder de Sara.
— Mas, se casares com a filha — observou o almoxarife — e o anel te for na mão da esposa, já sabes que aqui estou para te desenterrar o cofre, e entregar-to sem um ceitil de menos.
— Sei que o farás, Duarte, e de ti só confiarei o segredo, se algum segredo existe. Mas o mais certo é eu nunca possuir a mão nem o anel de Leonor...
Eu ainda vi relíquias desta feira há trinta anos, em tempo que a Feira da Ladra começava na extrema do Rossio, e abraçava o Passeio Público pelas duas ruas laterais. Que saudades eu tenho de uma nora que ali gemia no pátio do duque, e daqueles pucarinhos dos alcatruzes! Lastimo o leitor menor de quarenta anos, que não ouviu gemer a nora. nem viu aqueles alcatruzes do pátio do duque, e nem sequer apalpou, como eu, as paredes da Santa Casa que pareciam exsudar sangue de hebreus. Hoje, no lugar dos alcatruzes, está um barbeiro, que é nora de parvoíces políticas; no melhor do passeio, onde nós goza sombra... de noite.
No local onde gemiam judeus, hereges e feiticeiros, uma vez por outra, geme a arte; e eu, desgraçadamente, deste ofício tão santo como o outro, também tenho sido inquisidor.