O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 22 de 46

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O Judeu

Capítulo XIII · Recolhidas à casa da família, que se…

 

Recolhidas à casa da família, que se mostrava agora mais desvelada, Sara, passados alguns dias, pediu que lhe deixassem seguir para Portugal, visto que a sua filha não aceitava as propostas do mercador. Já a paixão do homem degenerara em rancorosa vingança. As hospedeiras damas abriram-se com Sara, agourando-lhe mal da sua rejeição. O pretendente afrontado pela recusa, segundo elas afirmaram, era irmão de um conselheiro do Santo Ofício; e mal delas, se a vingança respirasse pela denúncia!

A atribulada viúva nem já destas mulheres se fiava para lhes comunicar o seu plano de fuga. Não obstante, aprestava-se para fugir, até ganhar alguma povoação dos subúrbios, donde pudesse comodamente seguir jornada por caminhos desfrequentados.

Não podiam fazer-se em segredo estes aprestos: faltava à aflita Sara a precisa serenidade para iludir a família que a espiava, sem perder lanço de tentar reduzir a repugnância de Leonor. O espanhol recebeu aviso dos intentos de Sara e da última deliberação da filha, a qual respondera:

— Que aceitaria de melhor vontade morrer queimada que viver casada com tal homem.

A mãe censurou-lhe a desabrida resposta, quando convinha dissimular. Leonor respondeu:

— Já se me não dá de acabar, porque perdi as esperanças de ter um dia de sossego. Se não for aqui, será em Portugal... Ninguém foge à sua estrela...

A desesperação, efeito do arrependimento já sem remédio, levou de impetuoso impulso a viúva de Jorge de Barros a fugir de Valhadolide numa entreaberta, quando o maior número das pessoas da casa estava na missa. As duas fugitivas levavam consigo apenas o dinheiro abundante que Simão de Sã lhes dera, a título de herança de Jorge.

O passo era louco. O mercador não dava folga às suas espias. A formosura de Leonor era já notada para passar desapercebida sob a mantilha sevilhana. As duas mulheres, denunciando-se pela ansiedade com que procuravam um guia sem determinarem a direção, não reparavam em dois quadrilheiros que as seguiam de perto. Pararam à porta de uma igreja, donde saía muito povo, no intento de se entremeterem na multidão, e saírem por alguma das portas da cidade. O povo reparava nelas, e mais ainda nos conhecidos águazis que as não perdiam de vista, e só com o reparo as delatavam às turbas. Leonor tremia aconchegada da sua mãe, e murmurava:

— Aqueles dois homens vêm prender-nos... Um mancebo, que se avizinhara delas, como ouvisse vozes portuguesas, perguntou a Sara:

— Se têm medo da Inquisição, fujam, que as seguem os esbirros... São portuguesas?

— Sim, senhor — disse Sara ao mancebo que fizera a pergunta em português. — Para onde fugiremos?

— Entrem na igreja, que eu vou ver se lhes dou escape por uma porta da sacristia.

Quando elas rompiam o concurso do povo contra a porta da igreja, os familiares, perante quem se desimpedia espontaneamente a passagem, tomaram-lhes o passo, e ordenaram-lhes que os seguissem. O português disse entre si: “É tarde... estão perdidas...“

As presas puseram nele os olhos lacrimosos, como se esperassem a salvação do jovem que as quisera salvar.

O povo aglomerava-se em redor delas: os esbirros acenaram aos alabardeiros de um corpo de guarda, que desempeçaram o trânsito. No entretanto, o jovem português correu a casa do alcaide, e anunciou-se com o nome Francisco Xavier de Oliveira.

Era o filho de D. Isabel Neves, amiga de Lourença Coutinho. Noutro lugar se dirá o que levara a Valhadolide o amigo de António José da Silva.

O alcaide recebeu sem detença o filho do contador-mor dos Contos de Portugal, seu antigo amigo.

— Então? — perguntou o alcaide — , tornou-lhe a fugir a endiabrada cigana?

— Não, senhor: outra razão mais séria me faz importuná-lo. Acabam de ser presas duas portuguesas por quadrilheiros da infame Inquisição.

— Fale baixo, seu doido! — atalhou o alcaide. — São duas senhoras, que me parecem ser mãe e filha.

— Judias ou feiticeiras?

— Não sei. São duas senhoras, e uma delas tem a formosura dos serafins!

— Então que quer o senhor? Que eu as vá arrancar dentre os ferros? — perguntou o alcaide sorrindo.

— Bem sei que não pode.

— Ainda bem que sabe.

— Quero simplesmente que saiba quem elas são.

— Isso pode ser: volte daqui a duas horas.

O alcaide entrou no Tribunal do Santo Oficio, antes que o inquisidor entrasse, Como pessoa de muita confiança entre os oficiais da casa, pôde facilmente aproximar-se das presas, que tinham sido conduzidas a uma antessala, onde era costume esperarem os réus que os chamassem ao primeiro interrogatório.

Leonor levantou-se à chegada do alcaide, cuja posição social se revelava no aprumo mesurado da andadura. Sara quis erguer-se; porém o tremor das pernas, e convulsão de todo corpo, não lho consentiram. O que ela pôde foi pôr as mãos.

— Sentem-se, senhoras — disse o alcaide — , que eu não sou inquisidor. Venho aqui saber quem são, porque há pessoa que se interessa pelas senhoras, e pode em Portugal ser-lhes muito prestadio. Não me enganem que se podem prejudicar.

— Minha mãe — disse Leonor — é Sara de Carvalho, e eu sou Leonor Maria de Carvalho.

— Donde são?

— Eu nasci em Lisboa — disse Sara — e a minha filha nasceu também em Portugal, na vila da Covilhã. À pessoa, que se interessa na salvação destas desamparadas mulheres, diga Vossa Senhoria que eu sou a viúva de Jorge de Barros, neto do contador-mor dos Contos do Reino Luís Pereira de Barros.

— Tá! — exclamou o espanhol — , que eu já ouvi falar nas senhoras ao cavalheiro que me cá mandou!... Conhecem Francisco Xavier de Oliveira?

— De Oliveira? — clamou Sara — , o filho da senhora Dona Isabel, mulher do contador-mor?...

— É esse mesmo.

— Oh!, senhor!... diga-lhe que uma das presas é a prometida noiva e ainda parenta do seu amigo António José da Silva.. .

— Que está preso nos cárceres da Inquisição em Lisboa...

— Preso!... desde quando? — perguntou Leonor.

— Há dois meses. Sei-o do seu amigo Xavier de Oliveira... Mas salva-se... Podem ter a certeza de que se salva. Agora, tratemos de ver o destino que as senhoras têm. Senhora Sara... dou-lhe de conselho que use doutro nome... Nunca foi batizada? Ouvi dizer que sim...

— Fui... e chamaram-me Maria.

— Pois chame-se Maria... Adeus que são horas. Conte com alguns amigos.

Francisco Xavier de Oliveira, assim que soube os nomes das presas, apressou a jornada para Lisboa, no propósito de fazer que o Santo Ofício requisitasse para ali as cristãos-novas como portuguesas.

O interrogatório começou ao fim da tarde. Até essa hora, os familiares da Inquisição andaram colhendo informes das presas, já por intermédio das senhoras a quem elas tinham sido recomendadas, já diretamente do mercador, que as denunciara. Nas bagagens das judias não aparecera documento que as culpasse: graças aos cuidados de Simão de Sã, que as não deixara sair com o mínimo vestígio de hebraizantes, rasgando quantas cartas de Lourença Coutinho a indiscreta Sara entesourava.

O interrogatório foi breve. A viúva balbuciava respostas cortadas de soluços. Leonor respondia com assombrosa presença, baixando os olhos sobre as mãos, que cruzara no alto do selo.

Disse quem era seu pai, donde vinha, e para onde ia. Às perguntas concementes à religião que seguia, disse que amava Deus como criador, e as criaturas inteligentes como seus irmãos, filhos do mesmo Deus.

Sobre as fórmulas exteriores das suas crenças, não respondeu. Apenas disse que recebera o sacramento do batismo, porque seu pai era cristã o e a sua mãe batizada. Como as respostas não satisfizessem cabalmente às perguntas, o inquisidor insistiu sobre saber se ela e a sua mãe seguiam o rito judaico. Leonor, após alguns instantes, respondeu:

— Nem esse nem outro. O meu pai mandava-nos que amássemos Deus e o próximo, e dizia-nos que a mais divina religião era a mais ardente caridade.

Anoiteceu.

O inquisidor saiu, ordenando que conservassem juntas as presas, até nova ordem num dos quartos reservados aos presos por meras suspeitas.

Quando chegou a casa, encontrou o alcaide que o esperava sentado ao fogão da sua ilustríssima reverendíssima.

O alcaide, que havia passado duas horas em casa do cônsul vindo de Holanda, arrancou às senhoras o segredo da paixão vingativa do mercador. As damas, remordidas na consciência, contaram o sucesso exprobrando o proceder do denunciante, e arguindo-se a si mesmas de quase coniventes naquela trama vil, por até certo ponto entenderem que Leonor faria um excelente casamento.

Ora, o alcaide foi contar esta história ao inquisidor, que confirmou ter recebido a denúncia de um irmão do negociante, conselheiro do Santo Ofício e cónego da sé.

— Se Vossa Senhoria — disse o inquisidor — ouvisse as respostas da filha e lhe visse o rosto, meu alcaide, desculpava a protérvia do denunciante! Que bela e que discreta!... Ora bem, não será o Santo Oficio instrumento das vinganças do velho alucinado; mas há de fazer-se o que for de justiça.

— Justiça, é mandar as desgraçadas para Portugal — disse o alcaide.

— Deixe-as estar, que não lhes há de faltar alimento nem luz. São hoje cinco de Outubro... No dia vinte e seis de Janeiro celebra-se auto público da fé. Sairão ambas reconciliadas nesse dia, se até então não aparecerem provas agravantes. Está Vossa Senhoria autorizado a poder-lho revelar, visto que sem minha autorização já por lá andou. Foi muito notória a prisão: não tenho remédio senão fazer o que faço.

— Quatro meses! — exclamou o alcaide.

— Parece que se espanta!? — disse o inquisidor, sorrindo. No dia seguinte, Sara e Leonor recebiam a boa nova por uma carta do alcaide. Logo depois receberam as suas bagagens, e licença para mandarem comprar os alimentos que lhes aprouvesse.

Divulgou-se a infâmia do denunciante. Era o alcaide o propalador. A conjuração formada contra ele deu de si um perseguirem-no com chufas e apodos tão pungentes que o homem, ao fim de quinze dias, saiu de Valhadolide a esconder a sua ignomínia. O alcaide, porém, não era sujeito que se contentasse com o desterro do vilão. Descobriu-o no esconderijo de uma quinta a duas léguas distante da cidade. Lá mesmo lhe fez zumbir os apupos do gentio desbragado a quem ele estipendiava e largo tempo sustentou na sua missão justiceira que disparou em desconcertarem as faculdades inteligentes do infausto refugiado. O mercador, passados anos, acabou sua vida numa casa de orates. Das perversas qualidades que tivera uma só sobrevivera à perda da razão deste homem, a que eu não dei nome porque lho não encontrei nos apontamentos subsidiários desta narrativa. A perversidade sobrevivente foi lembrar-se ele até à última hora da judia, que o sandeu sanguinário esperava sempre ver na fogueira.

No auto público da fé celebrado na Igreja de S. Pedro da cidade de Valhadolide, em vinte e seis de Janeiro de 1727 saíram, livres e “reconciliadas por culpas de judaísmo,” dizia a rubrica da lista, Maria de Carvalho, natural de Lisboa, de idade de quarenta e sete anos, e Leonor Maria de Carvalho, natural da Covilhã, de Portugal, de idade de catorze anos.

À saída do cárcere as duas senhoras encontraram, como companheiros para Portugal, o velho Diogo de Barros, tio de Jorge, e Francisco Xavier de Oliveira, o galhardo mancebo que as quisera salvar.

— E o nosso amigo António José da Silva? — perguntou a amiga de Lourença Coutinho.

— Está livre — disse Francisco Xavier de Oliveira. — Apenas lhe quebraram os dedos na tortura.