O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 4 de 46

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O Judeu

Capítulo IV · Redobraram os maus tratos de D. Francisca…

 

Redobraram os maus tratos de D. Francisca ao filho Jorge. Plácido, divertido nos seus importantes encargos, lavava as mãos da responsabilidade daquela flagelação. O jovem, vencida a paciência pelos sorrisos dos irmãos e alusões chocarreiras e pungentes da mãe, já fugia de se juntar à família nas horas de repasto. Para não exacerbar os padecimentos do avô, ocultava-lhe a perseguição; mas o velho sabia tudo da lealdade do seu escudeiro. Já Luís de Barros premeditava retirar-se para o Alentejo com o seu neto; mas a consumpção de espíritos e forças era já tamanha e tão rápida, que o ancião receava finar-se no caminho.

Quando a filha desconfiou do propósito do pai, inflamou-se de ira contra Jorge. O fatal anel tomava-lhe no pescoço as proporções de um cadeado estrangulador. A raiva lutava nela com os cálculos; mas o génio irascível subjugava todos os protestos astuciosos. Raivando em assomos de ódio, gritava D. Francisca Teles que daria de bom grado o tesouro por satisfazer a sua vingança!

Soube ela que Jorge, de dias a dias, se demorava no locutório do convento, e que o escudeiro do seu pai entregara à prioresa da Madre de Deus quantia de dinheiro considerável.

A exasperação devorava-a. Não teve mão de si que não arguisse, em rosto dele, seu pai de tresloucado pela idade. O velho pôs as mãos voltado para o seu santuário, e murmurou a frase de um santo: Amplius, amplius, Domine (“Mais, mais, Senhor!”)

Ninguém ousava contrariá-la. O marido tremia dela. Os filhos davam nenhum valor aos seus desgostos e acessos furiosos.

Um dia, D. Francisca mandou tirar a sua sege, e deu ordens secretas ao lacaio. Parou à porta de D. Veríssimo de Lencastre, inquisidor-geral, e o seu parente. Entrou, deteve-se largo espaço, e saiu com o rosto afogueado de feroz alegria. Quando entrou em casa, bateu rijo o pé no pavimento, e disse à sua aia:

— Eu descendo de Leonor Teles! Sou Teles, não sou Barros! Ao outro dia, o padre capelão do Mosteiro da Madre de Deus entregava ao escudeiro de Luís de Barros uma carta da prioresa. Leu-a o velho, e exclamou:

— Minha filha é perversa! Vai tu chamar Jorge. A aflição dera-lhe forças para levantar-se de golpe da sua poltrona de entrevado.

— Jorge! — clamou ele convulsivo — , está em perigo a liberdade e talvez a vida de Maria. Os oficiais da Inquisição foram ao convento. A prioresa escondeu a pobrezinha.

— Meu Deus! — exclamou Jorge. — Espera: Deus escuta o teu grito... Eu sinto-me com os espíritos claros e vigorosos. É preciso tirá-la do mosteiro... tirá-la de Lisboa... tirá-la da fogueira. A tua mãe quer arrastá-la até lá... Poderás tu e o Soliz transportarem-me nos braços até ao coche?... Podeis, que eu vos ajudarei. Que me levem a casa do duque do Cadaval... já, já.

Foi o ancião em braços até à carruagem. D. Francisca, espantada do sucesso, quis atalhar-lhe a passagem, com termos de filial amor. Luís de Barros relanceou-lhe os olhos, e bradou-lhe:

— Parricida! A filha gritou que acudissem ao pai que estava louco. Confluíram os criados. E o velho, vendo-se rodeado, simplesmente disse:

— Deixai-me passar que não estou louco. Os servos, manietados pelo aspeito venerando do ancião, abriram-lhe passagem. Francisca esbravejava, com os olhos cravados no dedo do anel.

Entraram na carruagem, depois de Luís de Barros, Jorge e o escudeiro. O fidalgo amparava-se nas espáduas de ambos, com a cabeça inclinada ao braço do neto.

O duque, avisado de que tinha entrado ao pátio o coche do venerando contador-mor, desceu a abrir-lhe a portinhola. O velho chamou a si o ouvido do duque, e contou-lhe a situação da reclusa da Madre de Deus.

— Lutamos com uma força invencível — disse o duque. — Não obstante lutaremos. Vai buscar-se à noite. Previna Vossa Senhoria a prioresa. Amanhã estará na minha casa; depois irá para Oeiras; e depois pensaremos. O mais acertado é tirá-la de Portugal, ou pelo menos de Lisboa.

— Sairá de Lisboa e de Portugal. — obtemperou Luís de Barros. — É também o meu parecer. Salve-ma por três dias, senhor duque.

Ao fechar-se o dia, as avenidas do Convento da Madre de Deus estavam sitiadas de espias, que a prioresa e outras religiosas espreitavam dos raros e frestas dos dormitórios. Por volta da meia-noite, os esbirros e familiares da Inquisição desampararam o posto, e daí a duas horas, na torre da igreja, ao través dos rótulos, transluzia uma lanterna, sinal convencionado com Jorge. Acercaram-se então da portaria dois homens encapuzados, que escondiam a libré da casa de Cadaval. A pouca distância parara uma sege, e dentro dela uma matrona, que devia ser alguma das aias da duquesa.

Abriu-se a portaria subtilmente; saiu Sara, convulsiva de medo; os criados ladearam-na com as mãos nas misericórdias das espadas, e conduziram-na à sege. A judia sentou-se ao lado da mulher, que lhe disse em voz animadora.

— Não tenha medo, que tem bom padrinho. A sege despediu a galope desapoderado, rodeando por Odivelas, até entrar à estrada de Oeiras. Apearam no vasto pátio de uma quinta. A aia da duquesa subiu com Sara, conduziu-a a um quarto, e disse-lhe:

— Fique sossegada até nova determinação do senhor duque. Assim que se levantar, a mulher do feitor desta quinta virá receber as ordens da Vossa Senhoria.

No entretanto, Luís Pereira de Barros pensava em transferir Sara ao Brasil, no intuito de a salvar nalguma das colónias, e mormente na do Rio de Janeiro, onde o fidalgo tinha um sobrinho governador, e Sara parentes que no começo do reinado de D. Manuel se tinham expatriado para ali, pressagiando a sobranceira tormenta.

Jorge, com o coração repassado de angústias, escutava, sem ousar contraditá-los, aqueles desígnios do avô, que redundavam em completa separação da sua querida Sara.

Passava isto na manhã do dia 4 de Agosto de 1699. Às onze horas deste dia, abriram-se as portas dos templos de Lisboa para deixarem sair e entrar procissões de imagens milagrosas que se cruzavam dumas igrejas para outras. A cidade estava consternada, por saber que a rainha D. Maria Sofia Isabel de Neuburgo, segunda mulher de Pedro II, estava a arrancar da vida. Às cinco horas e meia da tarde expirou a formosa soberana com trinta e três anos de idade, quando o Senado preparava festejos para celebrar o aniversário do seu casamento.

Feriaram-se todos os negócios e actos do Governo, exceto os processos e cogitações do Tribunal do Santo Ofício. A conversão das almas, e o purificá-las ao fogo, não devia ser coisa que a morte de uma rainha estorvasse. O Convento da Madre de Deus foi de novo visitado pelos familiares, quando o cadáver da rainha era levado ao Mosteiro de S. Vicente de Fora, e as torres ululavam as suas tremendas elegias.

As naus, já aprestadas para levarem ferro para o Brasil, ferraram âncora. A tristeza oficial não permitia que os secretários de Estado se distraíssem de chorar a enorme perda. Esta contrariedade penalizou Luís Pereira de Barros, e deu largas ao coração de Jorge.

Instava, porém, o duque sobre a urgência de remover a judia de Oeiras, visto que o inquisidor se via amartelado por reiteradas requisições do promotor do Santo Oficio.

Alvitrou o duque enviá-la para a Beira Alta. Na Covilhã se tinha estabelecido uma família hebraica, com quem os marqueses de Ferreira, avós do duque, tinham tido relações de boa amizade. Esta poderosa família, enganando a boa-fé de uns familiares e comprando a ferocidade de outros, vivia na Covilhã tranquilamente, e protetora oculta dos israelitas perseguidos.

O duque preveniu o chefe da família, que por vezes fora seu hóspede em Lisboa, e o mesmo foi ir o velho hebreu à capital, donde se partiu com Sara, disfarçada em filha sua.

Jorge contentou-se desta ida, e mais que tudo da promessa de algumas cartas, por mediação da aia da duquesa.

Ao mesmo passo, Luís de Barros pedia a Deus um pouco de vigor que o transportasse ao Alentejo com o seu neto. A convivência da filha era-lhe insuportável. Francisca fumegava de enfurecida por se ver acalcanhada pela judia, que todas as tentativas de vingança lhe malograra. Este ódio declinava sobre Jorge manifestamente. Contra o pai não apontava ela o insulto porque lá estava o anel, como escudo de diamante, a quebrar-lhe a fúria. Cresceu ao extremo a raiva, quando ela soube que o velho ordenara aprestos para se recolher à quinta do Alentejo.

Fora marcado o dia 27 de Outubro para a partida de Luís de Barros e Jorge; mas, por volta do meio-dia, tremeu a cidade de Lisboa com tamanhas convulsões, e tanto foi o terror nos espíritos do velho que as poucas forças se lhe quebrantaram.

Cobriram-se as ruas de procissões de penitência. Os dominicanos prometiam serenar a vingança divina queimando mais alguns centenares de marranos, epíteto que era a quinta-essência do sarcasmo contra os israelitas, no entender dos devotos. D. Francisca Pereira Teles abundava nas ideias dos frades, atribuindo os terremotos, que duraram vinte dias com intermitências, à ira divina contra os cristãos-novos.

Disseminou-se então grande cópia de exemplares de um livro intitulado: Sentinela contra Judeus, Posta na Torre da Igreja de Deus, etc., traduzida do espanhol por Pedro Lobo Correia, escrivão da Contadoria-Geral da Guerra e Reino.

Releu Francisca o livro com as entranhas escaldadas de alegre rancor, se podemos dizer assim.

Dum capítulo intitulado: “Os que Favorecem aos Judeus... nunca Terão Bom Fim...“, sublinhou algumas linhas, e mandou o livro ao pai. As linhas assinaladas diziam, depois da narrativa de um certo rei inglês que passou à espada milhares de judeus: “Infiram daqui os que tiverem mediano juízo, que havendo tantos nestes nossos tempos, de donde nos podem vir senão deles tantas desgraças, como experimentamos, de guerras, mortes, fomes, roubos, insultos, onzenas, falta de crédito... “

D. Francisca Pereira escreveu em seguimento na mesma linha: “e terremotos. “

Na página seguinte sublinhou as palavras... “quão danoso é para os cristãos-velhos que esta vil canalha ache amparo em pessoas grandes e qualificadas, a quem de ordinário se acolhem vendo-se oprimidos... “

Luís Pereira de Barros leu atentivamente as palavras marcadas. Mandou que lhe dessem da sua estante o livro dos Evangelhos, e traçou uma cruz à margem dos versos 36 e 37 do capítulo VI do Evangelho de S. Lucas, e mandou a Bíblia à filha. Os versos diziam:

Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.

Não julgueis e não sereis julgados, não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados.