O Judeu
Capítulo II · Duarte Cotinel esperava em alegre sobressalto o…
Duarte Cotinel esperava em alegre sobressalto o hebreu. Falava em solilóquio, como quem precisa expandir-se, comunicar o seu rejúbilo aos seres inanimados. “Afinal”, dizia ele à sua sombra, ao demónio exultante da sua consciência, “afinal o meu pressentimento não era um sonho. Posso ser rico! “
Às onze horas entrou António José da Silva na casa do almoxarifado da Bemposta. Saiu Duarte a recebê-lo, e disse-lhe com melancólicos esgares:
— Virás tu despedir-te, meu querido amigo?
— Ainda não. Porque mo perguntas? Queres dizer-me que devo sair já? Sabes alguma coisa?
— Nada mais sei, António — respondeu com indecisão Duarte. — E tu soubeste mais do que eu te disse?
— Não.
— O Santo Ofício anda em cata de provas, que até hoje lhe não deste satisfatórias. Bem sabes que esta gente, quando se resolve a vitimar algum assinalado pelo ódio deles, sepulta-o nas masmorras, e depois inquire das provas. E estas também tu sabes que saltam da boca dos torturados, quando há míngua de testemunhas para levar o processo à Relação, Por isso, meu amigo, não descansemos sobre a tua inocência. Fugir enquanto é tempo; todavia, persuado-me que não é apertada a urgência de fugir já. Arranja os teus negócios, vende clandestinamente, se puder ser, os teus bens, que poucos e fáceis de vender, creio que são. Pobre sais de Portugal; mas em Amesterdão acharás hebreus que te socorram; e, se te valeres dos teus irmãos do Rio de Janeiro, que estão ricos, poderás obter casco e fundos para negociar e auferir o que as letras não podem dar a ninguém. Vais pobre, meu caro António! O teu pai, no trastejar a casa em que moras, gastou alguns punhados de ouro, segundo corre; e tu consomes mais do que lucras para manter tua senhora em fidalgas regalias. Não te culpo disso, que ela, além da nobreza do seu pai, tem a nobreza própria que a toma digna de estar em cadeiras de ouro, e servir-se com princesas. A Providência, dando-te aquela menina, indemnizou-te das amarguras que os homens te causam com tanta crueza, que é vergonhoso falar a língua destes bárbaros, que dizem falar a linguagem dos apóstolos... O meu amigo, sabes que eu espreito a borrasca inevitável que te ameaça; por agora os ventos sopram de bom lado; assim que eu vir escurecer-se o céu com as sombras do inferno, aviso-te. Isto já frequentes vezes to disse, António. Agora, se tens algumas ordens a dar-me, aqui estou. Queres talvez que eu me encarregue disfarçadamente da venda das tuas coisas? É isso?
— Não é... Vou abrir-te a minha alma! — disse expansivamente António José.
— Ainda agora? ó ingrato!, pois ainda agora me abres a tua alma?
— Foi forçoso; violentei-me... era necessário. Não queiras que eu te explique a razão de uma reserva indigna de ti e de mim.
— Vais falar-me... — No tesouro escondido nesta quinta. Duarte compôs a custo o rosto que parecia abrasar-se e entumecer-se de alegria. Passados instantes, disse:
— Eu sabia que o tesouro não era fábula. Respeitei a tua reserva, confessando-te que me doía, porque era mais que afrontosa para mim... e também para ti, que me conhecias desde os onze anos.
— Não mo recordes, Duarte. Perdoa-me, e escuta. Presumo que existe o cofre do antigo contador-mor, bisavô da minha mulher. Esta casa e quinta foram revolvidas desde alicerces e raízes; mas o local do tesouro não foi bulido...
— Então era certo existir o anel? — atalhou Duarte. — É certo existir o anel; Leonor é dele depositária, porque eu nunca mostrei leve desejo de ver as letras reveladoras do segredo, enquanto se não facilitasse a oportunidade de exumar o cofre. Dizem as letras...
— Eu não te fiz a pergunta — interrompeu Duarte com veemência — para que me traduzas o que dizem as letras. Não quero saber. Basta que o saiba no momento em que me tu disseres: “É aqui. “
— E porque não hás de sabê-lo já?!
— Porque não quero: são melindres que tu me hás de respeitar.
— Queres que eu assim me corra de não ter sido franco e sincero, quando me interrogavas sobre o tesouro?
— Não é isso, nem te sei ao certo explicar o que é. Vamos ao importante: queres tomar conta do tesouro, não é assim?
— É.
— Quando?... não pode deixar de ser de noite... — Seja de noite, à hora que determinares. — Convém-te hoje? — E a ti? — A mim convinha-me mais amanhã, porque hoje até noite alta não posso deixar de fechar as contas do trimestre que hei de amanhã apresentar aos infantes. Pode ser amanhã à s onze horas da noite?
— Sim, meu amigo, quando menos incómodo te seja.
— Ora diz-me lá, calculas que os valores escondidos te abastem para viveres independente em Paris ou Londres?
— Presumo que sim.
— A quanto monta segundo o teu cálculo?
— Cento e cinquenta mil cruzados, a julgar aproximadamente das verbas designadas numa página escrita pelo punho de Luís Pereira de Barros.
— É muito dinheiro! — exclamou Duarte. — Podes viver vida de príncipe onde quer que te sintas bem. Vai para Roma, que eu aposto que os cardeais vão cear contigo todas as noites, sem te perguntarem por Moisés nem por Cristo!
— Não ambiciono aparatos ostentosos — disse António José. — O que eu queria era sossego e alegria. Tenho aquela filhinha que me está sendo um anjo recompensador, esmola e riqueza do céu. Desejo ser rico para ela. Leonor e eu, e a minha pobre mãe, com pouco viveríamos, e talvez felizes, se o terror da perseguição religiosa nos não tivesse sempre sobressaltados.
— Fazes bem, fazes bem — tomou Duarte. — Foge, assim que te eu disser que fujas. Debaixo de juramento te digo, e juramento te peço para que nunca reveles o que vou dizer — te...
E abaixando muito a voz, e espreitando o corredor contíguo à sala, disse:
— Tens um ótimo espião por ti no Santo Ofício... É meu pai! Vê tu a que extremos chegou a amizade que te tenho. O meu pai, quinze dias antes de se decretar a tua prisão, há de ser avisado, sem que ninguém o avise. Ele entende e lê nos recônditos desígnios daquela gente, que lhe é detestável, porque meu pai, se finge tanta ortodoxia religiosa como eles, é porque os temeu e ainda teme. Compreendes, António, o sagrado desta revelação?
— Compreendo, meu querido Duarte! — exclamou António José da Silva abraçando-o com entusiástico reconhecimento.
— E então já vês — insistiu o almoxarife — que escusas de fugir antes do meu aviso. Pode até ser que a tempestade se desfaça... Tem tu juízo, António. Manda as comédias ao diabo. Não escrevas senão nos autos; e, se te parecer, manda os autos também de presente à alma do Papiano e do Bártolo e do João das Regras que devem de estar no inferno. Amanhã és rico, riquíssimo. Não careces de trabalhar... Sabes lá tu o que é ser rico! O que é ter um coche e mulas lustrosas!, lacaios e mordomos!, poetas a cantarem-te os espirros como agouros de algum grande sucesso que vai felicitar a pátria! Nunca pensaste nas delícias de ser rico! Os homens, os frades, os grandes, a natureza, tudo às tuas ordens! E as mulheres? Não quero falar-te das mulheres, porque tens uma que vale por todas as que abrilhantam este mundo com a sua formosura; mas se tu precisares de um serralho de anjos, pensas que não ias buscá-lo ao empíreo? ó António!, quando estiveres senhor dos teus cento e cinquenta mil cruzados, verás o que é tê-los, vê-los, contá-los, palpá-los, vigiá-los, convertê-los em primaveras infinitas, em deleites intermináveis!... Oh!...
Duarte, no febril afogo do seu entusiasmo, ora torpe, ora lírico, poderia denunciar a voraz cobiça que lhe acendia entranhas e olhos, se ao lado de António José estivesse um terceiro, observador de ânimo frio. O infame temeu-se da incontinência da apologia da riqueza, e desandou numa risada, exclamando:
— Maganão!, estavas a estudar em mim algum Creso avarento de gozos que tencionas pôr no tablado para alegrar o povo com as suas exclamações!
— Não, meu amigo, estava a imaginar que tu, se fosses rico, em vez de cobrires de ouro os caminhos da tua vida, farias com o teu ouro melhorada a sorte de muitos pobres, que se tinham de alegrar mais com a esmola, que tu com a posse das riquezas da Casa de Bragança.
— Pode ser que te não enganasses — volveu gravemente Duarte. — O gozo de ser rico deixa de o ser, quando o ouro não compra as alegrias puras da alma. Tu hás de saber repartir o que até aqui te foi desnecessário. Felizes aqueles que se aproximarem de ti!
Abraçaram-se. António José da Silva despediu-se com os olhos vidrados de lágrimas, murmurando:
— Eu queria não mais separar-me da terra onde tu vivesses, Duarte! Igual a ti só tenho um amigo neste mundo: é Francisco Xavier de Oliveira. Quando eu lá fora o vir, dir-lhe-ei que Duarte Cotinel Franco tem uma alma irmã da sua... São duas almas que Deus formou no mesmo molde.
Dito isto, saiu comovido. Duarte Cotinel sentou-se, como se a carga da infâmia lhe dobrasse os joelhos; pôs as mãos na cabeça, e ouviu este grito da consciência:
— Que atrocidade!... Instantes depois, ergueu-se, estirou os braços, estalejou os dedos das mãos enclavinhadas, e resmoneou surdamente:
— Cento e cinquenta mil cruzados!...